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Capítulo 5 – Confissões

Dani estava ligeiramente nervosa, o que era ridículo para ela, considerando que a sua frente estava sua melhor amiga. Tantas coisas haviam passado juntas em inúmeros anos de amizade, especialmente o que acontecera a poucos mais de um ano quando o passado de Amy havia voltado para atormentá-la. Sempre fora fácil para a sócia e empresária escutar a amiga, aconselhar-lhe. Porém, agora, ela estava do lado oposto. Queria falar de si, o que nunca foi algo fácil. Dani tinha seus bloqueios, dificuldade para analisar seus sentimentos e ainda mais para assumi-los.

Sabendo disso, Amy durante todo caminho deixou o ambiente leve. Contou as últimas peripécias de Lucca e as loucuras de Carla. Dani gargalhou sem parar. Por um momento precisou até enxugar as lágrimas do riso que caíram de seus olhos. Precisava disso para se sentir mais à vontade. No fundo, ela sabia que todas aquelas histórias engraçadas que a amiga contava eram propositais. Ela queria deixa-la mais leve e conseguiu. Era por esses pequenos detalhes que Dani amava Amy de todo o coração. A via como uma irmã, como família. E tudo isso só tornava seus conflitos ainda mais difíceis para ela.

Entraram no restaurante preferido de Amy, no centro da cidade. Nem precisou perguntar, pois já sabia onde a amiga sentaria. Era sempre a mesma mesa, que dava vista para Avenida Rio Branco, e claro, para entrada do prédio onde Isabel trabalhava. Dani sorriu ao lembrar de um momento importante no passado.

– Lembra quando você viu a Bel saindo daquela garagem ali logo assim que se conheceram? Cara, você estava muito aérea aquele dia. Nem a comida você me ouviu pedir. E quando a Bel saiu toda arrumada e de óculos escuros eu tive que pedir guardanapo extra ao garçom para você limpar a baba.

Amy deu uma tapa na mão da amiga por cima da mesa enquanto ria. Lembrava bem daquele dia. Como poderia esquecer? Estava descobrindo um sentimento novo por aquela mulher que arrebatou seu coração de uma forma como nenhuma outra pessoa havia sido capaz.

– Ridícula, não exagera. Eu só estava pensativa e não babei. Só me surpreendi de vê-la ué…

– Ah tá! ‘Senta lá Claudia!’ Dani gargalhou da amiga, que revirou os olhos.

O garçom aproximou-se e elas fizeram o pedido. Amy pediu o de sempre, por mais que tentasse não conseguia comer outra coisa naquele restaurante que não seu macarrão de frutos do mar. Era de outro mundo o sabor. E Dani pediu uma salada com frango grelhado. Estava sem a mínima fome na verdade e optou por algo mais leve. Elas apreciaram a bebida assim que posta a mesa, e o silêncio se fez presente. Amy ficou a observar a amiga por cima do copo e viu quando ela apertou os dedos no vidro até que as pontas ficaram brancas. Estava travando uma luta consigo mesma. A morena sabia disso e suspirou. Parte de si tentava entender, mas outra ficava um tanto magoada. Elas se conheciam a tanto tempo, será que não se fazia confiável a ponto de ser tão difícil uma conversa entre elas? Dani parecia ainda mais nervosa, e a morena colocou o copo sobre a mesa e tocou as mãos dela, tirando-a do transe.

– Você vai quebrar o copo na mão se continuar apertando desse jeito! O que está acontecendo com você afinal? Amy perguntou incisiva, e viu os castanhos da amiga a encararem com enorme tensão.

– Não é tão fácil assim falar…

– E porque não? Qual é amiga, há quanto tempo a gente se conhece? Sou eu aqui! Você pode falar qualquer coisa para mim.

Dani suspirou, virando o drink de uma vez na garganta e colocando o copo na mesa.

– Você sabe porque te chamei aqui. Não sabe?

– Por causa da Ana. Está mais que óbvio.

Dani suspirou, passando os dedos pelos cabelos.

– Droga, desculpa amiga. Eu não queria que tivesse assim tão na cara.

