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Filme Americano – Cap 114

Beca
 
Eu estava apreciando aquela interação. Depois te ter conseguido arrastar a Nina para o outro lado do colégio e ter feito ela parar de pensar besteiras, pelo menos por enquanto, voltamos a cantina onde o resto do pessoal estava e neste momento eu apenas apreciava as risadas e o bom humor que predominava. Logicamente, estávamos felizes com a vitória, mas era sempre assim com elas. Até Cami estava sentada com a gente, ria e fazia piadas também. Eu não pude deixar de reparar em um cordão novo que ela usava com um coração pendurado e em como ela perdia algum tempo no celular de vez em quando. Aquele sorrisinho bobo para o aparelho deixava bem óbvio quem estava do outro lado das mensagens. Eu ainda não a considerava minha amiga, mas não podia negar sua mudança.
Meu pai e Negão também estavam na mesa e apreciavam nossas brincadeiras. Carla e Juca não desgrudavam e suas mãos pareciam coladas uma na outra. Elas eram fofas juntas e depois da primeira vez de Carla, Juca havia se tornado ainda mais romântica com a minha amiga. Volta e meia eu via elas saindo do banheiro no meio das aulas e eu sabia bem o que aquilo significava. Porém, as notas de Carla continuavam intactas e as de Juca haviam melhorado. Parece que o amor, no final das contas, deixa as pessoas felizes e fazem com que elas se tornem melhores. Simples assim. Eu não sabia muito bem qual era o assunto na mesa, mas tinha certeza que envolvia algum caso de Juliana porque ela contava muito animada uma história e todas riam muito.
– Treinador Negão e suas guerreiras – uma voz grossa, forte e alta nos assustou e todas olhamos para o mesmo lugar, lá estava o técnico careca com cara de mau que tinha levado uma surra do nosso time há pouco tempo
– É um grande prazer rever você, Bastos, um prazer ainda maior acabar com o seu time – Negão levantou sorrindo e esticou a mão para cumprimentar o tal do Bastos
– Você nunca superou ter perdido o cargo pra mim, não é? – a provocação no olhar do careca era tão nítida que seu olhar poderia matar um
– Eu superei sim Bastos, superei tanto que continuei fazendo meu bom trabalho, como você pôde sentir na pele hoje – todas rimos baixinho o que deixou Bastos ainda mais irritado
– Você tem um bom time nas mãos mas sem ela, você não tem nada – e de repente, eu senti um dedo apontado pra mim. Engoli em seco e apertei a coxa de Nina, onde minha mão estava apoiada
– É verdade, eu tenho um ótimo time! E, de fato, sem a Beca não teríamos nada, afinal de contas, ela faz parte do time…assim como todas as outras – Negão falou sorrindo e olhando para cada uma de nós, como se dissesse “não escutem este babaca”
– Você e essa mania de coletividade irritante! Nunca tive paciência para essas coisas – ele continuava me olhando e eu já estava querendo abrir um buraco no chão para me enfiar
– Parece que minhas ideias irritantes ganharam de você hoje…então vou continuar com elas – Negão respondeu e eu podia ter certeza que o técnico iria voar em seu pescoço, mas para minha surpresa, ele sorriu irônico, andou um pouco para o lado e ficou bem na minha direção
– Se esse cara não te quiser mais, me procure, sou melhor que ele e posso te levar mais longe – me esticou um cartão que eu demorei para pegar, mas logo peguei o papel, li seu nome nele e o amassei antes de responder
– Sou adepta da mania de coletividade irritante. Sou boa porque trabalho muito junto com o meu time. Nós somos muito boas porque acreditamos que jogar em equipe é o que vence e bom…pergunte as suas meninas, acho que elas devem se lembrar de pelo menos quatro vezes, só nesta manhã, que essa mania que você diz não ter paciência, funcionou muito bem! – ele ia explodir, eu tive certeza. Ouvi as meninas rirem abertamente agora e só pudemos apreciar o momento que o tal do Bastos virou de costas e foi em direção ao seu carro.
– Negão, que merda foi essa? – Juliana e sua boca suja
– Coisas antigas, meninas! Não se preocupem, ele tá irritado porque perdeu para vocês e não teve nem chance!
Bastos foi embora e nos deixou ainda mais felizes. Nosso espírito de equipe vinha surgindo cada vez mais forte nos jogos e nos treinos. Por mais que fora de quadra não fôssemos exatamente um exemplo de amizade, dentro das quatro linhas, tínhamos uma sintonia boa, nova e que funcionava. Precisávamos disso para ir até a final do campeonato.
