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Caminhos do Amor – Cap 17

Ela estava inquieta demais para dormir e nenhum remédio a ajudaria. Sua pele estava ardendo em febre, e o banho frio foi tudo que lhe veio à mente. Amy deixou a água escorrer por seu corpo e perdeu a noção do tempo. Sempre que pensava na boca de Isabel, no seu cheiro, nela tão próxima à pela fervia novamente em resposta. Tentava não pensar, mas em vão.
Sentou no sofá com seu hobby azul e um copo de Martini nas mãos. Não tinha o menor costume de beber, mas precisava de algo forte para raciocinar melhor, ou pelo menos tentar. Amy usou toda sua lógica para entender que sentimento era esse que surgia cada vez mais forte em seu peito. Como isso podia acontecer com ela?
Quando Amy tinha 10 anos, sua mãe abandonou-a, depois de trair seu pai com o melhor amigo dele, a quem ela chamava de Tio Bob. Foi um choque, um trauma. Ana tinha apenas um ano de idade e provavelmente nem se lembra das muitas noites que a irmã mais velha passou chorando enrolada nas roupas da mãe e da depressão profunda em que o pai entrou. Amy precisou trabalhar, largou o colégio, aprendeu na marra a fazer comida. Virou mãe de Ana e do pai. A família morava há anos fora, tentando ganhar a vida nos EUA. Não havia nenhum parente por perto. Os vizinhos ajudaram levando o pai para tratamento psicológico e fazendo as compras de vez em quando.
Depois de um tempo, Ana começou a chorar com falta da mãe e adoeceu. Acabou ardendo em febre e com o pai depressivo, Amy lembrou-se de quando fora desesperada na porta da vizinha pedir ajuda. Com o tempo o dinheiro fora acabando, e Amy precisou batalhar. Passou a acordar às 3 da manhã para deixar a comida pronta. As sete, saia pelas ruas e usava o quite de engraxate do pai para ganhar uns trocados no Brooklyn. O pouco que conseguia era usado para a comida e o aluguel. O pai tinha poucos momentos de lucidez e chorava copiosamente pedindo perdão a filha. No início Amy tinha pena, depois teve raiva. Começou a acha-lo fraco, covarde. Decidiu que não ia mais pensar na mãe e que Ana seria sua inspiração para não desistir. Havia dias em que ela estava cansada, os calçados gastos das longas caminhadas criavam bolhas em seus pés. Na maioria passava fome na rua, porque sempre priorizou Ana e se preocupava em deixar o máximo de alimento para ela.
Um dia Amy estava engraxando os sapatos de um senhor, quando sentiu uma sensação estranha no corpo. Uma gota de sangue caiu no chão e assustada ela viu todo short sujo de sangue. Gritou desesperada e chorou na mesma hora. O senhor, por sorte, muito bondoso, a levou para uma loja na estação de trem e comprou uma roupa nova para ela. Disse a Amy que ela sangraria todo mês e que deveria conversar com a mãe a respeito. Mas ela não tinha mais mãe, não tinha mais ninguém. Lembrou sentada no sofá, com uma lágrima pelo rosto, daquele senhor que nunca mais vira, mas que fora a única fonte de carinho que ela recebera de alguém mais velho. Sua única alegria era ver o sorriso inocente de Ana e de sentir a pequenina em seus braços toda noite, com o corpo exausto para dormir.
Foram quase três anos assim. Os vizinhos que ajudavam se mudaram e os que ficaram não eram tão bondosos. Ameaçavam denunciar o pai ao conselho tutelar e com medo de que Ana sofresse ou fosse separada dela, Amy passou a limpar de graça a casa dos vizinhos toda tarde, depois de andar mais de uma hora após engraxar os sapatos. Até que um dia o pai finalmente despertou de sua inércia. Mas ele não era mais amável, nem bondoso, não era mais o mesmo. Era frio, calculista e extremamente racional.
Em apenas um ano ele conseguiu montar seu próprio negócio de vendas, começou de porta em porta até que já estava com uma pequena filial. Com o falecimento dos avós de Amy no Brasil – que nunca ligaram para as netas – o pai herdou toda herança e agora eram oficialmente ricos. Mas Sr. Romeu mesmo rico, continuou a trabalhar e aumentar cada vez mais sua fonte de renda.
– Amy venha cá!
– Sim papai.
– É sim senhor menina!
– Desculpe… Sim senhor!
– Quero dizer que você fez um bom trabalho e peço desculpas por ter ficado ausente depois que a sua mãe, se é que você um dia teve mãe, abandonou esta casa! A partir de hoje vou educar você e ensinar tudo que você precisa para ser bem-sucedida. Você vai apenas estudar e aprender como gerir meu negócio. Não quero namoros, nem ninguém enfiado aqui em casa. Vou contratar uma babá para Ana para que você tenha tempo apenas de estudar.
– Sim senhor!