– Eu não estou entendendo Dani. Qual é o problema afinal? Porque te incomoda tanto estar gostando da minha irmã? Amy questionou, incisiva, encarando os orbes castanhas da amiga, que pareciam perdidas de fato. Ela queria entender aquele conflito todo. Queria ajudar, mas precisava que ela se abrisse de uma vez por todas – Ela está sofrendo com isso tudo também.

Dani sentiu-se mal. Viu na expressão da amiga um ar mais sério. Ela sabia que seria assim, porque por mais que tentasse se manter neutra, a dor de Ana atingia a mais velha. Elas eram ligadas, como unha e carne. As amarguras da vida as aproximaram de uma forma que o amor entre elas se tornava quase raro de se ver no mundo de hoje. Uma daria a vida pela outra sem pestanejar. Apesar das implicâncias cotidianas, as irmãs Collins eram praticamente uma só. E Dani amava isso nelas. Admirava aquela relação e era grata por fazer parte da história das duas. No entanto, agora, as coisas estavam diferentes e o simples fato de que tudo pudesse mudar a aterrorizava.

– Eu sei… Eu sei, me desculpe Amy. Eu não queria, não foi intencional, eu juro.

Dani praticamente implorou e a expressão da morena suavizou. Ela viu a dor no rosto dela, a confusão nos olhos. Novamente colocou as mãos por cima das da amiga e elas entrelaçaram os dedos uma na mão da outra. Quando se olharam, os olhos da empresária lacrimejaram e o coração de Amy apertou de uma forma que ela não pode explicar. Odiava ver sua querida amiga daquele jeito. Odiava ver sua irmã caçula daquele jeito e não sabia o que fazer para ajudar.

– Você não tem que pedir desculpas para mim, mas talvez para Ana se achar que deve. O que te aflige? Porque todo esse medo no seu olhar?

– Você não entende, não é? Me diz Amy… Quem eu tenho na vida?

A sócia perguntou sem piscar e aquilo fez a morena encará-la com o olhar perdido. Elas soltaram as mãos e Dani recostou as costas sobre a cadeira, cruzando os braços e prendendo o choro. Os lábios tremiam de leve e ela lutava consigo mesma para não chorar.

– Dan… Amy sussurrou, mas viu a amiga pedir que ela parasse ao fazer um gesto com a mão.

– Não, Amy! Não fala nada tá legal… Isso tudo está uma merda e a culpa é minha. Eu tinha que estar louca por alguém que vi crescer? Ela é uma menina, que droga! A menina que eu peguei no colo tantas vezes… Eu praticamente ajudei você a criar a Ana e não deveria ver ela dessa forma, não deveria! Mas eu… Eu sou a pior pessoa do mundo porque não consigo parar isso aqui dentro, não consigo, eu não… Dani apertou a mão sobre o peito e começou a chorar.

Amy já estava chorando também, finalmente entendendo de fato o conflito da melhor amiga. Ela correu para cadeira ao lado dela, abraçando-a e deixando-a chorar em seu ombro. Toda aquela angústia apenas provava para a morena o quanto aquela mulher era especial. O quanto era digna, honrosa, amiga. Ela estava apaixonada por sua irmã e aquilo estava estampado na cara dela, assim como na da caçula. No entanto, Ana não tinha os conflitos da mais velha. Não se lembrava de muita coisa de sua infância, nem do que elas três juntas passaram. Ela sempre viu Dani como a melhor amiga da irmã mais velha, enquanto Dani cresceu a tratando como uma irmã. A irmã caçula que nunca teve. E agora para ela esse sentimento vinha com remorso e culpa.

– Me perdoe, eu tentei evitar tudo isso. Eu fugi, eu…. Me perdoe Amy.

Dani soluçava e foi apertada ainda mais pela morena. Ela a deixou chorar e o garçom ao chegar com os pratos, apenas os deixou discretamente na mesa, assentindo comovido para Amy que deu um meio sorriso em agradecimento. Afastando o rosto de Dani de seu ombro, ela pediu que a amiga a encarasse. Com relutância, Dani o fez, os olhos vermelhos pelo choro e parecendo extremamente culpados.

– Eu quem deveria te pedir perdão. Não me coloquei no seu lugar amiga. Não pensei que toda essa sua resistência seria por um motivo tão nobre e tão justificável. Me desculpe por não ter procurado você todo esse tempo. Eu ouvi apenas o lado de Ana, quando deveria também ter me colocado a sua disposição.

