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DUST TO DUST – CAPITULO XX

FRANCIELE POV

Inúmeras vezes a vida nos pega de surpresa, as coisas acontecem rapidamente, quando você menos espera tudo que você julgava ser bom para si já não é. Isso acaba fazendo com que você se irrite com Deus, e coloque a culpa Nele por tudo de errado que está acontecendo, no entanto, quando as coisas estão dando certo, mal pensamos Nele para agradecer. A vida me pegou de jeito, me fez querer ser melhor do que eu era. Colocou-me diante de tantos planos e sonhos, de uma felicidade que não cabia dentro de mim, meu corpo era pequeno para tantas sensações maravilhosas. Um simples sorriso ou suspiro fazia com que o mundo inteiro broxasse uma essência de paz e felicidade ao redor de todos. Estava tudo tão em sintonia, talvez eu não soubesse o que havia após a morte, mas no fundo de minhas crenças iríamos para um lugar feliz, onde não existia dor, e neste momento eu me sentia assim, sem dor, sem ver a maldade, apenas via a felicidade e o amor, meus olhos eram outros.

As surpresas da vida por outro lado nos devasta, deixa-nos sem rumo certo, nos arranca tudo de melhor que temos em apenas segundos. Demoramos meses ou anos para conseguirmos algo de bom, mas a surpresa desagradável nos tira em apenas segundos.

O quão importante os segundos são? Eles podem salvar vidas, nos desviar de acidentes ou de nos prevenir deles. Podemos ajudar alguém, segurar pelo braço antes de atravessar rua, dar um abraço, dar um beijo, dizer que ama naqueles segundos finais da vida. Há tanto a se fazer em segundos que não sabemos o quanto eles são importantes e nós os desprezamos.

A dor é algo que demora a ir embora, ela simplesmente chega e se hospeda em você e não tem tempo para ficar ou ir. Ela permanece conosco tempo indeterminado, tempo que nós permitimos ou não, tempo necessário ou não.

As surpresas nunca param. O destino gosta de brincar, aliás, o destino existe? O acaso existe? Destino se caracterizaria como a predeterminação da vida de uma pessoa, em relação a tudo que ela viverá ou, pelo menos, dos acontecimentos mais importantes. O acaso, por outro lado, seria quase o oposto no contexto dessa discussão, ou seja, seria uma alternativa à ideia de destino: ao invés de ter tudo traçado, nem tudo (acaso “moderado”) ou até nada (acaso absoluto) estaria predefinido para um indivíduo, sendo os fatos de sua vida um produto do acaso, isto é, aleatórios.

Não sei qual é o meu caso se é destino ou acaso, sei que minha vida dá voltas, no entanto sempre volta para onde tudo começou: Catarina. Ela me causava as melhores sensações que alguém poderia me proporcionar como também me destruía e me deixava sem nada, arrancava ferozmente minha paz.

Há horas ela estava em meus lábios, entre beijo e outro, cochichava que sentiu minha falta, ela estava ali, entregue a mim como fez uma vez, eu me permiti novamente a ela, não poderia negar o quanto eu sentia a falta dela, de seus beijos, seu toque, seu corpo, seu calor junto ao meu. A noite passou e o dia veio cheio de surpresas, ela caiu, prontamente fiquei preocupada e fui ao encontro dela, eu estava ali, entregue, e ela veio com suas dúvidas.

Meu espírito não está mais preparado para aguentar coisas ruins novamente, não com Catarina. Agora estou aqui, aguardando meu voou para voltar ao Rio. Minha estadia se estenderia até amanhã, no entanto, resolvi arranjar uma desculpa que foi convincente até mesmo para Ana, disse que surgiu uma grande cirurgia e que eu deveria partir. Julia disse o quanto estava feliz com minha aproximação com sua mãe, que realmente esperava que as coisas se ajeitassem para nós, agradeci educadamente, mas minha mente não estava pensando no melhor da situação que havia se formado, meu muro de proteção estava se erguendo novamente.

– Doutora Franciele? – Escutei uma voz vinda de trás de mim e logo a imagem da jovem mulher se formou diante de mim.

– Olá Estefani! – Sorri ao ver a aeromoça que conheci quando desembarquei aqui em Florianópolis. – Que diferente a senhorita fica sem aqueles trajes de uniforme. – Falei a analisando, e realmente ela estava linda.

