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Filme Americano – Cap 115

Narrador
 
Os corredores do Colégio Santo Amaro pareciam super lotados. É como se todos os alunos estivessem ocupando aquele local ao mesmo tempo, e era quase isso. Em semana de provas não haviam aulas, apenas a realização dos testes pelos alunos. Os professores revezavam na aplicação das provas e nos intervalos os alunos ficavam liberados pelo colégio. Era comum encontrar grupos de estudos entre uma prova e outra, todo mundo se preparando para a matéria seguinte. Todos os bimestres, uma semana era dedicada as provas daquela forma.
Beca, Nina, Juca, Ju e Carla não eram do mesmo ano, mas sempre estudavam juntas, ou pelo menos ficavam juntas na mesa de sempre no pátio esperando o horário para voltarem as salas e se dedicarem a mais uma avaliação. Era quarta feira e as meninas estavam cansadas e esgotadas. Não viam a hora de chegar a sexta e poderem descontar todo o stress no treino. Negão havia prometido algo leve, para que elas pudessem relaxar a mente e o corpo depois de tanto estudo. Beca e Carla estavam tranquilas, o dia não era dos mais difíceis e as duas eram um exemplo em notas. Já as meninas do último ano, Juca, Ju e Nina estavam enlouquecendo porque era dia de prova de física, o terror de todas elas.
– Cunhadinha, você não quer fazer a prova por mim não? Eu juro que te pago! – Ju estava desesperada enquanto Carla explicava a aplicação de uma fórmula para ela
– Ju, para de querer corromper minha namorada – Juca riu e se meteu na discussão
– Amor, faço oral em você todas as noites da sua vida se você fizer essa prova por mim – Nina falou em direção a Beca fazendo todas rirem
– Amor, por mais que sua proposta seja muito tentadora, até mais do que dinheiro, infelizmente, meu pai perceberia caso eu estivesse fazendo a prova no seu lugar – Diogo iria aplicar a prova de Física para o terceiro ano
– Meninas, precisamos relaxar na sexta – Carla falou enquanto olhava alguns exercícios que Juca havia feito
– Negão falou que vai pegar leve com a gente! – Beca respondeu fazendo um carinho na nuca de Nina que havia deitado a cabeça em cima do caderno
– Eu sei, mas poderíamos sair depois, mais a noite, o que acham? – Carla continuou e ganhou a atenção de todas porque ela nunca falava de saírem
– Quem te viu, quem te vê hein, cunhadinha! Até night você já está combinando – Ju não perdeu a oportunidade de implicar
– Não estou falando de night, cunhadinha, mas podíamos ir comer algo em algum lugar, bater papo só – Carla tratou de consertar a ideia rapidinho
– Bom, os casais podem sair, eu já tenho programação, vou com uns amigos para uma festa na casa de um ricaço aí – Ju falou e logo chamou a atenção da irmã
– Que amigos? Que ricaço? Ju, não me fale que tem dedo do Daniel nisso aí… – Juca falou como se alguém mais entendesse o assunto
– Calma, maninha, vai uma galera grande, o Daniel é só um deles… – Ju respondeu rolando os olhos para a preocupação da irmã
– E o papai sabe disso? – Juca deu sua cartada final
– Que vou sair? Claro! Que o Daniel estará junto? Talvez não… – Ju sorriu e piscou para a irmã que apenas balançou a cabeça em negação já prevendo que aquilo poderia dar muito errado
– E se nós quatro fizéssemos um programa de casal? Cineminha e pipoca, que tal? – Nina falou ainda com a cabeça apoiada nos livros
– Ecout! – Juliana falou e recebeu quatro olhares desagradáveis
– Eu topo! O que acha, amor? – Carla respondeu já olhando para a namorada
– Acho ótimo! Pipoca e cinema é tudo que vou precisar depois dessa semana infinita – Juca respondeu puxando a namorada um pouco mais pra perto
– E você, Be? – Nina perguntou para uma Beca que parecia distante olhando um grupo de meninas se formando ao longe
– Eu acho ótimo! Qualquer coisa que eu possa relaxar…agora, meninas, olhem aquilo ali!
Todas se viraram a tempo de ver um enorme grupo de meninas reunido no canto contrário do pátio. A maioria era do grupo de Cami, logo, todas elas não gostavam daquelas meninas. A verdade é que apenas Cami era suportável e só por causa do time. Se bem que elas tinham que admitir que ultimamente a menina estava bem mais legal, muito mais tranquila e bem menos escrota. Efeito do amor, talvez. De longe, elas puderam perceber que algumas meninas falavam mais alto que outras, mas não dava pra ouvir direito o que era, apenas pareciam discutindo sobre algo muito importante. As meninas do time, que assistiam de longe, pensaram que elas podiam estar discutindo as provas ou até mesmo alguma cola que haviam conseguido de última hora. Elas não faziam ideia do que era aquilo.
Cami
 
