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Capítulo 1 – Perigosa

E aí Amybetes do meu coração???? Pensaram que eu tinha desistido e Caminhos do Amor tinha acabado não é? rsrs

Gente peço desculpas pela enorme lacuna até começarmos essa nova fase da história, porém eu realmente tive muitos projetos pessoais e profissionais que me impediram de cumprir o prazo que eu pretendia. Então, agora, finalmente Amybel vai voltar!! Vou deixar aqui o primeiro capítulo, mas adianto que a temporada iniciará efetivamente em março. Esse primeiro capítulo é para deixar vocês com gostinho do que virá e também para que tenham tempo de reler a primeira, porque provavelmente não devem lembrar de muita coisa kkkkkkk

Então espero que ainda queiram acompanhar Amy, Isabel, Ana, Dani, Carla e Lina! Porque elas tem muitas aventuras e mistérios para compartilhar com vocês!

Boa leitura!

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NARRADOR

            Um ano depois…

            Uma gota de suor escorria sorrateiramente pela pele alva, deixando um rastro salgado por entre as rugas de concentração em sua têmpora. Os longos cílios mal piscavam enquanto o olhar atento, encarava o alvo a sua frente. Respirou fundo, mais pouco expandiu a caixa torácica no gesto. Seus movimentos eram sutis, quase imperceptíveis. Qualquer músculo que tencionasse demais poderia ser o fator determinante para que a bala de sua Glock prata 9mm não atingisse seu destino.

            Era apenas uma chance. Ela sabia que sim. Apenas um tiro a separava de seu objetivo final. Uma missão bem árdua considerando a velocidade do movimento que seu alvo teria e os milésimos de segundos entre mirar, apertar o gatilho e acertar em seu centro vital. Tão rápido quanto um sopro ou um suspiro. Um desafio daqueles que beiram a impossibilidade.

            No entanto, a mulher que fechou um dos olhos para ver a mira e apertou o gatilho sem piedade era nada mais, nada menos que Amy Collins.

E por isso, desafiando qualquer conceito de lógica, tão rápido quanto o som do disparo ecoou pelos quatro cantos do lugar, a bala de calibre 9mm perfurou o alvo com perfeição. Em seguida, novos disparos foram ouvidos, um após o outro, até que todas as balas estivessem descarregadas no centro vital do alvo.

Assim que o silêncio imperou no galpão, a fumaça ainda saia do cano da arma quando Amy retirou o headfone e limpou a testa suada com o dorso da mão. O treino havia sido árduo e ela sentia-se cansada, mas ao mesmo tempo satisfeita por estar cada vez mais precisa nos tiros. Sentiu uma mão repousar em seu ombro e olhou para trás, sorrindo quando viu de quem se tratava.

– Se continuar assim vou te recrutar para o FBI. Estamos precisando de bons agentes. Graciela estendeu uma toalhinha branca para amiga, que a empurrou pelo ombro.

– Engraçadinha.

– É sério Amy! Você leva jeito! Sempre soube que levava.

– Já tenho muitas coisas para resolver na vida. Não preciso dos problemas do FBI, obrigada.

Riram juntas, começando a andar em direção a saída do ginásio de tiro. Amy abriu a tampa da caixa de força e começou a baixar os botões dos fusíveis. As luzes do amplo compartimento foram apagando, uma a uma, até que ficou tudo escuro. Elas saíram pela porta principal e enquanto a morena trancava uma das portas, Graciela pegou suas bolsas jogadas ao chão, alçando-as sobre o ombro. A agente Rodriguez também estava suada, vestia um top preto e calça preta de academia de cintura alta, com tênis branco nos pés. Os cabelos presos em rabo de cavalo e a franja colada à testa pelo suor. Observou em silêncio a amiga trancar o ginásio particular e não pode deixar de pensar no desempenho que Collins vinha tendo. A morena estava lutando bem e atirando com precisão. Os desafios cada vez mais difíceis que ela empunha não demoravam muito a serem vencidos por ela. E isso inegavelmente era um talento nato. Pensou que estava no caminho certo, mesmo não sabendo se ao final sua amiga seria compreensiva. Ela ainda não podia saber suas reais intenções, não agora. No fundo, a agente tinha receio do que estaria por vir, mas não podia deixar de se sentir aliviada por saber que sua amiga estava cada vez mais pronta para enfrentar o futuro.     

