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Conto de final de ano

O relógio não mentia. Eram 23h55 quando o ônibus passou e Camila deu uma última olhada para aquela estrada que já tanto conhecia.

Com 21 anos, órfã de mãe e de pai depois de um acidente de carro, a menina não via mais sentido em se prender aquela pequena cidade a qual conhecia. Aliás, a única coisa que conhecia na vida.

Sonhava com os arranhas-céus dos filmes, com as ruas movimentadas de carros e as centenas de pessoas cruzando pistas toda vez que o sinal fechava. Camila era sonhadora, sonhava em um dia realizar sua vida longe dali. Costumava dizer que seu coração era grande demais para uma cidade pequena como aquela.

O último ano não tinha sido bom, aliás, ela ainda se orgulhava de ter chegado viva até o final dele. Em fevereiro, em uma terça comum, enquanto trabalhava na loja do Seu Francisco, recebeu a notícia de que seus pais haviam sofrido um acidente de carro na rodovia principal enquanto voltavam da cidade com remédios para sua avó. Um caminhão em alta velocidade perdeu o controle na curva e os atingiu em cheio, jogando-os para fora da pista e fazendo o carro explodir na hora.

Camila perdeu o chão, o céu, o ar, os sentidos e o sentido. Não via motivos para continuar a viver, nada mais importava. E aí foi obrigada a contar a tragédia para sua avó. A velhinha derramou uma lágrima, olhou nos olhos da neta e disse com toda calma do mundo:

– Cuida de mim? Não vou viver muito, mas até lá você cuida de mim?

Camila arrumou um novo sentido na vida. Prometeu cuidar da avó até seu último suspiro, ela era a responsável agora. Sem muitas ambições, Camila dividia seu tempo em trabalhar, cuidar da casa e de sua avó e virar as madrugadas no computador. Costumava assistir filmes que se passassem na cidade grande para que nunca esquecesse do seu sonho. E também gostava de conhecer pessoas.

O ano passou e Camila viu sua avó adoecendo cada vez mais. A morte dela não seria tão dolorosa, estava anunciada e Camila se preparou para isso. Mesmo que para a morte, ninguém esteja, realmente, preparado.

O mês de dezembro chegou, as festas animaram as duas e a casa estava lindamente enfeitada. Camila trabalhava o dobro para conseguir pagar todas as contas no final do ano. Chegava em casa e sentava no sofá com seu computador para assistir tv com a avó. Já tinha até comprado o presente dela. Um gorro todo colorido.

No dia 22 de dezembro, Camila foi acordada no meio da noite com a falta de ar da avó. Sem nem pensar duas vezes ligou para a ambulância e em poucos minutos estavam no hospital. Estava tudo bem por enquanto, mas a senhora precisaria ficar por ali para observação. A noite de Natal seria no hospital, o que não estava nos planos de Camila. Mas era melhor do que passar sozinha.

Dia 23, Camila trabalhou o dia todo e 24 até umas 16h da tarde. Passou em casa, tomou banho e pegou o presente que tinha para a avó. No hospital os médicos estavam todos de gorro do papai noel para alegrar os pacientes que precisavam estar ali naquela noite. Camila trouxe rabanadas e alguns bolinhos de bacalhau. Enfeitou a cama da avó e brindaram com refrigerante a chegada de mais uma natal.

A ausencia dos pais doeu no peito de Camila que se trancou na capela do hospital e rezou, pela primeira vez em tantos anos, para que aquela dor diminuísse. Estava com medo de não aguentar.

Quando voltou para o quarto, com o rosto inchado, sua avó segurava uma caixinha de madeira nas mãos.

– Pedi a nossa vizinha para que me trouxesse isso. É o seu presente.
– Vó, não precisava. A senhora é doida, sabia?
– Abra. É de coração.

Dentro da caixinha estavam todas as economias da senhora. Não era muito, mas o suficiente para ajudar nas contas. Mas esses não eram os planos da avó de Camila:

– Me prometa uma coisa, minha menina. Não vai gastar este dinheiro com a casa. Gaste com você.
– Vó, mas as contas estão atrasadas.
– As contas que se danem. Me promete?

