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The Best Of Me – Gonna get it up and try

Lucy.

O sábado terminou com uma repentina chuva torrencial a se derramar impiedosa, acompanhada por raios e trovões, nos obrigando a entrar. O calor daquele dia deixou de existir, sendo substituído pelo frio quase invernal que ventava da tempestade. E, para fugir do frio, vestimos roupas quentes e nos reunimos no corredor do segundo andar, em frente a porta do meu quarto, sentadas em círculo para jogar UNO.

– Essa chuva é culpa da Lauren. – Vero começou resmungando; enquanto embaralhava as cartas. – Foi um milagre tão grande ela ficar com a gente hoje, que até choveu.

– Verdade. – Balancei a cabeça positivamente, achando graça.

– Ela é tão fechada assim, gente? – Normani quis saber.

– Fechada não. – Vero parou as cartas em suas mãos. – Ela só é calada.

– Reservada. – Corrigi.

– Isso! – Voltou a embaralhar.

Normani expressou um “Ah” com os lábios, em compreensão.

– Ela pareceu se divertir com a gente hoje. – Disse Dinah. – Até fez piadinhas de duplo sentido.

– Realmente. – Vero intercedeu. – Fazia tempo que ela não brincava assim.

Risos – que não eram nossos – entoaram melodiosos pelo corredor, interrompendo nosso diálogo informal. Seguindo as vibrações vocais, encontrei uma cena que já tinha visto antes, mas que havia preferido não abrir debates sobre.

À esquerda, no final do corredor, a porta do escritório estava aberta, nos dando a visão do que acontecia ali dentro: Lauren sentada no sofá, segurando seu violão, e Camila sentada a sua frente. Elas riam harmoniosamente, misturando seus timbres. Lauren batia palmas – como sempre fazia quando tinha crise de risos – e Camila cobria o rosto, abafando sua risada.

Pareciam não se importar nem um pouco em estarem sendo assistidas por nós quatro.

Na verdade, pareciam ter esquecido de nossa existência.

– Você está vendo isso? – Perguntei para Vero, indicando com cabeça aquela cena que acontecia a alguns metros à diante.

Dinah e Normani olharam para a mesma direção que nós duas.

– Sim… – Afirmou, permitindo-se expressar toda a estranheza que estava sentindo.

Não era nada demais para quem não conhecia minha mãe, mas, para mim e para Veronica, aquela cena, unida com tudo que aconteceu o dia inteiro, nos alegrava de uma forma estranha.

Lauren era muito bem-humorada, isso é um fato, mas com o tempo e com certos acontecimentos, ela foi se tornando um pouco mais reservada e silenciosa. Sua profissão exigia total seriedade, a Keana exigia o dobro, então, ela acabou se acostumando com isso.

E, para acrescentar pesagem ainda mais desfavorável a balança, ela havia desenvolvido o hábito passar todos os fins de semana lendo. Muitas vezes para distrair a mente. Muitas vezes para fugir de possíveis diálogos carregados de intrigas com minha mãe. Seja no seu escritório, na sala ou em seu quarto, muitas vezes até com as pernas submersas na água da piscina. O lugar não importava, pois ela não estaria presente além de seu físico. Mergulhada em suas páginas, se perdia noutra dimensão.

Esses detalhes, que embora parecessem de pouca importância, a tornaram ainda mais reservada que já era. Então, vê-la tão aberta à novas amizades era bom. Bom até demais.

– Pelo menos alguém está se divertindo… – Normani resmungou, deixando clara sua irritação com a demora de Veronica para embaralhar as cartas do UNO.

– Vero, meu amor, vai ficar embaralhando isso a noite toda? – Dinah fez em palavras o que Normani fez com os olhares impacientes.

– Só tô enrolando, porque não estou nem um pouco afim de jogar isso.

A sinceridade em voz cansada de Veronica me fez ser tomada por uma vontade quase incontrolável de apertá-la e enche-la de beijos, mas nada fiz; apenas fiquei a olhando feito uma besta, tendo a ligeira sensação de que meus olhos haviam se transformado em enormes corações rosados e pulsantes.

– Não me olha assim… – Vero fez beicinho, unindo as sobrancelhas.

Argh, que vontade de apertar!

– Por que? – Perguntei, realmente afim de saber o que se passava naquela cabecinha.

Eu – mais do que ninguém – já deveria estar acostumada com suas respostas diretas e objetivas; mas ainda assim, engoli seco, ruborizando violentamente; enquanto ela permanecia me encarando com uma inocência digna de santificação.

– Porque eu sinto vontade de te beijar e não posso.

Enchendo os pulmões de ar, uma onda de pensamentos turvos me domou.

Há um certo tempo eu e Vero vínhamos alimentado uma espécie de “crush” uma pela outra. E, sendo honesta, não sei quando, nem como isso começou. Posso afirmar sem medo que não era de minha intenção, muito menos dela. Foi algo que simplesmente aconteceu e quando nos demos conta, nossos olhares já haviam criado um laço afetivo muito sólido.

