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DUST TO DUST – CAPÍTULO XII – FEVEREIRO 2017 I

N/A
Olá Pessoas, neste capítulo também tem música, é meio triste mas lá vai : Sarah mclachlan – Angel

 

[PLAY]
O clima naquela sala não estava um dos melhores, sinceramente, momentos como estes me faziam pensar em minha vida. Mesmo com tantos estudos científicos, ainda não conseguiria imaginar que somente a ciência rege este universo. Algo além disto aqui deveria haver, não poderia tudo terminar assim, ou poderia? Minha concepção de vida se inicia muito cedo, quando ainda somos algo que não conseguimos enxergar a olho nu, viemos nos desenvolvendo dentro do ventre de nossas mães, já nascemos com 9 meses de vida, por que as pessoas contavam nossa idade a partir de que descobrimos um mundo fora da proteção de nossas mães? Somos esperados por nove meses, somos mimados na primeira palavra e no primeiro passo, mas podemos perder tudo isto de um minuto para o outro. Diversos fatores externos ou internos podem ocorrer e nos arrancar este suspiro de vida. Mas deve existir algo além deste mundo, um lugar onde somos melhores.
– Mauricio sempre foi um menino esforçado – A voz de Silvia me trouxe de meus pensamentos. – Lembro-me do dia em que caiu de bicicleta e ralou seu joelho. – Sorriu e olhou para Carlos, onde as lágrimas já estavam tão vivas sua face. – Veio ao nosso encontro caminhando ao lado da bicicleta, com uma careta de dor. Corri ao vê-lo com os joelhos sangrando, me ajoelhei e o abracei forte, e ele em meu ouvido dizia “Mamãe, eu vou ficar bem, não se preocupe.”, sorri para ele e vi que algo não estava certo, seus olhos se apertavam e então perguntei o que ele tinha, ele me respondeu que queria chorar, mas que não poderia na frente de sua mãe. – Silvia pausou buscando forças – Então eu lhe disse que ele poderia chorar em meu colo, que eu jamais contaria a alguém, e desde este dia ele fazia isto, deitava sua cabeça em meu colo e chorava. A partir de hoje ele não fará mais isto em meu colo, o fará no colo de Deus ou de sua avó que já esta com ele no céu. Sei que ele está em boas mãos, que a vida do lado de lá é a nossa verdadeira moradia, que estamos aqui para um breve momento. Peço que todos se abracem em um circulo. – Silvia pediu e prontamente todos estavam de braços entrelaçados, Julia separava-me de Catarina, mas não o bastante para que a mão dela chegasse em meu braço e fizesse pequenos carinhos. – Mauricio meu menino, quero que você sinta o amor e a energia boa que estamos sentindo daqui. Não se preocupe meu filho, ficaremos bem aqui, espero que você fique bem aí. Iremos chorar querido, pedir por você, mas não nos dê ouvidos, a saudade esta viva deste lado e do lado dai.- Lágrimas e mais lágrimas de todos os presentes. – Se desligue deste corpo filhinho, sempre serei sua mãe e você estará em meu coração, fique com seus avós e amigos espirituais, em breve nos encontraremos. Papai e Mamãe te amam.
Respirei fundo, duas, três vezes para me acalmar. Como poderia eu, justamente eu estar participando disto?
– Dra.? A senhora já pode? – Carlos perguntou e acenei com a cabeça retirando os eletrodos de Mauricio, onde havia batimentos a linha reta e continua se fez presente no monitor. Dali para frente muitos vinham e se despediam de Mauricio, desliguei o monitor e resolvi deixar a sala, seria um momento de intimidade agora, e eu não faria parte.
Sai da sala em silêncio e em passos curtos, quando já me encontrava do lado de fora, enfermeiras e internos estavam chorando? Balancei a cabeça negativamente, tinha mais pacientes para cuidarmos e não deixa-los morrer.
