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Em um quarto de hotel – Parte 1

Este conto está dividido em 4 partes

A voz dela. Foi esse o primeiro contato que tive com a Dani. Eu tinha acabado de me formar e achava que precisava estar em todos os eventos do mundo para ser uma boa profissional. Ilusão minha, eu sei.

Naquele evento eu já tinha assistido mais de duas horas de palestra e aguardava ansiosamente o intervalo para o lanche. O famoso coffe break. Não aquentei e levantei quando ainda faltava mais de 30 minutos para acabar a palestra. Fui me deliciar com os pãezinhos e café. E foi do lado de fora, enquanto degustava um café quente que a ouvi. Pelo que entendi depois, ela seria responsável pela última meia hora da palestra e falaria sobre um projeto que coordenou nas ultimas eleições.

Não vou conseguir explicar, mas quando aquela voz me encontrou desprevenida, uma forca estranha tomou conta das minhas pernas e quando me dei conta, estava parada na porta do auditório com o meu café nas mãos e um coração acelerado. E então, pude vê-la.

Segura, forte e imponente, Dani dominava aquele pequeno palco enquanto slides corriam na tela atrás dela. Cabelos pretos e presos, uma pela bem morena e um corpo delineado pelas mãos de um artista, ela conseguia deixar todos naquela sala encantados, inclusive eu. Durante o tempo que ela falou, o café nas minhas mãos esfriou e eu fiquei com um copo cheio sem saber onde colocar. Meus olhos acompanhavam cada movimento de Dani no palco. Era como se ela dançasse, era uma coreografia altamente ensaiada e perfeitamente criada. Ela era visão dos céus.

Ainda faltavam dez minutos para acabar o tempo quando seus olhos grudaram nos meus. Entre um dado e outro que ela apresentava, ela deixou que a minha posição, de pé na porta do auditório, a chamasse atenção e nossos olhares entraram em uma sintonia única que só eles saberia explicar. Eu perdi o ar, perdia a força e os movimentos. Pelo que me lembro, ela perdeu o rumo de alguma frase, mas não deixou que ninguém percebesse.

E então, seu tempo acabou. Começava o momento mais importante dos eventos: era quando trocávamos cartões, emails, telefones e as redes sociais. Era também o momento que os palestrantes recebiam uma enxurrada de perguntas, duvidas e pedidos de emprego. Eu não consegui me mover. Não conseguia falar com ninguém.

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De longe, acompanhava os movimentos dela. Pude perceber que seu sorriso era enigmático, ela não abria muito a boca e nem mostrava os dentes quando sorria. Ela falava com todos a sua volta, mas sua voz era baixa, discreta e sem muita força, parecia que na sala o microfone havia distorcido isso. Ela era ainda mais linda do que eu pude perceber e acabei esquecendo que o copo de café frio ainda estava nas minhas mãos.

Puxei o ar bem fundo e fui pegar um refil do líquido preto que tanto eu gostava. O barulho dele batendo no copo de plastico me fez viajar para uma galáxia diferente onde eu via Dani deitada em minha cama, enrolada em meus lençóis com os cabelos soltos no meu travesseiro. Meu deus, que mulher maravilhosa ela era nos meus pensamentos:

– Você não gostou muito da minha palestra – o café que saía da garrafa foi parar no meu dedo com o susto que levei
– Desculpe..voce me assustou – foi tudo que eu consegui responder a ela
– Eu que me desculpo, voce está bem? Não queimou o dedo? – ela veio correndo com um guardanapo
– Está tudo bem. O café nem está tão quente assim – estava quente, mas eu não sentia nada
– Eu sou a Dani, prazer – ela apertou minha mão e eu quase desmaiei
– Prazer, sou Sabrina
– Você não gostou da minha palestra não é, Sabrina?
– Eu adorei, os números, o seu caso…foi…realmente…

Eu estava perdendo as palavras. Como eu iria dizer que passei meia hora olhando para ela, mas não escutei nenhuma palavra que ela falou? Ela realmente tinha prestado atenção em mim? Porque será que ela estava dizendo que eu não tinha gostado? Eu estava suando e o café nas minhas mãos balançava no copo que estava nas minhas mãos tremulas.

– Você esteve de pé o tempo todo. Quis sair e não teve coragem? – Então ela tinha reparado em mim
– Eu só estava cansada de ficar sentada, mas gostei da sua palestra – eu consegui responder uma parte da verdade
– Eu entendo, esses eventos são sempre tão longos… – ela estava realmente conversando comigo
– Mas são importantes, conhecemos muitas pessoas… – e eu já ia começar a falar de trabalho
– Assim como eu te conheci – e felizmente ela me interrompeu com um belo sorriso acompanhado
– Assim como nos conhecemos… – ela me hipnotizava de uma forma diferente, eu não saberia explicar
– A próxima palestra não tem muito a ver como a minha área, estava pensando em sair mais cedo para almoçar, me acompanha? – ela estava realmente me chamando para almoçar?
– Mas…voce…almoçar…. – o que estava acontecendo comigo que eu não conseguia falar nada?
– Se voce quiser assistir, sem problemas, não precisa sair por minha causa – eu não a perderia
– De forma alguma, adoraria almoçar com você
– Vou pegar minha bolsa e te encontro perto da porta em cinco minutos

Apenas acenei com a cabeça, esperei ela sair e voltei a respirar. Foram longos minutos sem conseguir inalar o ar até os pulmões, foram longos minutos imaginando que a sala estava vazia e que por aquele tempo só existia eu e a Dani no mundo. Foram longos minutos imaginando quem seria aquela mulher por baixo da casca de empresária. Apenas bebi o café, já quase frio novamente, de uma vez só e segui para a porta. O evento acabou de acabar para mim.

Autora_mari Veiga

1 Comentário

  1. Pingback:Em um quarto de hotel - Parte 3

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