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Eu só voltaria por ela

Que saco, Marília. Só você mesmo para me fazer voltar para esse fim de mundo. Dentro do táxi, Jaqueline tentava conter a guerra que acontecia dentro dela. Seu coração sofria pela perda repentina de uma pessoa tão especial quanto Marília e sua cabeça apenas a recordava daquele lugar que ela jurara tantas vezes que não ia mais voltar. A cidade onde ela cresceu não tinha mais que quatro mil habitantes e ela não sabia se estava pronta para rever aquelas pessoas, ainda mais no velório dela.

Deixa de frescura, Jaqueline. Faziam quase cinco anos que vocês nem se falavam. O incomodo de Jaqueline era tão claro que o motorista perguntou se queria que ele parasse em alguma lugar para ela beber uma água ou respirar um ar puro. Devia estar irritado com aquela viagem que estava sendo obrigado a fazer, mas também, não podia reclamar, estava sendo muito bem pago. Afinal de contas, Jaqueline agora era dona de seu próprio negócio e podia se dar ao luxo de contratar um motorista particular por um dia inteiro.

– dona Jaqueline, chegamos no endereço que a senhora me deu, é aqui mesmo?

Até o motorista se impressionara com o aspecto da cidade. Parecia que eles haviam entrado em um túnel do tempo e saído em alguma década passada. Jaqueline apenas riu do comentário, confirmou o local e pediu que ele esperasse estacionado na praça principal. Dali, ela poderia ir andando para qualquer lugar em menos de cinco minutos. A cidade era realmente pequena.

Antes de sair do carro, Jaqueline passou as instruções necessárias para o motorista, trocou o sapato de salto alto para uma sapatilha mais baixa já que seria impossível se equilibrar no salto e nos paralelepípedos das ruas. Assim que ouviu a porta bater atrás de si, as memórias pareceram apagar tudo que havia em sua mente. Lembrou de como ela e Marília cresceram em volta desta praça. No verão, se molhavam com mangueiras e no inverno tomavam banho de chuva no pequeno chafariz até que começasse a trovejar, porque água chama raio meninas, corre já daí. A mãe de Marília sempre gritava da janela da casa.

Que ironia do destino, não? Marília resolveu tirar a roupa do varal antes que chovesse e acabou sendo encontrada por um desses raios. E sua mãe falava tanto né, Mari? Jaqueline pensava, mas não tinha forças para proferir as palavras. Também não tinha quem as ouvisse, então manteve o diálogo apenas para si.

A praça continuava exatamente igual, a única diferença é que agora o chafariz vivia desligado para economizar água e não dar mosquito e na casa que Marília morava com os pais funcionava um pequeno mercadinho. Segundo a mãe de Jaqueline contava depois que Marília casou e saiu de casa, seus pais foram para um local menor no final da rua. O silêncio também continuava igual. Aquele silêncio irritante que fazia Jaqueline arrepiar.

Ela imaginou que toda a cidade estivesse no velório de Marília. Sua mãe tinha avisado em uma ligação marcada por lágrimas e palavras tensas. Afinal de contas, como contar para sua filha que a melhor amiga dela tinha morrido de uma forma tão repentina e besta? Mais uma vez, a mãe de Jaqueline, dona Nenê, insistiu para saber o que tinha acontecido há cinco anos atrás.

Jaqueline tinha conquistado a cidade grande. Voltou para o aniversário de sua mãe com ares de menina chique. Trouxe celulares e computadores cheios de funcionalidades. Comprou uma nova televisão para os pais e trocou a cama que eles dormiam há mais de trinta anos. Fez a cidade inteira ajoelhar aos seus pés com as histórias que ela contava do trânsito lotado e de como o dinheiro a fazia bem. Mas Marília não aceitava aquela Jaqueline. A amiga que havia crescido com ela se interessava por coisas menos superficiais que dinheiro. Ela não se importava com jóias e celulares, mas adorava andar de bicicleta até o riacho e tomar banho de roupa perto da cachoeira. Marília não conseguia aceitar aquela nova Jaqueline.

– Isso é inveja, é?
– Inveja de você? Você até pode ter tudo isso aí, mas você é sozinha

Marília e Jaqueline falaram coisas que não deviam uma para a outra.

– Eu sou sozinha porque eu quero!
– Mentira. Você é sozinha porque não ama ninguém, ama só a si mesma.

Marília saiu arrastando o pé e levantando poeira. Jaqueline não respondeu e não correu atrás dela. Voltou para sua vida de dinheiro, ficou ainda mais bem sucedida e nunca mais apareceu por aquelas bandas.

As lembranças ainda doíam em Jaqueline. Porque ela não ligou para Marília nos aniversários? Ou quando ela soube que seu pai havia morrido? Ela tinha sido uma amiga horrível e tudo que ela mais queria era ser mais do que amiga de Marília. Nunca teve coragem de correr atrás da amiga para dizer que que ela amava uma única pessoa. E essa pessoa era ela. Agora não adiantava mais. Ela tinha partido pra sempre e Jaqueline seria para sempre sozinha.

A cidade inteira realmente estava reunida no velório de Marília. De longe, Jaqueline viu a mãe da amiga agarrada ao viúvo. Viu sua mãe e seu pai perto deles. Bateu uma vontade enorme de correr até dona Nenê e pedir um pouco de colo. Como dizer a ela que seu coração havia se despedaçado de vez? Como dizer a ela que os cinco anos sem falar com Marília eram causados por um amor incontrolável que ela sentia por ela? Como aparecer ali, na frente da cidade inteira e derramar tudo que havia de amor dentro dela em cima de um caixão? Como estar naquela cidade sem Marília?

Jaqueline suportou o aperto em seu peito até o padre terminar a oração que fazia, viu quando começaram a abaixar o caixão no buraco, mas não teve forças para permanecer ali. Seu peito ia explodir em lágrimas e arrependimentos. Correu de volta para o carro de seu motorista.

– dona Jaqueline, a senhora precisa de algo? – o motorista se assustou com o estado que ela havia chegado
– vamos embora daqui. agora. por favor.

A velocidade que o carro foi atingindo fez com que eles estivessem fora da cidade antes mesmo que o velório tivesse terminado. Ela não havia falado com ninguém, mas da forma que ela conseguiu, se despediu de Marília. Secou as lágrimas e voltou a ser a Jaqueline que ela era longe daquele fim de mundo. Prometeu que nunca mais pisaria por lá, afinal de contas, não havia mais Marília para fazê-la voltar.

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