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Desculpe, eu calei quando devia falar Um desabafo de alguém que gostaria que você fosse diferente

Esse texto não tem uma série de dicas de como lidar com essa situação e nem te ajuda a entender melhor a sua vida, mas é um pequeno desabafo de alguém que está se sentindo entalada com tudo que acontece ao redor.
Eu trabalho em uma empresa de comunicação, daquelas super “descoladas” com discurso igualitário, com políticas anti-preconceito em todos os níveis. Temos coordenadores homens e mulheres e idade não é diferencial, apenas a aptidão profissional é necessária para que uma pessoa ocupe um cargo mais acima ou mais abaixo. Temos um quadro de funcionários que vai de 23 anos até mais de 60. Temos negros, gordos, magros, heteros e gays. Até aqui, tudo parece estar perfeito, mas o que acontece na rotina é o que realmente incomoda.
Escondidas em forma de piada e brincadeiras, posições preconceituosas e misóginas são proferidas todos os dias por funcionários da empresa. Não diretamente para alguém, mas talvez para todo mundo que “veste a carapuça” daquela brincadeira. Eu sempre fui a primeira a não rir daquela piada babaca que todo mundo insistia em repetir falando sobre a menina do financeiro que é gorda. Gordofobia mata, eu pensava, mas não falava nada. Apenas me retirava. Eu ficava irritada quando falavam do cabelo de bombril da estagiária nova. Eu tinha vontade de gritar e xingar, mas apenas me retirava.
Nos chats em WhatsApp, toda vez que uma imagem preconceituosa e misógina corria, eu não respondia. Não importava se era pra rir ou compartilhar, eu apenas sumia. Eu fui sumindo, eu fui me retirando das discussões e um dia me senti explodir. Um dia eu ouvi tanto preconceito travestido de brincadeira que minha vontade era gritar, xingar e talvez até denunciar. Mas, mais uma vez, eu apenas sumi. Eu deixei que outros rissem das piadas, deixei que continuassem com as brincadeiras babacas e deixei que esse incômodo aqui dentro de mim permanecesse. Talvez por medo da discussão, talvez por medo da demissão, talvez por medo do enfrentamento, talvez por não ter coragem o suficiente, eu me calei.
E tudo que tenho a dizer, é me desculpem. Me desculpem por não falar quando foi necessário e por talvez deixar que essa cultura do preconceito se estenda por mais algum tempo. Não seja como eu fui. Fale. Grite. Xingue. Até denuncie quando for necessário. Mas não se cale. Nunca se cale.