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Domingo de manhã

Era final de madrugada. Estava frio e ainda escuro. Talvez não tão escuro quanto algumas horas, mas as ruas ainda precisavam da iluminação artificial dos postes para se tonarem habitáveis. As criaturas noturnas vagavam como almas perdidas após uma noite de álcool, amores vazios e drogas lícitas e ilícitas. Eu apenas fazia o possível para manter meu corpo ereto. Apesar da adrenalina que ainda corria nas minhas veias, o cansaço já se mostrava presente. Tinha trabalhado nas últimas oitos horas. Naquele período que os corpos se incendeiam nos cantos da cidade, meu corpo estava preso nas paredes da lanchonete. Era a madrugada de sábado, a mais cheia da semana.

Saí próximo das sete da manhã enfrentando o vento gelado do despertar de mais um domingo. Caminhei me enrolando ainda mais no casaco grosso, peguei o gorro na mochila para proteger a orelha que já ardia de tanto frio. Só mais uma esquina e cheguei na porta da outra lanchonete que dividida a rua com a minha. Você ainda estava trabalhando. Aliás, como o destino é engraçado e nos colocou para trabalhar no mesmo lugar, porém em filiais diferentes. Apenas alguns poucos metros de distancia. Talvez a gente precisasse disso, no final das contas e nem sabíamos. Você também havia trabalhado a noite toda servindo aos homens e mulheres que encontravam ali o refúgio final de uma noite de diversão.

Assim que entrei no ambiente iluminado, vi você terminando seus afazeres. O olhar cansado de quem havia virado a noite e não havia sido por opção. Mas assim que me viu o sorriso no canto dos lábios apareceu na boca das duas. Até mesmo cansadas o prazer em nos encontrar era sempre maior. Você ainda falou algo mais com o seu gerente, escutou algumas últimas instruções e eu percebi que ainda tinha coisas a fazer por lá. Pedi um café para não correr o risco de dormir em cima da mesa e também porque o meu vício sempre falava mais alto. Bebi alguns goles quentes sentada em uma das mesas limpas que eu sabia que voce que tinha limpado. Vi voce subir as escadas e avisei que esperaria por ali mesmo. Você passou por mim na volta, piscou e disse que já iria sair. Mais dois goles quentes. Esperei poucos minutos e lá veio voce, já vestida com o casaco grosso, o corpo já meio curvado do cansado e das dores nas costas e um copo de água necessário. Mais dois goles quentes. Te dei um selinho rápido, típico de quando nos encontramos ou nos despedimos. Perguntei como voce estava, esperei voce acabar a água e saímos de lá.

O vento gelado permanecia presente nas ruas, mas as luzes artificiais já dividiam o espaço com o começo de um novo dia. Já era possível ver um azul mais claro no céu distante, misturado com nuvens cinzas. As nuvens sempre estão presentes aqui onde moramos. Começamos a andar vagarosamente para nossa casa. Por voce iriamos de bicicleta, por mim a pé. Minha cara de cachorro abandonado ganhou e começamos a caminhar. Mais um gole quente. Envolvemos os braços, mas não as mãos porque essas precisavam estar no bolso do casaco para esquentar. Perguntei como havia sido a sua madrugada e o que havia acontecido. Sempre tínhamos historias para compartilhar dos seres humanos que passavam por lá. Você me contou da gerente que pediu para voce limpar as paredes e de como o outro que não ia com a sua cara, agora fala com voce normalmente. Me pediu para andar mais devagar porque sua coluna doía e eu tenho essa mania horrível de correr sem motivos. Mais um gole. Você me contou que o movimento nem havia sido tão pesado durante a noite e eu falei que no meu tambem não, apenas lá pelas duas e meia que lotou o restaurante. Nós falamos sobre as brigas que os bebados sempre causam nos locais em uma madrugada como essa. Adorávamos compartilhar o passo a passo da noite uma da outra. Íamos andando devagar ganhando a rua, onde morávamos no final. Não eram nem dez minutos de distância das lanchonetes. O casaco parecia nos vencer a cada passo.

Vimos os mercados já acendendo as luzes e repondo os estoques. Relembramos o que iriamos fazer depois que acordássemos naquele mesmo dia. Falamos que estava frio e voltamos a um assunto que havíamos deixado pendente mais cedo. Não era tão importante, mas voltamos nele mesmo assim. Finalmente avistamos a porta vermelha no mesmo momento que voce reclamou que a sua dor havia piorado um pouco. Disse que iria tomar o remédio quando chegasse em casa mesmo sabendo que ele te deixava grogue e sonolenta pelo resto do dia. Subimos as escadas até o nosso primeiro andar. Já tiramos os casacos no caminho de casa. Abrimos com cuidado para não acordar o resto do pessoal que dormia tranquilamente. Tiramos o tênis que cansava os pés, larguei a mochila na escada e voce reclamou porque sempre tropeçava nela. Tirei a roupa ainda com cheiro de sanduíche e coloquei no cesto de roupas sujas. Peguei o pijama que deixei em cima da cama, escovei os dentes e deitei. Estávamos deitadas quando voce lembrou do remedio e com a voz de choro que sempre faz pra me pedir algo, me fez levantar para pega-lo. O cansaço já dominava nossos corpos a ponto de não nos mexermos, mas a adrenalina fazia nossa mente continuar trabalhando em uma velocidade ainda mais cansativa. Continuamos a conversar sobre a madrugada e sobre outras noites e outras manhãs. Não tínhamos um assunto definido na pauta do momento a não ser que a gente queria conversar. Falamos, falamos e falamos. Demos um beijo de boa noite, daqueles rápidos, cansados, mas molhado.

A adrenalina foi se esvaindo aos poucos e não demorou para que o cansaço vencesse a guerra dos corpos. Disse que te amava, mas que viraria para o outro lado, porque eu faço isso todas as noites. Minha mão ainda encontrou a sua debaixo das duas cobertas que nos aqueciam. Era fácil dormir com voce. E de repente me dei conta, segundos antes de me entregar ao sono, que até voltar de um turno da madrugada ao seu lado fazia sentido. Era fácil conversar até quando o corpo está querendo desligar. Era fácil estar ali com você, quando tudo parece não se encaixar. É fácil eu me apaixonar, até quando parece não ter mais lugar.

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