— / —
– Meninas, vamos? – Negão veio do ginásio nos chamar
Estávamos sentadas ainda na cantina e sabíamos que o jogo já havia acabado devido ao movimento ter aumentado do lado de fora. O time que tinha ganho já era grande conhecido da torcida e era muito forte. Nós estávamos entrando em quadra descansadas, mas pelo que ficamos sabendo dos gritos, o jogo depois do nosso foi super tranquilo e o placar havia sido uma verdadeira goleada de 6×0. Os dois times estavam com a moral elevada e vinham com tudo para a vitória. Eu confiava muito no meu time de guerreiras e estava pronta pra guerra.
– Meninas, esse time não vai dar espaço para vocês, então toquem a bola, criem situações e não hesitem em chutar ao gol quando tiverem oportunidade. A zaga precisa estar atenta e Nina, se prepare, elas gostam de chutar!
Negão não falou muito mais do que isso, apenas nos deixou reunidas perto do gol onde Nina começaria agarrando. Chamei as meninas para um círculo nosso, unimos os corpos e eu abaixei um pouco para que só elas ouvissem o que eu ia falar.
– Essa guerra é nossa. Aqui dentro, somos unidas e não há diferenças. Nós podemos vencer esse jogo porque somos muito boas quando jogamos juntas! Vocês estão prontas pra guerra? – estiquei minha mão no meio e todas fizeram o mesmo, finalizando com a de Nina, já coberta pela luva, por cima – VAMOS PRA GUERRA! – gritei e todas me acompanharam causando um acompanhamento de gritos vindo da torcida. Acho que éramos as preferidas naquele momento.
– Amor! – Nina me chamou e eu a olhei – Acaba com eles, minha garota! – aquele sorriso de orgulho que ela tinha pra mim e que me fazia se sentir a melhor pessoa do mundo. Sorri, mandei um beijo no ar e disse que a amava de forma que só ela pudesse entender. Com ela, eu poderia lutar contra o mundo que estaria tudo bem.
Apito inicial soou e eu vi que o time adversário realmente vinha com tudo pra cima. A disputa pela bola era acirrada e elas eram habilidosas. Tinham passes rápidos e uma boa velocidade de avanço, mas Juliana na zaga estava impossível. Nada passava por ela, nem mesmo vento. Nina precisou fazer apenas duas defesas e foram relativamente fáceis porque a Ju já havia atrapalhado o lance antes. Carla e Juca estavam atentas e Cami estava em um dia muito bom também. Ela fez dois lances e deixou a bola perfeito para que Carla chutasse uma vez e na outra rolou para mim bem próximo da área das meninas, mas a goleira delas parecia uma enorme muralha. Era difícil armar uma jogada contra um time tão bem armado e era mais difícil ainda conseguir acertar um bom chute a ponto de concretizar o gol. Estávamos no 0x0 e o primeiro tempo acabado.
– Time, precisamos de atitude! – Negão gritava com a gente no banco de reservas enquanto bebíamos um gole de água – elas estão muito bem posicionadas e nós precisamos criar jogadas novas. Beca, presta atenção na sua marcadora, ela sempre sai um pouco antes em direção a bola, se você for rápida consegue avançar por trás e receber mais na frente, sozinha. Juca e Carla, troquem passes mais rápidos, vocês estão em posições boas e dali conseguem esticar a bola para o ataque. Cami, use seu corpo grande para avançar mais. Vamos vencer essa guerra ou não vamos? – foi a vez de Negão nos incentivar.
O segundo tempo havia começado naquele minuto. Nina estava atenta no gol, Ju estava na defesa, pronta para defender o nosso time como se fosse a última coisa de sua vida. Eu estava tentando me livrar da menina que me marcava sem parar quando Juca recebeu a bola e começou uma intensa e rápida troca de passes com Carla. Elas tinham uma sintonia especial fora e dentro de quadra. Cami correu e passou por mim, desviando a atenção da minha marcadora por alguns segundos, o suficiente para eu passar por trás dela e correr em direção ao ataque. Vi quando Juca empurrou a bola na minha direção e acompanhei ela girando pela quadra até estar ao meu alcance. Apenas dominei, virei de frente e chutei rasteiro no canto do gol. A rede balançou gostosamente enquanto o ginásio explodia em gritos.
