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DUST TO DUST – CAPÍTULO XIV – CARNAVAL 2017

POV FRANCIELE
Quem não gosta de uma folia não é? Estar no meio de tantas pessoas alegres, festejando não sei bem o que, mas a alegria é contagiante. Uma data que me fazia feliz, hoje me traz lembranças das quais venho lutando todos os dias.
Cidade cheia, as ruas lotadas, trânsito estava pior do que já é, e eu só queria chegar logo no aeroporto e sair do Rio por alguns dias, até o famoso carnaval passar.
Meu telefone toca, era Roberta novamente.
– Me diga que meu apartamento está em chamas, pois não é possível! É a terceira vez em vinte minutos. – Falei sem paciência.
“Calma lá branquela, quero saber se você tem certeza que não vai querer ficar.”
– Tenho Roberta.
“Não tem medo de me deixar sozinha em seu apartamento maravilhoso?”
– Espero não me arrepender.
“Certo, então qualquer coisa me liga e..”
– E nada. Vou desligar agora, quando eu chegar eu te aviso, aproveite e deixe meu apartamento inteiro. – Roberta resmungou mais alguma coisa e desligou.
O caminho para o aeroporto que não demorava muito, hoje levou horas. Cheguei em cima da hora para fazer o check-in e todo o ritual para simplesmente viajar de avião.
Consegui alguns dias de folga do hospital, que, no entanto, nesta época é muito movimentado infelizmente. Chávez quase me expulsou, pois minha resistência era grande para deixar minha “casa”.
Resolvi ir visitar uma grande amiga que fiz por causa de Catarina, a louquinha da Ana do quiosque da praia. Ela acabou me ajudando muito depois de todo meu desespero quando perdi Catarina, e desde então viemos mantendo contato. Há alguns anos ela se mudara para casar-se com Diogo, um cara incrível e que colocou ela nos trilhos. Eles agora moram junto coma mãe de Diogo que tem uma pousada na serra catarinense. Ana me convidara diversas vezes para ir visitar ela, já que em seu casamento não compareci pois estava nos EUA e também eu não correria o risco de esbarrar com Catarina, mas no final das contas ela e Catarina não mantiveram muito contato depois da vinda à Santa Catarina.
A viagem não seria demorada, iria desembarcar em Florianópolis e de lá aluguei um carro para ir até Lages, onde fica a pousada da família de Diogo. Me ajeitei em minha poltrona e relaxei o corpo e a mente.
Flashback ON 
– Roberta eu vou e deu! – falava ofegante saindo do carro.
– Franciele, você me prometeu que ia deixar esta história, mas que saco! – Roberta gritava tentando me impedir.
– Qual é o teu problema? Acho que já sou adulta o suficiente para saber o que fazer ou não.
– Não está parecendo! Você perdeu aula e estágio, está por um fio para reprovar. Você não está enxergando a loucura que está fazendo, justamente por alguém que já está com outro! – Roberta falou mais braba que o normal, e de repente vi que ela arregalou os olhos.
– Como assim com OUTRO ROBERTA? – Desta vez quem gritava era eu.
– Outro o que? – Tentava disfarçar.
– Vamos, me diga! Catarina te falou que estava com outro? – Roberta me olhava com pavor. – Vamos Roberta!
– Sim Franciele, ela voltou com o namoradinho! E tem mais.
– Meu deus, como você não me contou isto! – Estava perplexa. – Mais o que?
– Ela está grávida! – Roberta falou e foi como um soco em meu estômago, me senti enjoada, minhas pernas falharam e sentei na calçada perto da garagem de minha casa.
– Como assim grávida? Como ela pôde fazer isso Roberta? – Já estava chorando novamente, estava tudo pequeno dentro de mim.
– Fran, por isso pedi que você esquecesse esta história de Catarina. Você sabia que não seria fácil, fora que a família dela não aceita de jeito algum. Ela se viu obrigada a ter um relacionamento, e em uma das suas tantas bebedeiras por sua causa, ela acabou transando sem proteção. Estas coisas acontecem. – Roberta falava enquanto acariciava meu braço. – Por favor, diga para mim que vai desistir desta loucura?
– Não acredito. – Estava tudo bagunçado novamente. Minha cabeça girava, meu estômago estava querendo expulsar tudo que nele havia. – Eu vou, eu vou. – falei secando minhas lagrimas e me levantando.
– Vai onde? – Roberta me perguntava.
– Vou para o Brasil, quero saber de Catarina.
– Fran, você vai sofrer mais.
– Eu preciso que ela me fale olhando para meus olhos Roberta, somente assim saberei que acabou.
– Então eu vou junto!
– Não! Eu preciso fazer isto sozinha. Segura as pontas para mim? Prometo que esta vai ser a última vez.
– Tudo bem! Mas me ligue se qualquer coisa acontecer tá branquela? – Roberta me abraçou e eu agradeci aos céus por ter ela ao meu lado.
Parecia que agora tudo ficava mais longe do que realmente era. A distância do Brasil era pequena para a distância que eu sentia que Catarina estava de mim.