– Você vai mais tarde não vai? Amy perguntou, já caminhando para o estacionamento com a agente em seu encalço.

– Óbvio que vou! Não perderia este evento por nada.

– Ótimo. Vou indo porque ainda tenho que resolver algumas coisas. Te encontro lá as onze?

– Sim, estarei lá. Até Collins.

– Até Rodriguez.

Se abraçaram brevemente e Rodriguez ficou olhando a amiga entrar no carro e partir, dando a ela um breve aceno de despedida. Suspirando, pegou o celular e discou um número enquanto jogava a bolsa de treino no banco traseiro e abria a porta do motorista. No segundo toque, a ligação foi atendida.

– Alguma novidade? Perguntou a agente, puxando o cinto de segurança e o prendendo ao corpo antes de dar partida.

– Não ainda, mas estamos perto. E como vai o progresso com a águia?

– Ela está quase pronta.

– Ótimo. Vamos precisar dela em breve.

– Mantenha-me informada. Até.

Desligando a ligação, a agente ligou o carro e saiu cantando pneu do estacionamento. Tinha muitas coisas a resolver antes de encontrar as amigas.

***

            Amy chegou ao prédio de Isabel e sem paciência de esperar o elevador começou a subir as escadas. Já eram quase três da tarde e ela ainda tinha que encontrar sua irmã antes do grande evento. Abriu a porta da sala, jogando a bolsa de treino no chão e tirando a camiseta branca. Queria apenas um banho quente e almoçar. O treino havia sugado suas energias, mas ela se sentia bem. Gostava da adrenalina que a luta e o stand de tiros a traziam. Era bom para descarregar o estresse do trabalho e a morena realmente gostava de lutar e atirar. Nos últimos tempos a AD Online estava a todo vapor com as expansões das filiais e tinha dias que só os treinos com Graciela eram capazes de devolver sua paz.  

            – Bel? Chamou a namorada, enquanto sentava no sofá e retirava o tênis – Amor?! Está em casa?

            O cheiro de tempero invadiu as narinas de Amy e ela sorriu sentindo o estômago roncar. Isabel estava na cozinha e provavelmente estava em sua bolha costumeira sempre que se aventurava a fazer pratos novos. Era impressionante como a cada dia que se passava Isabel revelava um pouco mais de si. Suas minúcias continuavam surgindo e a morena se sentia fascinada por cada uma delas. Os detalhes e manias tornavam-na peculiar e a Amy sentia-se cada vez mais apaixonada por sua garota como se isso fosse possível. Levantou-se e caminhou em direção a cozinha, já imaginando a cena que iria apreciar.

            Escorou o corpo no batente da porta vestindo apenas seu top preto e a calça de moletom preta. Amy sentiu o corpo esquentar e engoliu em seco quando seus olhos fixaram em sua mulher. A loira estava com uma camisa social branca e cumprida. Uma das favoritas de Amy. Os cabelos presos em um coque, tinham alguns fios soltos pela nuca. Tinha fones nos ouvidos e balançava o quadril no ritmo da música que estava ouvindo. A saliva inundou a língua de Amy assim que seus olhos desceram para a observar a poupa da bunda de Isabel ficando exposta conforme ela rebolava. A calcinha vermelha e fio dental aparecendo e desaparecendo conforme o movimento da blusa moldava a seu rebolado.

            A loira misturava um molho na panela e cantarolava a música distraída com a voz meio rouca. Amy sorriu e com passos sorrateiros de um felino prestes a dar o bote, chegou por trás dela e ainda ficou um tempo observando o balançar de seu corpo, sentindo seu ventre esquentar e contrair em desejo. Sem aguentar mais, enlaçou a mão com força na cintura da loira e puxou-a para si, fazendo seu quadril chocar-se contra seu corpo. Isabel deu um grito assustada largando a colher de pau na panela e levando a mão ao peito em reflexo. Amy riu e beijou o pescoço da amada, deixando uma leve mordida em seu ponto de pulso enquanto Isabel tentava inutilmente virar o corpo.