Era fácil perceber que existia algo entre nós. Como eu disse, nossos olhares conversavam muito além do que as palavras humanas seriam capazes de dizer, mas os riscos eminentes nos impediam de consumar o que gritava dentro do peito. Afinal de contas, se alguma de minhas mães descobrissem seria difícil distinguir quem estaria mais ferrada ali, se seria eu ou Veronica.

Obviamente que seria a Vero, por motivos óbvios, mas ainda assim, era preocupante.

Evitamos até onde conseguimos. Corremos entre ruas e mais ruas, até depararmos num beco sem saída. Quando dois corpos são a brasa que inflama incandescente e a atração o vento a soprar impetuoso, o incêndio é tão eminente quanto o apagão.

Nós sabíamos dos riscos, mas cansamos de temer o perigo. Deixando de pensar no futuro, focamos apenas em viver o presente. Quando o vento tornou a soprar, nos deixamos incendiar.

– Gente… – Normani quebrou o silêncio, falando em voz baixa. – Nunca entendi porque demoraram tanto a ficar…

– É verdade! – Intercedeu Dinah, diminuindo dois tons, para que aquele assunto não saísse dali. – Vocês se viam sempre… por que demoram tanto?

Não foi preciso pensar muito na resposta. Tanto eu, quanto Veronica já a tínhamos na ponta da língua, decorada há um bom tempo. Mas, quem começou a falar foi ela, inclinando-se para frente, intercalando seus olhares entre nós três.

– Não é tão simples assim… – Disse em tom de segredo. – Eu sou mais velha, já sou adulta; praticamente cresci com a Lauren me tendo como irmã; Keana me vê como uma pessoa da família. Então, soa muito mais difícil quando enumerado por esses fatos.

No breve silêncio que se fez, olhamos rapidamente para o escritório, checando se Lauren havia percebido algo; vendo que não, voltamos a rodinha.

– Keana certamente ficaria furiosa a ponto de me proibir que a Vero venha aqui em casa; a Lauren eu acho ficaria raivosa, mas iria passar com o tempo. – Acrescentei ao seu comentário. – Mas, não quero pensar nisso por agora. Deixa que a Lucy e a Vero do futuro resolvam isso.

Dinah riu; Normani não.

– Exatamente! – Veronica murmurou, numa expressão apática de concordância.

– Isso não vai funcionar por muito tempo. – Normani avisou o que nós já sabíamos.

Fiz menção em responder, mesmo não tendo argumentos em mente, no entanto, meu ato foi atropelado por Dinah tampando meus lábios com a palma de sua mão. Antes que eu pudesse expressar a quão confusa havia ficado com seu feito, ela virou-se em direção ao escritório, apresentando-me a razão para tal ação.

  O silêncio criado entre nós foi cortado por notas bem afinadas de violão.  

Lauren.

Camila estava a despencar seus dedos direitos corda por corda, enquanto os esquerdos, tão habilidosos, apertavam o encordoamento, solando a melodia de Hallelujah. Os acordes de Leonard Cohen, por ela simplificados, ganhavam agora uma interpretação cheia de vida. De olhos fechados, a linda menina dedicava sua alma naquilo, concentrada ao máximo para acertar as notas, deixando por vezes expressar seu esforço para relembra-las.

Sendo tomada pelas vibrações harmoniosas que emanavam de seus acordes, desliguei-me do mundo terreno, concentrando-me apenas naquele som que me tocava fundo; cada nota grave tamborilava em meu peito, cada agudo me arrepiada de forma mais intensa que a outra. Quando achei que havia chegado ao máximo de êxtase, surgiu entre um acorde de Dó e um de Sol, a voz tímida de Camila, perfeitamente encaixada a tonalidade. O foco voltou apressado aos meus olhos, encontrando-a ainda de olhos fechados, balançando conforme lhe ventava o entoar.

O auge da música chegou, apresentando-me o belo timbre daquela menina cheia de surpresas, que agora cantava sem medo. Em seus lábios havia um sorriso dilacerante de tão lindo; teimosas lágrimas se espremiam em seus cílios, afim de se derramar.

A vida além daquele escritório havia silenciado.

Ardia em meu peito todas as emoções presas nas entrelinhas daquela composição. Dançando incansável, como uma bailarina em seu último espetáculo, as letras passeavam por todo aquele cômodo. Envolvida pelo abraço do torpor, voei para longe dali. Indo alto, voando baixo, flutuando entre linhas de partituras, desviando das notas, fugindo de atrapalhar a marcação.

Ao finzinho, ela cantava baixinho, repetindo com toda fé.

– Hallelujah…hallelujah…hallelu…jah.

Finalizando a música, tudo se tornou silêncio.

