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Filme Americano – Cap 117

Nina
 
Senti meu corpo inteiro doer. Só de pensar em abrir os olhos eu já tinha vontade de chorar. Sem me mover muito, abri apenas um olho e avistei a imensidão da minha cama vazia. Minha linda namorada, que tinha me dado uma enorme canseira na noite passada, não estava mais ali. Eu tinha quase certeza que ela não estaria, porque ela nunca está. Nunca levanta tarde que nem eu e sempre me abandona pela manhã. Tentei apurar o máximo possível meus ouvidos para tentar reconhecer algum som familiar vindo do banheiro ou do outro lado do quarto. Até que ouvi a voz dela. Entendi…e o processo demora muito? Com quem ela estava falando aquela hora e com aquela voz de gente séria? E para fazer eu tenho que me submeter a essa lista de exigências que o senhor me mandou por email, certo? Até quando? Senhor? A coisa parece meio séria mesmo. Decidi lutar contra meu corpo cansado, abri os olhos e sentei vagarosamente na cama procurando por ela. Como eu havia imaginado, ela estava na ponta mais distante da cama, ainda de pijamas, de costas para mim e olhando pela minha janela, que dava para um jardim interno do condomínio. Eu não conseguia mais ouvir a conversa, apenas sussurros estranhos e sons de confirmação. Que diabos estava acontecendo?
Não demorou muito para que ela desligasse o celular e ficasse pensativa encarando a paisagem lá fora. Era sábado, nós estávamos esgotadas da semana de prova e na noite passada tínhamos saído para jantar com Carla e Juca e depois emendamos em algumas horas de sexo gostoso, quente e extremamente cansativo. Não era de se surpreender que já estávamos quase na hora do almoço. Peguei o celular na mesinha do lado e vi milhões de mensagens no grupo das meninas. Pelo pouco que li, Carla estava em problemas com os pais, Juca estava surtando e Juliana havia chegado agora pouco em casa depois de uma noite, no mínimo, louca.
– Ei, coisa linda! – chamei a atenção de Beca já que ela continuava encarando a paisagem
– Oi, amor! – aquele sorriso que eu tanto amo veio andando em minha direção
Assim que se aproximou da cama, ela deixou o celular na bancada de estudos e se jogou por cima de mim, me fazendo deitar novamente. Seus lábios encontraram os meus na mesma hora e meu coração pareceu errar a batida só de sentir o cheiro de seu corpo tão próximo a mim. Meus olhos se fecharam automaticamente e meus lábios, pressionados pelos seus, se abriram em um sorriso que combinou exatamente com o dela.
– Quem era no telefone? – perguntei assim que puxei o ar novamente e ela se aconchegou no meu corpo
– Ninguém não – como assim, ninguém? Eu ouvi ela falando com um “senhor” qualquer
– Pode me falar quem era, amor…eu ouvi você falando com ele – tentei ser amigável, mas aquele segredo todo estava começando a me incomodar
– Não era ninguém, Ni. Relaxa! – ela levantou do meu colo e aquela resposta me deixou ainda mais irritada
– Você não vai me contar com quem estava falando no telefone em pleno sábado de manhã? – eu levantei da cama e fui atrás dela. Minha voz já se alterava
– Para de bobeira, Nina! Não era ninguém, eu já disse! – ela estava começando a ficar irritada
– Porque você está me escondendo coisas agora? Desde quando você fala com pessoas que diz ser ninguém e não me conta? – Eu sabia que eu estava parecendo uma malucar controladora, mas eu não conseguia parar
– Você sabe que está parecendo um pouco controladora demais, não sabe? – Acho que eu deveria ficar feliz por ela ter omitido a parte do maluca, mas eu ainda não conseguia me conter
– Controladora não! Só tenho o direito de saber com que minha namorada está falando de forma extremamente séria e formal em pleno sábado de manhã! Chamou de senhor e tudo, Beca! – as nossas vozes estavam ficando altas demais e a falta e comida no meu estômago estava começando a pesar
– Direito de saber? Amor, relaxa sua irritação antes que você se arrependa do que está falando – Ok, ela estava certa! Meu único direito em relação a Beca é amá-la acima de tudo e olhe lá! Não posso controlar a vida dela, mas cadê o meu próprio auto-controle para interromper esta discussão idiota?
– Quer saber, Beca… – depois dessa frase nada de bom pode vir e eu nem sabia o que iria sair da minha boca agora
Fui interrompida pelo toque estridente do meu telefone antes que eu pudesse piorar a situação ainda mais. Bufei enquanto me afastava e apenas vi que ela sorriu de canto. Ela só podia estar brincando comigo. Ela estava sorrindo enquanto eu estava prestes a explodir de raiva? Olhei para a tela do aparelho e vi o nome de Juca aparecer. Deslizei para atender e coloquei no ouvido a tempo de ouvir algumas fungadas de fundo e a voz de Juliana sobressair.
