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Em um quarto de hotel – Parte 2

Peguei minha bolsa e tentei controlar minha respiração. Aquela mulher com cara de menina tinha mexido comigo de uma forma que eu nem lembrava como era. As palestras da tarde não teriam nenhuma importância pra mim e mesmo que tivessem eu não seria capaz de me concentrar em mais nada depois de ser pega por aquele olhar no fundo da sala. Eu até me perdi no meio dos meus slides. Ela era tímida. Sabrina. Que nome lindo. Ela está me esperando na porta. Respira Dani, não estraga tudo agora.

– Desculpe, espero demais? – foi a primeira coisa que consegui falar para ela
– De forma alguma, foi bem rápido – acho lindo a forma que ela fala, tão mulher, mas com voz de menina
– Você quer almoçar em algum lugar específico? – eu conhecia um restaurante delicioso, mas não queria parecer mandona
– Contanto que não seja vegetariano, por mim pode ser qualquer lugar – Ela ainda é engraçada, eu preciso respirar melhor.

Depois de muitos anos vagando mundo à fora eu já tinha decidido que ia parar, mas nunca consigo. Palestras, eventos, cursos, reuniões, não importa onde seja, eu vou. É como uma formiguinha que começa no meu pé e antes que eu perceba, ela está na minha mente me obrigando a ir para outro lugar. Nunca consegui ficar mais de três meses no mesmo lugar e consequentemente, nunca fiquei mais de três meses com a mesma mulher. Já me apaixonei, mas nunca amei. E quando amei, não me apaixonei. Costumo dizer que é a vida, e só.

Levei a Sabrina naquele restaurante de carnes que eu sempre adorei. O papo era ótimo e ela me fazia falar mais do que o normal. O sorriso dela era solto, largo e super fácil. Ela ria para o garçom, para a pessoa que passava para a mesa ao lado e para tudo que eu falava. Ela tinha acabado de se formar e a paixão pela carreira e por tudo que o futuro representava me deixava ainda mais animada em conversar com aquela mulher que era uma garota.

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O almoço não terminava nunca e por mim ele poderia durar por mais um ano. Eu não sabia como ir além com a Sabrina, mas também não poderia deixar ela ir embora. Queria levar ela para o meu quarto, queria que ela me visse de outra forma e não como uma palestrante qualquer em mais um evento que ela participou. Eu precisava levar ela comigo, mas ainda não tinha pensado como, até que ela fez o que eu não sabia como fazer.

– Dani, o almoço está ótimo, mas eu preciso sair – por alguns segundos eu não chorei
– Mas já? Está tudo bem? Fica um pouco mais… – eu implorei com o olhar
– Está tudo mais do que ótimo, mas é que minha estadia no hotel termina hoje a noite
– Ah sim. E onde fica o seu hotel? – essa era a minha última chance
– Eu estou hospedada aqui nessa rua mesmo, no final dela – era do lado do meu hotel, eu quase não respirava
– Você está do lado do meu hotel, aceita uma companhia até lá? – eu não iria perder ela tão facilmente
– Seria um prazer…

Pagamos a conta juntas e seguimos a pé por uma calçada cheia de mais uma grande cidade. Eu já tinha passado por tantas calçadas, mas daquela vez era diferente. O olhar de menina de Sabrina passeava por varandas e janelas e se encantava com qualquer coisa que se movimentava perto dela. Eu achava revigorante aquela animação, aquele amor à vida que ela demonstrava.

– É aqui. Acho que já vou indo… – ela estava se despedindo e o meu hotel estava a alguns passos dali
– Que horas acaba sua estadia? – eu tinha uma última cartada na manga
– Acho que preciso desocupar o hotel até umas oito da noite – ainda nem eram seis da tarde e eu não ia desistir
– Será que você aceita uma ajuda com as malas? – com ela eu iria até o outro lado do estado só a pé
– Eu acho que seria ótimo ter alguém para me ajudar – ela também quer, eu sabia que ela me queria

O caminho do elevador foi lento e ao mesmo tempo rápido, tenso e ao mesmo tempo relaxado, eu sabia que quando chegássemos tudo ia ser diferente. Seria ela e eu naquele corredor, naquela porta, naquele quarto. O décimo primeiro andar pareceu ainda mais longe. Ela sorria sem falar nada, ela me dizia sobre seus sonhos e planos e tudo que eu conseguia pensar era em beijar aquela menina-mulher. Parei de entender as palavras quando ela se aproximou de mim, ainda sorrindo, colocou a mão na minha cintura e simplesmente me beijou. Mas já estávamos no décimo primeiro andar, o beijo foi rápido e quando me dei conta ela já estava do lado de fora do elevador, me esperando no corredor.

Autora_mari Veiga