A vida pulsou em minhas veias de novo; meus pulmões inflaram, mesmo que ainda extasiados. O diminuir de minha pupila me trouxe de volta ao foco, atirando-me indefesa na mira do olhar castanho, que em sua função de lança, já ansiava me transpassar.

Parecia um farol; o brilho era forte, por pouco não me cegou; mas eram apenas seus olhos cheios de expectativa, me encarando, esperando de mim algum ato, alguma palavra. Tudo que consegui fazer nessa hora foi projetar em meus lábios o melhor sorriso que consegui.

– Acho que me empolguei demais… – Ela falou rindo, daquele jeito acanhado que sempre fazia, mordendo seu lábio inferior, olhando-me através de seus cílios, com o rosto parcialmente coberto pela mecha de cabelo que cismava sempre em se fazer de cortina nessas horas.

Por mais que eu quisesse reagir, por mais que meu cérebro enviasse seus comandos, meu corpo se recusava a obedece-los. Eu só queria ficar ali, parada, olhando em seus olhos de traços tão perfeitos, decorando os desenhos de sua íris, sendo transpassada pelo magnetismo que emanava de seu castanho.

Sua voz se rebatia dentro de mim, repetindo-se de novo e de novo…

Hallelujah havia passado a ser minha música favorita após aquilo.

– Não sabia que tocava. – Falei finalmente, depois de tanto tempo em silêncio.

O brilho que clareava quase todo o cômodo, proveniente de seus olhos, se apagou repentinamente. O sorriso se estilhaçou, caindo caco por caco. Tudo ficou no breu de seus olhos escuros e tristes.

– Comecei a aprender, mas tive que parar…

As reticências voltaram a lhe rondar, como lobos famintos.

– Por que?

Camila me olhou, enquanto organizava em sua mente a resposta para minha indagação. Seu olhar entristecido me rasgou brutalmente a carne do coração. Surgiu em seus lábios um sorriso morto, transbordando mágoa e pesar. Antes de me responder, ela tornou suas mãos o ponto fixo para perder o foco de sua visão. E, após encher os pulmões de ar e coragem, a resposta veio baixa, quase sussurrada.

– Tive que vender meu violão para ajudar minha mãe a pagar a conta de luz.

Pisquei com força, sendo atingida pela violência daquela frase – mesmo que dita tão timidamente –, engoli fel no lugar de saliva. Algo se despedaçou dentro de mim.

Naquele instante, enquanto processava o teor de tudo que se escondia em sua resposta, todas as palavras do meu vocabulário se tornaram dispensáveis. O silêncio se fez propício, porém vago. A ausência de um ato ficou evidente. E, afim de sanar aquele vácuo, abracei a menina pelo tronco, de um jeito torto, desajeitado e um pouco desesperado; seus braços passaram por cima de meus ombros, firmando aquele laço.

Seu coração batia apressado; o meu não estava diferente.

De um uma forma – possivelmente egoísta e ingênua –, senti que, ali, comigo, ela estava segura, que enquanto ela estivesse presa a mim naquele abraço, nada de ruim iria lhe afligir, nenhum problema ia tirar seu brilho juvenil, porque eu não ia deixar.

– ÔH DE CASA! – A inesquecível voz de Ally surgiu de repente, gritando no primeiro andar. Camila e eu nos separamos de sobressalto, como se tivéssemos levado um choque. – CADÊ O POVO DESSA CASA, MEU DEUS?!

– AQUI EM CIMA!

Ouvir a voz elevada de minha filha, soltando aquela exclamação, fez meus batimentos tropeçarem. Rapidamente olhei em direção às meninas – que eu sabia que estavam sentadas no final do corredor –, colidindo com as feições repletas de dúvidas. Havia me esquecido completamente delas ali.

– ACHEI VOCÊS! – Ally apareceu no topo da escada, sorrindo animadamente.

– Gente, quem convidou esse anão de jardim? – Vero apontou para Ally, fazendo cara de nojo, deixando sua frase sair falsamente venenosa; mas riu ao final.

– Meu amor, eu não preciso de convite porque sou linda. – Rebateu a pequena grande Ally, fazendo pose; e, pondo as mãos na cintura perguntou. – Cadê a Jauregui, hein?

Todos – exatamente todos – os olhares se voltaram para o escritório. Instantaneamente abri um sorriso amarelo, que mais parecia um cão rosnando do que um sorriso. Pelo canto dos olhos vi que Camila estava vermelha feito um tomate maduro.

– Hallo! – Acenei rapidamente com a mão.

Ally ergueu uma sobrancelha e espremeu seus olhos entre as pálpebras, deixando todo seu não entendimento evidente; olhou para Veronica, depois para Lucy, e tornou a me olhar. Interrogações pairavam sobre sua cabeleira loira.

Adiante, Veronica me enviava mensagens via retinas que diziam: Levante daí agora!

Foi o que eu fiz.

Repentinamente me pus de pé e andando em velozes – quase desesperados – passos, caminhei em direção à baixinha que já me esperava de braços abertos, para me abraçar.

