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The Best Of Me – Girls just wanna have fun

Lauren Jauregui.

Estacionei tranquilamente em minha garagem, bastante contente em finalmente estar em casa. E, mesmo sentindo as paredes tremerem com as pancadas graves vindas da música, a ponto de cogitar que as mesmas iam desabar sobre minha cabeça, continuei calmamente a seguir pelo corredor que daria ao hall de entrada.

Quando passei da porta para dentro, deparei-me com a seguinte cena: Uma guerra de travesseiros, sendo dominada por Normani e Dinah – as maiores – que acoiçavam Camila, Vero e Lucy, rendidas no chão. Elas gargalhavam em uníssono. Lucy ria tanto que seu riso saia em engasgos esganiçados, o riso de Vero era apenas gritos, parecendo uma galinha sendo depenada. A risada mais gostosa foi a de Camila. Parecia aqueles bebês de internet rindo.

As penas brancas dos travesseiros voavam por toda sala de estar, os móveis – mesa de canto e sofás – tinham sido arrastados para o canto, colando-os na parede, para que o espaço central ficasse livre. Keana vendo essa cena, certamente já estaria desmaiada, talvez morta, após um repentino aneurisma ao ver sua preciosa sala de pernas para o ar.

“Meus travesseiros de penas de ganso”, ela diria, colocando a mão na testa, vermelha a ponto de explodir.

A ideia que tive, veio tão de rompante quanto a vontade de ter uma câmera nas mãos para captar a expressões que viriam com meu feito. Caminhei em direção à central do home-teather, na sala de TV, em passos matreiros, afim de – mesmo com o som altíssimo – não ser vista ou ouvida.

Obtive sucesso na missão.

Chegando ao cômodo, encontrei o que queria: O controle. E, depois de pegá-lo, voltei à sala onde a algazarra acontecia, posicionei meu dedo no botão que pausaria a distribuição do áudio pela casa, e, escorando-me à parede, de frente para elas, apertei o pause.

O som de disco arranhado soou na minha mente, dando-me imensa vontade de gargalhar quando o silêncio se instalou e elas enrijeceram o corpo. Congeladas com os travesseiros nas mãos, Dinah e Normani não quiseram levantar os olhos em direção à entrada. A única – e corajosa – foi Vero, que, esticando seu pescoço, parecendo um suricato no meio da selva, exibiu-me apenas seus olhos esbugalhados através do sofá.

Não conseguindo controlar a sufocante vontade de rir, soltei a gargalhada presa. No ato, as meninas petrificadas relaxaram seus ombros, soltando um “uffa” pouco sonorizado.

– Juro que eu adoraria ter uma câmera nas mãos agora. – Falei em meio a gargalhadas.

– Que susto, maldita! – Vero resmungou em voz alta, arremessando-me uma almofada.

***

Um tempo depois de minha chegada triunfal, obriguei as meninas a organizarem a sala novamente, enquanto esperávamos a pizza chegar. O trabalho de equipe feito por elas, conseguiu ser ainda melhor que o de Consuela. Em menos de quinze minutos a sala estava um brinco novamente.

– O que vamos fazer? – Vero perguntou repentinamente, relembrando-me de que ela ainda estava ali, na cozinha, comigo, bebendo.

Ergui meu rosto, exibindo meu olhar débil de sono. Ela revirou os olhos, impaciente.

– Se você falar que vai dormir, eu juro que taco fogo na sua cama.

Admito estar realmente pensando em dizer que iria dormir, afinal, estava exausta. No fim, nada respondi, apenas ri, bebendo mais um gole de minha cerveja.

– Quem vai dormir? – Lucy entrou perguntando, acompanhada de seu squad contido de Camila, Dinah e Normani.

– A Mortícia. – Vero resmungou, apontando para mim com a garrafa de cerveja.

– Que dormir o que! – Dinah manifestou-se, como sempre, falando alto. Apertando meus ombros com suas mãos, balançou-me de um jeito animado. – Dormir é coisa de velho.

– E vocês acham que eu sou nova? – Arqueei uma sobrancelha.

– Claro que é. – Dinah afirmou, rindo, ainda com as mãos nos meus ombros.

– Somos jovens até a morte.

Finalmente, naquela noite, ouvi a voz de Camila saindo desacompanhada das outras. De imediato me virei para ela, que estava debruçada na parte interior do balcão, entre Lucy e Normani. A jovem de olhar doce, portava seu habitual sorriso retraído, contrastando em sua pele levemente corada pela timidez.

Camila era linda. Isso eu não conseguia deixar de notar. E tímida, parecia ficar ainda mais.

Não sei dizer se o silêncio que me envolveu atingiu somente a mim ou se também veio a dominar as garotas. Talvez, elas mesmas tenham se calado numa súbita falta de assunto. Todavia, sendo isso ou não, houve quietação. Uma levíssima onda de calmaria a pairar sobre a cozinha, arrastando unicamente a mim como refém, pondo-me cara-a-cara com os luminosos olhos castanhos a brilhar como um farol em meio a tempestade.