            – Você quase me mata de susto amor! Por Deus! A loira exclamou sentindo o corpo arrepiar com os beijos da namorada em sua nuca. O coração disparado agora não sabia identificar se ainda respondia ao susto ou ao efeito arrebatador causado pelos lábios de Amy Collins em sua pele.  

            – E você quase me mata de outra coisa rebolando desse jeito com essa calcinha minúscula… Isabel riu, sentindo o vente contrair conforme os beijos da morena desciam por seu pescoço e ombro. A voz rouca dela, inebriada pelo desejo súbito apenas contribuíram.  

            – Mesmo é? Eu adoraria matar sua fome, mas isso faria eu queimar meu molho especial e se eu bem te conheço você está com o estômago nas costas essa hora.

            – Molho especial?! Amy parou de beijar o pescoço da loira e arqueou a sobrancelha olhando por cima do ombro da namorada para a panela. Sua boca salivou quando percebeu que Isabel cozinhava seu prato favorito, ao invés de algo novo. Um macarrão divino que ela havia aprendido a fazer, com molho italiano de tomate e camarão. Seu estômago roncou alto na mesma hora e ambas riram.

            – Acho que temos outra fome falando mais alto agora não? Isabel gargalhou e Amy virou a amada pela cintura, até que ficassem de frente. Os olhos castanhos esverdeados que ela mais amava no mundo estavam pertinho dos seus, brilhando clarinhos – Como você ainda não tinha percebido? Não sentiu o cheiro quando chegou?

            Amy refletiu sobre o que sua mulher perguntou. Ela tinha razão, pois o cheiro do molho especial devido aos temperos era inconfundível. Amy o amava tanto que reconheceria esse cheiro a quilômetros de distância. Chegou à conclusão que seu transe diante do rebolado de Isabel fora tão grande, que todos os seus sentidos, até mesmo o do olfato estavam voltados exclusivamente para ela. A loira tinha esse poder, de tornar irrelevante qualquer coisa que não fosse ela. Que não fosse seu cheiro, seu sabor e sua presença. Dando de ombros, a morena selou os lábios da amada com carinho.

            – Estava apenas concentrada em você, amor. E seu cheiro se sobrepõe qualquer outro para mim. Sua namorada corou e Amy achou adorável como ela ainda possuía um efeito único nela. Não importava o grau de intimidade entre elas, sob um elogio sincero, as bochechas de sua garota ficavam rosadas deixando-a mais linda que o habitual. – Você é a mulher mais perfeita do mundo sabia disso?

            – Sou é? O tom rosado das bochechas ficara vermelho e a loira abaixou os olhos brincando com os dedos na alça do top da morena.

            – Sim. E a melhor parte é que é só minha.

            – Sou é? Isabel riu, abraçando o pescoço da namorada e tomando cuidado para não encostar a colher de pau em sua pele.

            – É! E acredite sou uma mulher perigosa e com uma ótima pontaria.

            – Hummm… Então mais tarde vou te dar um alvo para acertar. Acha que consegue se sair bem Senhorita Collins?

            Amy arqueou a sobrancelha percebendo a malícia nas palavras da amada. Teve vontade de jogá-la no balcão da cozinha e acabar com a tortura, mas segurou fundo. Sorriu com o canto dos lábios, aceitando o desafio.

            – Arrisque e verás meu bem…

            – Pode apostar que vou fazer isso.