– A que devo a honra?! – Falei entredentes, segurando aquele riso forçado na cara. Ally fez questão de apertar aquele abraço que já era forte e dar tapas em minhas costas.

– O que estava acontecendo aqui? – Sussurrou perto de meu ouvido, jogando logo outra frase em voz alta como disfarce. – Aproveitei que estavam todas juntas nesse final de semana e resolvi dar as caras também.

– Depois eu te conto. – Murmurei, findando aquele abraço.

***

Do meu quarto eu podia ouvir a algazarra de vozes, gritos e risos que acontecia na sala, e mesmo longe, eu sabia que o reboliço todo estava sendo provocado pela votação que acontecia, para decidir qual filme elas iriam assistir.

As opções eram: ‘Truque de mestre’, sugerido por Ally e, ‘Azul é a cor mais quente’, sendo evidentemente uma sugestão de Veronica. E é claro que a segunda opção vencia com unanimidade dos votos, porém, Ally protestava.

– Ally, ninguém quer ver ação, queremos ver pegAção. – Argumentou Vero.

– Pegação vocês podem ver em qualquer esquina, ação não. – Retrucou a baixinha.

Vestindo meu moletom, após tomar um longo banho, eu apenas ria, ponderando se desceria ou não. O sábado havia sido longo e cansativo, apesar de bastante divertido, e após uma semana exaustiva, tudo que meu corpo pedia era do conforto da minha cama e horas interruptas de sono.

Estava frio naquela noite, mas já não chovia como antes; pela janela, via-se apenas a garoa fina cair. E vendo isso, fui tomada por uma súbita preguiça, que me fez decidir permanecer no quarto, onde provavelmente dormiria assistindo TV.

Já vestida, com as luzes do quarto todas apagadas, me embrulhei em minhas cobertas, liguei a TV e comecei a zapear pelos canais, buscando algo de interessante para assistir, mesmo sabendo que dormiria nos primeiros segundos. Minha vista estava pesando toneladas e ardia bastante. Minha insistência em assistir alguma coisa só estava piorando as coisas.

Cada piscada lenta de meus olhos, era um sonho diferente que eu tinha.

Entre um cochilo e outro, ouvi três batidinhas surdas em minha porta. Olhei em direção a mesma e, colocando a TV no mudo, aguardei alguns segundos, julgando que poderia ter sido coisa da minha mente cansada, mas, logo as batidas se repetiram, dessa vez um pouco mais fortes, confirmando que não.

– Quem é? – Elevei uma oitava para perguntar.

– Sou eu! – Ally anunciou.

– Entra.

A porta se abriu e por ela entrou Allysson.

– Não vai descer? – Fechou a porta atrás de si. – Estão te esperando para ver o filme.

– Estou cansada, acho melhor ir dormir. – Falei bocejando.

Vendo-a se aproximar de fininho, como quem não quer nada, fitando-me com olhos de segredo, se consolidou em meus pensamentos a ideia de que ela não havia aparecido naquela noite meramente para uma visita casual.

Allysson Brooke nunca dava ponto sem nó. Cada ato seu, cada palavra sua, cada passo, tudo tinha um porquê, e, desde sua visita na quinta-feira, alegando precisar de mim em um caso, eu mantinha-me sutilmente de pé atrás; a conhecia suficientemente para saber quando estava escondendo algo.

Sentando-se na beira da cama, de frente para mim, suas análises ficaram ainda mais indiscretas, transformando o silêncio do quarto em algo um pouco sombrio. Depois de avaliar minhas expressões, contar quantas piscadas eu dei e por quantas vezes respirei, seus olhos fixaram em minha mão esquerda, pousada ao lado de meu corpo, especificamente na aliança dourada e desbotada do meu anelar esquerdo.

– Aonde está Keana? – Indagou ela, repentinamente.

Não foi precisou de muito para que minha desconfiança aflorasse. Bastou que sua frase se repetisse mais uma vez em minha mente e pronto, a magia estava feita. Havia algo grave implícito entre uma letra e outra, havia algo de muito errado naquela frase, na entonação que lhe foi dita, e conhecer bem Ally só me fez ter certeza disso.

Conhecer Allysson Brooke e esperar delicadeza dela em certas situações seria até estupidez. Ela não era o tipo de pessoa que faz rodeios ou que mede palavras; não sabia dar notícias tristes e era bastante insensível com a dor alheia. Mas, quando suas reticências apareciam e suas frases vinham cheias de rodeios e silêncios, a certeza era única: Algo estava muito errado.

Busquei em minha mente o que me foi dito por Keana sobre sua viagem, relembrando que ela havia dito estar indo para uma viagem de trabalho, com o pessoal da sua empresa imobiliária e que retornaria na segunda-feira à noite.