– O que estão fazendo parados aí? São pagos para se lamentar ou trabalhar para que mais família não precise passar por isto? – Falei apontando para o quarto de Mauricio, recebi olhos arregalados e pessoas se ajeitando e circulando. – Foi o que pensei. – Respondi e sai para o elevador, precisa ir ao meu covil, meu refugio.
Após chegar à minha sala, deixei-me cair em uma das poltronas, deixando meus ombros relaxarem, fechei os olhos e vi que hoje o dia não seria fácil, além da emocionante homenagem e despedida que Silvia havia feito, tinha Catarina em meu local de trabalho.
– Desculpe entrar desta forma. – Ouço a porta ser aberta e em um pulo sento-me na poltrona. – Julia me explicou onde ficava sua sala. – Catarina estava diante de mim fechando a porta de meu escritório.
– E no que posso te ajudar? – Falei me levantando e indo em direção a minha cadeira. Catarina se aproximou da mesa, fiz menção para ela se sentar e assim ela o fez.
– Queria te agradecer Fran. – Falou de cabeça baixa. – Por tudo..
– Senhora Catarina, estamos em meu ambiente de trabalho, não costumo dar intimidade para meus pacientes ou pessoas que vem a minha sala. – falei a cortando.
– Ow – falou dando um suspiro – Me desculpe Dra. Fernandez. – Ergueu seu olhar no meu e senti um frio em minha espinha. – Queria lhe agradecer pelo o que tem feito a Julia. – falou colocando suas mãos sobre a mesa- Ela tem falado muito de você e de como a ajudou com Mauricio.
– É meu trabalho ajudar as pessoas. Creio que estudei para isto. – Falei ríspida.
– Sim sim, entendo.- Pausou- Não contei a ela ainda que nos conhecemos. –Bufei, será que ela estava ficando surda? – Mas ela sabe da nossa história, apenas não sabe quem é.
– Veja bem Dona Catarina, estou com minha agenda cheia hoje. Agradeço por ter vindo aqui, mas se me der licença.- Falei colocando meu óculos de grau virando para meu computador que estava desligado por sinal.
– Não queria te atrapalhar, me desculpe. – Falou em um sussurro se levantando. – Obrigada.- acenei com a cabeça e ela foi indo em direção a porta.
Relaxei meus músculos e deixei o ar pesado sair.
– Mas quero que saiba Franciele, que eu não deixei de te amar um segundo se quer. Não irei deixar você ir novamente, não agora. – Fechou a porta e se foi. Fechei meus olhos e deixei que minha mente viajasse e me desligasse do hospital.
Flashback on
Sentia-me sozinha novamente. Catarina já havia ido embora a semanas e minha comunicação com ela estava cada dia mais rara. Sabia que sua situação com sua família era delicada, mas o que estava acontecendo que eu não saberia?
Comecei a faltar a universidade, a não comer mais, até que Roberta veio a minha casa a pedido de minha mama.
– O que tu tá fazendo branquela? – Roberta adentrara meu quarto furiosa.- você tem noção do que esta perdendo? De como está deixando sua mãe preocupada e eu também?
– Desculpe, mas não consigo contato com Nina, a dias ela não me retorna ligações e mensagens. – Falei em um choro.
– Eu não estou acreditando Franciele! Você está assim pela aquela brasileira? Eu não te avisei sobre ela? – Roberta andava de um lado para o outro dentro do quarto – Se você continuar assim irá perder o semestre Fran, falta tão pouco para nos formamos. Você está indo nos estágios ao menos?
– Fui um dia na semana passada só. – Falei me encolhendo.
– Mas que merda Franciele. – Exclamou alto, o que fez minha mama ir ao quarto. – Desculpe tia, mas é que Franciele precisa se acordar para a vida.
– Concordo. – Minha mama falava com um suspiro – Vou sair para fazer compras. Se cuidem.
– Tá certo. – Roberta falou se virando para mim. – Onde tá o número desta guria? – Falou se aproximando de mim.