            Sem pensar duas vezes, Amy esticou o corpo e puxou a panela do fogo aceso. Isabel sorriu e nem sequer conseguiu pensar, pois a morena em seguida tomou seus lábios com fome. Amy invadiu a boca carnuda com sua língua quente e apertou-a entre os braços ouvindo o gemido satisfeito de Isabel. O som baixinho da música saindo por seus fones e o cheiro de tempero ao redor, misturado ao perfume doce dela eram um afrodisíaco arrebatador. Parecia a fragrância dos deuses, feita sob medida. Isabel encerrou o beijo dando uns selinhos e rindo, conforme Amy a puxava e a beijava sempre que ela tentava se virar.

            – Senta um pouquinho aqui no balcão senta… Amy sussurrou, tomando-a em novo beijo com fervor. Isabel quase jogou tudo para o alto e as comidas para o chão, mas sabia que provocar sua mulher era sempre vantajoso, porque a deixava mais fogosa ao final do dia.

            – Para amor! Deixa eu mexer o molho senão vai perder o ponto e você vai ficar com fome…

            A morena tentou ignorar o que ouviu e beijar a namorada novamente, mas seu estômago roncou ainda mais forte, fazendo ambas rirem em meio a um selinho – Ok, ok, já parei. Isabel riu divertida e Amy beijou seus lábios com carinho novamente. – Está nervosa?

            – Um pouco. Tentando não pensar sobre isso. A música me ajuda a relaxar.

            – Eu também poderia te relaxar, você sabe. É só subir um pouquinho nesse balcão, abri essas lindas perninhas e… A loira bateu de leve no ombro da namorada rindo.

            – Safada! Vai, sai daqui e toma logo seu banho para almoçarmos. Ana ligou pra você tem dez minutos, o que significa que ela vai ligar novamente daqui a pouco até que você vá encontrá-la.

            – Hugh! Essa pirralha sempre ansiosa… Eu vou tentar não deixar ela esperando, porque com você vestida assim vai ser difícil sair desse apartamento hoje. A morena começou a descer beijos no pescoço de Isabel, e ela teve que respirar fundo para não se deixar levar pelos beijos e esquecer todo resto.

            – Amy, meus camarões vão ficar emborrachados e você vai ficar com fome, literalmente. A noite também…

            A morena arregalou os olhos enquanto depositava um beijo no pescoço cheiroso de sua namorada. Logo se afastou, pois se tinha algo pior que não comer o macarrão com molho especial, era literalmente não comer… Amy bateu continência e deu um último selinho demorado em Isabel e correu para sair da cozinha feito criança. Ela estava prestes a subir as escadas, quando voltou de fininho apenas para ver quando a namorada recolocou o fone nos ouvidos e voltou a dançar mexendo os quadris, o molho e cantarolando baixinho.

            “Inferno de mulher”

            Pensou Collins enquanto arrancava o top suado e soltava o coque de cabelo, subindo as escadas em direção ao banheiro. De repente, a ideia de trocar o banho quente por um bem gelado pareceu a melhor escolha.

                                                           ***

            Ana estava nervosa. A caçula dos Collins precisava escolher um vestido para o baile de formatura que aconteceria em três dias. Finalmente a faculdade chegava ao fim e ela poderia dar um rumo a sua vida. Os últimos meses haviam sido conturbados e parecia até surreal o fato de que o pesadelo estava no fim. Não era fácil conciliar estágio na empresa da irmã com as aulas, a maldita monografia e o curso de especialização que ela já tinha iniciado graças a influência de Lina. A cabeça da ruiva estava a mil por hora. E de quebra ainda tinha aquele pensamento incessante em sua mente, de uma certa mulher de cabelos castanhos e imponente, que corria dela como diabo da cruz.

            Estagiar na AD Online era maravilhoso do ponto de vista profissional, mas uma droga completa do ponto de vista pessoal. Afinal, como poderia se concentrar em contratos, administrações e gerenciamento quando Dani passava a todo tempo, desfilando em seus saltos altos pelo carpete, com saias justas que deixavam seu bumbum mais avantajado e empinado? Como controlar a vontade de ir a máquina de café a cada meia hora, apenas para ver a executiva mastigando a ponta da caneta enquanto mexia em seu inseparável notebook? Tudo naquela mulher era provocante e parecia proposital, mas mesmo que não fosse, qualquer coisa que Dani fazia se tornava extremamente sensual aos olhos da caçula dos Collins.