Pensando pelo lado racional, sou obrigada a admitir que estranhei essa viagem surgindo sem mais nem menos, já que em quase seis anos trabalhando lá, a mesma nunca havia ido para nada parecido antes. Mas, pensando por outro lado, não encontrei motivos para que ela mentisse sobre isso, então, deixei por sua conta e risco os seus atos.

– Workshop da empresa, em Toronto. – Eu respondi, finalmente. – Por que?

Ally riu de puro desgosto, meneando negativamente com a cabeça.

– É mentira. – Seca e fria, foi assim que saiu sua voz. – Ela não está em Toronto.

– Como assim?

– Ela está te traindo, Lauren. Eu vi com meus próprios olhos.

De repente, quis falar, mas minha voz não saia. Eu não conseguia me mover.

– Como assim? – Tentei falar, mas tudo que consegui foi balbuciar.

– Ela está te traindo, Lauren… – Sua voz saiu grave, em slow motion.

Como Ally sabia? Onde ela havia visto isso?

Num súbito, Ally sumiu; o quarto ficou vazio.

Tentei me levantar, mas eu estava congelada na cama. Tudo era muito estranho.

De repente, eu não estava mais no meu quarto, mas sim num corredor escuro.

Eu sentia que precisava fugir dali a sensação de perigo eminente me acelerava o pulsar; eu estava tremendo de medo. Tentei correr, mas minhas pernas pareciam pesar toneladas. Eu não saia do lugar.

– Lauren? – Ouvi alguém me chamar bem ao fundo. A voz era feminina.

O corredor escuro foi se apertando, as paredes se fechando contra mim.

– Lauren! – Novamente a voz se repetiu, dessa vez mais alta.

O ar foi ficando escasso, estava muito quente, as paredes pressionavam meus ombros.

Eu seria esmagada ali.

– Lauren, acorda!

Abri os olhos, puxando o ar, como se estivesse acabado de quase me afogar.

Meu coração batia a mais de cem, minha vista estava turva; sentia-me molhada de suor.

– Calma, foi só um pesadelo…

Percebendo a repetição daquela voz, ainda muito confusa com tudo, apenas segui as vibrações vocais, achando Veronica parada ao meu lado, de pé, me olhando assustada.

Respirei aliviada nessa hora.

– O que houve? – Perguntei, realmente curiosa em entender o que havia acontecido.

– Você dormiu. – Simplificou ela, abrindo um leve sorriso. – Ally veio te chamar, tentou te acordar, mas você parecia morta, aí, resolvi vir ver o que estava acontecendo.

Enquanto Veronica falava, percebi que estava sentada na cama, recostada na cabeceira, segurando o controle com a mão esquerda. A TV ainda estava ligada, num canal de desenhos infantis. No relógio em meu criado mudo marcavam meia noite em ponto.

Veronica Iglesias.

Era madrugada; o filme estava pela metade quando decidi subir para o quarto e talvez dormir. As meninas já estavam no décimo sono – desde o início do tal filme –, amontoadas nas cobertas e almofadas que forravam o tapete da sala de TV. Lauren e Ally não estavam ali, mas eu podia ouvir a voz delas falando sobre coisas jurídicas, vindo da cozinha.

Há algumas horas atrás, meu comportamento havia sido dado como “estranho” pelas meninas. Tudo isso porque o silêncio havia me envolto em seus braços; meus pensamentos voaram para longe. Eu simplesmente não conseguia mais rir, nenhuma piada saia de mim, nenhum comentário, nada.

A verdade era que, eu não conseguia parar de pensar em Lucy.

Os beijos, carinhos e sorrisos martelavam em meus pensamentos, transformando minha mente num cenário de júri, onde eu era a réu, culpada demais para ter uma defesa.

Por hora, era atormentada pela imensa vontade de simplesmente voltar no tempo – na noite em que ficamos pela primeira vez; sendo mais exata – e assim, passar uma borracha sobre aquilo, anulando o passado. Entretanto, o sorriso que rasgava o rosto, junto com o pulsar acelerado do meu coração, servia como prova de que havia sido a decisão torta mais gostosa já tomada por mim.

O problema é que Lucy não era uma garota qualquer, um casinho de balada, no qual eu poderia simplesmente dar as costas ou não ligar no dia seguinte – como eu sempre fazia. Primeiro porque, na manhã seguinte, ela estaria comigo, sorrindo daquele jeito lindo, me fazendo querer repetir cada beijo. Segundo que, desvencilhar-me dela como uma vulgar, seria enganar a mim mesma com essa imbecil ilusão. Soava até desrespeitoso cogitar uma coisa dessas. Ela estava longe de ser uma qualquer por infinitos motivos, a começar pelo gigantesco fato dela ser a filha da minha melhor amiga. Depois, por ser uma morena linda, de sorriso fácil, espirituosa, animada e inteligentíssima. E também, por ser não só uma Lucy, mas A Lucy.

