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Capítulo XI – Fevereiro 2017

N/A
Olá Pessoas!, este capítulo tem música 🙂
Promise – Ben Howard.

– Catarina, por favor – Implorava de joelhos sobre uma calçada, a chuva caia e se misturava com minhas lágrimas.
– Adeus Franciele. Não volte, não me procure e finja que nunca me conheceu.
– Não, não, não – As lágrimas rolavam em meu rosto, sentia meu corpo perder as forças, as estribeiras. – Catarina, volte. – Vi Fernando passado a mão em volta dos ombros de Nina e sumirem de vista fechando a porta atrás de si.- Catarina eu te amo, o que eu farei? – Falei em um sussurro sentindo meu corpo chocar-se contra o concreto da calçada.
Susto. Foi o que senti quando me acordei em minha cama. Estava suando frio, minha respiração estava rápida, sentei na cama passando a mão na testa.
– Ok, foi apenas um sonho. – Suspirei e olhei ao redor. Estava em meu quarto, chovia no Rio de Janeiro. Caminhei até o banheiro e lavei o rosto, vi meu reflexo no espelho. Estava acabada, minha aparência não estava nada boa, olheiras fundas, cabelo desajeitado, suspirei pela segunda vez, o que estou fazendo?
Voltei para a cama e prendi meus olhos no teto de vidro vendo a chuva que caia, apenas escutava o barulho que fazia do atrito da chuva no teto.
[PLAY]
Coração partido. Não saberia eu explicar de o porquê das pessoas usarem esta expressão para simplificar a dor. Nosso coração serve apenas para bombear o sangue para nosso corpo. Por que as pessoas falam tanto de amor e fazem uma conexão com o coração? Seres humanos tendem a criar ilusões para amenizar quaisquer sentimentos que os corrompe.
Quando falavam que o amor e o ódio andavam juntos, eu imaginava que seria impossível, no entanto, a dopamina que produzimos serve tanto para o amor como para o ódio. Cérebro incrível. Quando nos apaixonamos uma parte de nosso cérebro se ascende, sua função se torna mais visível, mas quando um relacionamento se desfaz, em vez desta parte se apagar, ela se ascende mais e não some, está aí o que falamos de dor de coração partido. Não a nada partido, apenas mais aceso.
Esta parte em meu cérebro nunca apagara por completa. A dor estava lá juntamente com o ódio e o amor.
Quanto tempo, poderíamos suportar uma intensidade de dopamina em nosso cérebro? Para quem é espiritual, quantas vidas? Seria a dopamina indestrutível contra o tempo? Talvez sim, talvez não.
Noradrenalina. É um neurotransmissor que potencialmente pode estar envolvido, de algum modo, na atenção, no alerta, sono, memória, aprendizagem, ansiedade, dor, humor e no metabolismo cerebral.
Alerta, ansiedade e dor. Foi isto que senti quando vi Catarina tão próxima de mim dentro da sala de aula. Como poderia meu cérebro estimular aquela pequena parte? Tão pequena parte que faz um estrago enorme em mim.
Catarina, a razão de eu amar tanto esta cidade, razão de ter me tornado uma médica de renome. A razão de ter me feito querer ser a melhor em minha profissão, a razão de ter me feito desacreditar nesta coisa de relacionamento e confiança, razão pela qual me fez acreditar um dia em amor, razão que me fez acreditar na dor sentimental ou de coração partido, razão pela qual estou em estado deplorável em cima desta cama.
Eu nunca estaria preparada para encontrá-la novamente, havia se passado 15 anos ou mais e eu ainda continuara a ter raiva dela. Não. A quem eu estava enganando? A chuva que teimava cair? A escuridão de meu quarto? A mim? Seria justo eu me enganar? Não. Não era raiva, era medo. Sempre fora o medo que me fazia não querer encontrar Catarina. Medo dela não me reconhecer, medo dela não me amar mais, medo da rejeição, medo de sofrer tudo aquilo novamente. Mas agora eu estaria mais forte?! Uma mulher madura. Dura. Criei um casco para onde me refugio quando se trata de relacionamento ou lembranças. Ninguém é permitido adentrar neste espaço.
Algo ainda dentro de mim me lembrava da menina de 20 anos de joelhos naquela calçada, algo que minhas lembranças faziam questão de me atormentar, o sentimento. Eu ainda a amava mas ao mesmo tempo queria distância. Fui fraca ao não segurar meu olhar no dela, mas como poderia? Não teria coragem nem audácia de me entregar àqueles olhos, àquela mulher que um dia roubara minha dignidade, minha alma, meu amor.