Levantei os braços de olhos fechados e estava sorrindo abertamente quando me virei para comemorar com o meu time, mas meu sorriso morreu na hora que eu vi Juca caída em quadra com todo mundo em volta dela. Corri até lá sem pensar se meu gol havia realmente valido ou não.
– O que houve? – perguntei a Ju assim que cheguei
– Essa daí deixou o pé na canela de Juca! – precisei segurar a gêmea para que ela não batesse na menina
– Ei, calminha! Foi lance de jogo, garota! Se controle! – a tal menina respondeu e agora eu precisava da ajuda de Nina para segurar a Ju. Logo, Negão estava em quadro olhando o pé de Juca
– Ela pode continuar? – perguntei baixo ao nosso técnico. Nós não tínhamos reservas e se ela não pudesse, estaríamos desfalcadas
– Eu posso! – Juca falou e se levantou, mas assim que tentou dar o segundo passo, vacilou e quase caiu
– Não! Não pode! – Negão foi categórico
– Calma aí! Eu já sei! – Juca falou antes que o técnico tirasse ela de vez – me coloca no gol e traz a Nina para a linha. Eu não posso correr, mas posso ficar lá. Ju, você não deixa ninguém passar e pronto. Estamos vencendo, só precisamos segurar o placar
Todas nos olhamos. A ideia era boa, mas não podíamos arriscar que Juca se machucasse ainda mais. Eu olhei para Nina e ela estava nervosa. Eu sabia que ela não esperava jogar na linha tão cedo, ainda mais em um jogo tão importante quanto aquele. Além do mais, Juca não era boa goleira como Nina. Se algum chute delas fosse em direção ao gol, a chance de entrar era grande.
– Juca, a gente não vai deixar você se ferrar por causa de um jogo! – eu falei sabendo que essa era a atitude certa a ser tomada
– Beca, confia em mim! Por favor, gente! Eu posso ficar no gol, Nina vai pra linha e o time vai estar completo. Isso aqui é guerra ou não é? – eu sabia que não adiantaria discutir com a Juca então apenas olhei para Negão deixando a decisão com ele
– Juca, se algo de mais sério acontece a culpa… – o técnico ia falar, mas a garota o interrompeu
– a culpa é minha! Futebol é assim, as pessoas se machucam!
Ninguém falou mais nada até ouvirmos o barulho de velcro da luva de Nina e quando percebemos, Juca já andava, ainda mancado de leve, mas já melhor, em direção ao gol e uma Nina, claramente nervosa, se encaminhava para o meu lado.
– Eu e você igual aquele dia na pracinha. Topa? – a voz dela me passava confiança e seus olhos brilhavam. Eu sabia que ela daria tudo de si e eu sabia que nós poderíamos fazer a diferença em quadra. Chamei Cami, Carla e Ju até nós.
– Meninas, não podemos deixar a bola passar até a Juca. Ju, defende essa merda como se fosse sua vida, Cami, assume a lateral no lugar da Juca que você tem boa visão de jogo, Carla se mantém na sua lateral que eu e Nina vamos pelo meio. Cami e Carla, ajudem a Ju mais atrás, nós precisamos segurar o placar mais do que qualquer coisa.
Todas concordaram e o jogo recomeçou. Ao perceberem a troca, as meninas foram em direção a Nina na primeira oportunidade achando que a driblariam facilmente, mas para minha alegria e loucura da galera, minha namorada tirou a bola dos pés dela e avançou em direção ao gol me tendo ao seu lado, mas ela estava impulsiva e chutou, deixando a bola nas mãos da goleira. Eu sabia que aquilo era bom para ela se sentir bem em quadra e apenas sorri quando ela me pediu uma desculpa silenciosa por não ter tocado.
Estávamos nos defendendo como podíamos. Entre rezas e estratégias, continuávamos vencendo por 1×0 e o outro time estava entrando em desespero. Faltavam menos de dez minutos para o fim do jogo quando em uma falta que elas cobraram, perto da nossa área, uma das meninas altas conseguiu cabecear direto para o gol. Juca com o pé machucado e a pouca experiência e reflexo não foi capaz de parar a bola que balançou a nossa rede. Estávamos em um empate mais uma vez. Reuni as meninas antes de retomar a partida, mas antes de chegar ao nosso círculo, Nina me puxou, olhou bem fundo nos meus olhos e sorriu.
– Igual ao jogo da pracinha, lembra? Eu e você contra o mundo!