Eu tinha seis para sete anos quando ela nasceu e eu me tornei a “Tia Vero”. E, é claro que eu era só uma criança, que não desgrudava de Lauren. Sendo assim, não poderia simplesmente prever que isso pudesse vir a acontecer alguns anos depois. Então, até aí estava tudo certo.

Nós crescemos juntas e eu acabei sendo para ela, o que Lauren foi para mim. Fomos grandes amigas, compartilhamos sonhos de criança, gostos por moda e música, até mesmo brincamos juntas. Porém, por leis da lógica e da física, a vida adulta me chamou.

Quando fiz dezoito anos, me mudei para Nova York. Faculdade e trabalho se uniram sufocando meu tempo, não me deixando nem com finais de semana e feriados livres. E assim, a contragosto meu, tive que me ausentar por inteiro. Passei praticamente três anos apenas aparecendo em datas comemorativas – Natal e Ano novo.

No começo, Lucy e eu estabelecemos contato por mensagens de texto diariamente, mas depois de certo período, o tempo ficou escasso para mim, seus interesses foram mudando conforme crescia, começou a faltar assunto e assim, sutilmente fomos nos afastando. Por fim, meu vínculo com ela se resumiu em perguntar para Lauren – em nossas ligações mensais – como ela estava e ponto.

Desse mesmo jeito, o tempo passou e, quando tornei a morar em Miami, no final do ano passado, especificamente na semana do aniversário de quinze anos de Lucy, os problemas começaram.

Ela havia mudado bruscamente, tinha crescido bastante, se desenvolvido e amadurecido até demais para sua idade. Tinha novas amizades, novos gostos e, era a garota mais linda que eu já havia visto na vida (não que ela fosse feia antes, ok?). Enfim, era outra Lucy, completamente alheia a pirralhinha de doze anos, que só andava de rosa, que eu havia deixado. E, na sua festa de aniversário, o papel de “tia”, que antes já não tinha tanto crédito, foi descartado totalmente.

No começo foi só de brincadeira, com piadinhas de duplo sentido, até que eu percebi ser a única a estar brincando. Pela primeira vez fui ingênua em algo. Foi aí que eu percebi o quanto poderia me foder, se alimentasse isso, dessa troca de olhares tão intensa, essas conversas tão cheias de entrelinhas.

Evitamos até onde pudemos, mas não se apaga fogo com fogo, certo?

Dando voltas e mais voltas em meus pensamentos, a conclusão foi una: Eu estava fodida!

Primeiro que o simples fato de termos ficado, em baixo das barbas de Lauren, seria motivo para um escarcéu de proporções catastróficas, não de Lauren, mas de Keana, que certamente transformaria a vida de Lucy num inferno mais do que já estava sendo.

Segundo que, por conhecer muito bem a amiga que tenho, sabia que ela ficaria mais furiosa por não termos contado, do que por termos ficado. Isso era óbvio. Mas, aí o problema voltava a ser o primeiro: Keana.

De todas as pressuposições possíveis e plausíveis de merdas que poderiam ocorrer, Keana estava no meio de todas elas, fazendo a única coisa que sabia fazer: Infernizar.

Ela infernizaria Lauren pelo resto da vida – mesmo se elas se separassem –; infernizaria Lucy até que a mesma tivesse idade e condições para sair de casa – o que poderia demorar –; me infernizaria, até mesmo depois de morta.

Keana seria um problema maior que Lauren, mas isso não diminuía os fatos. Até porque, eu não estava nem um pouco preocupada com o que Keana acharia disso ou o que pensaria de mim após isso. Minha única e maior preocupação era o que seria da minha amizade com Lauren, se esse pseudo segredo viesse a ser descoberto ou se daqueles beijos viesse algo maior.

Uns tem os pais como porto seguro, outros os avós, alguns tem tios; eu tinha a Lauren.

Desde que me entendo por gente, aqueles olhos verdes são o meu farol, aquela voz rouca é a calmaria das minhas tempestades e, seu abraço forte é o descanso que minha alma necessita. Não há riso no mundo que me faça tão feliz quanto dela – que a faz parecer eternamente um bebê. Ainda não nasceu uma pessoa que seja tão como ela é.

Nossa amizade era daquele tipo que um olhar basta.

Pela coloração e intensidade dos olhos dela, eu sabia quando estava triste, com problemas ou brava. Assim como ela conhecia muito bem meus silêncios e o que minhas sobrancelhas arqueadas queriam dizer. E eu temia perder isso, pois sabia que jamais encontraria no mundo, alguém que me conhecesse e me fizesse tão bem quanto ela.

Lauren sempre soube de tudo sobre mim; lhe confiei todos os meus segredos – até os mais íntimos –, por saber que com ela, eles estariam seguros. Meu primeiro beijo, minha primeira vez, as besteiras que fiz no colegial, as confusões que me meti na faculdade. Tudo ela sabia. Até mesmo meu crush pela filha dela, ela sabia, mas achava que era brincadeira minha.

