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Estranha

Segunda-feira era o dia que ela acordava às 5 horas da manhã e saía para correr. As terças, ela caminhava até o café da esquina e passava horas trabalhando no seu notebook, às vezes revezando e conversando com a atendente. As quartas, ela passava à tarde no parque com a sobrinha. Ela não tinha filhos, vivia sozinha. As quintas, ela voltava a trabalhar nos seus prazos e petições. Mas dessa vez era em casa, eu conseguia a ver usando seus óculos, com seus cabelos longos presos em um coque frouxo no alto da cabeça, e sua concentração… Ah, sua concentração… Era uma coisa incrível, nada a penetrava.  As sextas, ela saía para o abrigo de animais e ficava horas e horas ajudando-os. Nos finais de semana, eram atividades variadas. Nos finais de semana, ela não tinha rotina, ela fazia o que queria. Enquanto eu continuava a observá-la, sem nenhuma coragem de me aproximar.

Na semana que vem vai completar dois anos que ela se mudou para o prédio da frente. Faz dois anos que a vejo existir em seu mundinho, sem nunca aparecer com ninguém, nem se aproximar de ninguém. Enquanto eu me apaixonava aos poucos. Me encantava com sua beleza e sua agenda lotada. Sua dedicação e amor a sua família e trabalho. Eu já tinha perdido as contas de quantas vezes pedi aos céus para ser notada por você. Todo dia cedo, antes de trabalhar, eu parava para te olhar. Quantas vezes havia chegado atrasada no trabalho sem motivo algum? Quantas vezes mudei meu trajeto para poder te ver mais um pouco?

Hoje era sábado, o dia que acordei decidida a me fazer ser percebida. Queria viver na sua bolha, queria entrar na sua vida. Vesti meu vestido de bolinha azul, coloquei minha rasteirinha nos pés, e conseguia ver o quanto eu iria contrastar ao seu lado, com suas saias de pregas, saltos e blusas sociais. Mas hoje eu não iria trabalhar, iria sentar na porta do meu prédio e esperar que você saia.  Eram exatas 5:30 da manhã e eu já estava na porta. Esperando que hoje fosse um dos dias que você resolvesse sair e não ficar sentada no sofá.

5:35 _ A ansiedade corria pelo meu corpo.

5:45 _ O porteiro já estava começando a me olhar estranho.

5:55 _ Talvez fosse bom sentar na poltrona e observar através do vidro.

6:05 _ Será que tinha acordado cedo demais?

6:10 _ Será que se eu atravessasse a rua e tocasse o número do seu apartamento você me acharia louca?

6:15 _ Isso é uma péssima ideia. Você vai me chamar de louca.

6:25 _ Peguei algumas flores do ambulante que estava começando a arrumar sua barraca em frente ao café.

6:35 _ Voltei saltitante a frente do prédio.

6:45 _ Talvez tocar sua companhia não seja uma má ideia.

6:55 _ O porteiro ainda está me encarando estranho.

7:00 _ O PORTÃO FINALMENTE ABRIU. Você saiu de lá, com uma pasta na mão, estava deslumbrante com uma calça jeans, tênis e uma regata. Era a primeira vez que eu te via com uma roupa tão de dia, tão natural. Eu queria sair correndo e te beijar.

Atravessei a rua decidida. Parei na sua frente, o coração batucando, com minhas mãos cheias de flores e estendi até você. Disse que era para você. Você fez uma expressão confusa e eu comecei a falar compulsivamente.

– Por favor, pegue as flores. Comprei especialmente para você. Faz dois anos que você se mudou para frente do prédio e nesses últimos tempos, a única coisa que fiz foi te observar. Estava viciada e obsessiva, sem coragem de me aproximar. Talvez você fosse me achar louca, ou eu seja louca, mas hoje acordei com uma vontade maluca de te conhecer além das janelas de vidro e meus óculos escuros. Talvez eu seja uma jovem alucinada, que não saiba nada na vida, mas acredita em amor à primeira vista. E você é linda, nunca te vi com ninguém e acho que eu deveria ser a pessoa que vai estar com você nas suas próximas corridas da madrugada ou nas suas atividades diárias. Eu só quero uma chance para te conhecer de verdade e você me conhecer de verdade. – Depois que me calei, você ficou horas me olhando, extremamente calada. Você estava com uma daquelas expressões quando analisava as coisas, principalmente quando eram coisas do trabalho. Você poderia me chamar de louca, perseguidora e stalker, mas você apenas virou para mim e disse:

– Você quer caminhar comigo hoje? – Com o sorriso mais lindo do mundo. E ali, depois de anos, finalmente fui percebida.

*Me siga no instagram: @brunafentanes*

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