Catarina ainda estava linda, o tempo lhe fez tão bem. A menina que um dia conheci estava uma mulher, com suas curvas mais definidas, sua áurea mais sensual, mas os olhos, os olhos continuavam os mesmos. Grandes. Intimidador. Eram a janela para sua alma. Sua pele ainda bronzeada, seus longos cabelos negros ondulados, o desenho de sua boca, o desenho mais lindo que já vi e pude sentir.
Hey, o que estou fazendo? Para Franciele. Você não pode se entregar, se deixar envolver novamente. Agora ela está de novo em sua vida, mas agora você é madura. Mas meus sentimentos ainda são daquela jovem menina.
– Estou ficando louca- deixei meu pensamento sair pela boca.
Roberta abriu a porta de meu quarto deixando que a luz entrasse.
– Como você está? – perguntou se aproximando da minha cama.
-Bem. – respondi me ajeitando na cama fazendo sinal que ela deitasse em meu lado.
– Você não deve estar bem! – Exclamou sugestiva. – Me convidando para deitar ao seu lado.
– Ande logo antes que eu mude ideia. – Falei em meio a um sorriso. Roberta se deitou e logo deixei minha cabeça descansar em seu peito. Silêncio. Ficamos assim alguns minutos, ela sabia que eu precisava mais do que minutos para falar sobre Nina.
– Fiquei preocupada com você. -Falou passando os dedos por entre meus cabelos- Apenas tinha te visto naquele estado quando te busquei no aeroporto há alguns anos atrás. – Terminou a frase quase em um sussurro, sabia que estava mexendo em algo que me fez sofrer. O assunto proibido.
– Estou melhor Roberta.
– Certo. – Pausou buscando encher os pulmões de ar. – Como Catarina foi parar naquela universidade?
– Ela leciona lá. – respondi dando de ombros.
– Certamente ela não saiu na universidade procurando por você não é? – Perguntou se ajeitando na cama.
– Ela é mãe de Julia. – Pausei – Não consigo imaginar o quanto este mundo pode nos surpreender com coincidência deste tipo.
– Destino minha cara. – Falou se encolhendo esperando meu ataque.
– Destino. Não é algo concreto que podemos pegar com as mãos, ou algo que podemos presumir o que acontecerá, pode mudar em meses, dias ou agora, de um minuto para o outro. Será que este destino não cansou de brincar comigo? Brincar com esta história? – Respondi serena, olhando para o nada, até encontrar olhos confusos sobre mim. – O que foi?
– Catarina mal retornou sabe-se de lá onde e já está mudando você. Que poder desta mulher. – sorriu satisfeita ao terminar a frase.
– Vamos. Estou com fome. – olhei para Roberta – Antes que eu coma seus olhos.
Rimos e fomos para a cozinha. Roberta havia ido ao mercado comprar os ingredientes para fazer algo que eu realmente gostasse: tacos.
Após nos enchermos de tacos e beber quase uma garrafa inteira de vinho, nos jogamos no sofá, ligando a televisão e colocando em qualquer filme.
– Está pronta para retornar ao hospital e universidade? – Roberta perguntou.
– Pronta estou, mas pronta para tombar com Catarina por aí, não sei. – Suspirei- Mas não pararei minha vida novamente, não seria justo comigo.
– Realmente. – Ficamos em silêncio em um breve instante. – Zo foi embora pouco antes de eu subir o seu quarto.
– Verdade, tinha me esquecido de Zo. Como ela está?
– Ficou preocupada né desbotada. – falou sorrindo – Mas acredito que agora ela saiba a imensidão de seu assunto proibido.
– Não será mais proibido. – Roberta me olhou surpresa.- Está na hora de encarar isto de frente.
Terminamos de assistir o filme, conversamos mais um pouco, Roberta me falou da novidade, ela teria recebido uma proposta de trabalho de Chávez, e aceitou. Iria para Cuba na próxima semana organizar suas coisas e retornaria antes da Páscoa.
– Amanhã não te acompanharei para o hospital, mas Zo está sobre aviso, qualquer coisa pode recorrer a ela. – Roberta falou indo para seu quarto.
– Obrigada mais uma vez. Não sei o que teria acontecido se você não fosse me buscar. – falei em tom de gratidão.
– Não se preocupe, amigas são para isto não? – Deu uma piscadela e se retirou.
Os dias não seriam tão fáceis sabendo que Catarina poderia aparecer a qualquer momento.
Resolvi esvaziar a mente em um banho relaxante. Demorei alguns minutos para pegar no sono, mas logo ele veio.