Ainda – e agora mais do que nunca – me era muito curioso esse negócio de olhares tão profundos, mesmo que inocentes. Possivelmente essa tal inocência causava maior peso nesse mar de dúvidas que me envolvera. Camila tinha dons presos naqueles olhos. Dons que só um amor poderia desabrochar. Pétalas e mais pétalas em camadas delicadas de uma menina com olhos de vida.

Em todos esses anos de passeio pela terra, jamais havia sido transpassada assim, tão facilmente, por meras retinas. Ainda mais por um castanho dito tão comum entre os homens.

Esse era outro detalhe fascinante – e inquietante – que bradava aflito por minha atenção. Esses olhos castanho-escuro, de tonalidade bastante similar à uma grossa calda de chocolate, era bastante comum na minha ideia e na ideia de muitos. Vero, Lucy, Keana, Ally, Dinah, todas tinham olhos nessa tonalidade. No entanto, o castanho reluzente naquele rosto juvenil, mostrava-se diferente e belo. Singular e raro.

Não era um comum “olhar-castanho” qualquer. Era o seu – excepcional – olhar castanho.

Na luz branca da cozinha, os desenhos de sua íris apareciam em riscos e pontos negros, mergulhados no tom mel, também proveniente da claridade ímpar. Escondia-se por dentro daqueles olhos uma galáxia, onde o planeta principal era sua negra pupila, e suas estrelas cadentes os riscos de sua íris.

Quando criança, quis ser astronauta. Agora, esse querer se fazia maior.

Por de baixo de seus grandes e negros cílios, sustentávamos aquela troca mútua de olhares. Já não se notava mais a vermelhidão em seu rosto, muito menos acanhamento em seu semblante. Seus lábios unidos em um risco perfeito, formavam discreto sorriso rosado.

Despida das amarras de uma inibição sem menor razão aparente, conheci o verdadeiro olhar de Camila. Ainda mais profundo, ainda mais intenso. Assolador diante medos, silenciador de pensamentos, serenos como a garoa fina, após o furacão.

Ela tem olhos dignos de uma pintura; eu pensei, divagando maneiras de passar a imagem vista por meus olhos para uma folha, talvez um quadro.

Foi então que meus pensamentos foram ceifados pela foice de um pigarrear muito familiar. Ainda absorta, segui as vibrações da voz que me puxara pelas pernas de meus delírios. E, parando o olhar em Lucy, notei algo estranho: Ela e Normani tinham como fachada um olhar de espanto, lábios enrugados de tensão. Ao meu lado, Veronica ria sem cerimônias, presumivelmente de alguma piada que não fui capaz de ouvir, por estar muito longe com meus pensamentos, e Camila estava vermelha por inteiro.

Num estalo, meu cérebro solavancou na cabeça, voltando a funcionar totalmente, e, unindo as expressões aos fatos, concluiu que: Eu havia pensado em voz alta.

Tive sérias dificuldades em engolir a saliva nessa hora. Minha língua parecia ser feita de pano, banhado por uma gosma espeça que se recusava a descer por minha garganta. Meu rosto estava num ponto de fervura borbulhante bastante similar à um vulcão em erupção. Toda minha pele formigava.

Envergonhada era pouco para definir-me naquele instante.

– Você realmente precisa aprender a disfarçar.

Ouvi Dinah dizer, novamente espalmando suas mãos em meus ombros e apertando seus dedos ali, num ato de quase condolência. Demorei alguns instantes para conseguir captar o que se escondia em seu tom de voz, deduzindo por fim que, ela estava sendo amistosa, na tentativa de espantar o peso da tensão que se instalara ali.

Os risos vieram discretos.

Agradeci silenciosamente por Veronica nada ter dito. Só Deus sabe o que viria de suas piadinhas.

***

Quando deu 2 horas da manhã, subi para o meu quarto, deixando as meninas a vontade para suas respectivas diversões. E, depois de um longo e demorado banho, me deitei. E, mergulhada em minhas cobertas, fingindo estar assistindo ao documentário sobre a vida dos leões no Animal Planet, ouvia os risos e músicas vindos do andar de baixo.

As lembranças ainda recentes de meu vexame faziam meu rosto queimar de cinco em cinco minutos. Eu cobria meu rosto com as mãos e o esfregava, forçando-me a pensar noutras coisas, até que a sensação de formigamento e embaraço se dissipassem.

Eu realmente precisava aprender a disfarçar.

Camila Cabello.

Alinhadas para dormir, eu, Dinah e Normani dividíamos um colchão inflável gigante, muito mais confortável que minha cama. Lucy estava em sua cama, sentada de pernas cruzadas, acompanhada por Veronica que, após um fatídico jogo de “verdade ou desafio”, tornou-se parte do nosso grupinho.