Demorei tantos anos para realmente me apaixonar perdidamente, de me entregar a alguém, de querer ser o motivo da risada de outrem, e agora que eu havia me permitido isso tudo aconteceu. Agora estou aqui, indo para um país que estive apenas uma vez, atrás de alguém que está com outra pessoa e ainda grávida. O que estou fazendo? Mas dizem que devemos arriscar tudo quando temos certeza que é a pessoa, mas porque ninguém avisa que isso é desgastante e dói?
Estou em minha fase final na faculdade e estou deixando tudo de lado por ela. Será que ela faria isso por mim? Nem deve estar pensando em mim neste momento. Mas eu preciso olhar naqueles olhos que roubaram minha alma para ter certeza que tudo acabou. Não deve doer tanto ser rejeitado por alguém que amamos não? Espero que não seja.
Flashback off
– Senhora? – Ouvi uma voz no fundo, parecia tão distante – A senhora está bem? – Alguém está me chamando de senhora e me cutucando.
– Ham, oi! – Falei abrindo os olhos.
– Chegamos ao aeroporto Internacional de Florianópolis Hercílio Luz, falta somente a senhora a desembarcar. – Falou em meio a um sorriso.
– Ow – fui me ajeitando sem jeito. – Me perdoe senhorita! Faz alguns dias que não durmo bem e me parece que aproveitei a oportunidade.
– Sem problemas, isso acontece mais vezes que a senhora possa imaginar.
– Vamos começar sem o “senhora”, acredito que não sou tão velha assim não é? – Falei sorrindo.
– Claro que não, me desculpe – A moça estava ficando vermelha, o que me arrancou uma risada.
– Tudo bem, me chamo Franciele, e você como se chama? – Perguntei me levantando da poltrona.
– Me chamo Estefani. – A moça começou a me guiar pela saída.
– Muito prazer Estefani. – Falei parando e estendendo a mão.
– Prazer Franciele. – Respondeu sorrindo, um sorriso lindo.
– Então Estefani, já vai viajar hoje? – Ela permaneceu em silêncio o que me fez repensar em minha pergunta idiota. – Desculpe-me! Sou uma estranha para você.
– Não é isso, não se desculpe. Acabei de saber que meu noivado acabou, então eu ainda não sei para onde vou. – Estefani falou meio sem jeito quando adentramos o saguão.
– Isso é ruim imagino. – Falei analisando-a. – Mas nada que um café não resolva.
– Café? – Ela me perguntou me olhando.
– Desculpe! Isto não foi um convite. – a moça tinha o cenho franzido – Não que eu não poderia te fazer um convite. – Neste momento eu estava envergonhada, sou uma mulher de quase 40 anos e estou toda confusa na frente de uma moça que acabei de conhecer. – Bom, vou te explicar. Eu trabalho em um hospital e quando as coisas não saem como devem, eu bebo café, e aquela xícara de café acaba me fazendo ter mais uma visão diferente sobre os fatos. Quando algo dá certo, tomo café também para comemorar.
– Vou fazer isso então. – Falou sorrindo. – você trabalha em um hospital então. O que faz lá?
– Sou cirurgiã neurologista e chefe desta área. – Falei sorrindo.
– Espere aí, você não é aquela que ganhou um prêmio importante?
– Acredito que nesta época você cursava o fundamental não?
– Sim, meu sonho era ser médica, mas aí viajei e vi que não queria sair de dentro de um avião e aqui estou. Esta foi minha terceira viagem.
– Então está na fase de experiência. Está gostando? – falei apontando para um café expresso.
– Sim, é fantástico conhecer novas pessoas, novas histórias. Cada vez que olho para o voo lotado, fico imaginando a história por detrás de tantos olhares.
– Interessante isto! – Falei solicitando a um atendente um café preto, já ela pediu um com leite.
– Aqui estamos, com café. – Falou sorrindo.
– Nem perguntei se você realmente queria tomar café com uma estranha, mas vejo que funcionou. – Falei sorrindo. Ela tinha olhos cor do mar ou do céu, eu poderia me perder neles.
– Funcionou mesmo! Minha mãe não vai acreditar. – Falou tomando um gole de seu café.
– Acreditar no que? – Perguntei franzindo o cenho.
– Que estou tomando café com a médica que sonhei em ser quando estava estudando na oitava série.
– Você sabe que isto não é normal né? – Falei séria.
– Mesmo? Será que tenho algo? – Falou arregalando os olhos.
– Estou brincando – Falei sorrindo.
– Que susto! – Falou suspirando pousando a mão em seu peito. – sua vida deve ser bem corrida né?
– É! Mas eu esperei tanto tempo por isso. Me sinto completa neste momento. E você?
– Tirando que este anel não me serve mais para nada. – falou apontando para o anel e noivado.
– Estas coisas acontecem. – falei a olhando.
– Foram seis anos de namoro e um de noivado, e agora soube por mensagem que ele não me quer mais.
– Talvez o tal de Deus tirou ele de seu caminho para que algo realmente bom entrasse em sua vida. – O que eu estou falando? Estou flertando com uma menina que deve ser 10 anos mais nova que eu. Isso não pode acontecer. Catarina está de volta e eu não vim para cá para encontrar outra, vim para esquecer de tudo.
– Talvez você esteja certa! – Falou tomando seu café me desafiando com os olhos.