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Filme Americano – Cap 113

Nina
O tempo passa rápido. Olhamos pela janela e está sol e se piscarmos lento demais, as estrelas já invadiram o tapete negro dos céus. Mais uma vez, cá estou eu, deitada no meu quarto, deixando que algumas lágrimas corram pelo meu rosto ao lembrar de como tudo anda rápido demais, fora do controle demais, escorrendo pelas minhas mãos demais. Eu não sei controlar o tempo, mas me deixo ser controlada pela sua rapidez que insiste em me esmagar todas as noites quando me lembro que terei 24 horas a menos perto de todos que tanto amo. As meninas ainda não sabem da minha viagem. Fazem um pouco mais de dois meses desde a conversa com a minha mãe e eu ainda não tive coragem de falar com elas. Minha namorada está firme e forte. Não tocamos no assunto, mas sempre que ele é pauta, ela apenas sorri e diz que vai ser o melhor pra mim. Uma nova experiência, uma nova língua, um novo país e uma enorme saudade. Eu evito chorar na frente dela, mas admito que é impossível quando esse sentimento ruim me toma por inteiro.
Agora, em plena sexta feira, estou aqui, deitada na minha cama olhando o céu estrelado lá fora, chorando por uma saudade adiantada. Amanhã voltamos ao campeonato de futebol. Já estávamos nas quartas de final e os primeiros jogos dessa fase já tinham acontecido. Amanhã seriam três jogos, o primeiro seria o nosso, o segundo seria de outros dois times e o terceiro seria entre os dois vencedores. Super pesado, você deve estar pensando, mas a gente aguentava. Desde que soube que seria assim, Negão vem pegando no nosso pé para que estejamos preparadas para enfrentar a maratona. Até hoje tenho saudades do nosso feriado, foi o último fim de semana de paz que tivemos. De lá pra cá, eram treinos torturantes intercalando com dias de estudos intermináveis. No meio disso tudo, ainda tivemos algumas provas. Não sei nem como cheguei até aqui.
Estar sozinha na minha cama em plena noite de sexta era muito estranho. Eu e Beca estávamos tentando aproveitar todo e qualquer minuto para ficarmos juntas. Nos fins de semana, revezávamos entre a casa dela e a minha, assim, nenhum pai e nem minha mãe ficava com ciúmes ou saudades. E nós gostávamos dessa divisão, afinal de contas eu me dava super bem com Diogo e minha namorada era a queridinha da família. As vezes nossa vida parecia perfeita demais para ser verdade. Mas, nessa véspera de campeonato, logo quando eu achei que teria meu corpo quente preferido ao meu lado para dormir agarradinha, fui dispensada. Beca falou que precisava conversar com o pai sobre alguma coisa que eu não fazia ideia. Ela nunca precisava conversar com ele e muito menos escondia algo de mim. Minha cabeça doía com tanta coisa pra pensar e pelo horário, já estarei ferrada amanhã cedo. É melhor parar de chorar e dormir, afinal de contas, sei que vou chorar amanhã de novo.
— / —
Como essas pessoas conseguem gritar tão alto a essa hora? Mal tinha dado nove horas e esse povo já está aos berros dentro do ginásio. Eu só pensava que eu queria muito continuar na minha cama. Eu devo estar com uma cara horrível de quem não quer viver. Escuto a voz do Negão ao fundo e meus olhos só conseguem focalizar minha namorada sentada do meu lado. Estávamos ouvindo as últimas instruções antes do nosso jogo começar. O outro time estava do outro lado da quadra, ouvindo o técnico deles, um careca de terno e gravata que me dava medo, e nós estávamos aqui com Negão e Diogo logo ali atrás nos passando todo o apoio moral possível. Beca mantinha sua mão entrelaçada a minha e eu sabia que ela devia estar querendo me dar forças. Ela sabia me ler como ninguém e já tinha percebido que eu não tava nos meus melhores dias.