Estávamos sentadas no tapete felpudo da sala de TV, formando um círculo perfeito. Normani de pernas cruzadas formando asas de borboletas, Dinah da mesma forma; Lucy abraçada em seus tornozelos, Vero sentada sobre seus joelhos; eu sentada com as pernas esticadas.

A mesa de madeira escura que antes ficava posicionada ao centro do cômodo, entre a TV e o sofá, foi arrastada para o canto, sendo utilizada como uma espécie de buffet, dispondo-nos comidas e bebidas a livre acesso para nossa preguiça de ir até a cozinha.

Dinah já estava mais para lá do que para cá, de tão bêbada; falando besteiras sem o menor nexo (nada que não fosse rotineiro). Normani balançava numa brisa inexistente, indo para frente e para trás lentamente, de acordo com o ritmo ditado por seu nível de alcoolismo. Lucy e Vero riam atoa. Literalmente atoa. Bastava que uma olhasse para a outra e pronto, gargalhavam até que perdessem o fôlego e sentissem dores abdominais. Eu – como sempre – era a única sóbria, demorando a terminar meu refrigerante ainda pela metade – desde o início daquela noite.

Ao meio, a garrafa de vodka vazia estava alinhada para o início do jogo chamado “Verdade ou desafio”. No entanto, as conversas paralelas nos impediam de começar a brincadeira. Fato que eu estava adorando, pois temia o que poderia vir das perguntas feitas e dos desafios ditados.

– Então, gente? – Normani interrompeu o assunto anterior (os amassos que Dinah deu no professor de Educação Física no ano anterior), numa voz elevada e cômica. – Vamos começar?

– Bora! – Dinah se animou.

– Qual lado fica para pergunta e qual para a resposta? – Vero perguntou, vendo Lucy tomar a garrafa em suas mãos.

– Esse lado da garrafa é de quem faz a pergunta. – Lucy disse, referindo-se ao fundo da garrafa. E, tocando a ponta da garrafa, concluiu. – E esse, é de quem receberá a pergunta.

– Ok. – Respondemos em uníssono, onde todas nos entreolhamos e rimos do feito.

– Entretanto, há uma regra: – Veronica começou; exibindo um sorriso infernal. Seus olhos brilhavam de um jeito quase assustador. – Quem escolher desafio e não cumprir… – Suas mãos que estavam escondidas atrás de seu corpo, vieram para frente exibindo uma garrafa de tequila. – Dois shots no mínimo.

Engoli seco. Nunca havia bebido nada alcoólico na vida e não estava nem um pouco afim de inaugurar meu fígado com tequila, porque mesmo não tendo experimentado, ouvia Dinah falando sobre os efeitos da tal bebida.

– Outra coisa – Normani iniciou em tom de observação; tomando as atenções. –, nada de só escolher verdade, ok, CAMILA?!

É claro que ela não gritou meu nome, mas na minha cabeça soou assim.

Novamente engoli seco.

Eu ia me foder muito nesse jogo, disso eu tinha certeza. Ainda mais com Veronica participando dele. Com Dinah já era difícil, pois ela sempre arrumava um jeito de me envergonhar, agora com sua mais nova aliada, eu estava perdida!

Veronica e Dinah no mesmo jogo soava como morte numa guilhotina para mim.

– Isso mesmo! – Dinah concordou, numa expressão de divertimento com minha desgraça. Claro que ela iria concordar. Não seria Dinah, se desperdiçasse a chance de me ferrar. – Quem escolher verdade uma vez, na próxima rodada será obrigado a escolher consequência, senão fica chato.

É, eu realmente estava perdida, e podia ver isso refletido no olhar de “Me aguarde”, desenhado nos olhos de Dinah.

– Eu rodo a primeira. – Vero tomou a garrafa das mãos de Lucy, e antes mesmo que algum protesto ou comentário pudesse ser feito, a garrafa já estava girando velozmente em nosso meio.

Ela girou, girou e girou.

Confesso que conforme a velocidade foi diminuindo, gotas frias de suor começaram a escorrer por minha espinha. Só de pensar nas possíveis perguntas e nos possíveis – e constrangedores – desafios, eu já me tremia por inteiro, sendo invadida por um antecipado arrependimento de ter ido passar o final de semana com elas.

Giros e mais giros depois, a garrafa parou com sua ponta – resposta – para Lucy e sua traseira – pergunta – para Normani. A bela negra fitou Lucy com olhos brilhantes de pura maldade. Lucy exibiu um levíssimo sorrisinho satisfatório.

– Começamos bem. – Dinah comentou, batendo palminhas.

– Então, Lu, verdade ou desafio?

Normani sorriu, perversa, certamente com a pergunta na ponta da língua, assim como o desafio também. Tal detalhe que pareceu não causar nem um tipo de comoção em Lucy, pois muito valente, ela respondeu aderindo neutralidade em seu tom de voz.

– Desafio.

As meninas urraram e riram.

Lucy ergueu as sobrancelhas em sua clássica expressão de: Me surpreenda.