– As duas, venham pra cá, agora! Preciso de ajuda!
E a ligação caiu na mesma velocidade da voz da Ju. Pelo assunto de mais cedo no grupo, imaginei que algo estivesse acontecendo com Carla e seus pais e Juca estava ficando louca em casa.
– Precisamos ir até a casa da Juca, Juliana disse que precisa de ajuda – falei olhando para Beca que ainda sorria – que diabos ela tanto sorria, afinal? – e vi quando sua expressão mudou da água para o vinho com o que eu falei. Ela correu para trocar de roupa e eu fiz a mesma coisa. Precisamos deixar nossos problemas de lado um pouco para ajudar nossa amiga.
Juca
 
Eu sabia que isso daria errado. Eu sabia que essa ideia estupida de me deixar apaixonar, de namorar e tudo mais e até de ser a primeira vez de alguém, ia dar errado. Porque eu deixei esse monstro adormecido no meu coração acordar de um dia pro outro? Eu não mereço passar por isso de novo. Já basta o tanto que enfrentei quando me assumi. Já basta todas as vezes que tive que sair correndo da casa das meninas porque os pais dela queriam me matar e cortar meu pinto imaginário fora. Que merda de vida é essa onde a gente se apaixona e agora fica assim, igual uma criança, trancada no banheiro, chorando sem parar há vinte minutos. Alguém por favor fala pra Juliana parar de bater na porta que eu não vou abrir essa merda.
– Juca, abre logo essa porta, porra! Vou arrombar essa merda ou chamar o papai! – nossa, Juliana sabe mesmo me convencer hein. Não respondi nada!
– Caralho, Juca! Sai daí e vamos conversar! Eu quero entender o que está acontecendo com calma! Que saco isso! – Ela está ficando nervosa e cada vez mais eu tenho certeza que não vou abrir essa porta pra ela
– Juca, ei, amiga, vem cá! Vai ficar tudo bem! – Pera, essa não é a minha irmã pentelha! É a Nina!
– Juca, eu falei com a Carla agora, vem cá pra gente conversar! – Beca também está aqui! Ela falou com a Carla? Como será que ela está?
Abri a porta sem me importar com o fato de que estava com a cara inchada e parecendo um monstro saído das profundezas do lago. Eu precisava de notícias da minha menina e só de pensar que ela poderia estar chorando ou que estava triste, eu sentia uma dor tão grande no peito e uma vontade tão grande de protege-la que eu voltava a entender o real motivo pelo qual eu havia me apaixonado novamente. Eu não teria nenhuma chance de lutar contra esse sentimento que aquela menina meiga e tão frágil despertava em mim.
– Como ela tá? – Falei assim que vi o rosto de Beca e Nina me encarando
– Para elas você abre…argh…idiota! – ouvi o resmungar da minha irmã atrás das minhas amigas e ignorei solenemente
– Ela tá triste e chateada, mas disse que te ama e que nada mudou entre vocês… – a voz de Carla pareceu música para os meus ouvidos naquele momento e sem que eu tivesse poder algum sobre meu corpo aquele sorriso bobo e apaixonado rasgou meu rosto sem permissão alguma
– Como você conseguiu falar com ela? Pelo que entendi o celular dela está com os pais
– Ela me mandou uma mensagem pelo sistema dos alunos da escola, como nós somos da mesma turma, isso é possível – Beca me explicou e eu poderia até dizer que não sabia que isso era possível naquele sistema doido, mas eu estava mais preocupada com o bem estar da minha namorada
– Amiga, vem pra cá, conta pra gente o que houve? – a mão de Nina entrelaçou na minha e me puxou em direção a minha cama
Andamos em trio. Nina com a mão dada a minha e Beca agarrada no meu braço como se estivesse me segurando e ao mesmo tempo me carregando. E era exatamente isso que elas estavam fazendo.
Deitamos as três na cama e só então eu vi que Juliana ainda estava de pé no meio do meu quarto acompanhando todos os nossos movimentos. Ela estava com uma cara de quem ia chorar e eu sabia que era por causa da minha cara de choro. Somos aquelas irmãs que brigam, se desentendem, mas ao mínimo sinal de que uma está fraquejando a outra se torna uma inquebrável rocha para apoiar e suportar tudo que vem pela frente. Eu a fiz ficar desesperada quando não abri a porta do banheiro e sabia disso, ela só estava tentando me ajudar e eu estava me trancando dentro do meu mundinho novamente. Ela odiava quando eu fazia isso e eu odiava quando ela tentava esmurrar minhas portas e janelas internas como ela sempre fazia.