– Entenderam, time? – a voz grossa do Negão me trouxe de volta para a realidade e o grito controlado de todas elas me fez acordar de vez
– Vamos pra guerra, time! – agora foi Juliana que falou olhando para nós, eu mantinha minha expressão focada em tudo que estava acontecendo ali
Todas começaram a se afastar, alongar e se preparar para entrar em quadra. Eu apertei o velcro da minha luva novamente e virei meu pescoço para estalar a musculatura. Puxei meu pé pra trás e senti quando uma mão se apoiou no meu ombro. Eu não olhei, sabia que era Beca.
– Tá tudo bem, amor? – sua voz baixa me indicou que estávamos só nós ali
– Noite longa, só isso… – disfarcei para não preocupar nossa estrela principal logo no início do jogo
– Espera que tenha sido longa por pensar demais e não porque fugiu pra farra – ela ria daquela forma só dela de rir e eu me derreti, até meu coração pareceu ter mais vida depois daquele som
– Fiquei pensando em…você sabe…tudo, ano que vem…nós…elas – eu falava em códigos sabendo que Beca entendia o que era
– Ei, amor, olha pra mim – ela parou o alongamento, colocou as mãos no meu rosto e puxou meu olhar para o dela – para de sofrer por isso. Ainda tem muita coisa pra acontecer e eu preciso de você focada, senão, eu vou me perder também. Você é meu porto seguro e eu sou o seu, lembra? – eu não podia cair agora, ela precisava de mim.
– Desculpa, não vou deixar isso me abater de novo – falei ainda presa naquele olhar só nosso
– Eu te amo. Agora, vamos acabar com elas – ela me deu um selinho rápido, mas que foi suficiente para acordar cada célula do meu corpo
Juliana e Juca passaram por mim, me abraçaram, elas também haviam percebido que tinha algo, mas não me perguntariam naquele momento. Carla apertou minha bochecha como sempre e até Cami sorriu de canto de boca quando me viu alongar com mais animação. Estávamos prontas para entrar no jogo e mostrar que viemos para vencer. A torcida começou a empurrar nosso time. Parece que elas não iam muito com a cara do time adversário e eu entendi perfeitamente quando vi aquele time cheio de meninas com caras de metidas. O uniforme delas era caro e parecia ser muito bem feito. O técnico delas, um Vin Diesel maior e mais malvado, sorriu para Beca e eu vi que aquilo era uma provocação. Me arrepiei pela possibilidade e apenas deixei meus olhos ainda mais abertos para não vacilar. O time precisava de mim e eu estaria ali para elas.
O ginásio veio abaixo quando o juiz apitou o início do jogo e logo no primeiro lance, Beca conseguiu dar um drible lindo em uma das meninas do outro time para logo em seguida levar um empurrão e cair no chão. Sem pensar duas vezes, andei em direção ao acontecido, assim como todo o meu time. O juiz acalmou a confusão e deu um cartão amarelo para a menina. Beca olhou pra mim, sorriu e piscou, de uma forma só nossa, como se quisesse me tranquilizar e dizer que estava tudo sob controle. Ela olhou para todo o nosso time e sorriu como se estivesse combinando, como se estivessem prontas para a batalha e se alguém me dissesse que nós íamos dominar aquele jogo daquela forma, eu não acreditaria. Depois do nosso primeiro gol, o time adversário começou a se enrolar cada vez mais e o placar final foi de 4×0 para nós. O Vin Diesel malvado ficou tão irritado que eu jurava que ele ia explodir a qualquer momento.