Havia ficado em casa um dia inteiro, nem me lembrara por quanto tempo fiquei em minha cama, Roberta tinha avisado Chávez que algo tinha acontecido e que eu não poderia comparecer no hospital, prontamente ele entendeu e deixou-me descansar um dia. Agora eu estava novamente aqui neste hospital, olhando sua estrutura do lado de fora encostada em meu carro. Este hospital era mais a minha casa do que meu próprio apartamento, isso teria que mudar.
Avistei um de meus internos me esperando na porta me olhando disfarçadamente, revirei os olhos. Estes fetos um dia crescerão e se tornarão bons.
– Está aqui para fazer sua residência ou me vigiar Dra. Rigo? – Falei ríspida passando pela porta e por ela.
– Desculpe Dra. Rodrigues, mas é que… Que – Se enrolou para terminar uma única frase, revirei os olhos e parei de repente, o que fez a interna trombar em mim e me olhar assustada.
– Quer que eu lhe recomende um fonoaudiólogo para tratamento de sua disfemia? – Falei intimidativa, adora ver os olhos deles com medo.
– Disfemia? – Dra. Rigo deixou escapar, parece que seus pensamentos estavam tendo voz.
– Como a senhora chegou aqui? Disfemia, mas conhecida como gagueira. – Revirei os olhos novamente. – O que a senhora queria me falar?
– Ah.. Sim, sim – Falou com entusiasmos. – Os pais do paciente Mauricio querem falar com a Senhora, eles aceitaram a doação de órgãos.
– Ótimo. – Respondi sem parecer muita alegria, mas na verdade queria saltitar – Estou indo para meu escritório, pode leva-los lá.
Não dei tempo para ela responder, virei os calcanhares e segui para o elevador, tinha certeza que a Dra. Rigo bufou e fez algumas caretas, um dia eles estariam virando os calcanhares e rindo por dentro dos internos destinados a eles.
Sentei em minha cadeira confortável e verifiquei minha caixa de e-mail, havia vários, tanto da universidade como de alunos. Respondi pacientemente todos, quando um endereço diferente me chamou a atenção, logo que o abri congelei por completa, era de Catarina. Como ela havia encontrado meu e-mail? Claro, na sala de professores. Mas eu sou uma besta mesmo, como não adivinhara antes. Escutei a porta se abrir lentamente e olhos curiosos caíram sobre a mobília, sorri e me levantei da cadeira.
– Ora, quem veio me visitar em meu covil. – Me aproximei de Carlos e Silvia lhe oferecendo um comprimento de mãos. Carlos prontamente o fez, Silvia me puxou para um abraço.
– A Senhora está bem? Ontem procurei pela senhora e me disseram que tinha havido algum problema.
– Não se preocupe, estou perfeitamente bem. – Sorri – Um contratempo, mas que já foi resolvido. – Enchi os pulmões de ar – Sentem-se, querem algo? Café, água?
– Dois cafés, acredito. – Carlos falou se virando para a mulher – Pode ser querida? – Silvia concordou com um aceno de cabeça. Prontamente fui a máquina e fiz três cafés.
– No que posso ajuda-los? – Sentei em minha cadeira deixando os cafés a frente deles.
– Então – Carlos começou – Queremos falar de Mauricio.
– Sabemos que nosso menino já está entre nós. – Silvia falava calma – Não sei se a senhora acredita em vida após a morte, mas fomos em um centro espírita e lá não falaram o que fazer, mas nos explicaram muitas coisas, e uma delas, era que Mauricio estaria bem. – Uma lágrima correu seu rosto, mas tinha um sorriso em seus lábios. – Resolvemos fazer o certo.
– Queremos doar os órgãos dele para que alguém sobreviva e tenha uma nova chance. – Carlos terminou.
– Estou impressionada. – Falei dando um gole no café. – Vejo que os dois estão bem diferentes e isso me deixa imensamente feliz. – Pausei – Sou médica, estudei anos para me tornar quem eu sou, e tecnicamente muitos profissionais desta área não acreditam se quer em Deus, mas eu realmente acredito Nele, e gostaria muito de conhecer este centro que vocês falam. – Sorriram satisfeitos.
– Claro, iremos nos informar os dias certinho e diremos para a senhora. – Carlos falou sorridente.
– Queremos desligar os aparelhos hoje de tarde, pode ser? – Silvia perguntou.
– Claro, peço para Chávez acompanhar vocês. – Falei pegando o telefone.
– Queremos a senhora. – Os dois falaram juntos.
Olhei meio confusa a eles. Deixei o telefone no gancho novamente e tomei o restante do café.
– A Senhora nos acompanhou, ajudou Julia, o que fez ela nos ajudar muito, ela quem nos levou ao centro e nos apresentou Gustavo. Queremos a Senhora neste momento. – Silvia falava como em suplica.