– Obrigada. – Respondeu ruborizada, então compreendi que minha fala a deixou envergonhada – Já está de ida para o Rio?

– Sim, tive um contratempo e estou voltando para a vida normal, minhas pequenas férias acabaram. – Sorri.

– Pelo jeito iremos viajar juntas. – A olhei com o cenho franzido. – Estou indo para o Rio, minha próxima viagem sairá de lá dentro de alguns dias. – Falou me mostrando a passagem.

– Você vai gostar de lá. – Falei olhando para o relógio de pulso. – E você conseguiu conversar ou saber o motivo do seu não noivado?

– Ah, talvez a vida tenha me tirado esta coisa ruim para me dar uma melhor. – Tomei um pouco do café e ergui a sobrancelhas para ela. – Descobri que ele estava com outra, então toda aquela parte de chorar deixou de existir.

– A vida é cheia de surpresas, tanto agradáveis como desagradáveis. – Falei. – Por favor, sente-se. – Ofereci a cadeira a minha frente.

– Obrigada. – Estefani falou sentando-se e ajeitando o vestido em que ia até a altura de suas coxas, um vestido casual, de um azul bebe, o que fazia seus olhos realçarem, ela realmente estava linda e bem diferente. – Tem algo de errado comigo?

– Claro que não. – Falei pensando em uma desculpa rápida. – Gostei do tom de seu vestido.

– Ah, sim. – Respondeu me olhando e rindo. – Contei para minha mãe que havia te conhecido e ela realmente surtou, pediu uma foto sua.

– Ah, não não. – respondi rindo – Não sou artista para tanto assim.

– É que você não faz ideia do quanto eu falava de você naquela época. – A olhei com espanto. – Não se preocupe, não sou maníaca ou algo assim, apenas uma menina que sonhava em fazer medicina e ficava horas lendo sobre isso. – Falou descontraída.

– Já ia chamar a segurança. – Falei fazendo-a rir.

O som do aeroporto informava que o embarque do voo tinha começado e assim ambas foram para a fila.
Encontrei a poltrona e logo fui me ajeitando, e então de cabeça baixa vejo os pés da pessoa que sentaria ao meu lado.

– Quando você disse que a vida é cheia de surpresas, não saberia que seria todas agradáveis hoje. – Estefani estava com um sorriso largo me olhando.

– Não acredito que será você aqui. – Apontei para a poltrona do lado, Estefani apenas sorriu e balançou a cabeça positivamente. – Coincidência ou não, estou feliz que alguém como você compartilhará este breve momento comigo, não costumo gostar das pessoas que sentam ao meu lado.
Estefani sentou ao meu lado e nunca tinha tido uma conversa tão leve e boa, até tinha me esquecido de Catarina.

Já escutei que quando você se sente confortável e bem com alguém que você acaba de conhecer, dizem que estas pessoas tem um espirito de luz, isso falando em este negócio de vida a pós a morte, não sei bem, vou colocar um lembrete mentalmente para quando chegar no Rio procurar um lugar onde eu possa conhecer, mas falando cientificamente, vem da oxitocina, um hormônio que é liberado pelo cérebro quando estamos numa situação de bem-estar, relaxamento, juntamente com a dopamina, esta que todos nós conhecemos, mas talvez tudo isso esteja numa coisa só.

– Divagando doutora? – Estefani estava me olhando com um sorriso leve em seus lábios.

– Me desculpe às vezes me perco em meus pensamentos e me esqueço do mundo real aqui. – Respondi descontraída.

– Essa não é a primeira vez que vejo isso acontecer com você, e olha que nos encontramos duas vezes. – Respondeu franzindo o cenho.

– Certo, então me desculpe, vou tentar ficar mais aqui, do que aqui – Falei apontando para minha cabeça rindo.

A viagem não fora tão demorada quanto eu esperava, conversar com Estefani me trazia uma paz interior e me fazia esquecer-se de Catarina, mesmo que fossem por breves momentos.

Ela por sua vez, falava muito, na maioria do tempo eu apenas concordava ou ficava apenas em silêncio me concentrando no que ela falava. Contou-me tantas coisas que as vezes eu me perdia e pedia que ela repetisse. Desta vez eu não dormi a viagem, Estefani não precisou me acordar, pois ela quem me manteve acordada.