– Garota corajosa… – Mani provocou, meneando negativamente com a cabeça, como quem diz “Você está ferrada”. E, sem precisar pensar muito, depois de fitar Veronica por alguns segundos, ainda naquele tom de perversão, prosseguiu. – Desafio você a fazer um lap dance em Vero.

– Essa é a minha garota. – Dinah disse. Elas bateram um high-five.

– Não sei porque, mas eu já sentia que envolveria alguma coisa relacionada a mim. – Vero comentou, fazendo-se de inocente. E, confesso que sua expressão de “santinha” era bastante convincente. Eu acreditaria se não a conhecesse.

Novamente, Lucy não pareceu nem um pouco amedrontada, apenas se levantou, para pegar o controle do home-teather, que estava perdido entre as almofadas do sofá.

– Alguém deveria vigiar a Lauren? – Perguntei.

Aquilo realmente era importante, tanto que todas pensaram um pouco, decidindo se sim ou não. Até que Veronica abriu a boca.

– Ela já deve estar no décimo quinto sono. Relaxem.

Todas nós movemos os ombros, dizendo de forma muda: Se ela diz, quem somos nós?

Lucy voltou – não se sabe de onde –, trazendo uma cadeira de madeira em suas mãos, cantarolando o refrão de PillowTalk do Zayn. Mantinha a expressão neutra, parecia rotineiro demais aquilo que ela iria fazer, porém, todas nós sabíamos que por dentro, ela estava à beira de um desmaio. Lucy nunca abaixava sua guarda. Nunca mesmo. Até quando se meteu numa briga na quinta série e apanhou da garota, e, levantando como se nada tivesse acontecido, saiu andando, normalmente.

A cadeira foi posta no meio da rodinha; a garrafa foi parar em cima do sofá. Lucy apertava botões no controle, passando as músicas que via passando no visor. E, quando nos demos conta – numa velocidade assustadora – Veronica já estava sentadinha na cadeira, aguardando ansiosamente a hora de se dar bem.

– Pronta? – Ela perguntou de repente, numa voz sedutora, olhando diretamente para Vero.

– Para você…? – Vero deixou as reticencias flutuarem, até vir novamente sua voz, em um quase gemido. – Nasci pronta.

– Eu não acredito que estou passando por isso… – deixei meu pensamento de constrangimento alheio ter voz e sair por meus lábios. As meninas riram.

– Que comecem os jogos. – Foi o que Lucy disse, antes de dar Play na música.

Uma versão rock de E.T da Katy Perry preencheu toda a sala com sua batida intensa e seus graves de tamborilar o peito. Lucy sentou no colo de Veronica e após colocar as mãos da morena para trás, sussurrando algo que não conseguimos identificar, ela começou a remexer suas curvas, de acordo com a levada da música.

Confesso que por um tempo foi interessante, Lucy tinha um rebolado bastante sensual, mas depois, tornou-se desnecessário e um pouco constrangedor. Talvez um pouco nojento. O lap dance havia sido esquecido de lado, enquanto as duas apenas se beijavam numa gana incomum, talvez causada pelo álcool. Faltava muitíssimo pouco para que elas se engolissem – ou se fundissem uma na outra.

– De quem foi essa ideia mesmo? – Me virei para Dinah e Normani, encontrando-as com a mesma expressão de choque (e levemente de nojo).

– É, acho que nãos será necessário mais nenhum plano mirabolante para ajudar elas a ficarem. – Normani constatou, encarando-as, deixando que o arrependimento de ter ditado aquele desafio ficasse bastante evidente.

– Devemos interrompe-las? – Dinah perguntou.

– Seria bom… – eu disse. – Não sou muito chegada em pornô.

– Berroooo! – Normani gargalhou. E, ainda rindo, perguntou: – Como faremos isso?

– É simples. – Dinah disse, bastante calma. E, antes mesmo que pudéssemos perguntar qual seria o seu plano, sua voz saiu em alto e bom som. – GENTE, A LAUREN TÁ DESCENDO!

Hilário seria uma palavra muito simples para definir o quão engraçado foi ver o pulo que Lucy deu, sendo empurrada por Veronica, que saiu correndo, patinando pelo contato do piso com suas meias.

A gargalhada de Dinah ecoou por toda a sala em conjunto a de Normani e a minha.

Num extremo da sala, ao lado da janela, estava Veronica, com as mãos apoiadas nos joelhos, como se tivesse recuperando o fôlego, branca, quase transparente de pavor. No outro, ao lado do sofá, estava Lucy, com olhos arregalados, boca vermelha e respiração irregular, por diversos motivos, sendo o medo o principal.

– Dinah… – Lucy encarou a amiga, colérica. Avermelhando de raiva. – Eu vou…matar…você!

– Claro que não vai. – Dinah disse, não se importando nem um pouco com a reação de Lucy. – Agora senta essa bunda aqui e vamos continuar o jogo.