Nossa forte conexão me fez passar mais tempo da minha infância com ela, do que com minha própria família. Acabou que, com o tempo, Lauren se tornou uma amiga que é um pouco de tudo. Mãe, irmã, pai. Tudo numa pessoa só.

Todos sempre souberam que existia uma espécie de ligação entre nós, tanto que até hoje minha mãe alimenta um falso rancor por “Lauren” ter sido o primeiro nome que aprendi a falar. Era evidente que eu me sentia muito mais feliz quando ela estava por perto, até porque, ela sempre foi muito engraçada. (Está azeda agora não sei porquê). Lembro bem que quando eu tinha pesadelos, meus pais ficavam loucos, tentando ligar para ela, pois sabiam que eu só conseguiria voltar a dormir se ouvisse sua voz.

O medo de perder a amizade de Lauren se fazia maior a cada instante.

Estava vivendo um daqueles momentos da vida que você tem a total convicção de que está prestes a fazer uma merda muito grande, mas ainda assim, não consegue se conter. Um lado de sua cabeça diz que não, o outro diz que sim. E por fim, você acaba pensando naquele clichê ridículo de “preferir arrepender-se do que foi feito, do que se arrepender por não ter feito”.

O problema estava aí.

***

Entre minutos e mais minutos, passos cruzando o quarto de ponta a ponta, nenhuma solução vinha em minha mente. Quanto mais eu pensava, menos eu sabia o que fazer. Então, cansado de tanto refletir e nada concluir, resolvi que duas cabeças pensam melhor que uma.

Desci as escadas silenciosamente.

Chegando a sala, a TV estava desligada, não havia mais sinal algum de Lauren, muito menos de Ally, que certamente já havia ido embora. As meninas estavam a dormir.

Usando o flash do meu celular como lanterna, procurei a única pessoa que poderia me ajudar nessa empreitada: Camila. E, encontrando-a emaranhada entre cobertas, almofadas e corpos sonolentos, fiquei parada por instantes, pensando numa forma de acorda-la se, que as outras também viesse a despertar.

Sem muitas ideias, pulei o corpo de Normani, o de Dinah e, por muito pouco não me desequilibrei e caí feito uma banana podre em cima de Lucy. Retomado o equilíbrio, me abaixei, ficando de joelhos e tampei a boca de Camila, iluminando seu rosto com o flash.

No mesmo ato, a garota despertou assustada, arregalando seus olhos.

– Shhhh…

Vendo-a amenizar o semblante, reconhecendo-me ali, retirei minha mão de sua boca.

– Que porra é essa, Veronica? – Balbuciou ela, confusa demais para diminuir os olhos.

– Preciso conversar… – Sussurrei, fazendo gestos com a mão. – Vamos ali fora…

Fui a primeira a levantar e sair da sala, esperando-a na cozinha, e mesmo que ainda muito confusa, ela veio atrás, cambaleando de sono.

– Você sempre acorda as pessoas assim? – Indagou entre um bocejo.

– Não, só vi isso num filme e quis fazer. – Fingi estar falando sério.

Ela arqueou uma sobrancelha, certamente pensando que eu era uma louca.

– É brincadeira. Só não sabia como te acordar sem fazer barulho. – Falei, achando graça.

– Você precisa reavaliar suas técnicas de acordar as pessoas… – Revirou os olhos, teatralmente e riu. – Mas me diga, o que queria conversar?

A descontração sumiu, novamente fui envolvida pelo silêncio temeroso.

– Vamos lá para fora, não quero correr o risco de ser ouvida…

Certificando de que ela havia compreendido minha frase, que havia saído baixíssima, tomei a frente, rumando em direção a porta, guiando-nos para a varanda.

– Me desculpe por te acordar… – Adiantei-me em dizer, remoendo a dó que estava sentindo por tê-la acordado em plena madrugada. – É que eu não tenho com quem conversar sobre isso…

Admitir aquilo não foi difícil. Difícil foi ruminar aquela afirmação, sabendo que era a maior das verdades; eu realmente não tinha com quem desabafar sobre minha situação com Lucy, afinal, minha melhor amiga era a mãe dela. Até tinha a Ally, mas conhecendo-a bem, preferia não a incomodar com esse tipo de assunto, ciente de que não iria reagir positivamente às suas críticas e seus sermões – mesmo com ela estando certa em fazer isso.

Embora não tivéssemos assim tanta amizade – porque mal nos conhecíamos – Camila era minha única saída. De um jeito um pouco estranho, eu sentia nela algo que me passava muita confiança. Talvez fosse sua mania de sempre conversar olhando nos olhos ou seu jeito doce, bastante amigável, ou sei lá, o fato dela ser um pouco mais velha e mais madura que as outras meninas. Independente de qual das alternativas fosse a correta, eu tinha plena confiança de que ela saberia o que me aconselhar nessa situação.