Dani riu e chorou, abraçando a amiga com ternura.

– Você pode parar de ser tão fofa? Isso aqui já está difícil demais pra mim. Elas riram abraçadas e Amy em seguida secou o rosto molhado da amiga com os dedos.

– A gente pode comer e conversar? Meu macarrão favorito vai esfriar. A sócia riu novamente, e assentiu em concordância. Elas começaram a comer, até que a morena quebrou o silêncio – Você tem medo de que nossa amizade acabe se não der certo entre vocês, é isso?

Dani assentiu e continuou – Eu sou sozinha no mundo você sabe disso. Tudo que eu tenho são vocês. E você não pode negar para mim que a Ana é sua vida, assim como a Bel. Se não der certo entre nós, se ela sofrer, como você vai olhar para mim do mesmo jeito? Como eu vou poder frequentar sua casa, os encontros entre amigas da mesma forma? Como eu vou chorar meu coração partido, se o seu ombro antes de tudo será dela? E como você não teria raiva de mim se eu for a culpada pelas lágrimas da Ana? Eu não posso perder a única família que eu tenho. Não posso.

A confissão da amiga fez o coração de Amy apertar. Ela entendia todo aquele conflito, porque se tinha alguém que sabia o quanto Ana era importante esse alguém era Dani. Fora ela que estivera ao seu lado em todos os momentos da vida, os bons e ruins. Sempre ela ao lado delas. Sendo a irmã mais velha de Amy, quando ela tinha quer ser mãe e pai de Ana. Sendo o porto seguro, o amparo, a válvula de escape.

– Amiga, olhe para mim. Pediu carinhosa e Dani atendeu sem questionar – Tudo que você sente é plausível, mas você está esquecendo de uma coisinha só.

– O que?

– Que família é onde tem amor, não apenas o sangue. E isso quer dizer que você é tão valiosa para mim quanto Ana é. Eu faria por você as mesmas coisas que eu faria por ela, porque te considero como uma irmã para mim. No entanto, esse é o meu sentimento, não é como as coisas são. Isso é entre mim e você, não entre você e a minha irmã. Eu entendo que você a tenha visto como uma irmã mais nova quando ela era criança, mas aquela Ana já não existe mais. Ela é uma mulher agora e você também. O que vocês sentem uma pela outra não é indigno.

Dani suspirou, tentando pensar no que ouvia – Mas você não vê isso como errado? Eu sou muito mais velha que ela Amy. Dez anos não são dez dias. E se for apenas uma fase para ela? Ela é tão nova, tem tanta coisa para viver e eu não quero mais curtição. Eu só encontrei pessoas que ferraram com a minha cabeça e por isso que optei por ficar sozinha. Todos os rolos que eu tive eram casos de uma noite só, mas ela… Ela me faz querer ficar, só que eu não tenho esse direito. Não tenho o direito de sonhar com isso porque a Ana nunca se apegou a ninguém e talvez esse encanto todo seja porque eu resisti, eu disse não, quando ela só ouvia sim. Entende?

– É claro que eu entendo. Talvez no seu lugar eu estaria com os mesmos conflitos, mas eu conheço a minha irmã. E o que eu tenho visto nos olhos dela há um bom tempo não é um fogo de palha de alguém que só quer conquistar. Ela chorou muito por você ontem à noite, sabia disso? E eu nem deveria estar dizendo essas coisas, mas preciso que entenda que está sendo preconceituosa com ela ao pensar que só porque é mais jovem, automaticamente é incapaz de se apaixonar e valorizar alguém que ela quer.

Dani abaixou os olhos, parecendo em choque. Aquilo que Amy havia acabado de dizer fora sentido como uma tapa em seu rosto, uma sacudida em sua mente. Sua amiga estava certa e ela mal podia acreditar que a caçula havia chorado por ela. Por um lado, aquilo a fez sentir ainda mais culpa, porque todas as vezes em que rejeitou Ana e via a tristeza no olhar da ruiva, soava como se estivesse cravando em seu próprio coração uma faca pontiaguda. Magoar Ana era magoar a si mesma duplamente. Por outro lado, aquela informação a deixava contente como uma adolescente boba porque Ana nunca chorou por ninguém. Sempre teve aventuras e fez muitas chorarem por ela, mas o contrário Dani nunca presenciou. Encarando Amy, que agora sorria singelamente, a sócia sentiu que a amiga sabia exatamente o que se passava em sua mente. Essa conexão que elas tinham era algo valioso, algo que só as grandes amizades verdadeiras tinham.