Mesmo um pouco raivosa, Lucy retornou ao seu lugar, Vero veio logo em seguida, mandando uma cerveja para dentro, em grandes goladas. Retirei a cadeira do centro, liberando o espaço e logo a garrafa estava girando novamente, tendo sido rodada por Normani.

A cada giro lento, era uma palpitação irregular de meu coração. Até o final desse jogo meu corpo já estaria frio e rígido de um infarto fulminante.

Quando a garrafa parou, com sua ponta para Dinah e sua traseira para Veronica, concluí que um duelo de titãs se iniciaria ali. Afinal, Vero ia dar um jeito de se vingar de Dinah pelo susto que a mesma havia causado.

– Verdade ou desafio, querida? – Vero perguntou, venenosa.

Senti uma breve euforia com aquilo. Ia ser divertido ver Dinah se ferrar.

– Desafio, linda. – Debochou a loira.

– Que ótima escolha, linda! – Vero rebateu na mesma moeda. – Desafio você a subir agora e perguntar o tamanho do pau da Lauren.

– QUE? – Berramos em uníssono, pasmas. Uma com olhos mais arregalados que a outra.

Vero soltou uma gargalhada fatal.

– Estou brincando! – Ela cantarolou, feito uma louca. – Isso eu vou pedir quando for minha vez com a Camilinha.

Corei violentamente nessa hora. Cobrindo o rosto com as mãos.

Mas espera…

– Como você sabe? – Indaguei, mais apavorada do que surpresa.

– Eu sei de tudo, linda. – Respondeu ela.

– Ok, agora o desafio. – Normani apressou.

– Meu desafio é: – Vero fez uma pausa dramática, tomando um gole na boca da garrafa de tequila que havia reaparecido em suas mãos. – Você vai tirar uma nude agora e vai mandar para o primeiro contato da sua agenda. – Piscou os olhos rapidamente, como uma criança inocente. Essa garota era o diabo!

– Ok! – Dinah se levantou, encarando Veronica desafiadoramente. – Já volto.

Por alguns – poucos – minutos, Dinah se ausentou, sumindo por entre os cômodos, para tirar a foto exigida por Veronica. E, um tempo depois, ela voltou, abaixando a blusa com uma mão e com o celular na outra.

– Prontinho, vadia. – Dinah gargalhou, balançando o celular em suas mãos, exibindo a tela que mesmo de longe, dava para ver seu par de volumosos seios e o nome do contato.

– Quem é essa pessoa? – Normani indagou, usando da mesma curiosidade que nos dominara.

Novamente a gargalhada de Dinah ecoou.

– Nosso ex professor de educação física.

Todas nós rimos.

E a garrafa girou novamente.

Parou em Normani para Vero; Lucy para Dinah, e todas outras conjecturas que não me envolviam. Eu já estava comemorando, pois, o jogo estava ficando chato e elas cogitando desistir, até que…

– Posso nem ver que adoroooo! – Dinah praticamente berrou.

A pergunta havia parado em Veronica. A resposta em mim.

Eu estava petrificada.

Bolas de feno passando em meu cérebro.

– Então, Camilinha… – por pouco não escorreu veneno no canto dos lábios de Veronica. – Verdade ou desafio?

Essa simples pergunta pareceu uma questão matemática, onde eu precisaria responder usando fórmulas mirabolantes, e não fazia a menor ideia do que responder, por ser de humanas.

Se eu dissesse verdade, eu estaria ferrada. Se escolhesse desafio, estaria mais ferrada ainda. Então, escolher entre morrer enforcada e morrer na guilhotina, preferi a morte mais rápida e eficaz, que resultaria apenas em alguns minutos de nervosismo e constrangimento, e passaria.

– Verdade. – Respondi meio tremula.

– Previsível… – Normani revirou os olhos.

– O dia que Camila escolher desafio de primeira, vou com a calcinha por cima da roupa para a escola. – Lucy zombou.

– Há há há. – Fui cética.

Voltando-me novamente para Vero, preferi não ter olhado para ela. O sorriso infernal expresso naqueles lábios, as labaredas vívidas em seus olhos. Existia sim alguém pior que Dinah no mundo. Esse alguém sem dúvidas se chamava Veronica Iglesias.

– Camila… – Vero começou; divertindo-se com minha expressão de pânico. – É verdade que você já tocou um remix pensando na Mortícia?

– SOCORROOOO! – Dinah berrou, gargalhando.

– Gente… – Lucy tampou os lábios com as mãos, vermelha de tanto rir.

Só tinha um porém: Eu não entendia qual era a graça.

– Remix? – Repeti abestalhada, não entendendo o que diabos ela queria dizer com aquilo.

A expressão de Veronica deixou de ser riso para ser ceticismo.

– Mila! – Dinah chamou minha atenção, e quando me virei para ela, a vi gesticular usando os dedos indicador e médio, como faz um DJ num disco, só que de um jeito muito mais obsceno.