            Entrou praticamente correndo pelo hall do Botafogo Praia Shopping, subindo as infinitas escadas rolantes aos pulos até chegar a praça de alimentação. Havia combinado com a irmã mais velha de escolher o vestido, e estava atrasada, para variar. Continuou a subir os degraus rolantes com pressa e batucou a mão impaciente no corrimão quando se deparou com um casal de velhinhos que andando lentamente, obstruía a passagem de saída da última escada. Pediu licença algumas vezes, mas a idade avançada do casal não os permitia ouvir a súplica da enérgica jovem.

            Na ponta da escada, Amy avistou a irmã, segurando uma bolsa e abraçando uma pasta contra o peito, enquanto tentava desviar do casal de velhinhos, indo para esquerda e para direita sem sucesso. Riu quando Ana revirou os olhos impaciente e assim que a idosa virou para ela Ana abriu um sorriso contagiante em disfarce. Amy arqueou a sobrancelha pensando de quem a irmã puxou o cinismo e negando para si mesma que tivesse alguma culpa nisso. Ela não era assim tão sínica, era? Quando finalmente passou pelo casal, quase caindo no processo, a caçula correu ao seu encontro assim que a avistou. Vestia uma calça rasgada nos joelhos preta, all star branco nos pés e uma blusa branca com estampa de caveira mexicana. Os cabelos ruivos presos em um coque frouxo no alto da cabeça e seus óculos de grau a deixavam com um ar de nerd despojada e rebelde. A mais velha não pode deixar de reparar o quanto sua irmãzinha chamava atenção. Alguns rapazes, e principalmente meninas viravam o pescoço em sua direção, enquanto desciam pela escada rolante oposta.

            – Desculpe o atraso marrenta! Ana abraçou a irmã do jeito que pode, tentando equilibrar as pastas no processo.

            – Achei que ia atropelar os velhinhos – Riu enquanto a caçula revirava os olhos – A propósito quem te ensinou a ser tão cínica?

            – Quer mesmo que eu responda irmã?

            – Melhor não. Não quero te colocar de castigo e te privar da comemoração mais tarde.

            – Engraçadinha. Não esqueça que já sou maior de idade.

            – E você não esqueça que não dou a mínima para isso. Ainda te coloco de castigo se eu quiser. Porque trouxe todas essas pastas, fedelha?

            – Vou ignorar a parte do castigo e responder amigavelmente sua pergunta porque para sua sorte estou de bom humor – Amy riu e empurrou a irmã pelo ombro – Essas pastas são dessa droga de trabalho de conclusão! Tenho que encadernar ainda hoje e entregar para bruxa da minha orientadora. Ô mulherzinha insuportável viu? Não aguento mais ter que concertar mil coisas cada vez que levo o trabalho para ela.

            – Se está concertando é porque fez errado. Amy provocou enquanto elas andavam para a loja de aluguel de roupas de festa, pois adorava irritar a irmã.

            – Errado uma ova! Aquela velha maluca pontua coisas que já tinha dito que estavam certas na revisão anterior! Ela deve ter a idade sexual dos dinossauros só pode porque está sempre tentando nos azucrinar. Graças a Deus que termina hoje. Só faltava ela pedir para eu consertar meu nome porque o resto…

            – Exagerada!

            – Ah tá! Só fala isso porque não foi você que teve que aturar essa orientadora bipolar.  

            – Eu também fiz trabalho de conclusão esqueceu pirralha?

            – Nos Estados Unidos! Não conta! Bufou e Amy riu.

