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Filme Americano – Cap 103

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Narrador
A vida é engraçada. Nós não sabemos o que queremos com ela, mas constantemente somos obrigados a provar o que estamos fazendo com ela. Nos perguntam sempre onde estamos e onde queremos chegar, mas nunca nos perguntam se queremos companhia no caminho difícil que temos pela frente. Precisamos ter tudo nos mínimos detalhes anotado e programado, mas quando seguimos a risca, nos cobram um pouco de ousadia, é preciso pensar fora da caixa eles dizem, mas eles mesmos nos obrigam a viver em uma caixa sem fim. A vida não deveria ser feito de onde queremos chegar mas sim de bora curtir o caminho até chegarmos lá.
Nina estava completamente alheia a tudo que era falado na sala de aula. Pela primeira vez, Diogo foi obrigado a chamar atenção dela já que seus olhos não estavam nem mesmo na direção do quadro, apenas encaravam a janela na lateral da sala sendo ofuscados vez ou outra pelos raios solares que entravam por ali. Eventualmente, ela relembrava das palavras da mãe e começou a perceber que não teria muita chance contra aquele ultimato. Realmente ela estava entre a cruz e a espada e no meio disso tudo, tinha uma Beca, a menina que havia roubado seu coração e que pelo visto iria esmagar ele assim que soubesse dos planos de Nina para o próximo ano. Sinal do intervalo. Finalmente. 

Juca e Juliana falaram para Beca que estariam esperando ela no corredor. As duas irmãs estavam doidas para irem ao banheiro. Depois de dois tempos seguidos com Diogo e com uma matéria extremamente complicada, elas precisavam fazer xixi mais do que urgente. É engraçado essa coisa de irmãs gêmeas né? Até a bexiga parecia funcionar da mesma forma nas duas. Beca disse que as encontraria no corredor onde provavelmente Carla e Beca também estariam. Elas tinham apenas quinze minutos naquele intervalo e só teriam mais tempo juntas no recreio, mas antes ainda tinham uma aula de literatura para fazer suas cabeças fritarem um pouco mais. 

– Nina, podemos nos falar um minutinho? – Diogo chamou a menina com sua melhor pose de professor

– Desculpa ter viajado, Diogo! Minha cabeça tá um pouco cheia demais essa manhã – Nina falou baixo para não demonstrar tanta intimidade na frente dos outros alunos

– Alguma coisa com a Beca? – Diogo perguntou um pouco sem graça, não queria se intrometer no relacionamento da filha

– De jeito nenhum! – Nina respondeu mesmo sabendo que não era 100% verdade – nós estamos ótimas, pode deixar! 

– Se precisar conversa, pode me procurar tá? Além de ótimo professor e sogro, sou um ouvinte excepcional – Diogo brincou sabendo que falava baixo e que a sala estava vazia

– E muito modesto também né? – Nina riu, agradeceu Diogo e foi até o corredor encontrar com as meninas

Beca

Assim que cheguei no corredor ansiosa por ver minha namorada, dei de cara com o nosso grupo, mas sem ela. Achei estranho que ela não tenha ido até lá fora e fiquei preocupada. Juca e Juliana estavam ali, o que significava que a aula já tinha acabado, então porque será que Nina ainda tava trancada na sala? Passei pelas meninas, acenei e apontei em direção a sala de aula como se explicando que ia resgatar aquele ser humano para que ela esticasse um pouco as pernas. Assim que cheguei na porta de sua sala, vi pelo pequeno pedaço de vidro que ela estava vazia e descobri que quem tinha travado minha namorada lá dentro tinha sido o meu próprio pai. Quanta injustiça isso. Pela cara de sério dele, esperei a conversa acabar e apenas sorri abertamente quando ela se despediu e andou na direção da porta, onde eu esperava. 

– De papinho com o seu sogro? – perguntei com o melhor tom enciumado que eu conseguia fingir

– Estávamos falando mal de você – eles eram bem capazes de fazer isso e se fosse verdade eu estava encrencada

– Mal de mim? O que eu fiz dessa vez? – Será que ela tinha contado pra ele sobre minha reclamação de mais cedo? 

