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ESPECIAL DE JUNHO – PARTE 1

Eu estava sentada no mesmo banco há pelo menos duas horas, desde que parei de organizar minhas caixas na minha nova cozinha. Explorar minha nova vizinhança era muito mais atraente, sobretudo com aquele clima noturno. O inverno tinha chegado mais cedo esse ano, estava 15° graus, e isso era bem frio para quem estava vindo de uma cidade litorânea que fazia calor o ano todo.

Estava vivendo minha nova independência sem ter obrigação de avisar ninguém onde estava indo. O assento que eu estava mantendo aquecido era forrado de couro, e depois de beber um percentual bem alto de álcool para noite, começava a me sentir mais confortável. As luzes néon pendurados no bar ofuscavam minha visão, e todas aquelas garrafas de bebida deixava evidente o quão longe estava de casa.

O resto do meu quinto campari da noite deslizou elegantemente pela minha garganta. Aquilo tinha gosto de solidão, talvez eu não estivesse preparada para morar tão longe de meus pais. A mudança era fundamental para meu novo cargo de chefe do corpo de bombeiros daquela cidadezinha. Deixar a capital foi uma escolha e agora eu deveria lidar com ela.

Com um sorriso esperançoso, balancei o copo do meu coquetel na minha frente. O barman despejou aquele líquido vermelho no meu copo, ao mesmo tempo em que balançava a cabeça negativamente, me julgando.  O gosto amargo da bebida parecia ter espalhado por todo meu corpo naquele momento e comecei a ficar confusa com tanta luz.

– Esse é último, querida. – Ele disse, secando o balcão ao meu redor. Franzi minha testa e fiz beicinho, mas ele não pareceu se incomodar, já se afastando de mim para atender outros.

O bar se encontrava bem na esquina do meu novo apartamento, uma área coberta de parques. Resolvi entrar porque parecia aconchegante e aquecido, agora parecia quente demais, começava a suar debaixo do meu sobretudo e minha touca. Embora isso pudesse ser efeito da quantidade de álcool no meu organismo.

– Você não parece o tipo de pessoa que frequenta um lugar como esse. – Disse a mulher a dois bancos de distância.

– Um lugar como o quê? – Perguntou o barman.

A mulher o ignorou e se aproximou mais, sentando no banco vazio ao meu lado.

– Não entendi o que isso deveria significar. – Falei antes de tomar um gole. – Posso estar aqui como qualquer outra.

– Ah… Você sabe. Sozinha, na noite, com essa carinha de indefesa.

– Isso não seria um comentário que um cara faria? – Bufei. – Eu luto jiu-jitsu. Sei muito bem me defender sozinha.

– Na verdade, olhando melhor, você parece ser um pouco violenta. – A mulher sem nome comentou, enquanto me fuzilava com o olhar.

– Não sou violeeenta. – Falei, um pouco com a voz arrastada.

Ela deu uma risadinha. Havia algo nela, uma confiança que exalava para todos os cantos. Esse algo me fez virar e dar uma leve conferida nela. Mesmo sentada, conseguia perceber que era mais alta que eu, seus olhos cor de castanho acinzentado realçavam com a cor dourada dos seus cabelos. Ela vestia um tubinho preto que encaixava perfeitamente no corpo, e por alguns segundos, fiquei vidrada em sua beleza.

– O que você está bebendo? – Ela perguntou, me tirando da minha hipnose.

– Qualquer coisa que eu mesma esteja pagando. – Falei, sem esconder meu melhor sorriso paquerador.

Baixar a guarda para uma mera desconhecida parecia uma boa pedida no momento, principalmente depois do meu sexto copo. Nós flertaríamos, eu iria esquecer a solidão e seguir para casa.

Ela sorriu de volta.

– Augusto. – Disse, levantando um dedo. O barman se aproximou, então esse deveria ser o nome dele.

– O de sempre? – perguntou o barman na ponta do balcão.

A mulher assentiu. Era uma cliente frequente. Devia morar ou trabalhar por perto.

Franzi o cenho quando Augusto pegou meu copo em vez de enchê-lo. Ele deu de ombros e virou as costas.

– Eu falei que era o último.

Em meia dúzia de goles, a desconhecida tomou uma quantidade suficiente de cerveja barata para ficar pelo menos perto do meu nível de bebedeira. Fiquei contente. Eu não teria que fingir que estava sóbria e a bebida que ela pediu me revelava que não estava tentando me impressionar.

 

*Nota da autora: O mês de junho é especial pra mim, além de ser o mês do orgulho LGBT, é o mês do meu aniversário (inclusive é amanhã aaaaaa). Enfim, esse mês o conto vai ser dividido em quatro partes, toda segunda de junho vai ter um post meu. Curtam essa história, beijos e até semana que vem!*