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Entrevista com o diretor José Agripino

Todo mundo sabe da minha admiração pelo Lumika e pelo Leve-me para sair, né? Bom, rodando pelas interwebz um dia desses achei essa entrevista com o Zé Agripinho, diretor do Leve-me. E, logicamente, trouxe para dividir com vocês. 😉

José Agripino tem 27 anos e nasceu na cidade de Patos, na Paraíba. E seu principal foco nos trabalhos áudio-visuais é a questão jovem. E jovem LGBT, ou gay, mais precisamente. Ou ainda, novas formas de vivenciar a sexualidade. Tais temas estiveram presentes em seus dois projetos como diretor: “Poliamor” e “Leve-me Para Sair”.

Este último é resultado de um coletivo de criação, o Lumika, e traz diante da tela dez adolescentes – meninos e meninas – que falam sobre suas vivências e descobertas afetivas, românticas e sexuais. O curta ganhou prêmios em festivais e agora ganha boas visualizações na internet.

Nesta entrevista, Agripino fala sobre o processo de criação desses trabalhos, sua predileção por temas jovens e o futuro das estéticas e linguagens áudio-visuais.

Como começou seu envolvimento com o cinema?
Eu vim para São Paulo estudar áudio-visual, diz o curso de bacharelado em áudio-visual no Senac. E desde o curso comecei a produzir. Fiz muita produção, e na faculdade fiz minha primeira direção. Depois fiz meu segundo curta, e agora tenho outros projetos de direção. Sair de vez da produção e partir pra direção. De certa forma.

Como foi a criação do primeiro curta, “Poliamor”?
Poliamor foi minha primeira direção. Eu lembro que em 2005 eu tava lendo uma revista e tinha uma matéria sobre poliamor. E eu gostei muito do assunto, achei interessante. Aí, em 2009, na faculdade, a gente tava estudando documentários e tínhamos de propôr projetos de documentário. Aí lembrei dessa matéria, que eu tinha guardado. Aí fui pesquisar na internet, e achei muita coisa. No Orkut, tinha uma comunidade chamada Poliamor Brasil…

O que é poliamor afinal?
Poliamor… uma definição clara e precisa é complicada… poliamor, eu defino hoje, como a possibilidade de você se relacionar com mais de uma pessoa ao mesmo tempo. E isso é um acordo, e todo mundo estar consciente. O poliamor tem diferentes modelos, às vezes uma pessoa se relaciona com uma segunda e uma terceira, mas essas não se relacionam entre si. E às vezes todo mundo se relaciona, três pessoas entre si… poliamor não tem um modelo certo.

E como foi para escalar os entrevistados do filme?
Primeiro processo: achar as pessoas no Orkut, ler muita história, achar as histórias que eram tocantes e tudo o mais… e depois disso, uma busca de achar as pessoas no mundo real. A gente marcava num bar, na Avenida Paulista, por exemplo, e falava o que era o filme. E as pessoas topavam ou não. Apareciam pessoas curiosas, falavam, mas não topavam participar do filme. E outras toparam.

E a repercussão do filme?
Aprendi muito mais sobre relacionamentos mostrando o filme. Mostrei o filme em várias cidades, e tem reações curiosas. Numa universidade em Aracaju, as pessoas não tinham nenhuma reação, nem respiravam. Em Atibaia, uma pessoa saiu gritando que o filme era promíscuo, imoral. Isso me chocou um pouco. Acho o filme bem família, super cuidadoso ao falar do tema. E mesmo assim ficaram tocados a ponto de sair da sala… é algo bem curioso.

Em seguida você dirigiu “Leve-me Para Sair”, que também é um documentário, percebo um parentesco entre os dois filmes, alguma coisa no estilo, nas pessoas…
Eles têm uma forma parecida, são dois filmes de entrevistas… no “Leve-me…” eu tava muito mais consciente de várias coisas… e eu não tava sozinho no processo. Ele é um projeto do coletivo Lumika, que é um coletivo de criação áudio-visual que tem o objetivo de produzir mídia sobre diversidade sexual, identidade de gênero e afins, direcionada ao público jovem. E ele surgiu de um grupo de amigos, que a gente via vários casos de homofobia… então a gente pensou, o que fazer pra ajudar a diminuir isso? Então pensamos que trabalhar com o público jovem, fazer essa conscientização, colocar esses personagens em pauta… então o Lumika surgiu nesse movimento. E nosso primeiro objetivo era fazer uma websérie de ficção, para o público jovem gay. E nesse processo surgiu um edital, e a gente falou, vamos colocar um projeto, e aí surgiu o “Leve-me…”. E todo ele é um processo coletivo, eu ia dirigir o filme, e assumindo a direção eu ia coordenar as coisas para ter uma voz final. Mas a partir de agora a gente vai trabalhar com a direção coletiva. E nosso próximo projeto é a nossa websérie, que vai ser publicada no nosso canal no YouTube.