– Esta aqui – Lhe entreguei meu celular. Roberta discou o número e quando aparentemente alguém atendeu ela saiu de meu quarto pedindo que eu ficasse nele.Claro que fui até a porta para ver se conseguia escutar algo.
– Sim entendo. – pausa- Mas você falou com ela? – Pausa- Como assim? 2 meses? – Pausa. – Certo. – estas pausas estavam me matando. – tudo bem, irei ver o que posso fazer, mas acredite, se prepara. – pausou balançando a cabeça. – Irei falar pra ela, txhau.- Desligando o telefone ela se virara do corredor em direção ao meu quarto e deu de cara comigo.
– Então? – Perguntei
– Quer me matar Franciele?- Roberta bufou e entrou em meu quarto.- Vem aqui e se senta.- Prontamente fiz. – Catarina está passando por situação difícil com sua família certo?! – olhou para mim – Acredito que não seja mais viável você continuar com ela.
– Ah Roberta, você sempre falou isto! Nunca aceitou meu relacionamento com ela, qual é? – Falei gritando.
– Fran, ela quem disse isto pra mim. –Roberta falou e aquelas palavras entraram em meus ouvidos como facas.
– Como é que é? – Falei desabando na cama.
– Se acalme tá? Ela disse que a situação piorou desde que ela voltou para o Brasil. Seus pais a pressionaram e ela acabou contando os sentimentos dela por você, eles enlouqueceram. – Roberta pausou me olhando, colocando sua mão sobre a dela. – Ela passou dias de horrores por lá e sua mãe começou a chamar o tal de Fernando na casa deles, para que Catarina reatasse o namoro deles.- Depois do Fernando eu não escutava mais nada, apenas silêncio e escuridão. Não sei por quanto tempo estive assim, acordei no hospital.
– Resolveu acordar dorminhoca? – Meu professor Chávez estava a minha frente acompanhado da mama e Roberta. – Que belo susto dona sumida.
– O que houve? – Perguntei meio confusa.
– A senhorita ficou muito tempo sem se alimentar adequadamente com mais uma descarga emocional, desmaiou. Mas agora já esta medicada e vai ficar aqui em observação até amanhã. – Virou para as mulheres – Estou indo, ela ficará bem. – virou-se para mim – Retorne para as aulas, você é uma das minhas melhores alunas e tem nosso projeto, certo?
Acenei com a cabeça e ele se retirou. Olhares de fúria e ternura me acertavam em cheio. Fúria de Roberta parecia que queria me matar, ternura de minha mama que parecia estar apreensiva.
– Me desculpem – falei baixo.
– Tudo bem! Mama já está aqui com você. – Falou me abraçando, por cima dos ombros via Roberta impaciente.
– Mama, poderia me deixar a sós com Roberta?
– Claro, vou ali pegar um café. Já volto- Falou saindo do quarto.
– Roberta, olha só..
– Não me venha com Roberta. Olha seu estado!- Roberta estava com chamas em seus olhos. – Você não tem mais capacidade de pensar hein? Deixou sua vida parar por causa de uma paixonite? Você está brincando comigo!
– Desculpe ok?! E não é paixonite, é mais que isto. Ela é a mulher da minha vida. – Exclamei triste.
– E você não é a mulher da vida dela. – Falou fazendo-me encolher. – Fran, eu amo você, mas não posso mas deixar você assim. – Balancei a cabeça. – Me prometa que vai esquecer esta mulher e voltar para sua vida?
– Prometo. – Falei tentando parecer confiante, afinal, eu iria para o Brasil nem que fosse escondida de Roberta, e Nina teria que me falar tudo que falou para Roberta na minha cara.
– Certo.- Roberta falou descansando os ombros.
– Agora venha aqui e me dê um abraço – Falei sorrindo.
Flashback off
– Franciele Fernandez, você está me ouvindo? – Zo gritava em minha frente passando as mãos diante meus olhos.
– Sim, sim, desculpe. – Falei me ajeitando na cadeira.
– Você parecia estar em outro mundo. – Falou se sentando. – Agora me conte como foi com a família de Mauricio.