Meus lábios se abriram em total surpresa e apavoramento. Eu seria facilmente confundida com um tomate de tão vermelha que deveria estar. Meu rosto estava fervendo de vergonha.

– Claro que não! Meu Deus! Vocês são loucas! – Minha voz saia esganiçada.

Sacodi a cabeça, afastando de mim aquelas lembranças ainda muito recentes. Voltando a quase total presença no quarto, as meninas estavam rindo de algo que havia perdido. Preferi não perguntar, por temer que fosse da idiotice feita por Veronica que me envolvia.

O quarto estava parcialmente escuro, tendo como única iluminação a lanterna do celular de Veronica apontada para o teto. E, em baixíssimos burburinhos, as meninas fofocavam sobre uma menina muito cafona que havia brigado com Normani no mês passado.

Estávamos sem sono algum, apesar de já passar das quatro da manhã.

Por hora, estava aliviada, sentindo-me uma pluma a flutuar no vento, por ninguém tem tocado na constrangedora cena da cozinha. Em contrapartida, temia ter aquele assunto posto em pauta, mesmo tendo algo mais interessante por ser dito. Aquelas meninas nunca perderiam as chances de me ridicularizar. E, agora, elas tinham a cena da cozinha e a cena do “verdade ou desafio” para usar contra mim.

Minha mente acelerada, já me fazia ouvir Lucy repetindo provocativamente a frase dita por sua mãe: “Ela tem olhos dignos de uma pintura”. Pude ouvir também os risos, seguidos de um silêncio mórbido, onde todas ficariam assistindo meu ruborizar.

Surpreendentemente, tudo aquilo deixou de ser apenas coisa da minha cabeça, concretizando-se sem que eu percebesse ou estivesse presente mentalmente para acompanhar o desenvolver daquilo, ou até mesmo o que fez surgir aquele assunto. O que por ventura foi bom.

Mas, eu já estava “lúcida” de novo, recebendo cutucões nas costelas vindos de Normani; Veronica acenava rapidamente em frente aos meus olhos, Lucy estalava os dedos.

Emiti um som nasal, mais parecido com um grunhido, e pisquei rapidamente por algumas vezes, trazendo a vida de volta ao meu corpo.

– Foi longe, hein… – Veronica falou, rindo de meu estado.

– Na próxima, divide o baseado com a gente. – Lucy intercedeu na brincadeira.

Rapidamente o foco da conversa mudou, resumindo-se em Lucy e Vero se pegando, enquanto eu, Normani e Dinah trocávamos algumas palavras avulsas, ainda sobre o caso da menina do colégio.

Brigas com outras garotas eram uma coisa muito comum tanto para Normani, quanto para Dinah. Não tinha um mês que ficasse invicto de alguma confusão. Para mim, isso nunca fez muito sentido, mas para as garotas do colégio, nosso “grupinho” era como uma ameaça.

Não éramos as mais populares, porque as meninas do terceiro ano lideravam esse conceito, no entanto, nossa básica popularidade resultava em ódio dividido de formas diferentes entre nós quatro.

Todos os garotos se rastejavam por Dinah e Normani, o que resultava na ira das outras garotas – até mesmo as do terceiro ano. O único diferencial entre elas, era que Dinah não dava a mínima, enquanto Normani…com ela as coisas eram mais… agressivas. (Seu apelido no colégio era Regina George).

Lucy era classificada como “metidinha”, odiada apenas por ser rica, estar sempre com o celular do ano e roupas da moda. Enquanto eu, que não era rica, muito menos tinha todos os garotos na minha cola, nem estava sempre de acordo com a moda, era odiada gratuitamente por estar com elas três.

– Ela é uma vadia. Eu sempre soube que era. – Dinah rosnou, revirando os olhos.

– Ela não é uma vadia. – Falei. Tanto ela, quanto Normani me olharam, esperando a continuação da frase, deixando explícito que não haviam gostado do início. E, antes que me esganassem, eu continuei. – Ela só é burra. É como Lucy sempre diz “Existem dois tipos de pessoas: As inteligentes e as que entram no meu caminho”.

– É por isso que você é a minha favorita! – Normani me abraçou pelos ombros.

– Hey! – Dinah protestou, enciumada.

– Milaaaa! – Lucy me chamou, falando contra os lábios de Veronica. Olhei-a rapidamente, apenas para demonstrar que estava ouvindo. Nisso, ela prosseguiu. – Você teria coragem de pegar a Lauren, mesmo ela sendo mais velha, mesmo sendo minha mãe e mesmo sendo casada?

Tossi desesperadamente, engasgada com minha própria saliva.

Que diabos de pergunta era essa?

Normani dava tapinhas em minhas costas, afim de me ajudar a desengasgas, e talvez a não morrer. Enquanto isso, Lucy e Vero se divertiam com meu estado. Esse final de semana seria longo se dependesse do arsenal de piadinhas que se escondia nessas mentes perversas.