– To brincando, sua bobinha! Ele me chamou atenção porque dei uma viajada na aula mais cedo – ela estava viajando demais para um dia comum no meio da semana 

Eu ia continuar a perguntar sobre o que ou para onde ela estava viajando, mas acabei me distraindo quando ela me puxou pela cintura e colou nossos corpos. Eu joguei meus braços até seus ombros e não me entreguei mais porque sabia que meu pai não gostaria nos ver tão agarradas ali no corredor do colégio. Não é lugar pra isso, ele costumava repetir quando via aqueles casais se agarrando pelo corredor. Nina sabia disso então ela continuou um pouco mais distante, mas me olhando de uma forma que me fazia ter vontade de agarrar ela ali mesmo. Gente, como ela me tirava do sério com tão pouco? 

– Será que a gente pode dormir juntas hoje? – ela falou quase sussurrando me obrigando a ler os lábios dela para entender perfeitamente a frase

– A gente pode passar a noite juntas, já dormir, eu não posso te prometer isso não! – eu já sentia aquele arrepio característico de quando ela me beija, subir pelas minhas costas

– Isso é um desafio ou uma promessa? – ela falou sussurrando bem próximo do meu ouvido, mas ainda assim distante do meu corpo, ela não era uma pedaço de mau caminho, ela era um mapa inteiro de mau caminho

– E isso importa? – eu respondi antes dela afastar a cabeça da minha. Eu também sabia jogar nas regras dela 

Nós não tínhamos muito mais o que falar. Ela sabia que eu não deixaria ela abusar de mim naquele corredor e além do mais não tínhamos muito mais tempo para ficarmos juntas. O intervalo acabaria dali uns 5 minutos. Resolvemos então caminhar até as meninas e dividir o resto do tempo com elas. 

O resto do dia foi um verdadeiro tédio. As aulas eram chatas e eu já tinha visto mais da metade daquela matéria no sistema online dos alunos. Depois que fiquei uns dias em casa de molho, vulgo suspensa, acabei por adiantar a matéria e tenho conseguido manter dessa forma. Lógico que só consigo isso porque a Nina está totalmente enrolada com os estudos dela e assim me deixa tempo para fazer o mesmo. Eu queria tanto ajuda-la, mas ela não me deixa nem tentar! Em falar em Nina, porque será que ela estava tão distante no horário do recreio? Nós estávamos animadas falando sobre o próximo treino do time e ela estava em outro planeta. Sorte que vamos dormir juntas hoje, assim, talvez ela me explique o que está acontecendo. 

Nunca gostei tanto de ouvir o sinal para o final das aulas. Tudo bem que eu gostava daquele momento todos os dias, mas hoje estava especialmente difícil encarar a rotina quando minha cabeça não saía da expressão ausente de Nina. Que diabos deu nela? De manhã ela estava bem, não estava? Eu teria percebido se tivesse algo errado logo cedo. Ao longo do dia ela foi indo embora, ou melhor, sua mente foi indo embora pra bem longe. Ela não estava mais entre nós e ria automaticamente quando todo mundo ria e concordava quando todo mundo concordava. Ela nem percebeu que Joguí parou perto da gente e eu quase o fuzilei com os olhos. Sela tivesse bem, teria comentado algo, eu tenho certeza. 

– Pai, vai dar aula hoje a tarde? – meu pai estava na porta de uma das salas assim que cheguei no corredor

– Oi, Beca, vou sim! Se vira para almoçar ou precisa de dinheiro? – ele já estava com a carteira na mão e só deu tempo de segurar o pulso dele para continuar falando

– Relaxa, veio! Tem comida lá em casa – ele não gostava quando eu o chamava assim e fechou a boca em uma cara de poucos amigos – só queria saber se tem problema a Nina ir lá pra casa hoje…ela me pediu e acho que ela não tá muito legal… – fui sincera e ele pareceu suavizar a expressão 

– Ela viajou o tempo todo na minha aula hoje…tive até que chamar atenção dela! – ele falou com um tom levemente preocupado