Apontei para a cama no meio das minhas pernas e sem pestanejar, ela veio correndo, deitou ali e abraçou minha cintura, como sempre fazíamos com a nossa mãe a tantos anos atrás. Ela estava chorando, mas eu não ia mandar ela parar porque ela só conseguiria isso quando tivesse certeza que eu também já tinha parado. Então, estávamos nós quatro deitadas e abraçadas, da forma que deu, em cima da minha cama e tudo que eu conseguia sentir era o cheiro de Carla nos meus cobertores e travesseiros. Que tortura sentir o cheiro dela ali e o peito arder tão pesadamente ao pensar no que estava acontecendo.
Não expliquei o que havia acontecido para as meninas, mas também não precisava, elas entendiam tudo só de estarem do meu lado. Elas sabiam o que eu estava passando e se não fosse por elas, tudo aquilo seria ainda mais insuportável. Passamos o domingo inteiro daquela forma. Elas revezavam em ir até a cozinha pegar comida e água e até me forçaram a comer um pouco. Enquanto uma saía, as outras duas se colocavam ao meu lado e me cercavam de amor e carinho e eu só conseguia chorar baixinho e silenciosamente. Porque amar doía tanto em alguns momentos? Dormimos juntas na minha cama. As quatro agarradas.
— / —
Assim que pisei na calçada da escola eu sabia que seria um péssimo dia. Eu estava de óculos escuros para esconder os olhos inchados e as enormes olheiras. Continuava com minhas fiéis escudeiras ao meu lado e eu sabia que elas não sairiam de perto em momento algum. Deixei que elas me apoiassem e me ajudassem, eu não conseguiria chegar naquela manhã sozinha até a escola. Meus olhos percorriam a quantidade de alunos que estavam ali fora em busca de Carla, não encontrava nada. Nem percebi quando Cami se aproximou de nós.
– Oi, meninas. Está tudo bem? – Ela perguntava olhando para mim e eu sabia que estava denunciando todo o meu estado emocional
– Problemas com pais, Cami. Mas vai ficar tudo bem! – ouvi a voz da minha irmã respondendo e eu sabia que ela estava no limite entre ser grossa e ser educada
– Relaxa, só vim com boas intenções aqui – pelo visto Cami também havia percebido o tom de voz da minha irmã – a Carla já chegou e pediu para que eu avisasse vocês que ela estaria naquela mesa no final do pátio, a que vocês sempre usam
Ao ouvir o nome dela, meu corpo todo se preparou e assim que a frase foi dada como encerrada, eu disparei em uma corrida até ela. Ouvi a voz das meninas tentando me fazer ir com calma, mas elas também não insistiram muito, sabiam que eu não teria calma naquela situação. Apenas corri em direção a nossa mesa, sabendo que minha namorada estaria me esperando lá. O pátio nunca pareceu tão grande como naquele momento. Assim que avistei seus cabelos presos em um rabo de cavalo desajeitado, acelerei ainda mais meus passos para chegar até ela. Foram segundos intermináveis onde parecia que ela se afastava ainda mais conforme eu me aproximava. Pensei em chamar seu nome, mas o pouco ar nos meus pulmões não deixou. Apenas me foquei em ser mais rápida que o tempo e chegar lá antes dela se afastar ainda mais.
Assim que meu corpo se aproximou, ela olhou para trás e aquele choque de olhares quase me fez cair para trás, tamanha força e intensidade. Meu coração foi mais forte e empurrou meu corpo até o mais próximo possível. Diferente de filmes, onde as pessoas se jogam, se abraçam e rolam na grama, eu parei a centímetros do banco de madeira, esperei ela levantar e ficar quase na minha altura, passei minha mão tremendo em seu rosto e calmamente a envolvi nos meus braços. Como se a recebesse em casa novamente, como se eu mesma estivesse chegando em casa novamente. Não chorei, não me desesperei, apenas respirei fundo e pela primeira vez em 24 horas, senti meu corpo receber o oxigênio novamente. Ela parecia fazer o mesmo já que eu não ouvi ela fungando e nem senti lágrimas molharem minha blusa. Depois do que pareceu uma eternidade, ela afastou seu rosto do meu pescoço, apenas o suficiente para que conseguisse se colocar na ponta dos pés e trazer seus lábios até os meus. Agora, meu coração parecia voltar a vida, como em uma massagem cardíaca após um grave acidente. Meus batimentos podiam ser sentidos novamente dentro do peito.