Estava tudo muito calmo para ser verdade. Semana de provas era sempre uma loucura, mas eu já estava acostumada, então estudava tudo que podia em casa e deixava só para revisar as matérias nos intervalos. No resto do tempo, se fosse a alguns meses atrás, eu ficaria ajudando as meninas que me pediam por socorro ou apenas estaria passando o tempo com elas no pátio falando mal de quem passasse por perto. Mas hoje eu estava aqui na biblioteca, relendo uma parte mais difícil da matéria e trocando mensagens com a minha namorada. Ela não estava em semana de provas, mas os professores dela não eram tão rigorosos com celulares em sala, então conseguíamos nos falar. Ainda bem, porque só ela para me manter sã no meio dessa loucura que era a minha vida no Santo Amaro.
Depois de anos achando que eu precisava ser melhor que os outros para que ninguém visse quem eu realmente era, descobri que ser eu mesma não era tão prejudicial quanto eu cresci acreditando. Deve ter sido efeito das frases que minha mãe usava contra mim sobre quem somos perante a sociedade e sobre o que todos irão pensar de mim. Se ela ao menos sonhasse que eu resolvi chutar tudo pro alto e até mesmo entrei para o time de futebol feminino, tenho certeza que seriam várias semanas sem motorista particular. Tadinho do seu Carlos, sempre me encontrava na esquina para me dar carona nas semanas de castigo. Desconfio que ele é o único que se importa comigo naquela casa. Além do Bruce, mas ele tem quatro patas e não sabe dirigir.
Reunião de cúpula no pátio. Sua presença é requerida. 
 
