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DUST TO DUST – CAPÍTULO XIII – FEVEREIRO 2017

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Olá, esta parte será narrada por Catarina, vocês irão ver POV  (Point of View) que é ponto de vista.
Boa leitura.

POV CATARINA
O amor é algo engraçado, difícil de entender, mas tão simples as vezes. Transborda-nos de felicidade, de diversas sensações maravilhosas, como também nos leva para os dias mais sombrios de nossas vidas, na solidão do vazio, na falta de ar dos pulmões, nas lágrimas escondidas por detrás de sorrisos, na escuridão de um abraço.
O tempo havia passado depressa para todos, mas para mim ele apenas cumpria uma sentença que eu mesma me propus a viver. Meus dias eram lentos, sorrisos forçados, amor não existia, mas apenas a companhia. Minha felicidade estava naquele momento em minha filha, ela seria o motivo de meus verdadeiros abraços e sorrisos, do verdadeiro eu te amo, do meu recomeço. Enganei-me em apenas uma coisa: o recomeço. Não teria eu como recomeçar algo que eu sabia que não tinha terminado.
Acostumar-me com a ausência de alguém que tanto amei e ainda amo foi algo difícil, aliás, não obtive sucesso com isto. Não queria que nada daquilo virasse apenas uma lembrança, queria poder viver todos os dias na intensidade que somente ela me proporcionava. Ela não fazia muitas coisas, mas as poucas eram tão significativas e importantes, me perguntava todos os dias como eu estava e como havia sido meu dia, fazia planos que pareciam tão reais e possíveis, ela me arrancava os sorrisos mais sinceros e meus melhores beijos.
Fazer escolhas às vezes nos custa muito, e eu fiz uma escolha pela qual não poderia me arrepender, mas seria egoísta da minha parte falar que me arrependo? Seria egoísta de a minha parte privar minha filha de seu pai? Mas a tantas mulheres que criam seus filhos independentes sem um pai presente, porque diabos eu não fiz isto? Minha mãe nesta época estava louca, surtava todos os dias me enchendo de ofensas minha querida avó me defendia quando possível. Para minha mãe eu estar saindo ou apaixonada por uma mulher era o fim dos tempos, ela não aceitava e até hoje torce o bico quando passa algo na noticia relacionado a isto, quando minha filha trouxe sua amiga lésbica para nos conhecer, não entendo porque da minha mãe não aceitar algo tão natural. Fiz minha escolha de viver ao lado dele e não no dela, eu fechei a porta e a deixei debaixo daquela chuva jogada na calçada. Talvez minhas lágrimas durante todos esses anos não compensaram exatamente nada daquele dia, apenas meu arrependimento e minha falta de coragem. Sempre ensinei a minha filha para ela nunca desistir de um amor nem que isto custe caro para ela. Achar a pessoa que te faz feliz com um simples sorriso é raro, e se ela achasse esta pessoa ela deveria lutar e ficar por esta pessoa, não a deixar ir, pois se ela a deixasse nunca estaria completa novamente. Nunca mais estive completa, não sei se um dia estaria novamente.
– Mãe, a senhora está bem? – Júlia perguntou se aproximando.
– Sim querida, hoje foi um dia e tanto. – Falei abraçando-a e beijando o topo de sua cabeça. – A senhorita está bem?
– Já estive melhor mãe. – Júlia suspirou. – A doutora Franciele me ajudou bastante para este momento.
Fechei os olhos e suspirei.
– Está tudo bem mesmo mãe? Tem algo acontecendo? – Júlia sentou-se na minha cama.
– Acho que chegou a hora de conversarmos filha, de lhe contar um detalhe de meu passado. – Enchi os pulmões de ar, Júlia me olhava atenta – Mas antes vamos tomar um banho e eu farei o jantar para nós, certo?
– Você sempre com este suspense. – saiu de meu quarto resmungando algo.
Talvez Júlia irá entender, a criei com muito amor e sempre deixando claro que as pessoas se apaixonam por outras pessoas e não pelo seu sexo, seu pai sempre discordava e as vezes brigávamos feio por causa disto, ele sempre jogara na minha cara que havia escolhido ele por causa de minha mãe. Ele não estava mentindo, fiz isto por ela e por Júlia.
Tomei uma ducha demorada, deixei que a água levasse as energias negativas daquele dia, desci para a cozinha para fazer o jantar.
Havia alguns meses que tinha me separado de Fernando, acho que foi a melhor escolha que fiz na vida. Ele fez um rodeio, e até agora não assinou os papéis do divorcio, ainda tinha esperanças que voltaríamos. Fernando já não era o mesmo, nem eu. Estava ficando cada dia mais insuportável nossa convivência, Júlia já não aguentava mais nossas brigas e seu pai chegando tarde em casa com cheiro de bebida.
– O que você tem hoje? – Júlia estava parada ao meu lado.
– Nada minha filha – Continuei o que estava fazendo.
– Te chamei três vezes da escada e você estava aqui parada olhando pra janela. – Fez uma careta e sentou-se na banqueta.
– Seu pai tem te ligado? – Perguntei colando a lasanha no forno.
– Ele nem sequer me ligou hoje, mandei mensagem falando para ele de Maurício, queria que ele estivesse lá, mas por fim nem me respondeu.
– Talvez foi melhor ele não ter ido – Tomei um gole do vinho que havia me servido minutos antes de Júlia aparecer. – Quer uma taça?
– Você não deve estar bem mesmo, me oferecendo bebida. – Sorriu e foi pegar uma taça.
– Você está em casa comigo e não irá sair hoje, então sim, hoje você pode me acompanhar.