– Antes de qualquer coisa, apenas saiba que eu te amo e isso não mudou para mim e espero que não tenha mudado para você – a voz dela ao interromper o beijo me fez sorrir. Não pelo teor do que foi dito, mas só pelo fato de que o meu som preferido no mundo estava de volta
– É tão bom ouvir sua voz de novo, eu estava enlouquecendo sem você! – falei bem baixinho, como uma confissão que só ela entenderia o significado
– Você ainda me ama? Ainda que ficar comigo? – Franzi o cenho para aquele tom de questionário que havia em sua voz
– Eu te amo muito e quero ficar muito com você ainda, isso é só um contratempo! Vai ficar tudo bem enquanto estivermos juntas – eu não tinha certeza daquilo, mas algo dentro de mim tinha e eu gostava de acreditar naquela parte que sabia o que estava dizendo
Não falamos mais nada, apenas nos abraçamos e esperamos enquanto as meninas nos encontravam ali. Eu sabia que elas tinham vindo bem devagar, afinal de contas o nosso pátio não é tão grande quanto parece. Elas apenas queriam dar um tempo pra gente e só agora resolveram se aproximar. Sem falarem nada, nos abraçaram e então formamos um pequeno emaranhado de pessoas dispostas a tudo para ajudar umas as outras. Era isso que nós éramos. Amigas, prontas para se tornarem guerreiras quando qualquer uma de nós precisasse. E tempos frios viriam pela frente, eu sabia disso. Mas com elas, seria muito mais fácil enfrentar essa guerra.
Narrador
No dia anterior, após chegar em casa com seus pais, Carla passou por uma sessão de tortura digna de ditaduras militares. Desde frases como quem é ela que transformou nossa filha “nisso”? até momentos em que eles se entreolhavam e começavam a chorar como se estivessem enterrado uma filha. A menina, que só queria gritar e sair correndo dali, escutou tudo em silêncio. Respondeu apenas quando solicitada e não discutiu e muito menos elevou a voz. Ela não sabia o que era bater de frente com os pais, nunca soube e não seria agora que aprenderia. Deixou que seu coração se desesperasse sozinho dentro do peito e guardou toda aquela inquietação e raiva para si. Não havia o que fazer.
Ela contou do namoro com Juca, de Beca e Nina e de como tudo aquilo não havia interferido em nada suas notas no colégio. Ela usou os argumentos plausíveis de que era responsável e que nunca havia desobedecido seus pais, mas nada foi suficiente. Após muito gritarem, chorarem e espernearem, pediram o celular de Carla e a proibiram de usar. Disseram que ela estava de castigo e que não poderia sair de casa. Seria apenas do colégio para casa e pronto. Ameaçaram a tirar do time, mas ela disse que aquilo seria bom para seu currículo perante a faculdade e só por isso permitiram que ela continuasse. Eles tinham esperanças de que se o namoro fosse proibido fora do colégio, aquela menina não aguentaria muito tempo e acabaria deixando a filha deles. Não importava se ela fosse sofrer ou não, contanto que terminasse. Afinal de contas, sentimentos são fraquezas e ela precisava se focar ainda mais nos estudos.
Assim que ela pode ir para o quarto, ela pensou em maneiras de avisar o que estava acontecendo. Pensou em email, mas lembrou que seus pais poderiam ler, pensou em ligar do telefone fixo que tinha no seu quarto, mas ela tinha certeza que eles ouviriam na linha e então lembrou do chat exclusivo entre turmas no sistema da escola. Eles não tinham a senha de aluno que ela tinha e não poderiam ver o chat. Rapidamente ela avisou a Beca e esperou que a amiga avisasse a sua namorada. Beca recebeu a mensagem no meio do caminho para a casa de Juca e garantiu que cuidaria da menina para sua amiga. Carla sabia que podia contar com elas e esperava conseguir explicar tudo no dia seguinte.
Naquela manhã, seus pais a deixaram mais cedo na escola e não saíram com o carro até que vissem ela adentrar os corredores. Carla foi até sua sala, deixou a mochila no lugar de sempre, olhou para a rua e então foi para o pátio de trás. Mesmo que seus pais estivessem vigiando, não a veriam ali pois o prédio da escola ficava na frente dos bancos, impossibilitando a visão de quem estava na rua. Não demorou muito e todas estavam sentadas juntas naquele banco, discutindo formas de manterem aquele namoro. Elas fariam de tudo para ajudar o casal.
Enquanto Juliana armava planos mirabolantes e impossíveis de dar certo, todas riam com as ideias e o clima ficou mais leve. Foi quando Beca viu a tela de seu celular ascender em cima da mesa. Era um email de um remetente desconhecido, mas o assunto a fez ficar nervosa. Ela pegou o aparelho e abriu rapidamente. Sorriu sem perceber e bloqueou a tela em seguida. Se despediu das meninas alegando que precisava falar com seu pai. Deu um beijo nos lábios de Nina e prometeu encontrar com Carla na sala de aula. Seguiu saltitante em direção a sala dos professores. Nina apenas acompanhou todos os movimentos e lembrou da ligação do dia anterior. Algo estava acontecendo. Ela tinha certeza.