É claro que eu não teria coragem de ficar com a Lauren. A resposta era mais que óbvia, mesmo que a pergunta não tivesse passado de uma brincadeira de mal gosto. Lauren era muito mais velha, casada, mãe da minha melhor amiga. E, apesar de ser um pedacinho do inferno na terra, eu não conseguia me imaginar ficando com ela.

– Lucy, eu sempre quis te fazer uma perguntinha, mas nunca tive coragem… – Normani deixou as reticencias fluírem. Eu sabia qual era a tal pergunta, já havíamos conversado sobre isso. Eu sabia a resposta de Lucy, pois ela já tinha tocado nesse assunto comigo, mas deixei tudo prosseguir.

– Que pergunta?

Normani ponderou por alguns segundos. Enquanto isso, Lucy mostrava alguma coisa em seu celular para Veronica.

– Você sempre soube da condição da Lauren? – Normani falou, deixando meio vago, mas logo concluiu. – Tipo, sempre soube que ela era…diferente?

Não se criou tensão no ar. Éramos amigas, lógico que conversaríamos sobre isso. Até porque, o caso de Lauren não era tão comum assim. Todos do colégio comentavam, muitas vezes Lucy fingia não estar ligando, mas sabíamos que ela ficava um pouco incomodada com isso.

– Sim. – Lucy respondeu normalmente. E se ajeitou na cama, deitando com a cabeça nas coxas de Veronica. – Sendo sincera, foi bem estranho no começo, porque eu ficava igual aquele meme da Nazaré, calculando a hipotenusa da situação, mas logo fiquei de boas.

– Mortaaaa! – Normani gargalhou. – O meme da Nazaré foi ótima!

– Mas sério, cá entre nós, eu sempre fui muito curiosa com essa situação. – Dinah começou. – É muito legal, porque tipo, se você não for totalmente sapatão, for bi, por exemplo, e ficar com a Lauren, você vai ter as duas coisas que gosta: Uma mulher gostosa e uma piroca.

– Vocês são podreees! – Veronica falou, perdida entre gargalhadas.

***

Acordei na manhã daquele sábado, sentindo um peso excessivo em cima de mim, e, foi quando abri os olhos que me dei conta de estar sendo esmagada por Dinah, praticamente deitada em cima de mim, roncando. Um pouco mais a frente, vi Normani, que estava tão na ponta do colchão, que por pouco não estava de baixo da cama de Lucy. Pelo menos não estava roncando.

O quarto estava gelado. Muito gelado. Forçando minha vista para enxergar através daquela escuridão a numeração descrita no painel do ar-condicionado, com certa dificuldade, constatei estar 16 graus naquele cômodo. E, é claro que eu estaria com frio. Dinah havia roubado minha coberta.

Esticando mais o pescoço, afim de achar o controle daquela geringonça, para aumentar um pouco a temperatura, e assim, não morrer congelada, encontrei algo um pouco mais preocupante que isso: Lucy em sua cama, agarrada com Veronica.

Pelo menos estão vestidas; pensei.

Sendo tomada pelo medo – alheio – de que Lauren abrisse repentinamente a porta e visse aquilo e viesse a assassinar Veronica, resolvi agir em prol dessa causa. Rastejei-me feito uma cobra, para desvencilhar do corpo de Dinah, debruçado sobre o meu. Obtendo sucesso, achei meu celular entre as cobertas bagunçadas e vi a hora. Estava cedo ainda. 8h15 da manhã. Meu corpo estava tão acostumado a acordar cedo, que nem em finais de semana, tendo ido dormir já com o sol despontando, não conseguia dormir até tarde.

Em passos felinos de tão macios, pulando os corpos de Dinah e Normani, fui até a porta. Aderindo a leveza de uma pluma nas mãos, abri a porta. Tudo estava silencioso. Mas, antes de qualquer coisa, eu precisava conferir.

Depois de descer e certificar-me de que Lauren não estava lá em baixo e que ainda estava dormindo, voltei ao quarto. Parando em frente ao casal, agarrados apaixonadamente, fiquei pensando em uma forma sutil de acordar Veronica sem que isso fizesse Lucy acordar. Notando que não existiria essa possibilidade, porque Lucy e ela estavam entrelaçadas, quase fundidas uma na outra, decidi ir da forma tradicional.

– Vero… – Sussurrei, cutucando sua testa com o indicador. Ela nem se mexeu. – Veronica! – Falei um pouco mais alto, agora batendo levemente na maçã de seu rosto. A única reação dela foi suspirar. Respirei fundo, contendo a vontade de jogar um copo de água gelada nelas duas. – Verooo… – sacudi-a suavemente pelos ombros.

– Shh, sem barulho… – Resmungou, grogue de sono, sem abrir os olhos.

– Acorda, Veronica… – Controlei minha voz, deixando-a sair como um sussurro, mesmo que a vontade real fosse de gritar.

– Pra que?