– Porque ao invés de lutar tanto consigo mesma, você não começa a deixar acontecer? Deixe-a entrar Dani! Deixe-a se aproximar! Você não vai saber se o que ela sente é verdadeiro se fugir dela como diabo da cruz. Tenha coragem!

– E se eu me quebrar no final? Eu nunca me senti da forma que estou me sentindo e eu sei que vou ficar na merda se eu me decepcionar.

– E não é isso que é viver? Ou você esqueceu de todas as vezes que tivemos que arriscar alguma coisa? Eu me apaixonei pela minha cerimonialista, enfrentei uma inimiga, quase morri, quase perdi a Isabel, mas agora… Agora eu sou feliz Dani! Eu amo aquela mulher como nunca amei alguém na vida e eu aprendi tanto, eu ganhei tanta coisa desde que ela entrou na minha vida. Então me diga, como eu estaria agora se tivesse me acovardado diante do que eu sentia?

– Casada com um bosta engomadinho, tendo uma sogra cobra e trancada no armário, quando poderia estar com uma loira de tirar o folego e de coração tão lindo como a Bel.

Dani respondeu, fazendo Amy rir e concordar com a cabeça.

– Fala aí, estou bem melhor lésbica não estou? Sair do armário é tudo boba!

Dani gargalhou negando com a cabeça – É tenho que admitir que está mesmo.

– Está vendo? O mundo é dos corajosos! A vida é um sopro na eternidade Dan! E o que nós temos? O hoje, o agora! Não deixe de viver por conta de conflitos que são apenas possibilidades. E sim, talvez não dê certo, talvez você fique de coração de partido, mas merda, você vai ter vivido. Vai ter tentado, e eu prometo que não vou deixar de ser sua melhor amiga por conta disso. O espaço que você tem no meu coração, na minha vida é só seu. Você é uma irmã pra mim, minha família assim como sei que também sou a sua. Eu amo você Dan. Amo você e nada vai mudar isso.

Dani chorou e riu, dessa vez indo abraçar Amy. Sentia-se grata, feliz e pela primeira vez disposta a tentar.

– Me lembre de dar para Bel tudo que ela quiser. Ela mudou você tanto….

– A Ana mudou um bocado também se você reparar.

– É… eu reparei, só não quis criar expectativas. O que você faria, se estivesse no meu lugar?

– Primeiro pararia de fugir e pensaria seriamente em contar a verdade para ela quando estivesse pronta. Ela precisa saber a verdade para entender o porque você a rejeitou tanto. E eu digo isso por experiência própria porque Isabel e eu também tivemos que deixar uma entrar no passado da outra para que nosso sentimento crescesse. Você já conhece o passado da Ana porque participou dele, mas e quanto a ela? O que ela conhece da Dani de verdade? Aquela que ninguém vê?

– Você está muito poética hoje, mais tem razão. Obrigada por me dizer essas coisas, me apoiar, me encorajar. Obrigada de coração. Eu amo demais você sua chata.

– Eu também te amo! Só te peço uma coisa, na verdade duas. Dani assentiu para que ela continuasse – A primeira e que cuide dela e de você também. E a segunda é que por favor, não me conte os detalhes da sessão de amasso, como você fazia com seus casos. Eu não quero mesmo saber se os dedos da minha irmã são precisos, ok?

Dani riu alto, fazendo a morena rir também.

– Aí que nojo idiota, é claro que eu não vou dizer essas coisas para você!

– Pensando bem, se a pirralha não for muito boa você pode me contar. Eu adoraria zoar ela eternamente! Plantou um riso atrevido na fase e levantou as sobrancelhas ao mesmo tempo encarando Dani.

– Idiota!