Vejo em seus trabalhos uma linguagem e uma estética que me lembram muito a coisa da TV a cabo, dos clipes, da internet, e não tanto uma linguagem cinematográfica… fale sobre isso.
Essa questão é bem profunda. O Poliamor tinha uma coisa de ser um filme de entrevistas… e muita coisa que eu fiz, hoje eu faria totalmente diferente. Acho que uma das falhas é que ele fica numa coisa muito televisiva, e funcionou bem pra internet, porque é confortável de ver, funciona numa tela pequena. Mas a condução da entrevista… longe de mim querer comparar, mas eu gosto muito do Eduardo Coutinho, de criar, de conseguir no ambiente da entrevista criar uma situação que você acredita que a pessoa tá falando algo de verdade, de íntimo. E isso cria uma identidade muito forte. Meio sem querer, eu acho que eu consegui chegar nisso no Poliamor, e mais consciente no “Leve-me…” eu busquei isso. Essa coisa da intimidade na tela eu gosto muito… e agora estou pensando em fazer um falso documentário, trabalhar com ficção.

E quanto à estética?
O “Leve-me…” tinha uma clara estética, assim, o ambiente tinha uma cara definida, tinha um clipe da Rihanna, com uma luzinha de fundo, todo o tratamento de cor… foi pensado para todo aquele colorido, aquela coisa toda, feita na pós. E as projeções a gente chamava de estética tumblr, que é ampla… se você pegar as imagens que circulavam no tumblr, um ou dois anos atrás, era muito… cores fortes, um contraste mais forte… é uma imagem que foge do real. Não é uma coisa realista. E isso é muito forte no universo adolescente. A gente queria essa cor não real, esses fachos de luz nos rostos deles…

E no quesito tema, aparece bem forte a questão jovem.
Sim, eu gosto. O cinema gay em si tem muita coisa que eu gosto. “Tomboy”, acho incrível… a questão da juventude tá me retomando muito. De fato, parar pra olhar a juventude um pouco… os personagens jovens tão me chamando muito a atenção. Mas de tanto olhar o jovem, às vezes me canso. Mas é bom para ter um olhar crítico. Talvez eu ainda tenha alguma coisa da adolescência, para resolver…

E os próximos projetos, como estão?
É curioso isso… tenho alguns projetos… mas não sei se vou realizar, porque… fazer um projeto, assim, é como gerar um filho, você tem que cuidar dele… mas tenho a ideia de fazer uma série de TV, falando da afetividade do jovem contemporâneo, e que consiga dar conta disso no Brasil todo. Tem a questão da afetividade em tempo de conectividade… quero fazer um doc pra internet. E tenho um projeto que é fazer um filme sobre falar mal dos outros. Um filme que tá dentro da lógica da conversa. Será uma ficção com material de documentário.

Você nunca pensou em fazer uma coisa narrativa clássica, um filme à moda clássica?
Nossa… então, não sei… outro dia tive vontade de fazer um longa de ficção. Mas é uma coisa que nunca me interessou muito, assim. Preguiça de fazer um longa! Tenho medo… todo o processo de conseguir dinheiro, até conseguir realizar… o processo criativo é muito mais rápido do que isso. Às vezes você tem um projeto, que demora muito tempo para realizar, e o tempo passa, e aquela ideia já não significa muita coisa pra você. E fazer um filme… você vai ficar com aquela entidade durante uns dois anos pelo menos. E o longa me incomoda um pouco por isso, demora muito tempo pra fazer, pra exibir. Mas não sei. Nunca diga nunca. É legal, é um formato nobre né. Eu sou a favor de colocar os filmes na internet. Mas os meus filmes têm uma cara de internet né. Então eu fico questionando as pessoas, por quê não colocar o filme na internet? Mas tem várias questões, a experiência da sala de cinema, de ver o filme coletivamente… É sempre um jogo do que você quer com seu filme.

Quais cineastas ou filmes te inspiram?
Coutinho… pela criação dessa narrativa quase só discurso da fala… gosto muito de “Santo Forte”… gosto muito do Gondry… tem o filme da Marília Rocha, “A Falta que me Faz”… tem um filme americano chamado “O Mito da Inocência”… “Os Famosos e os Duendes da Morte”, do Esmir Filho… muita coisa…

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