– Você é minha filha e não admitirei que cometa os mesmos erros que eu! Diga-me, de quem é a culpa por todo sofrimento que passamos?
O pai tinha os olhos rígidos e sem emoção. Era impossível decifrar o que ele sentia. Amy pensou pela primeira vez no rosto da mãe depois de tudo e teve enorme vontade de chorar. Mas engoliu em seco. Ela sabia que o pai esperava sua resposta e não queria contrariá-lo.
– A mamãe… Amy abaixou a cabeça e respirou fundo tentando controlar o choro, mas as lágrimas caíram mesmo assim. O pai a levantou pelo braço e sentou-a no sofá com força. O rosto rígido e altivo fez Amy tremer de medo.
– Preste atenção Amy, nunca mais eu quero ver você chorando por sua mãe e nem por ninguém! Me ouviu?
– Mas pa-pa… Antes que Amy argumentasse o pai acertou-lhe uma forte tapa na cara. Seu rosto ardeu em brasa e a dor veio em seguida, forte e latente.
– Senhor! Já disse que quero me chame de senhor!
– Des-cu-cul… O choro veio novamente, e Amy sentiu novamente o castigo do pai do outro lado de seu rosto. Olhou para ele com decepção e raiva.
– Já chega! A partir de hoje você não chora mais por ninguém! A culpa do nosso sofrimento não é dela Amy, é nossa! Fomos nós que a amamos tanto a ponto da partida dela devastar toda nossa vida! O amor é para os tolos! Entendeu?
– Então, o senhor quer que eu seja má?
– Não, quero que seja apenas racional! Você quem vai ditar as regras da sua vida. Se um dia se envolver com alguém terá o controle da sua vida. E se a pessoa te deixar você vai continuar normalmente como se nada tivesse acontecido. O amor é besteira. Sua irmã ainda é nova demais, mas você não. Você vai aprender a ser alguém independente e racional. E quando chegar a hora sua irmã também será assim! Estamos entendidos?
– Sim senhor! Amy disse secando as lágrimas.
Daquele dia em diante, Amy nunca mais chorou na frente do pai e nem de ninguém. Ela nem lembrava a última vez que realmente havia chorado. Sua vida era estudar. Com 16 anos já falava duas línguas, tocava piano e era empreendedora prodígio da empresa do pai. Os empregados a respeitavam como se ela fosse maior de idade. Comandava a tudo e a todos com frieza. Não tinha amigos, apenas Dani, que fora a única capaz de cativar seu coração. Mesmo assim a amizade delas era clandestina, Dani nunca foi à casa de Amy e só conheceu seu pai no dia da formatura.
Apesar de sua racionalidade e frieza, Ana ainda continuava sendo a joia preciosa de Amy. Ela convenceu ao pai, com a alegação de que Ana seria valiosa na expansão da empresa do seu jeito, a não dar a ela o mesmo tratamento de choque que Amy recebera. No fundo, fez isso apenas para preservar o brilho no olhar da irmã, a ternura que ela tanto amava e a liberdade que sempre tivera. Muitas noites quando o pai chegava agressivo, Amy colocava Ana no quarto e ligava a TV no máximo para que a irmã não ouvisse os gritos do pai ou corresse o risco de sentir suas agressões.
Anos depois, Sr. Romeu teve câncer no pâncreas e em apenas seis meses veio a falecer. Tomando o terceiro copo de Martini, Amy lembrou-se da noite chuvosa no hospital e das últimas palavras do pai.
– Você é meu orgulho! Tenho certeza que passará pela vida sem sofrer por nada e nem por ninguém. Nunca desvie desse caminho Amy. Prometa isso a seu velho pai! Sei que fui rígido, mas de outra forma não conseguiria.
– Sim senhor! Amy sorriu não o chamando de pai nem no último instante, na certeza de que era isso que ele queria ouvir. Ana chorou copiosamente a morte de Sr Romeu, mas Amy não derramou uma só lágrima, nem mesmo sozinha.
Agora, ela estava confusa como jamais pensou estar. Seu relacionamento com Tomas era seguro, não havia emoção demais, nem sentimentalismo da parte dela. Se Tomas fosse embora ou a traísse ela continuaria com sua vida sem lágrimas ou lástimas. Mas Isabel era como um furação, uma erva daninha prestes a destruir toda fortaleza que ela construiu.
“Porque? Porque ela me causa tantas sensações? Porque ela mexe tanto comigo? Eu não posso me deixar levar… não posso! Eu sou Amy Collins, dona de mim mesma!”
Com a cabeça doendo depois de horas pensando, Amy pegou seu café até ouvir a campainha tocar. Quando abriu, viu aqueles olhos verdes tão expressivos, aquela boca rosada e seu coração acelerou em resposta.
– Oi Amy! Precisamos conversar…
E enquanto Isabel entrava na sala Amy pareceu ouvir o pai sussurrar em seu ouvido: “O amor é para os tolos! Entendeu?“
“Sim, senhor”