Dani bateu no ombro da amiga rindo e elas conversaram por mais um tempo até que resolveram pedir a conta e encerrar o almoço. A sócia estava sentindo-se mais leve depois de conversar e saber como a amiga se sentia em relação a ela e a irmã mais nova. Era como se um peso saísse de seus ombros, mas ainda assim não seria fácil. Ainda precisava saber como se aproximar da caçula depois de tantos vacilos, e mais ainda, precisava ter paciência com ela mesma, para pouco a pouco derrubar os muros que ela mesmo ergueu em volta de seu coração. Contar seu passado então seria o maior dos desafios, no entanto, estava disposta a tentar. Disposta a viver, a sentir, a se permitir. Aquela menininha que carregou no colo agora era uma mulher. E que mulher. Tinha um beijo maravilhoso que a fazia perder a órbita. Dani, porém, não queria apenas sexo. Queria conhecer a jovem adulta, sem se apegar a menina. Queria se encantar, ir além do desejo.

– A gente pode só ir rapidinho ali no prédio da Bel? Eu estou tão perto dela que preciso dar um beijo na minha loira.

– Trouxa mesmo! Me lembre de contar isso a Carlão! Dani riu, aceitando o pedido, e elas atravessaram a rua até o prédio onde Isabel trabalhava.

– Vai zoando mesmo, que sua hora vai chegar. Amy retribuiu, fazendo a amiga rir.

Ao chegar na recepção, a mais velha dos Collins nem precisou de autorização. Já era conhecida no prédio e a recepcionista a cumprimentou autorizando a entrada das duas de imediato. Pegaram o elevador e ao chegar no andar da empresa de Isabel, cumprimentaram a outra recepcionista, adentrando o corredor onde ficavam as salas. Assim que o fizeram avistaram Lina impecável em seu terninho social azul marinho. A mulher sorriu para elas, abraçando-as contente. Elas trocaram alguns cumprimentos e falaram brevemente de Lucca e Carla.

– A Isa pediu para você buscar alguma coisa Amy? Lina perguntou e Amy encarou-a sem entender.

– Como assim? Não. Eu estava almoçando com a Dani aqui na frente e resolvi fazer uma surpresa. Dar um beijo nela antes de voltar para o escritório.

Lina fez uma expressão intrigada e olhou para as duas. Amy encarou a mulher, em seguida olhou para Dani.

– O que houve Lina? Onde está minha mulher?

– Eu não sei. Bem, ela não veio ao escritório até o momento.

Rapidamente a morena pegou o celular no bolso da calça e discou o número da loira. A chamada caiu em caixa postal.

– Está desligado. Ela estava arrumada para vir para cá quando sai. Amy passou a mão pelos cabelos, sentindo-se meio tonta. Por um momento, o pensamento de que algo pudesse ter acontecido com sua mulher a tirou o chão. Dani segurou a amiga ao perceber sua vertigem e Lina correu até o bebedouro do lado pegando água.

– Calma Amy, vem senta aqui. Dani conduziu-a até a cadeira de espera no corredor e logo Lina a estendeu um copo de água fresca. A empresária bebeu aflita, as mãos ligeiramente trêmulas. Podia ser exagero para alguém aquela reação, mas Isabel nunca fizera isso. O telefone estava sempre ligado e quando ela precisava mudar os planos sempre mandava uma mensagem avisando Amy das mudanças. Mas agora, era tudo apenas um tiro no escuro e a morena teve medo do que aquilo poderia significar.

– Liga pro apartamento da Bel, talvez ela não tenha saído por alguma razão.

Amy assentiu, ligando para o telefone fixo, que chamou até cair.

– Não atende. Eu preciso ir até lá. Talvez ela tenha passado mal.

– Eu levo você, vamos.

– Lina, por favor, se ela chegar na empresa peça para que me ligue.

– Claro, eu vou continuar tentando falar com ela também.

– Ela pode estar na boate? Amy perguntou.

– Não, não. Está tudo fechado. A limpeza é só daqui a duas horas e eu que fiquei responsável por ir acompanhar. Creio que ela não esteja por lá.

– De qualquer forma, tente ligar também e me avise se conseguir falar com ela.

– Claro e fica calma, ok?! A Isa vai aparecer e te dizer o que houve.

A morena assentiu, abraçando Lina e saiu aflita do prédio com Dani. Foram para o apartamento, e apenas para checar passaram antes em frente à boate que estava de fato totalmente fechada. Alguma coisa na morena lhe dizia que aquele sumiço escondia muito mais do que ela gostaria.

