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Buracos – Cap 10 – É ela

Ela é. Ela pode. Ela pode ser do jeito que bem entender, ela é muitas em uma só. Há várias. Há multidões nela. Na beira da cama, na mesa do jantar, no sofá da sala sentam-se inúmeras, e ela é um pouco de todas, elas são uma pouco dela e vice e versa. Ninguém é como ela feitas de palavras soltas, de lados, de cenários, de estações, de idades, identidades.

Uma de tantas, e tantas em uma. Uma moça, uma tola, uma criança, uma boba, uma velha. São as palavras reféns, os gestos silenciados de lá pra cá, as risadas cheias de conotações profundas, os olhos cheios de suspiros vencidos que dão ar as centenas dela. E é nas rimas mal feitas, nas notas quebradas que confunde qual delas está lhe fazendo companhia, lhe comprando briga, lhe oferecendo beijos de despedida.

Nem ela sabe que ela é tão ela e unicamente ela, por isso, tentar entendê-la é necessário conhecer sua infinidade de facetas. Ela tem fome e não come, e não é de comida, sim, de algo que não se descreve com palavras, mas desperta a alma. Ela tem medo, e finge não morrer de medo. Finge bem. Finge que não sabe, e sabe. Ela não gosta de brincar, e briga de gostar. Ela disfarça, é séria, segura e usa uma textura robusta.

Ela é só ela com todos os cantos e desencantos. E olhando assim, ninguém vê. Nem você nota as incrédulas explicações para todas elas estarem em apenas um só ser. Somente ela sabe o tanto que sapateou, caiu, e se levantou, por isso, ela não ousa usar o belo e único refrém pra qualquer alguém. E é assim que ela segue nesse vaivém que nem vintém. Sozinha, sem sombra de ninguém. Apenas ela, e as muitas dela.

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