– Você precisa ir para o seu quarto antes que a Lauren acorde. – Falei baixinho. Ela abriu o olho direito, apenas para certificar-se de que tinha ouvido aquilo mesmo e não sonhado.

– Que horas são? – Murmurou, agora com os dois olhos abertos.

– Quase oito e meia.

– Ok…

***

Depois de assistir Veronica sair do quarto, cambaleando de sono, trombando com as paredes, voltei a me deitar, na ideia de conseguir dormir pelo menos por mais algumas horas. E, como já previa, tudo que consegui foi ficar por meia hora assistindo o movimento da ventoinha do ar-condicionado, subindo e descendo lentamente, ventilando todo o quarto.

Baixei joguinhos no meu celular, para me divertir; enjoei minutos depois de começar a desfrutar deles. Conferi minhas redes sociais; tweetei algumas idiotices. Quando marcaram 9h20 da manhã, cansei de ficar na cama, resolvendo então, descer e ficar lá, até que alguma alma viva – que não fosse Lauren – acordasse para me fazer companhia.

As cegas, achei minha mochila e de dentro dela, tirei o livro que estava lendo – Impecáveis; o segundo livro da coleção de Pretty Little Liars. Peguei também meus chinelos e desci.

A casa continuava em pleno silêncio, coisa que me fez agradecer. Não sei o que faria se desse de cara com Lauren. Certamente ficaria vermelha e muda, tudo ficaria constrangedor e eu sairia correndo. Mas, como não foi o caso, caminhei tranquilamente para a sala de TV e lá me sentei, iniciando minha leitura.

Não sei por quanto tempo fiquei ali, mergulhada no suspense das linhas. Mas, posso afirmar que, se algum ladrão entrasse na casa, ele roubaria tudo sem que eu percebesse, pois estava muito concentrada na minha leitura. Tão concentrada que não vi, nem ouvi o momento em que Lauren apareceu na sala, apenas ouvi sua voz rouca, rasgando o silêncio, tamborilando dentro do meu peito.

– Não sabia que gostava de ler.

Estremeci dos pés à cabeça, dando um nada discreto pulinho de susto.

– Calma. – Ouvia-a rir. Senti o som da sua risada vibrar dentro das minhas paredes ósseas, mesmo não sabendo se isso era fisicamente possível.

O livro ainda estava preso nas minhas mãos, mantendo-se erguido na altura do meu rosto. Na verdade, eu estava agarrada nele, usando todas as minhas forças, sem o menor motivo aparente. Custava-me todo o pouco de dignidade que me restava olhar para ela. Eu precisava olha-la, mas não conseguia. Primeiro porque, era a Lauren me olhando, com aqueles traiçoeiros olhos. Segundo que, era a mesma Lauren que me resultava momentos muito constrangedores.

Numa lentidão digna de uma lesma, fui abaixando o livro, até que o pousei sobre minhas coxas, assim, fui erguendo meu olhar em sua direção, subindo por suas pernas cobertas pela calça jeans preta, rasgada no joelho, apertada, delineando pontos estratégicos – suas coxas e seu “amiguinho”.

Subindo mais, encontrei suas mãos unidas nos bolsos laterais de seu moletom marrom-claro; mais um pouco alcancei os cordões do capuz e alguns fios de cabelo. Engoli o ar, implorando a todos os santos que me ajudasse a não engasgar. Quando cheguei em seu rosto, levemente amassado, fui transpassada por seus olhos verdes, ainda mais claros que o normal, quase transparentes. Seus cabelos estavam um pouco bagunçados, o que dava bastante charme a sua carinha de sono. Ela estava sorrindo muito levemente, encarando-me com simplicidade.

Impressionante como até com cara de quem acabou de acordar ela conseguia ser linda.

– Não queria te assustar. – Ela se apressou em dizer, balançando suas mãos por dentro dos bolsos, como se estivesse encabulada. Sua voz estava ainda mais rouca que o de costume. – Só te vi aqui e achei que estivesse com fome…e…. sei lá, achei plausível te chamar para tomar café da manhã.

Ela fez uma pausa, que deveria ter sido preenchida por minha resposta, caso eu ainda tivesse a capacidade de conseguir formular palavras, no entanto, meu cérebro havia dado pane. Como sempre acontecia ao vê-la. E, estranhando meu silêncio, ela tornou a falar.

– Desculpa mesmo atrapalhar sua leitura… – Falou, um pouco nervosa, coçando a nuca. – Eu vou….voltar para a cozinha.

Ela fez menção em sair, girando seus calcanhares para pegar a direção da cozinha. E, de um jeito não premeditado, usando forças que não sabia de onde haviam saído, minha voz escapuliu por meus lábios, sem que eu ao menos tivesse tido a chance de ponderar que palavras sairiam.

– Espera! – Eu disse, assustando-me com minha própria casualidade. – Vou com você.

Sem perceber, eu já estava de pé, caminhando ao seu lado, em direção à cozinha.