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Faltou coragem

Era o lugar que eu adorava estar. Todos os dias na hora do almoço eu parava ali naquele banco no canto da praça para comer o mesmo sanduíche de ontem e de amanhã. Ficava debaixo de uma árvore e não batia sol nenhum. Quando estava calor, era ótimo e quando estava frio também. Não tinha nada demais no local, e eu estava sempre sozinha. Eu ia ali todos os dias, só pra poder olhar ela.

Faziam duas semanas que eu tinha descoberto aquele cantinho. Diferente do pessoal do escritório eu gostava de almoçar na praça pra sair um pouco daquele clima pesado de escritório que eu já tinha que aturar o dia inteiro. Numa terça feira qualquer eu estava andando por ali procurando um lugar para sentar quando avistei de longe um corpo pequeno fazendo ginástica ou alongamento ou pilates, não sei. Eu só sei que eu não conseguia parar de olhar para aquele corpo em movimento. Sentei em um banco próximo que me dava uma visão completa para aquela arte sendo pintada ali na minha frente.

O corpo dela se movia de uma maneira nova, que eu nunca tinha visto. Eu não sabia o nome dela, muito menos a idade e nem nada, só sabia o quanto ela era linda. Levantava os braços esticando todo o corpo, pernas dançavam no ar enquanto provavam sua elasticidade, o sorriso vinha depois da realização de algum movimento mais complicado. A calça grudado deixava em evidencia as coxas bem definidas, o cabelo preto preso em um rabo de cavalo se movimentava deixando a mostra aquele pescoço que era clarinho mas queimado de sol. A blusa, normalmente branca ou de cor clara deixava a mostra o top que ela usava por baixo. Era magrinha, tinha um corpo em sintonia, cintura, coxas, pernas, bunda. Era uma obra de arte, linda.

Eu não teria coragem de ir falar com ela, ficava feliz em admirar os movimentos que ela fazia, as pinturas que poderiam ser feitas, as fotografias mentais que eu tirava naquela minha 1 hora de almoço, onde todos os dias desde daquela terça feira eu ficava sentada apreciando aquela escultura de Deus. Imaginava as vezes como seria a voz dela, como seria o toque da pele dela, o beijo dela, o gosto dela. Eu ficava no escritório contando os minutos para descer e poder ficar apreciando toda aquela maravilha que eu tinha ganho de presente dos deuses.

Hoje é quarta feira, eu ainda estava no escritório e faltavam 20 minutos para eu descer para o almoço. Não via a hora de ver aquela menina linda por quem eu estava apaixonada sem nem mesmo falar ou conhecer. Meu chefe me liberou para o almoço, desci rapidamente pelo elevador do prédio com o sanduíche feito em casa nas maos. Andei em passos rápidos para o meu banco de sempre. Eu tinha cia hoje. Tinha uma mulher sentada no canto do banco. Estava apreciando a mesma visão linda que eu. Mas parecia despreocupada, despretensiosa, como se estivesse olhando para o nada, sem realmente enxergar.

Tomei meu lugar na outra ponta do banco, e fiquei ali me deliciando com a imagem daquela mulher linda. Fiquei imaginando como seria se eu fosse lá falar com ela, como seria a voz dela, como ela reagiria se eu dissesse que fico ali todos os dias olhando e sonhando com ela. Sera que ela ia me achar uma louca? Ou será que ia gostar de saber que tem alguém que se apaixonou por ela sem nem mesmo ter falado com ela algum dia? Será? Acho que o melhor seria ficar aqui mesmo olhando, babando, sonhando.

Minha hora do almoço estava chegando ao fim, meus últimos 20 minutos, que eram os mesmos últimos 20 minutos da minha amada. Ela já estava terminando o exercício dela. Foi quando a mulher sentada na outra ponta do banco se levantou, jogou o papel que estava na mão no lixo e foi andando em direção a minha amada. Eu não entendi nada, ela iria só passar por ali né? Mas não. Ela parou, interrompeu o exercício dela, se apresentou, sorriu e ganhou um sorriso de volta.

Eu chorei. Depois de algumas semanas ali parada apreciando a minha amada, sonhando com tudo que eu poderia ter falado, ter feito. Eu poderia ter sido feliz com ela, mas não tive coragem de levantar e ir até lá. E uma outra qualquer que apareceu em um dia teve. E eu perdi a mulher que poderia ser o amor da minha vida, por falta de coragem. Eu a perdi. A perdi pra sempre.