– Meninas, não preciso nem dizer nada, né? Arrasaram! – Diogo foi o primeiro a nos receber do lado de fora da quadra
– Pai, menos! Elas se enrolaram na defesa e só por isso abriram espaço demais pra nós – Beca logo diminuiu a animação de Diogo, ela não gostava de contar vitória antes do tempo e ainda tínhamos mais um jogo naquele dia
– Meninas, o Diogo está certo. Vocês jogaram bem! Aproveitaram os espaços que elas deram e estavam em perfeita sintonia, agora, não quero que assistam ao próximo jogo. Vamos lá pra fora e só voltaremos depois! – Negão decretou e eu sabia que não tínhamos como discutir, apenas pegamos as bolsas e fomos lá pra fora, tinha uma cantina por perto e seria perfeito para nos hidratarmos
– Ei, vamos dar uma volta? – Beca entrelaçou os dedos nos meus e eu não poderia negar nenhum pedido que vinha acompanhado daquele sorriso que só ela tinha
Nos afastamos do grupo avisando que íamos dar uma volta e sob brincadeiras de todos e pedidos do técnico para não assistirmos o jogo, fomos andando em direção ao pátio daquela escola que ficava um pouco mais afastado e parecia estar vazio. Apenas um casal ou outro aproveitando o silêncio. Estávamos caladas e parecia tudo bem, mas eu sabia que minha namorada estava pensando em formas de falar o que ela queria. Ela não era muito fã de silêncio e já já ela abriria a boca. E eu tive certeza disso quando ela me puxou em direção a um banco de cimento que estava vazio, embaixo de uma árvore.
– O que você tem, amor? – ela sentou com uma perna para cada lado e ficou o mais próximo de mim que podia, nossos corpos estavam totalmente encostados
– Como assim? Não tenho nada, amor… – respondi apenas por esporte, eu sabia que ela já tinha percebido que minha cabeça estava longe
– Amor, você pode enganar até o papa, mas sabe que comigo não dá! Ou você conversa comigo ou nada de sexo até o mês que vem! – Ela sorriu maliciosa e eu sabia que ela estava jogando baixo
– Você não sabe brincar, Beca! Não sabe mesmo! – eu nunca arriscaria fica sem sexo, não mesmo!
– Me fala, ou esse corpinho aqui estará fora do alcance das suas mãos pelos próximos 30 dias – ela provocou e beijou meu pescoço com os lábios molhados
– Sua suja! – eu ri quando ela riu também – mas sério agora, não é nada de diferente dos outros dias! Eu fico pensando na viagem, em ficar longe das meninas, em como contar pra elas, em como ficar longe de você e em como ficar longe de todo mundo…além do mais, preciso pensar que depois dos seis meses, vou ter que me decidir sobre o que fazer aqui, eu preciso  começar a me preparar para uma possível facul… – eu iria continuar meu enorme devaneio de tudo que me atormentava, mas os lábios de Beca tomaram os meus para ela junto com o ar que eu usava pra respirar.
– Amor, pré-ocupação é tão eficaz quanto tentar comparar o Neymar com a Marta…você perde tempo, se estressa e nunca vai conseguir! – eu adorava as metáforas que ela fazia relacionado a futebol, apenas sorri ainda saboreando os seus lábios nos meus
– Eu sei que não adianta, mas não dá pra parar de pensar, entende? – falei desanimando
– Eu sei disso! Ontem meu pai veio conversar comigo…
– O que ele queria? – apoiei minha cabeça em seu ombro e senti seus braços me envolvendo e me puxando para mais perto
– Saber se eu vou sobreviver sem você – oi? Como assim? Procurei seus olhos, mas sem me afastar – ele está preocupado que eu abandone os estudos ano que vem com a desculpa de estar longe de você…mas eu o tranquilizei e disse que minha educação terá um belo futuro – ela estava rindo como se algo de diferente tivesse acontecido
– Como assim? O que você tá me escondendo Beca? – eu senti que algo estava no ar e não aguentaria mais uma coisa pra tirar meu sono
– Senti sua falta essa noite – ela sorriu olhando para os meus lábios e eu sabia que ela não me contaria nada então deixei que nossos rostos se aproximassem e engatamos em um beijo quente, cheio de mãos bobas e respirações profundas. Não ligamos muito com alguns passos que ouvimos e eu tive que me controlar muito para não arrastar a minha namorada para um banheiro qualquer. Acabei esquecendo tudo que me atormentava, mas era por pouco tempo, em breve, a enxurrada voltaria para a minha cabeça e eu só esperava que fosse depois do próximo jogo. Eu não poderia deixar meu time na mão e nem a minha namorada.