– Tudo bem… – Ela disse amistosa, tocando meu ombro no intuito de me acalmar. Enquanto isso, nós caminhávamos pelo deck da piscina, indo em direção as espreguiçadeiras. – É sobre a Lucy, não é?

– Está tão na cara assim?

Nessa hora, Camila parou de andar e me olhou, prendendo o riso nos lábios.

– Preciso mesmo responder?

Fechei os olhos por instantes, rindo de minha própria desgraça.

Chegando nas espreguiçadeiras, sentei na beira de uma – a que ficava no meio –, unindo minhas mãos nos joelhos; ela sentou na beira de outra, ficando de frente para mim, olhando-me atentamente, esperando que eu começasse a falar.

Embora soubesse bem o que tinha de dizer, eu não fazia a menor ideia de como começar, por onde começar. Intimidadas com a proporção daquela situação, as palavras me escaparam do laço; não restou uma frase sequer em meus pensamentos.

Aquele não era um problema comum, algo trivial; não era simples de resolver, nem algo que eu pudesse simplesmente empurrar com a barriga. Era a amizade de uma vida inteira em risco, sentimentos meus em jogo, possivelmente até minha vida profissional.

Os minutos em silêncio iam aumentando gradativamente conforme o vazio ia se ampliando em meu cérebro. Todavia, piscava em letras grandes e coloridas, uma única pergunta em minha mente e, com essa mesma pergunta eu começaria aquele desabafo.

Suspirei com certa dificuldade; até meus pulmões temiam o pior, encolhendo-se ao invés de inflar. Faltava-me coragem para dizer aquela frase que na minha cabeça soava dolorosa, mas eu precisava dizê-la. Então, encorajei-me, estufando o peito; e, tomando novamente a atenção de Camila, soltei a voz que estava presa na garganta, permitindo que aquela pergunta derradeira flutuasse pela noite fria e nublada.

– O que você fazia se estivesse prestes a viver um romance que pode destruir sua vida?

Camila parou o balançar frenético de sua perna e começou a matutar, projetando conjecturas mentais que pudessem me favorecer naquela situação. Se estendia entre nós o silêncio apreensivo; calada, eu aguardava o que ela me diria; em silêncio, ela pensava muito bem no que me aconselharia.

– Bom… – Camila rasgou o silêncio, ainda muito incerta do que estava para dizer, porém, prosseguiu assim mesmo. – Você não acha que ainda é muito cedo para pensar nisso?

Por poucos segundos aquela pergunta dela fez sentido; de fato, a situação ainda era prematura, entretanto, no meio daquilo, escondia-se o mais perigoso, “porém”. Tal qual ela fez questão de recita-lo antes que eu pudesse dizer algo.

– Melhor dizendo: Você vai levar isso a adiante ou vai parar por aí?

– Acha que eu ainda tenho volta? – Respondi sua pergunta com outra.

– E porque não teria?

– Porque eu esperei muito por esse momento…

A morena franziu o cenho, expectando a continuação.

– Ela está longe de ser “apenas uma”, sabe… – Comecei. – O que eu sinto está longe de ser uma mera atração passageira…tanto é que, estou há quase ano esperando passar…

Fitei minhas mãos, sentindo o nó se apertar em minha garganta.

– Quando fiquei com ela, achando que tudo isso iria passar, eu abusei da sorte que tinha… – olhei-a nos olhos, arrepiada de nervosismo. – Ao deixar que o vento soprasse nessa brasa baixa, eu tinha a completa noção de que poderia causar um incêndio, mas quis acreditar no apagão. Agora, as chamas estão altas, me consumindo e não sei o que fazer. Não se apaga fogo com fogo.

Ventou frio repentinamente, intensificando meu arrepio.

– Mas só porque queima, não significa que você vai morrer…. – Recitou ela.

Eu conhecia de onde vinha aquela frase, então completei:

– Você tem que se levantar e tentar…

– Exatamente. – Voltando a olhar em minha direção, fui violentamente transpassada por seus olhos castanhos, coisa que só acontecia quando Lauren me olhava. Agora existia outra pessoa portando essa intensidade no olhar. – Se você quer, vá em frente; se deseja, se gosta, se acha que vale a pena, lute por isso. Não será fácil, pelos motivos que já está cansada de saber, então, tenha em mente que, impedimentos sempre vão existir, os ventos nem sempre soprarão a seu favor, mas que uma hora, depois de tanto tempestear, a calmaria irá prevalecer.

Houve uma pausa, na qual Camila fez para olhar o céu…o dia estava clareando.

– Ela gosta de você e não é de hoje, então…pontos a seu favor você já tem. – Camila tornou a falar, me pegando um pouco desprevenida por estar olhando a coloração lilás do amanhecer. Reparando nela, a vi mudar suas expressões de serenidade, para uma carranca indecifrável. – Entretanto, ouça isso como quiser, sendo como ameaça ou como conselho: Se for tentar mesmo, vá até o fim, caso contrário, nem comece.