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Caminhos do Amor – Cap 51

POV ISABEL

Eu achei que jamais me lembraria da sensação de estar apaixonada depois do trágico fim do meu casamento. Uma semana depois do casamento de Lina e Carla, estranhamente parecia que eu nunca tinha me esquecido da sensação. Basicamente, eu era uma adolescente de novo, descobrindo o amor pela primeira vez. Pouco mais de um mês de namoro com Amy bastaram para isso. A morena tinha sobre mim um efeito avassalador. Não era como se nunca tivesse sido assim, até porque desde da primeira vez que a vi naquele café com seu antigo noivo e a cobra da ex-sogra eu senti algo diferente. Aqueles grandes olhos azuis de cílios longos haviam me hipnotizado à primeira vista. E agora eles continuavam me atraindo, cada vez com mais força. Era uma força irresistível que me dominava por completo.
As pequenas coisas que eu já havia esquecido como eram importantes, se faziam presentes. Aquelas coisas clichês que todo casal de namorados faz pareciam coisas novas e meu coração palpitava por cada uma delas.
Era apenas mais uma tarde de domingo em meu apartamento, mas não era qualquer tarde de domingo para mim. Nada com Amy era banal. Estávamos no meu sofá retrátil reclinável marfim, extremamente confortável. O friozinho que fazia no rio de janeiro era perfeito para o clima. Basicamente, eu estava aninhada no corpo quente de Amy. Minha cabeça repousava em seu peito, meu braço abraçava sua cintura e uma de minhas pernas estava dobrada por cima das dela. A morena me aconchegava em seu abraço e com a outra mão livre traçava desenhos imaginários no meu braço com a ponta dos dedos. Um carinho inocente, mas o suficiente para fazer meu coração explodir no peito.
Estávamos fazendo nossa primeira maratona Netflix juntas. E escolhemos a série Sense 8. Ver filmes nos fins de semana era algo que eu fazia sempre quando estava sozinha, mas agora tudo parecia novo. A sensação de estar nos braços de alguém por quem se esta apaixonado simplesmente tornava tudo especial. A felicidade que eu sentia, de poder compartilhar essas pequenas coisas com alguém por quem meu coração batia freneticamente, não era algo que eu pudesse quantificar. Cada dia, cada minuto, cada carinho ou beijo delicado que Amy depositava em minha testa faziam eu me apaixonar ainda mais por ela.
Elevei meus olhos, desviando a atenção da série por uns instantes, apenas para contemplar a beleza dela. Seus cabelos negros caiam por seus ombros, os olhos azuis acesos quase não piscavam. Estavam vidrados na tela e não era para menos porque a série era realmente muito boa. Os lábios carnudos entreabertos e a respiração lenta e tranquila credenciavam sua perfeição. Um sorriso bobo brotou em meus lábios quando me dei conta de como eu era sortuda por ter uma mulher tão linda, inteligente e extremamente romântica e carinhosa ao meu lado. Parte de mim considerava a ideia de ser tudo um sonho, porque Amy me parecia boa demais para mim.
Aquela insegurança ou medo de que tudo desse errado ainda me corroía. Felicidade prolongada nunca foi algo que tive na minha vida. Depois de perder minha família e minha esposa só me restou viver comigo mesma e me acostumei com isso. Me acostumei com a ideia de que seria apenas eu, meu trabalho, minha maratona de filmes e quem sabe um novo amigo ou um animal de estimação. Até que Amy surgiu e agora eu tinha novos amigos e uma mulher por quem eu estava literalmente de quatro. A sensação de que esse mundo desmoronasse fazia uma pontada forte machucar meu coração. Por algum motivo eu não queria mais voltar a minha vida antiga e solitária. Eu queria que nossa relação desse certo. Eu desejava com todas as minhas forças que desse. Mas nesses poucos instantes, em que meus olhos estavam estáticos olhando o lindo rosto da minha namorada, eu tinha medo de acordar e não o ver mais.
Os olhos azuis desceram lentamente até os meus e a morena sorriu, com o canto da boca, naquela expressão convencida que ela adorava fazer e que eu amava, mesmo não admitindo.
– Para de me encarar…. Ela disse com o rosto levemente corado.
– Você não pode me culpar.
– Ah não? Posso saber porque?
– Porque você é linda demais. Não é como se eu pudesse evitar olhar para você de vez em quando.
O sorriso aberto e sincero de Amy, fizeram meu coração bater mais ainda forte e rápido. Sempre que ela dava esse sorriso que fazia com que seus dentes brancos se mostrassem e a covinha em sua bochecha afundasse meu mundo simplesmente passava a valer ainda mais a pena. De todos os sorrisos dela, definitivamente esse era o meu preferido.
– Se você continuar falando essas coisas, nossa primeira maratona juntas vai ser um grande fiasco. A morena beijou a ponta do meu nariz ainda meio corada.
– Desculpa. Vou me controlar prometo. Afinal a primeira maratona é um ritual de benção de namoro não é mesmo? Amy gargalhou gostosamente e acabei rindo com ela.
– Amor não dê ouvidos pra Carla. Acha mesmo que maratona é uma espécie de ritual?
– Bem, ela disse que é. Rebati ainda rindo.
– Considerando que já perdemos uns cincos minutos do episódio acho que não estamos indo bem, não é?
– Touché! Minha culpa, assumo.
– Bom, pode ter começado com você, mas eu meio que não estava prestando muita atenção há uns minutos já. Confessou enquanto seu dedo indicador fazia círculos no meu braço. Sorri abertamente.
– Mas seus olhos estavam tão vidrados na tela…
– Meus olhos sim, mas meu pensamento estava em outra coisa.
– Hum… Por acaso eu poderia saber em quê?
Os olhos grandes e azuis encararam os meus e a essa altura meu corpo já explodia por inteiro. Deus! Como essa mulher mexia comigo.
– Estava pensando em beijar a boca da minha namorada.
– E agora? Ainda está pensando nisso?
– Bem, na verdade – Amy virou um pouco o corpo para mim e nossos rostos agora estavam perto e um de frente para o outro – Já cansei de pensar. Prefiro agir.
Ela inclinou a cabeça e fechei meus olhos, sentindo seus lábios quentes e grossos tocarem os meus em seguida. Minha mão saiu de sua cintura e escorregou até sua nuca. Entrelacei meus dedos em seus cabelos negros e Amy inclinou um pouco mais o rosto enquanto seu braço livre abraçava minha cintura puxando meu corpo para mais perto do dela. O beijo era calmo no início, mas tornou-se sensual quando sua língua tocou a minha e deslizou por toda extensão da minha boca.
Era como se só existisse o som dos nossos lábios que se descolavam e se uniam ansiosos. Sua respiração acelerou um pouco mais, e aos poucos, meu coração batia tão forte que o som ressonava em meus ouvidos. Amy apertou minha cintura e arfamos no beijo. Apertei seu cabelo de leve e nossas pernas se entrelaçaram. Se tinha uma coisa melhor do que ver série com sua namorada linda e cheirosa num domingo chuvoso e frio, era parar de ver a série para literalmente passar a tarde dando amassos no sofá.
E essas pequenas coisas, para mim tinham um valor ainda maior, porque agora eu me sentia viva novamente. Me sentia apreciada e especial.