Conversamos sobre diversas coisas, e vez ou outra Júlia engolia em seco, algumas de suas lembranças ainda estavam tão vivas que a fazia querer chorar. Após 40 minutos a lasanha estava pronta, comemos tranquilamente e lavamos a louça. Deixamo-nos cair no sofá e colocar em qualquer canal.
– Então mãe, o que a senhora queria me falar? – Júlia perguntou descontraída.
– Lembra de quando te contei de um grande amor que tive quando tinha sua idade? – Júlia assentiu. – Faz poucos dias que eu encontrei esta pessoa novamente.
– Como assim mãe? – Julia deu um salto no sofá que me assustou.
– Calma menina, vai me matar ainda – Falei a olhando.
– Mas isto é importante. Conte-me como foi. – Julia estava extasiada.
– Primeiro quero te dizer que eu não imaginava que isso aconteceria, aliás, eu havia perdido as esperanças que um dia isto fosse acontecer. Não foi como eu imaginava bobeira minha achar que tudo estaria bem, depois de tudo que fiz. – Suspirei derrotada.
– Você fez sua escolha baseada no que a vó queria e não no que você queria. Papai pelo jeito era melhor sendo seu amigo que marido.
– A escolha era minha filha, a vida era minha, mas eu não poderia te deixar sem um pai, eu não imaginava como seria para você quando crescesse.
– Mas eu teria ele como um pai, não que eu não ame meu pai, mas quem você escolhesse seria bom o suficiente para mim.
– Exatamente, seria o suficiente para nós, mas não para sua avó, nem para a sociedade, se hoje já não é muito fácil, imagina naquele tempo.
– Não estou te entendendo mãe. Ser mãe solteira não era algo tão ruim assim – Julia estava confusa e eu mais ainda.
– Você não teria outro pai, teria outra mãe Júlia. – Falei e esperei sua reação.
– Espe.. Espera- Julia estava gaga de uma hora para outra – Uma outra mãe? Você está me dizendo que o amor da sua vida foi ou é uma mulher?
– Sim filha, por isto da sua avó ter feito aquele escândalo quando você levou aquela sua amiga Daniela no jantar que oferecemos a ela.
– Por isso que você nunca me falava o nome e vovó tem este preconceito absurdo, nunca me mostrou nenhuma foto, nada. – Julia estava pensativa.
– Está tudo bem para você querida? – Perguntei.
– Mãe, você me criou com tanto amor, me mostrando que pessoas amam pessoas, não há do que você se preocupar, estou surpresa, mas nada que alguns minutos não resolvam – Falou sorrindo, o que me fez relaxar. – Papai sabe disto?
– Sim. Quando eu e seu pai namoramos a primeira vez e terminamos, foi neste meio tempo que a conheci, ela havia vindo passar o carnaval com alguns amigos da faculdade na pousada de sua avó – Falei sorrindo ao me lembrar de Fran na recepção não entendendo nada que vovó falava. – Ela estava linda, senti as famosas borboletas em meu estômago ao vê-la, nem seu pai nem ninguém me fez sentir isto um dia, somente ela.
– É tão lindo você falar dela, sempre gostei da sua história, agora sabendo que você se refere a ela ficou mais linda mãe.
– Foi uma história linda, poderia ter sido melhor, mas infelizmente fiz o que sua avó sempre quis. – O telefone tocou e atendi.
“Sim é com ela que o senhor esta falando. A sim, daqui a duas semanas? Certo. Estarei lá. Obrigada”
– Quem era?
– Era o advogado, seu pai resolveu assinar o divorcio.
– Papai sempre dificulta as coisas. – Ficamos em um pequeno silêncio confortável até que Júlia resolve quebra-lo – Mas quem é esta mulher? A senhora disse que a encontrou à alguns dias.
– É a doutora Franciele.
– Meu deus do céu. – Julia estava com a boca em um formato de O – A doutora Franciele Fernandez? Tu tem certeza mãe?
– Sim minha filha, como não teria? – Sorri ao falar. – Nos encontramos na faculdade, fui até a sala que ela estava dando aula, esperei que a aula terminasse e entrei para me apresentar, você falava tanto dela. Quando entrei e ela se virou eu tomei um choque, corri para abraça-la e vi que ela não estava mais a mesma, ela não se moveu me disse algumas coisas e saiu quase correndo me deixando lá.
– Então foi por isto que aquele dia ela nem me escutou e estava pálida – Falou pensativa.
– Quando fomos ao hospital e nos apresentamos na frente dos outros, deixei que meus olhos parassem sobre ela por alguns breves segundos e tudo que recebi foi um olhar me repreendendo. Depois que lhe pedi onde ficava a sala dela, fui para lá. E lá estava ela, toda fria e dura comigo. – Deixei que uma lágrima caísse.
– Dê um tempo para ela, você deve imaginar que para ela não deve ser nada fácil não é? – Júlia parecia ter mais juízo neste momento.
– Tenho medo Júlia. Medo de deixá-la ir de novo, medo de ela estar com alguém, ter uma família. Não posso deixa-la ir. – Funguei um pouco e deitei no colo de minha filha – Ela não parece ser a mesma que conheci. Ela não tem mais o brilho nos olhos, mas ama sua profissão como amava quando estava ainda estudando. Vi algumas notícias dela á alguns anos, quando ela ganhara um prêmio importante de medicina, passou em vários jornais, mas seu pai ficou louco, me fez prometer de não ligar a televisão e não procurar por ela, falou de como você iria se decepcionar, e isto me quebrou Júlia, jamais queria te decepcionar com algo, e você era jovem demais.
– Papai sendo o ditador daqui de casa! Ele estava com medo de te perder, ele sabia que você a amava. – Júlia falou tão naturalmente que me fez suspirar.
– Eu nunca deixei de amar ela e nunca irei.