            Entraram na Afghan e Ana logo começou a olhar os vestidos. Pegou algumas peças e foi para o vestuário. Amy respondia alguns e-mails do trabalho enquanto esperava a irmã. Ainda tinha uma reunião com Dani antes de encerrar o dia. Sempre que a caçula saia do provador, olhava para ela e analisava o tecido. Ana vestiu um vermelho longo, depois um rosa cetim e um marfim tubo. Alguns modelos brancos e outros pretos. Todos lindos, mas que escondiam muito a beleza da jovem. Amy se limitava a negar com a cabeça e mais nova revirava os olhos impaciente. Não tinha muito tempo já que a orientadora não tolerava atrasos e sua irmã não estava sendo de muita valia com reprovações silenciosas que não apontavam o problema ou propunham soluções.

            – Amy, se você não largar esse telefone e me ajudar decentemente eu juro que vou ligar para minha cunhada e dizer que você é uma péssima irmã mais velha e que está trabalhando ao invés de auxiliar sua única irmã a escolher um vestido para seu único baile de formatura! E repare que eu usei a palavra “único” duas vezes na mesma frase e vou fazer questão de enfatizar isso quando ligar pra Bel.

            A caçula cruzou os braços ainda com o vestido marfim tubo no corpo e fechou a carranca, batendo o pé impaciente. Amy levantou os olhos para ela tão logo ouviu o nome de Isabel. Pensou em dar uns tapas na caçula por chantageá-la. Sua mulher a mataria se soubesse que estava trabalhando ao invés de se envolver no programa de irmãs. E ela odiava escolher roupas, mas sabia que era um momento especial para a caçula. Suspirou fundo e jogou o celular no fundo da bolsa, levantando-se em direção ao mostruário.

            – Ok, você venceu fedelha! Mas só porque você tem razão nos argumentos e não por sua chantagem barata que envolve minha mulher, ouviu? E eu escutei a covardia de enfatizar o “única irmã e único baile”.

            – Tanto faz, só me ajuda! Ana riu, achando graça em como a irmã virava um cordeirinho para não tomar bronca da namorada. Isabel sabia domar a fera e como sabia. Sua irmã jamais admitiria isso, obviamente. No fundo nem era preciso. – Me lembre de dizer novamente a minha cunhada o quanto a venero…

            – Menos fedelha! Vem, vou te ajudar a escolher o melhor dos vestidos. Quero você arrasando no seu baile!

            Amy passou a mão por cima dos ombros da irmã, beijando sua testa com carinho e puxando-a em direção a uma ala da loja voltada apenas para vestidos de baile de todas as cores, formatos e estilos. A caçula franziu o nariz com o gesto de carinho, mas logo descansou a cabeça sobre o ombro da mais velha. Elas podiam brigar como gato e rato e implicarem uma com a outra diversas vezes durante o dia, mas Ana sabia que não trocaria todos esses momentos por nada no mundo. Todas as vezes que elas davam uma trégua nas implicâncias – como agora, abraçadas na loja enquanto Amy apontava os vestidos e dizia como a mais nova ficaria linda nos modelos – o sentimento de gratidão por ter uma família era tudo que restava. O cheiro amadeirado da irmã mais velha trazia a Ana uma sensação desconhecida e extremamente familiar. Talvez fosse uma lembrança ou apenas um sentimento de que tinha muito mais do que uma irmã. Afinal, apesar de não saber o que é ter uma mãe, no fundo, Amy nunca deixou que ela fosse uma criança triste por essa falta. E aquela segurança que sempre sentia nos braços da mais velha só poderia ser a tal da segurança maternal que sempre ouviu falar.

            Tão logo o abraço se desfez, Ana voltou a cabine com mais incontáveis vestidos nas mãos. Dessa vez, tinha um sorriso nos lábios, porque todos foram escolhidos a dedo por Amy. E ela sabia que, mesmo seu par para o baile não sendo quem gostaria, quando descesse as escadas do apartamento, a mais velha estaria lá, com um enorme sorriso no rosto e o celular nas mãos para registrar o momento. Clichê? Talvez sim. No entanto, a caçula não se importava com isso ou perdia tempo sentindo vergonha por querer algumas cenas clássicas de filmes em sua vida. O último ano a ensinou a valorizar a vida ainda mais. Eram momentos únicos, que só se vive uma vez, e que a tornavam afortunada por poder vivê-los.