– Pois é, ela pode ir lá pra casa? – perguntei sabendo que ele não ia recusar

– Você sabe seus direitos e seus deveres, pequena padawan – eu adorava quando ele usava referências nerds comigo 

Dei um beijo em sua bochecha e segui para a porta do colégio. Do lado de fora, as meninas estavam reunidas em uma pequena rodinha conversando sobre algo aleatório e de longe eu percebi que Nina continuava com a cabeça em outro mundo. Demorei caminhando até lá vendo que ela mexia no celular digitando mensagens loucamente. Não senti o meu aparelho vibrar e eu sabia que não era pra mim. Uma pontada no meu coração fez com que eu acelerasse o passo e sem anunciar minha chegada, peguei o aparelho da mão dela. Não estava me preocupando com a pequena cena que estava armando ali. Carla, Juca e Ju pararam na mesma hora e me olharam chocadas com a atitude.

Mãe: filha, dormir na casa da Beca, de novo? 

Beca: Mãe, eu preciso conversar com ela… 

Mãe: seu pai vai ficar irritado, você sabe disso!

Beca: Bom, vocês me deram um ultimato, agora eu preciso conversar com ela…explica isso pra ele!

Mãe: ok, ok! Já entendi. Pode ir e manda um beijo pra ela

A troca de mensagens entre Beca e a mãe me deixou ainda mais nervosa do que eu já estava. Com o aparelho nas mãos, fiz uma cara de interrogação pra ela que ainda estava com a cara de choque pela atitude impensada que tive. 

Narrador 

Nina não sabia se estava mais irritada com a atitude maluca de Beca ou se com o fato de que a conversa, que ja não seria fácil, iria começar ainda pior já que ela seria forçada a contar sob a pressão da namorada. Sem falar nada, ela pegou de volta o aparelho das mãos da namorada, se despediu rapidamente das meninas e saiu andando em direção a casa de Beca. Ninguém entendeu nada quando Beca fez um aceno para as meninas e correu atrás dela, a alcançado já na calçada do outro lado do colégio. 

– Ei, o que está havendo? – Beca perguntou puxando Nina pelo braço

Elas já haviam dobrado a esquina e não estavam mais na frente do colégio. Caso discutissem, ninguém veria, ou pelo menos, quase ninguém. 

– Qual foi da sua atitude, Beca? Porque você tirou o celular da minha mão daquele jeito? – Nina falou e os olhos dela pareciam prestes a desabar em lágrimas

– Você passou o dia todo distante e quando eu saio vejo você toda empolgada trocando mensagens com alguém… – Beca falou como se fosse óbvia sua reação naquela cenário

– E aí você achou que eu estava falando com a minha amante enquanto esperava você sair? – Nina riu com o deboche em seus lábios

– Eu…não sei…desculpa tá! Eu só perdi a cabeça porque passei o dia todo tentando entender a sua! – Beca falou tentando não expressar toda a frustração que sentia naquele momento

– Nós precisamos conversar, Be – Nina falou deixando lágrimas escorrerem pelo seu rosto

– Ei, relaxa, vai! A gente não vai terminar por causa de uma crise de ciúme boba, né? – Beca riu se aproximando de Nina enxugando algumas lágrimas que corriam por seu rosto

– Por isso, não, mas talvez você queira terminar comigo quando eu te contar tudo… – Nina falou apertando os dedos entrelaçados com os de Beca 

O clima não ficou tranquilo depois da rápida conversa na calçada. Beca queria muito saber de tudo, mas se era algo que estava deixando Nina daquela forma, ela sabia que não poderiam conversar aquilo de qualquer forma. Elas fizeram o caminho até a casa da menina em silêncio mas sem desgrudas as mãos em momento algum. Era como se elas estivessem tentando provar um para a outra, e para si mesmas, que iam fazer de tudo para ficarem juntas, não importa o que viesse pela frente.

Mari Veiga

Autora, escritora, um pouco louca e uma mente hiperativa que acha que pode mudar o mundo com suas palavras.