*************

Isabel estacionou no prédio do apartamento. Colocou as mãos sobre o volante e suspirou nervosa. Ainda estava perdida diante do que havia feito, sem saber se fora a decisão certa. Odiava estar escondendo as coisas, mas não teve coragem de falar. Não teve coragem de expor ainda mais uma ferida e não queria levar problemas para Amy que nem ela sabia se podia resolver.

Ligou o celular enquanto saia e foi surpreendida com o número de mensagens de notificação que recebeu. Chamadas do escritório, do celular de Lina, de Amy. Seu coração acelerou de imediato. Imaginou que a morena ficaria no escritório por todo dia com as novidades e só se falariam a noite, mas pelo visto estava enganada.

– Merda! Você faz tudo errado Isabel… reclamou consigo, subindo no elevador.

Pensou no que diria ao ligar para Amy. Queria falar logo a verdade, mas era tão difícil. Sabia que não tinha desculpas e estava errada. Só esperava que Amy entendesse.

Abriu a porta do apartamento, jogando a bolsa no sofá. Já era começo de noite e o apartamento estava meio escuro. Ascendeu a luz da sala e deu um pulo de susto ao ver Amy sentada no sofá. Os olhos vermelhos de quem havia chorado, os cabelos desgrenhados de tanto enfiar as mãos pelos fios lisos em nervoso. Ela fazia isso quando estava nervosa e Isabel sabia. Ela petrificou, vendo o olhar confuso e um tanto decepcionado de sua mulher a encarando. A vontade de chorar a tomou de assalto, porque sentiu-se a pior das pessoas. Estava sendo o motivo das lágrimas de quem mais amava no mundo.

– Amor… Sussurrou tentando se aproximar, mas Amy sacudiu a cabeça, levando a mão nos olhos e limpando as lágrimas.

– Você vai me dizer aonde estava e o que está escondendo de mim? Porque se não for dizer, vou embora por essa porta e só volto quando você resolver ser verdadeira comigo!

Isabel aproximou-se ajoelhando de frente para ela e apoiando as mãos em seus joelhos. Ela já chorava, entregando completamente que estava escondendo algo.

– Não amor, não pensa besteira por favor…

– E o que eu tenho que pensar Isabel? Você está mentindo para mim eu posso ver nos seus olhos! Merda! A gente prometeu não mentir…

– Eu sei, eu sei me perdoa. Eu ia te contar eu só…

– Você está com outra pessoa? E isso?

Amy perguntou um pouco mais alto, irritada, prendendo o choro e Isabel assustou-se.

– O que?! É claro que não!!! Como você pode pensar que eu… Meu Deus, não! Eu amo você, eu nunca… Amy você sabe o que eu passei antes de te conhecer, como você pode pensar que eu faria isso com você?!

Isabel parecia estarrecida e aquilo foi um choque para a morena. Seu rosto estava entre as mãos de sua mulher e elas encostaram a testa uma na da outra depois de um longo tempo se encarando. O sumiço de Isabel fez a preocupação de Amy tornar-se ciúme, mas ao vê-la ali, seus olhos eram o espelho que precisava. Eles transbordavam sinceridade e por mais chateada que estivesse não podia negar aquela verdade.

– Desculpe. Eu só estava com ciúme. Eu sei que não faria isso, mas se não for honesta comigo, não posso ficar Isabel…

A loira beijou-lhe os lábios com carinho e Amy aceitou o beijo delicado e salgado pelas lágrimas de ambas.

– Me perdoe, eu deveria ter dito antes. Eu assumo minha culpa.

Isabel levantou-se indo até a cômoda da sala e abrindo a porta da estante. A morena ficou estática observando os movimentos da mulher e viu-a pegar uma caixa de madeira média e carrega-la nos mãos. Isabel sentou-se ao lado da morena, entregando a caixa.

– Aqui está tudo que você precisa saber e vou responder todas as suas perguntas, eu prometo. Só tente me entender, por favor.

Amy ficou em silêncio e seus dedos trêmulos abriram a caixa de madeira, ao passo em que seus olhos arregalaram ao ver o que tinha no interior. Aquele parecia ser um dia de confissões e ela mal podia imaginar que estaria no pilar central.

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