Flashback on

Era o nosso aniversário de um mês de namoro e eu não podia estar mais feliz. Amy havia me levado para jantar num restaurante elegante em um hotel da zona sul do rio. O lugar além de requintado servia uma ótima comida francesa e tinha uma mesa isolada de todos os clientes, que fora obviamente reservada pela minha linda namorada. Nunca me importei com sofisticação quando estava em um relacionamento. O simples para mim era perfeito e amaria da mesma forma se ela tivesse me levado à uma lanchonete qualquer. No entanto, precisava admitir que eu estava realmente encantada com o esforço que Amy havia feito e com o fato de ela pensou em tudo e preparou tudo para tornar nossa noite especial. Sentia que a cada dia eu me apaixonava mais por ela.
A forma como ela me olhava nos olhos o tempo todo enquanto conversávamos fazia meu coração praticamente parar e eu literalmente tinha a sensação de que enfartaria a qualquer momento. Por outro lado, me fazia sentir especial e única. Os olhos azuis brilhavam com paixão enquanto me olhavam e meu corpo simplesmente respondia a isso intensamente.
Nós comemos os deliciosos pratos que pedimos, degustamos de um maravilhoso vinho tinto e conversamos sobre tudo e sobre nada. Nós apenas tínhamos muito assunto e era difícil lembrar de tudo que já havíamos falado. Às vezes, me pegava apenas admirando a beleza da minha namorada e por uns instantes simplesmente parava de prestar atenção no que ela havia dito. Era inevitável não me sentir hipnotizada por seus lindos olhos e tudo ficava ainda pior quando ela abria aquele largo sorriso e todos os seus dentes brancos apareciam. Foi a primeira vez que eu percebi que somente quando ela sorria assim uma covinha brotava em sua bochecha direita deixando seu rosto ainda mais adorável. Poderia olhar apenas para ela a noite inteira e me peguei empenhada em fazer com que ela sorisse mais vezes, apenas para ver aquele sorriso de novo. Era bobo, eu sabia que era. Literalmente me sentia uma adolescente. E incrivelmente, depois de tudo que passei, não podia estar mais feliz.
Nós subimos ao térreo do hotel cinco estrelas, mais precisamente acima do 48º andar e caminhamos até a beira do terraço. Era uma área reservada e proibida aos clientes do restaurante, mas obviamente Amy pensou nisso também e conseguiu permissão para subirmos. A noite estava fresca e agradável e podíamos ver a imensidão azul do mar à nossa frente. A lua brilhava entre algumas nuvens e centenas de estrelas cintilavam ao seu redor. Respirei fundo olhando aquela paisagem, pensando se havia algum modo dessa noite ser mais perfeita.
Os braços de Amy envolveram minha cintura e minhas costas repousaram em seu peito enquanto seu queixo repousou em meu ombro. Deixei que minhas mãos se entrelaçassem a dela sobre minha cintura e ela deu alguns beijos carinhosos na minha bochecha e no meu ombro enquanto ficamos ali um tempo em silêncio.
– Feliz primeiro aniversário de namoro. Ela disse próximo ao meu ouvido e senti o sorriso rasgar meu rosto enquanto meu coração simplesmente parecia poder parar a qualquer instante. Apertei minhas mãos junto à dela como se tentasse transmitir a enorme onda de felicidade que percorreu meu ser através deste toque.
– Feliz primeiro aniversário de namoro. Girei meu corpo e deixei meus braços abraçarem seu pescoço. Amy deu aquele sorriso aberto que eu amava e suspirei fundo.
– Tenho um presente para você.
– Presente?! Ai meu Deus como sou idiota!
Senti minhas bochechas queimando e Amy arqueou a sobrancelha confusa. Era tudo tão novo para mim que simplesmente esqueci de comprar algo para ela. Deus! Eu queria com todas as minhas forças enterrar minha cabeça em algum lugar. Como eu pude esquecer o presente dela?
– Porque diz isso?
– Bem…. É que eu…. Escondi meu rosto entre as mãos envergonhada, sentindo minhas bochechas queimarem. Amy segurou minhas mãos e puxou-as delicadamente fazendo com que eu revelasse meu rosto corado certamente em vermelho vivo.