No desembarque no Rio, Estefani estava olhando tudo ao redor com muita atenção, seria sua primeira vez nesta cidade maravilhosa ainda mais no movimento que ainda está por causa do carnaval.

– Você sabe onde posso pegar um táxi? – Estefani me perguntou.

– Você pode ir ali. – Falei apontando para onde os taxistas ficavam. – Mas creio que você ficará um tempo grande no transito, a cidade está cheia.

– Ah. – Estefani mudou o olhar e vi que tinha um desanimo em seu semblante.

– Mas posso te dar uma carona e te deixar aonde você vai se hospedar. – Falei lhe oferecendo um sorriso.

– Não quero te incomodar, você é uma pessoa importante. – Respondeu.

– Estou oferecendo uma simples carona. – Falei objetiva. Ela me olhava não convencida. – Vamos menina, conheço esta cidade bem, até posso te dar umas dicas de onde ir.

– Certo você me convenceu. – Falou abrindo um sorriso.

– Vamos, Roberta está logo ali. – Falei apontando para onde Roberta me esperava. – Hola!

– Hola blanquela! – Roberta falou com um sorriso cínico no rosto. – ¿Y quién es esa niña linda?

– Esta es Estefani – Falei apontando para Estefani. – Estefani, essa é minha amiga Roberta.

– Muito prazer senhora Roberta. – Estefani falou e estendeu a mão para Roberta, segurei o riso pelo “senhora”.

– Placer Estefani. – Roberta falou apertando a mão de Estefani. – No necesitas llamarme señora, sólo de Roberta. – Estefani me olhou confusa.

– Ela disse que você não precisa chamar ela de senhora, apenas de Roberta. – Falei.

– Ah, tudo bem, me desculpe então. – Estefani falou envergonhada.

– Ela vai pegar uma carona conosco Roberta, é a primeira vez dela no Rio, então vamos deixa-la aonde ela irá se hospedar. – Roberta apenas balançou a cabeça com um riso no rosto.

O transito não me surpreendeu, estava um caos pior do que já é. Roberta falava muito com Estefani, que diversas vezes me olhava para que eu pudesse traduzir o que Roberta falava, não entendia porque Roberta não estava falando o portunhol dela.

A surpresa foi onde Estefani iria ficar, que seria na pousada dos pais de Catarina, Roberta apenas me olhou em silêncio. Sai do carro e fui ajudar Estefani tirar sua bagagem do porta malas.

– Você conhece esta pousada? – Estefani me perguntou.

– Sim, foi aqui onde fiquei quando vim a primeira vez para o Rio. É uma bela pousada. – Respondi a ajudando a levar as bagagens.

– Ainda bem que escolhi esta. – Falou sorrindo. – Hey, você não precisa carregar, eu me viro aqui. – Falou olhando ao seu redor.

– Tudo bem, sei que você não conseguirá chegar até na recepção. – Respondi sorrindo.

Seria mentira se eu falasse que todo aquele lugar estava me fazendo ter uma nostalgia enorme, além de ter uma taquicardia. Os detalhes permaneciam intactos, algumas coisas mudaram só. Na recepção, atrás do balcão havia um grande quadro com uma fotografia de uma senhora, era a avó de Catarina. Ao entrar, um tipo de sinal soou pelo cômodo, logo uma mulher já aparentando ter seus 50 anos apareceu. Era a mãe de Catarina.

– Boa tarde! – A mulher adentrou o local com um sorriso largo, apenas o parou quando deixou que seus olhos parecem em mim.

– Vou indo Estefani, foi um prazer. – Falei olhando para Estefani que prontamente largou suas bagagens e me deu um beijo no rosto.

– Obrigada mesmo Franciele, sei que sua vida é corrida e que você veio por uma emergência no hospital. – Falou tão rapidamente quanto eu pude digerir o que ela falava. – Talvez eu ainda abuse de sua boa vontade.

– Tudo bem, você tem meu número. Boa estadia. – virei os calcanhares e sai do local, chegando no carro deixando o ar dos pulmões saírem.

– Qual a probabilidade de você ter encontrado aquela cobra ali?

– 100%. – Respondi para Roberta, dando então partida no carro.