***

            – Anda logo Sapatão Rei! Que demora dos infernos! Você sabe que maquiagem é legal e tudo mais, porém não faz milagre né? Então desencana e vamos logo!

            Carla bateu pela milésima vez na porta do banheiro querendo apressar a melhor amiga. Estava ansiosa, pois seria o primeiro trabalho que Lina fazia junto a Isabel. Elas estavam inaugurando um bar dançante que administrariam juntas. A ideia havia surgido em uma noite entre amigas. Isabel há muito queria modificar o ramo de investimento e juntou sua experiência de eventos com a de Lina em administração. Fizeram uma sociedade e compraram uma boate falida na Barra da Tijuca. Transformaram-na em um bar dançante, com dois ambientes. Teria música para todos os gostos, além de uma forma peculiar de interação entre os clientes e finalmente havia chegado o dia da inauguração.

            As anfitriãs, obviamente, já estavam no local e Carla deixou o pequeno Lucca com a babá para estar presente no evento. A mulher vestia um terninho social preto e sandálias altas. Tinha o cabelo escovado e estava maquiada perfeitamente. Do lado de dentro do banheiro Amy estava nervosa, passando o rímel nos cílios com cuidado. Queria ver Isabel o quanto antes, mas também queria estar impecável.

            – Porra Amy anda logo! Desceu pelo vaso ou o quê? Carla bateu outra vez no banheiro assustando Collins que quase borrou todo olho. A morena bufou e bateu de volta na porta mandando-a esperar.

            – O que houve? Ana surgiu vestida impecavelmente. A ruiva tinha uma calça jeans branca e rasgada no joelho, justíssima ao corpo. Uma blusa preta com as costas nuas, scarpin preto e os cabelos ruivos soltos em cachos.

            – O que houve é que essa chata não sabe esperar! Parece até que nasceu de sete meses! Amy abriu a porta e Ana assobiou quando viu a irmã.

            – Uau! Tá gostosa hein maninha? Minha cunhada vai pirar!

            – Com essa demora toda tinha que estar gostosa mesmo! Carla retrucou e Amy revirou os olhos!

            – Não enche Carlão! Vamos logo ou vamos nos atrasar.

            – Pensasse nisso antes de demorar três horas se arrumando! Se a Lina me bater por ter se atrasado eu bato em você de volta, ouviu?

            – Frouxa! Nem parece o homem da relação!

            – Ata! Falou a senhorita “Sim amor”, ” Tudo que você quiser meu bem”. Amy mostrou o dedo para a amiga e Ana gargalhou. Não tinha nada mais divertido do que ver as duas amigas interagindo.

            – Por isso que sou solteira, que é pra não sofro desse mal. Vocês envergonham a classe ativa assim. Retrucou a caçula e se arrependeu logo depois, quando as duas mais velhas se voltaram para ela dentro do elevador com um olhar assassino. Ela estaria só um pouco ferrada agora?

            – Escuta Collins, você sabe quem é que fica tomando café o tempo todo no estágio só para ver um certo alguém na sala de frente? Carla colocou o dedo no queixo pensativa.

            – Acho que a mesma fedelha que olha com cara de cachorro lambão para uma certa executiva sempre que ela passa no corredor. Ana cruzou os braços, sentindo o rosto esquentar. Ela não sabia que era tão óbvia até aquele momento e se arrependeu amargamente de alfinetar as duas – Acho que esse comportamento é o que podemos classificar como “ativamente passiva” certo Watson? Amy perguntou a Carla, fazendo referência a Sherlock Holmes.

            – Elementar minha cara! E dizem que ser trouxa e solteira é o nível patológico mais preocupante. Pelo menos a gente pega alguém né? Até vale ser trouxa.

            A porta do elevador abriu e Ana mostrou o dedo para ambas que gargalharam fazendo um ‘hi-five’ enquanto a caçula saía em disparada pisando forte.

            Pouco tempo depois, partiram no carro de Amy em direção a mais nova casa de show LGBT da Barra da Tijuca. A noite estava só começando.

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