– Você….? Ela encorajou.
– Não comprei nada para você…. Por favor me desculpa é que eu não faço isso há tanto tempo que eu simplesmente não pensei nisso e agora você deve me achar uma idiota, mas eu juro que não foi por mal. Se você deixar eu posso comprar algo e te dar depois. Eu sei que não vai ser a mesma coisa e talvez não tenha o mesmo efeito, mas eu prometo que no próximo aniversário eu não vou esquecer. Eu prometo que….
– Amor! – Ela disse enfatica fazendo com que eu arregalasse os olhos e a encarasse. Meu coração simplesmente batia descontroladamente – Respira. Você está divagando….
Ela sorriu de uma forma doce e gentil, provavelmente achando graça do meu desespero. Então foi demais para mim. Amy havia me chamado de amor pela primeira vez e como se não bastasse isso para meu coração quase quebrar minhas costelas e meu cérebro queimar para se lembrar como se respira, ela ainda deu um sorriso apaixonante para mim. Senti meu rosto corar outra vez. Eu realmente estava divagando e sempre fazia isso quando estava nervosa demais, mas tudo que meu cérebro repetia incessantemente era a voz dela me chamando de amor. Ela podia ser mais perfeita?
– Desculpa…. Respondi meio atordoada, sem coragem de enfatizar que ela tinha me chamado de uma forma tão carinhosa. Talvez tivesse sido espontâneo e ela nem tivesse percebido. Talvez se eu dissesse ela ia perceber, se assustar e não falar outra vez. Então achei melhor deixar que as coisas fluíssem naturalmente, mesmo sabendo que não ia parar de pensar nisso pelo resto da semana.
– Você não precisa me dar nenhum presente. Não é uma regra e não comprei seu presente pensando em ganhar um. Eu apenas achei que devia te dar algo especial. Sei que estamos juntas a pouco tempo, mas é como se fosse muito mais. Faz algum sentido?
– Faz todo sentindo. E eu estou realmente nervosa agora…. Acabei rindo e ela riu junto enquanto tirou uma caixinha preta do bolso da calça. Meus olhos desceram para suas mãos que me entregaram a caixinha com cuidado. – Abre. Ela disse sorrindo.
Meus dedos tremiam um pouco, mas consegui abrir a caixinha instantes depois. Era um colar de ouro branco com o pingente da Pedra da Gávea. Sorri de orelha a orelha e senti meus olhos encherem d’água de repente. Droga, não chora Isabel! Controle-se! Eu dizia pra mim mesma enquanto encarava a mulher que mordia o lábio ansiosa.
– Gostou? Perguntou ainda mordendo o lábio e ao perceber sua expressão inquieta me lembrei que eu ainda não havia dito nada.
– É lindo! É perfeito! Exclamei realmente entusiasmada e nervosa.
– Posso colocar em você?
– Claro!
Amy retirou o colar da caixinha com cuidado e virei de costas para ela. Ela colocou o colar delicadamente no meu pescoço e fechou-o. Olhei para baixo contemplando o lindo pingente ficar um pouco acima do vale entre meus seios e tive aquela sensação de me apaixonar ainda mais por ela pela segunda vez na mesma noite. Virei meu corpo posicionando-me de frente para ela e as mãos da morena abraçaram minha cintura enquanto seus olhos focaram a jóia sobre a minha pele. Ela sorriu abertamente de novo e meu peito estava prestes a explodir.
– Ficou ainda mais lindo do que eu havia imaginado. Você é tão linda…. E estou tão apaixonada por você! Ela disse com o rosto bem perto do meu e juntei todas as forças do meu ser para não beijar sua boca carnuda na mesma hora. Eu precisava ao menos dizer algo já que não tinha nenhum presente.
– A noite foi perfeita Am. Você é a namorada mais linda e apaixonante que eu poderia ter. Eu acho que já me apaixonei por você de novo algumas vezes hoje…. Confessei olhando em seus olhos.
– Esse foi o melhor presente que você podia me dar sabia?
– Hum… E qual o segundo melhor? Deixei meus dedos deslizaram sobre sua clavícula e a morena me puxou ainda mais para perto.
Nos beijamos apaixonadamente em seguida, sob a luz das estelas e tendo apenas o céu e nossos corações como testemunha.