Camila riu da forma de falar de sua avó e prometeu usar o dinheiro com ela mesma.

Dia 25 amanheceu chuvendo, cinzento. Camila estava sozinha. Sua avó morreu dormindo, da forma mais pacífica que poderia ser. Os médicos garantiram que ela não tinha sentido nada. Camila chorou pouco. Muito pouco. Voltou à capela e rezou mais uma vez. Agora, para que sua avó e seus pais se abraçassem e olhassem por ela lá de cima.

Voltar para casa seria muita dor. Camila passeou pela cidade. Foi em cada ponto que a lembrasse de algo: a praça principal, a escola, o ponto do ônibus, a quadra, o lago onde pescavam, a entrada para a floresta. Cada pequeno pedaço dela recolhido pelos cantos de uma pequena cidade.

Rapidamente a notícia da morta de sua avó se espalhou pela cidade. Quando Camila voltou para a casa os vizinhos estavam reunidos oferecendo comida, dinheiro, abraços e até mesmo moradia para a menina. Ela foi gentil, agradeceu mas pediu para ficar sozinha. Precisava de espaço.

O dia 26 chegou sorrateiro e Camila ainda não tinha dormido. Passou a noite andando pela casa e assistindo aos seus filmes preferidos. Era a única forma que conhecia de ir para um mundo paralelo. Foi trabalhar em sue horário, precisou discutir com Seu Francisco que queria manda-la de volta para casa. Chegou em casa, tomou um banho, comeu qualquer coisa e dormiu. Apagou no sofá mesmo e com a tv ligada.

De madrugada, acordou com o vento batendo uma das janelas da sala. Fechou a janela, ainda com o coração acelerado do susto, voltou para o sofá, olhou para a televisão e viu o anúncio de um novo livro que se chamava “Como realizar seus sonhos”. Um desses de auto ajuda qualquer. Camila riu, olhou para o lado e viu na mesinha a caixa que sua avó tinha lhe dado e um lindo retrato de seus pais sorrindo para ela.

Sem ter dúvidas do que fazer, Camila levantou cedo, foi até a rodoviária e comprou passagem para o dia 31, às 23h55. Em cidade pequena não tem ônibus todos os dias e esse era o único disponível. Trabalhou os dias seguintes normalmente e pediu para que Seu Francisco a adiantasse o salário que receberia dia 1 de janeiro. No dia 31, se despediu como se voltasse no dia seguinte, foi para casa, arrumou algumas poucas roupas e escreveu dois bilhetes. Um para a vizinha, dizendo que ela poderia vender a casa e que depois Camila dava um jeito de pegar o dinheiro e outro para o Seu Francisco dizendo que ele não sabia como tinha sido importante para ela durante aquele ano.

Enquanto todos se preparavam para brindar taças e se abraçar, às 23h30 Camila já estava com sua mochila no ponto do ônibus. Os minutos pareciam não passar e o frio a fazia tremer, mas também a ansiedade. Pela primeira vez, Camila estava perseguindo seus sonhos. Só ela poderia fazer isso por ela mesma.

Sem atrasos, o ônibus chegou. Camila olhou pela última vez para sua cidadezinha. As luzes piscaram como em sinal de consentimento, ela sorriu, subiu os degraus, cumprimentou o motorista e se dirigiu ao lugar marcado. Do seu lado estava um menina bonita, morena e de cabelos cacheados.

– Boa noite. – Camila, educadamente, cumprimentou-a.
– Boa noite, indo visitar família?
– Não. Estou indo para ficar, não volto mais.
– Faz bem.
– Você mora lá?
– Vou morar. Estou indo para ficar também.

E enquanto o ano novo se aproximava, Camila era invadida por uma onda de esperança, paz e talvez até amor. Camila, pela primeira vez, se sentia feliz, naquele ano. Nos últimos minutos dele. Lá na frente do ônibus ela podia ver, era a vida esperando por ela.