– Será uma honra acompanha-los neste momento que não será fácil. Podem contar comigo.
Nos próximos minutos marcamos o horário, eles me perguntaram se podiam trazer alguns familiares prontamente respondi que não teria problemas. A manhã passou rápida e decidi convidar Zo para almoçar. Quando estacionei em um dos melhores restaurantes do Rio de Janeiro, zo fez um drama enorme dizendo que não estava vestida para a ocasião e não teria dinheiro para pagar sua parte. Revirei os olhos e disse que eu que tinha convidado certamente eu iria pagar, e ali eles me conheciam, já teria ido várias vezes. Depois de muita resistência ela resolveu entrar. Ri de como ela era teimosa, os dias dela com a Roberta fizera-a pegar alguns hábitos de Roberta. Durante o almoço expliquei para ela a situação com Catarina, e que agora seria diferente, iria encarar de frente e estava cansada de sofrer por Catarina. Zo estava radiante e feliz pelo rumo da conversa.
Retornamos para o hospital as 14h, teria meia hora para me aprontar e ir ao quarto de Mauricio. Fui para minha sala, fiz minha higiene pós almoço, tomei um café quente e fui para o elevador. Chegando no andar onde o quarto de Mauricio estava, percebi o movimento de jovens do lado de fora, algumas pessoas mais velhas também, deveria ser tios. Caminhei lentamente, meus internos estavam no balcão me aguardando. Troquei algumas palavras com eles solicitando que entrassem em contato com os pais de Gustavo para preparar eles que talvez teríamos uma nova chance.
Cumprimentei alguns que estavam do lado de fora do quarto, todos muitos educados, me pareceu que dentro do quarto estavam apenas os mais próximos de Mauricio. Adentrei no quarto e vi os pais de uma lado da cama, Julia doutro lado. Estaquei. Meus braços amoleceram e meus joelhos falharam. Catarina estava ao lado de Julia, com as mãos sobre os ombros da filha, logo que percebeu minha presença me olhou. Os olhos. Não queria sustentar o olhar, mas não consegui. Seus olhos estavam em um misto de alegria e tristeza, mas o brilho estava lá ainda.
– Ah Dra. Franciele, sempre pontual. – Silvia se aproximou e esticou os braços para um abraço. Desliguei-me de Catarina, aquela não era hora muito menos lugar.
– Olá Silvia. – Sorri e a abracei fortemente. – Carlos. – Falei dando-o um abraço. Logo Julia se desvencilhou de sua mãe e veio ao meu encontro.
– Dra. Franciele. – Falou com a cabeça em meu ombro e começou a chorar.
– Hey minha querida. – Passei a mão em seus cabelos, olhei por cima para Catarina que assistia tudo. – Não fique assim, Mauricio está em boas mãos neste momento, sabe disto não é?
– Sei, mas ainda é difícil. – Falou fungando se afastando.
– Ninguém disse que seria fácil minha querida. – A olhei com ternura.
– Quero te apresentar minha mãe. – Suspirei, mal sabia ela que já conhecia sua mãe. Saiu me puxando pelo braço até parar e fazer com que eu e Catarina ficássemos uma de frente para a outra. – esta é minha mãe Dra. Fernandez, mãe esta é a Dra. Que tanto te falo. – Falou sorrindo.
– Muito prazer Dra. Fernandez – Catarina estendeu a mãe, a olhei por um segundo e estendi a mão. – Minha menina falou muitas coisas boas suas. – Certamente ela não teria contato o ocorrido na universidade para Julia.
– É um prazer… – Deixei um espaço para não falar o nome dela.
– Catarina. Meu nome é Catarina. – Falou apertando minha mão.
– Senhora Catarina. – Desvencilhei minha mão da dela. – Acho que está na hora. – Falei indo para perto do ventilador mecânico, que ficava atrás de onde Julia e Catarina estavam.
Todos entraram no quarto, todos espremidos e mais juntos desta vez. Voltei a falar.
– Não irei desligar o ventilador mecânico, apenas tirarei os eletrodos de Mauricio, precisamos dele respirando até a retirada dos órgãos.
Silvia assentiu e olhou para Carlos. Julia que estava ao meu lado me olhou e encostou sua mão na minha, pedindo permissão para que entrelaçasse seus dedos no meu, assenti e sorri de canto para ela. Este seria um momento difícil para família, e para mim, por estar tão perto de Catarina.
Catarina me olhou por cima dos ombros e deixou que uma lágrima caísse, desviei seu olhar. Agora não. Agora definitivamente não. Eu não vou deixar me levar novamente por esta mulher.