– Cami, vou tocar pra você, avança até onde puder, eu e Nina vamos pelo meio, assim que tiver espaço, rola pra gente, confiem em mim! – eu falei e rezei secretamente para que aquilo desse certo de novo
Ninguém discutiu, apenas assentiram e eu sabia que Carla também estaria preparada caso precisássemos dela, mas eu preferia que ela ficasse mais atrás para ajudar Ju na defesa. Caminhei em silêncio até onde a bola nos esperava para retomar o jogo. Nina andou comigo mas não falou nada, apenas deixou que nossas mãos se esbarrassem no caminho. O juiz nos esperava no círculo central, com a bola nos pés, esperando para retomarmos e se afastou assim que tomamos nosso lugar.
– Eu e você contra o mundo – sussurrei para Nina nos segundos que tivemos antes do apito soar e eu rolar a bola pra ela.
Como já imaginávamos, o outro time veio com tudo pra cima e na maior parte das vezes, a pressa é inimiga da perfeição. Nina passou por uma das jogadoras delas com facilidade e rolou rapidamente pra mim, que já avançava. Enxerguei Cami na lateral esperando a bola. A sua marcadora estava distante e então eu rolei até que a bola foi amortecida por seus pés. Ela não demorou em começar a avançar. Com uma jogada de corpo, desviou da menina que a marcava e já próximo a área delas, rolou para o meio deixando a bola cair nos pés de Nina. Eu estava marcada e não poderia receber, então apenas fiz sinal com a cabeça para que minha namorada avançasse mais com a bola. Ela estava mais livre e fez o que eu disse. Assim que estávamos quase entrando na área delas, a minha marcadora deixou o posto e foi em cima de Nina para tirar a bola dela, mas ela foi mais rápida e enquanto ela estava no caminho até ela, a bola foi tocada em minha direção. Eu corri em direção a ela e assim que dominei, senti que tinha uma marcadora atrás de mim. Em um ato de coragem impulsivo e irresponsável, levantei a bola com os pés, preparei o corpo para girar e o fiz. A marcação nas minhas costas não esperava meu movimento e ela não teve tempo de se colocar na frente da bola. Era uma jogada um pouco enfeitada demais para aquele momento, a chance de errar era grande, mas eu não tinha opção. Levantei a bola até a altura da minha cabeça, mas mais pro lado e preparei meu corpo. Assim que ela veio caindo, de volta ao chão, minha perna fez um giro no ar, a encontrando no meio e a empurrando em direção ao gol.
Logo depois que a bola saiu do contato com os meus pés, eu me desequilibrei e caí no chão, então não vi o que havia acontecido. A marcadora havia caído na minha frente, também desequilibrada pelo meu movimento, mas por sorte, nenhuma das duas se machucou. Por reflexo, fechei os olhos quando senti meu corpo contra o chão e apenas abri para ver minha namorada mergulhando em cima de mim. Só então me dei conta do barulho ensurdecedor que dominava o ginásio. A bola tinha entrado e todo o meu time estava em cima de mim nesse momento. Eu sorria enquanto sentia os lábios de Nina procurarem os meus. Ela me deu um selinho rápido e em poucos segundos eu estava de pé sendo abraçada novamente por elas.
O jogo ainda não havia terminado, precisamos voltar para o nosso lado da quadra e esperar mais quatro minutos até que o apito final fosse dado. Neste meio tempo, todas nos tornamos uma muralha em frente ao gol de Juca e ela não precisou se mexer nenhuma vez. E finalmente pudemos comemorar mais uma vitória. Nina foi a primeira a me abraçar e me levantar. Cami e Ju bateram as mãos e Carla foi até Juca verificar se a namorada estava bem. Negão e Diogo comemoravam juntos no banco de reservas enquanto a torcida pulava, cantava e tocava instrumentos. Eu estava vivendo mais um dos meus momentos de filme americano. Aquele onde nada pode estragar o que você sente.
– Como vou viver sem você ano que vem, meu amor? – Nina falou enquanto deixava nossas testas encostadas e enlaçava meu pescoço
– Você não vai! – respondi na emoção e só então me dei conta do que havia falado
O olhar de Nina arregalou e antes que ela pudesse pedir alguma explicação, ouvimos as meninas do outro time se aproximarem para nos parabenizar. Não era assim que eu queria contar a novidade pra minha namorada, mas eu não fui capaz de me controlar. A nossa comemoração naquela tarde seria ainda melhor, eu tinha certeza!