Reunião de cúpula? Aquelas meninas se achavam muito importantes mesmo. Mas, como eu ainda tinha uma reputação a zelar nos corredores do Santo Amaro, coloquei meus livros e cadernos na mochila, bloqueei a tela do celular e me encaminhei para lá. Eu sabia que as pessoas me olhavam de cima abaixo enquanto eu caminhava altiva pelos corredores. A minha postura nada tinha a ver com eu me achar melhor do que os outros, era apenas aquele personagem que eu aprendi a encenar desde cedo. Caminhe como se você soubesse tudo sobre todos e um dia você saberá. A voz da minha mãe nunca deixou de ecoar no fundo do meu consciente.
– O que era tão importante? – falei assim que a rodinha de meninas, que estava até um pouco maior dessa vez, abriu espaço pra mim
– Precisamos conversa com você – uma ruiva, que eu não sabia direito o nome falou
– Comigo? Em semana de provas? O que é? – elas não sabiam que eu não precisava estudar e talvez isso fosse uma boa desculpa para adiar aquela palhaçada ali
– Nós sabemos que na semana de provas nós não realizamos reuniões de cúpula, mas isso é importante – a Joy, que era considerada a minha substituta, falou
– Então vamos, falem logo! – falei impaciente e quando virei o rosto para encarar a todas elas, percebi o meu time se aproximando, talvez aquele enorme grupo estivesse chamando atenção demais
– Veio ao nosso conhecimento um fato sobre seu relacionamento atual – uma outra menina que eu não sabia quem era falou
Eu sabia que esse dia iria chegar. Regina não estudava tão longe assim e com certeza algumas pessoas de lá tinham amigos aqui no Santo Amaro. Ultimamente, nós estávamos bem desligadas quanto ao que as pessoas na rua pensavam ou deixavam de pensar. Sempre que saíamos no fim de semana, andávamos de mãos dadas e trocávamos carinhos em público. Nos jogos do campeonato ela sempre me recebia com um beijo rápido do lado de fora e me abraçava apertado. Era questão de tempo até que a “fofoca” chegasse por aqui. Mas eu não cederia tão fácil.
– Meu relacionamento atual? Falem mais sobre isso, então – adotei uma postura irônica. Para quem me conhecesse de verdade, sabia que aquela era minha defesa, mas ninguém ali me conhecia de verdade
– Estão dizendo por aí que você está com aquela garota que estudou uns dias aqui e pegou a Beca – agora foi a vez da Kamila falar, ela era a que eu mais gostava e pelo seu tom de voz comigo, ela não estava nem um pouco feliz com aquela inquisição toda ali e quando olhei nos olhos dela quase percebi um pedido de desculpas
– Estarem dizendo por aí é bem vago e vocês falarem que ela ficou com a Beca quando todo mundo já sabe que é mentira, é feio. Os pais de vocês não ensinaram que mentir é feio não? – minhas defesas estavam todas armadas, mas meu sarcasmo era o capuz perfeito
– Cami, estamos sem tempo, a gente quer saber a verdade! Você tá com ela ou não tá? – a voz de Joy era firme. Quase como uma ordem.
Eu tinha duas alternativas. Jogar tudo para o alto e falar que estava com ela e perder todo o meu status no Santo Amaro ou continuar vivendo naquela mentira. Naquele personagem que eu gostava de encarnar enquanto estava dentro deste colégio. Durante toda a minha vida aqui eu sempre fui a rainha dos corredores. A que colocava medo em todos, a que comandava as brincadeiras sem graça e a que ditava as regras pelas quais a maioria andava, mas a verdade é que isso era quase como uma distração, porque assim que eu chegava em casa, era apenas eu e Bruce correndo sozinhos pelo quintal. Enquanto eu refletia sobre qual caminho tomar, vi que o meu time olhava diretamente para mim. Pela distância que elas estavam, elas sabiam muito bem o que estava acontecendo e tinham escutado tudo. A tal reunião de cúpula estava tão preocupada em me interrogar que elas nem perceberam que as meninas haviam se aproximado para saber o que estava acontecendo.
Vi que Beca e Nina estavam de mãos dadas e que Carla estava aninhada nos braços de Juca. Elas me encaravam, como se estivessem esperando para que pudessem rir do meu desespero ou talvez…será?…me ajudar caso eu precise? Aquela ideia maluca passou pela minha cabeça e ela não pareceu tão louca assim quando eu vi a Juliana, a que mais me odiava, sorrir irônica pra mim. Ela bateu no peito, como a gente fazia na quadra toda vez que quisesse transmitir força uma para a outra, era como um sinal nosso de que uma confiava na outra naquela jogada. Quando procurei o olhar das outras meninas do time, todas estavam com um leve sorriso nos lábios. Não era ironia nem sarcasmo, era uma forma nova, diferente de amizade. Elas não estavam me acolhendo no grupo delas e nem dizendo que estava tudo esquecido, mas elas, através daquele olhar apenas disseram vai em frente, seja você e não se arrependa. E eu fui.
– Joy, você está tão curiosa que eu vou te dar a sua resposta. Sim. Eu estou com a Regina e nós estamos namorando. Alguém quer saber mais alguma coisa? Algum detalhe sórdido? Posição preferida na cama? Algo mais? – meu sarcasmo e ironia continuariam sendo minha arma em todas as situações, mas eu não mais me esconderia, agora eu seria apenas eu mesma.
– Você só pode estar brincando com a gente… – a voz de Joy veio sussurrada, quase como um pedido urgente para que eu desmentisse tudo
– Não, Joy. Não tô brincando não! – eu levantei da mesa que eu estava, parei de frente pra ela, abusando dos poucos centímetros a mais que eu tinha e a encarei bem de próximo – você tem algum problema com isso, amiga? – o sarcasmo na palavra final foi tanto que precisei sorrir para que escorresse por entre os lábios
 
Ninguém me respondeu. Joy suspirou fundo, olhou em volta e apenas me deu as costas caminhando para longe. Se fosse em meus tempos áureos de “dona” do colégio, eu não deixaria barato o fato dela me dar as costas assim, mas eu não poderia me importar menos com aquela atitude e a minha indiferença foi o que elas precisavam para entender que o reinado de Cami por estes corredores estava acabando. Acho que até eu me surpreendi com o quanto eu não me importava com a opinião delas naquele momento. Aos poucos, uma por uma, as meninas foram seguindo Joy e me deixando ali, apoiada em uma mesa de concreto com um sorriso bobo nos lábios. Eu queria muito que a Regina tivesse visto eu assumir a gente assim, dessa forma. Ela ficaria orgulhosa de mim.
 
– Desculpa por isso… – um sussurro me tirou a atenção e quando vi, era Kamila ao meu lado, implorando para que eu entendesse o que ela tinha feito e o que iria fazer. Sem falar nada, apenas assenti com a cabeça e ela seguiu atrás de Joy, como todas as outras.
As guerreiras estavam ali, assistindo ao final da minha era e sorriam pra mim. Como se entendessem que aquele final, na verdade era o começo de uma vida um pouco mais honesta e justa.
– Quem diria hein! A rainha dos corredores sendo tirada de seu trono pelas suas súditas. Acho que eu vivi pra ver essa cena – Juliana e sua ironia no tom certo. Eu até gostava daquela menina
– Gostaram de assistir a minha derrocada final? – Perguntei com uma voz suave, mostrando que não estava agredindo ninguém
– Gostamos sim…mas a gente gostou mesmo foi de ver você assumindo quem é e não se importando com essas garotas – Carla, a mais sábia daquele grupo, sem dúvidas
– Parabéns pela atitude, Cami! Você fez o certo e obrigada por me defender quando elas falaram de mim – Beca estava sorrindo pra mim e tudo havia valido a pena porque depois de ter feito ela sofrer como fiz, ela estava sorrindo pra mim. Acho que eu estava feliz.
Elas não falaram mais nada. Apenas sorriram pra mim e continuaram seus caminhos. E eu? Na mesma hora peguei o celular. Minha menina ia amar saber das novidades.
Beca
 