Flashback off

POV NARRADOR

Sônia esperava impaciente o chefe em uma cafeteria escondida na zona sul. Locais pouco frequentados era a melhor opção, mas definitivamente ela odiava ficar num lugar que não fosse extremamente sofisticado, mesmo que o local onde estava agora passasse longe de ser ruim. Suas roupas extravagantes era o maior dos contrassensos, pois anulava qualquer chance de que ela passasse desapercebida, mesmo que desejasse isso.
O chefe adentrou o ambiente revirando os olhos para o visual chamativo da mulher a sua frente. Teve vontade de virar as costas e deixa-la plantada no café, mas sabia que precisava dela agora. Chegando a mesa em que a velha brega esperava, sentou-se encarando-a com uma expressão dura, apenas para não perder o hábito de intimidar a mulher ainda mais. Sônia precisava ser intimidada para ser controlada, caso contrário ela colocaria tudo a perder com seu orgulho ferido.
– Se eu quisesse holofotes em nosso encontro teria chamado a imprensa.
– Como?! A mulher de roupa chamativa exclamou perdida e o chefe apenas disse com a voz cortante novamente, fazendo-a estremecer.
– Você parece uma porra de uma árvore de Natal! Não pode usar uma merda de uma roupa discreta uma vez na vida? Disse irritado, mas sem gritar. Já não bastava as roupas de Sônia para chamar atenção. Não cometeria o deslize de aumentar o tom de voz mesmo que ela merecesse.
– Olha aqui me respeite! A mulher encarou o chefe, mas logo recuou sob seu olhar intimidador e calou-se.
– Chega! Não quero mais perder tempo aqui. Vou direto ao ponto antes que essas suas roupas chamem ainda mais atenção para nós.
– Então o que descobriu? A mulher perguntou ansiosa.
– A família Aguillar vai de mal a pior financeiramente. Seu capataz fez um bom trabalho. Acho que com isso conseguimos trazer a ex-mulher para o nosso lado e continuar com o plano de separar o casal. Ela precisa muito do dinheiro agora. Amanhã mesmo vou convencê-la a nos ajudar.
– E se ela não quiser? Sônia perguntou confusa.
– Acredite ela não vai ter alternativa melhor que essa. É a única salvação dela. E se ela se recusar ainda podemos seguir com o plano B.
– Agora fiquei curiosa.
– Não vou te dar nenhum detalhe por hora. Isso é o suficiente por enquanto. Mas fique preparada. Está chegando a hora de você entrar em ação.
Sônia abriu um sorriso diabólico sentindo enorme satisfação por poder finalmente agir.
– Então me diga quando posso confrontar minha querida antiga nora e finalmente dar um ultimato a ela?
– Muito antes do que você pensa minha cara. Muito antes do que você pensa.
E brindando sob o toque de dois copos de wisky não viam a hora de finalmente por o plano em prática.

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