Eu estava totalmente destruída. Depois da semana de provas tudo que eu mais queria eram umas 48 horas dormindo sem precisar levantar nem pra comer. Eu sabia que minha fome não permitiria, mas o meu cansaço era tanto que eu só conseguia pensar nisso. Meu pai não tinha aula essa sexta a tarde, ele me esperou sair do treino, que realmente havia sido leve, e nós fomos juntos pra casa. Ele cheio de envelopes de provas para corrigir e eu com uma dor de cabeça enorme. Precisava dormir um pouco já que havia marcado com a Nina, Carla e Juca para sairmos mais tarde.
– Filha, como foram as provas? – meu pai pergunto assim que entramos em casa. Nosso combinado era que ele não me cobraria explicações durante a semana, apenas quando tudo acabasse
– Pai, fui bem! A sua prova hoje pegou pesado, mas acho que minha média vai continuar naquele esquema que a gente ama – brinquei com ele sabendo que ele pegaria a minha prova logo no início para ter certeza que eu fui bem no final das contas
– Acho bom! Quero que você entre o próximo ano com a média lá em cima para ficar mais tranquila depois – acho que essa é a deixa para eu introduzir um novo assunto
– Pai, sobre o ano que vem…eu queria conversar com você – comecei, sabendo que aquele território era super perigoso
– Filha, eu já falei com você milhões de vezes que não vou te proibir de jogar futebol, mas que não abro mão da sua educação. Sem educação você não vai a lugar algum e se, por acaso, você não conseguir se manter com o futebol, nós não teremos opções se você não tiver educação – Diogo não parava mais de falar, eu sabia que introduzir aquele assunto era muito perigoso, mas hoje eu não teria forças para continuar
– Pai, respira! Relaxa! Eu não penso em largar a escola nem nada do tipo, só estou pensando em possibilidades…e todas elas envolvem uma ótima educação pra mim! Não se preocupe, tá? – dei um beijo na cabeça do velho, peguei algumas frutas e segui para a minha cama, não tinha forças nem pra comer algo decente.
Assim que meu corpo estava em posição totalmente horizontal, eu fechei os olhos e soltei um gemido de dor. Minha cabeça martelava e minha coluna parecia querer voltar a posição normal dela, todo meu corpo reclamava e quando eu senti que estava começando a relaxar, que meus olhos já estavam fechando, meu celular vibrou. Eu sabia que era Nina, acabei sorrindo sem querer só por falar com ela.
Nina: Ainda não sei porque não veio passar a tarde comigo
Droga. Eu tinha falado que precisava conversar com meu pai, mas no final das contas, nem isso consegui fazer.
Beca: Meu amor, eu precisava resolver algumas coisas com meu pai, mas vamos nos ver já já
Nina: Está tudo bem? Algo a ver com suas notas? 
Beca: Está tudo ótimo…só umas coisinhas só…tudo confirmado com as meninas? 
Nina: Acabei de falar com a Juca, ela disse que está tudo certo! Falou também pra te avisar que a Carla disse que ia dormir aí, mas vai dormir lá
Beca: Vou dar um jeito de avisar ao meu pai já que eu vou dormir aí né 
Nina: Se prepare para não dormir nem um pouco…estou com uma saudade enorme de você…
Beca: Bom saber disso! Vou aproveitar para dormir agora para ficar acordada a noite toda
Nina: Nos vemos, minha gostosa
Beca: Até mais, minha delícia
E lá estava eu. Sonhando com tudo que aconteceria aquela noite e momentaneamente perdendo meu sono. Era impressionante como Nina conseguia mexer com meu humor mesmo com meia dúzia de frases e palavras através de umas simples mensagens. Eu nunca iria conseguir entender aquele sentimento que nos unia e muito menos o efeito que ela causava em todo o meu corpo. E tudo isso só me lembrava que eu não seria capaz de ficar tanto tempo longe dela no ano que vem. Não seria mesmo. E não ficaria.