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The Best Of Me – Dragon-fly

Lauren.

– Você gosta de café forte ou fraco? – Perguntei ao alcançar a cafeteira, perto da pia; ao lado já estava o pote de café e açúcar à minha espera. Virei-me em sua direção. – Ou prefere algum tipo de suco?

A ideia de chamá-la para tomar café da manhã comigo veio mais no impulso do que se esperava. Quando a vi sentada na sala, sozinha, primeiro me apiedei, imaginando que ela estaria com fome; em segundos eu já estava lá, parada em sua frente.

Confesso que havia criado uma espécie de favoritismo por Camila. Não sei bem o que diabos era isso, nem como havia surgido; eu apenas tinha gostado dela desde nossa primeira conversa no shopping. Ela tinha algo diferente; um brilho no olhar, um jeito de sorrir; algo que me incomodara – positivamente.

Camila era discretíssima, tímida, reservada; isso era claro e evidente. Lembro-me bastante das vezes que ouvi Lucy comentando sobre ela, ressaltando o quanto Camila era peculiar entre elas. Enquanto Dinah só pensava em garotos e Normani só em roupas, Camila ocupava-se trabalhando para ajudar sua família. Essa singularidade despertava maior interesse na minha filha, porque era algo diferente dentre as meninas costumeiras. E tinha o mesmo efeito em mim.

– Café. – Ela disse, meio distraída, olhando para as mãos. – Forte e com pouco açúcar.

– Também prefiro assim. – Falei por falar, colocando colheradas de pó no compartimento da cafeteira. E, enquanto colocava o açúcar, voltei a quebrar o silêncio. – O que está lendo?

– Impecáveis. É de uma série de livros, que também virou seriado, chamado Pretty Little liars.

Voltei-me em sua direção, após ligar a cafeteira. Ela estava sentada no banco alto, com os cotovelos apoiados no balcão, novamente lendo.

– Que legal! Fala sobre o que? – Deixei a pergunta flutuar, enquanto procurava nas gavetas de baixo da pia, uma toalha para forrar a mesa.

Nota mental: Pedir o mapa da casa para Consuela.

– Ah… – ela começou, hesitante. – É um suspense, que fala sobre um grupo de cinco garotas assoladas por um pseudônimo “A”, que envia mensagens ameaçando contar os segredos delas. O enredo gira em torno de todas as merdas que essas garotas fizeram e que foram obrigadas a fazer pelo tal A.

– Parece ser interessante. – Constatei vagamente, fechando a gaveta penúltima gaveta.

– É muito legal!

Pela primeira vez sua voz não saiu intimidada ou carregada de reticências; tanto que a olhei com surpresa, antes de me abaixar para abrir a última gaveta. Ela ainda permanecia mergulhada nas páginas, mas, notando meu silêncio, olhou-me rapidamente e sorriu. Dessa vez sem corar.

Achei naquela última gaveta os panos de mesa que tanto procurava. Pegando a primeira toalha que vi pela frente, fechei a gaveta e coloquei a toalha ainda dobrada sobre o balcão, enquanto separava as coisas da geladeira que colocaria ali.

– Uma pergunta: – A voz de Camila surgiu amistosa. – Não espera que a toalha se forre sozinha né? – Acabei rindo de seu questionamento, mesmo sem entender. – Posso te ajudar? – Ela se apressou em completar.

– Claro. – Fechei a geladeira com o pé, deparando-me com a mesa já forrada. – Que rápida!

Ela riu.

– Deixa que eu ponho essas coisas aqui em cima e você termina de passar o café.

Não tive nem tempo resposta e ela já estava ao meu lado, pegando as coisas que eu havia posto na pia, levando para o balcão.

– As xícaras ficam nessa porta aqui. – Apontei para a porta prateada à minha direta; pondo o café na garrafa. – Só não pegue a rosa, senão Veronica é capaz de te queimar numa fogueira.

Segundos depois, ouvi gemidinhos insatisfeitos. Fechando a garrafa de café, olhei para o lado, deparando-me uma cena para lá de engraçada: Camila na ponta dos pés, dando pulinhos, tentando alcançar a maçaneta da portinha do armário.

Mesmo rindo, apiedei-me dela; encostei-me um pouco em suas costas para sem a menor dificuldade, empurrar a porta para cima. Camila era mais baixa que eu – não muito, mas era –, seus ombros batiam em meu peito. Parada atrás dela, a diferença parecia maior. Esse detalhe, misturado a proximidade, mesmo que inocente e inofensiva, gerou em um uma sensação inusitada. Uma espécie de frio na barriga, acompanhada por solavancos no peito.

O perfume de seus cabelos me arrepiou.

Ignorando totalmente aquela “coisa” que havia sentido, peguei duas xícaras – uma preta e uma branca – e seus respectivos pires, e entreguei em suas mãos. Logo a garota desvencilhou-se de minha sombra, indo em direção a mesa.

Já servidas, sentadas uma de frente para a outra – eu na parte de dentro do balcão, ela na parte externa –, comíamos em pleno silêncio; ela lendo, eu checando mensagens em meu celular.

[Keana] – Querida, como estão as coisas aí? Estão todas bem?

[Lauren] – Nenhum homicídio, suicídio ou genocídio.

[Keana] – E meus vasos? hahaha brincadeira. Que bom que estão bem.

[Keana] – Estou com saudade.

Volta e meia, eu desprendia meus olhos da tela de meu celular para fita-la, usando de todas minhas artimanhas – inexistentes – para não ser notada. Camila permanecia concentradíssima em sua leitura, segurando o livro com a mão esquerda, firmando as páginas com o polegar no centro; e com a direita segurava a xícara pela alça.

Observando-a, descobri gostar de mais uma coisa nela além de seus olhos: Seus cabelos.

Os cabelos castanho-escuro levemente ondulados de Camila, cascateavam livremente por seus ombros, cobrindo até pouco a baixo de seus seios. Eram fios visivelmente delicados e bastante perfumados, pois conforme a corrente de ar matinal soprava, entrando pela janela da cozinha, o aroma frutífero que emanava de seus fios me inundava o ar.

– Me olhando desse jeito você me assusta um pouco. – Ela disse repentinamente, ainda com os olhos fixos no livro; sorria levemente.

O café que já estava frio em minha boca e havia sido esquecido de ser engolido por eu estar pensando demais, foi engolido por mim lentamente, para que eu não engasgasse e me envolvesse numa situação ainda mais embaraçosa que essa.

– Desculpa. – Eu disse, depois pigarreei, encarando minha xícara cheia de café.

– Sem problemas. – Ela fechou o livro e o pousou sobre o colo. – Desde que me conte o porquê de tanto me olhar.

– Gostei do seu cabelo.

Meus olhos se abriram em total surpresa, eu estava totalmente chocada com minhas próprias palavras, porque não fazia ideia de em que momento havia pensado nelas, muito menos sabia de onde tinha surgido as forças para que elas fossem ditas.

Camila corou violentamente, aderindo a coloração de uma pimenta.

– Obrigada… – disse, de cabeça baixa.

Bebi todo o café de minha xícara de uma só vez, para ter um ato naquela mesa que não fosse vergonhoso. E, enquanto me servia de mais café, ela resolveu quebrar o silêncio vergonhoso que ali se instalara.

– Você gosta de ler?

Olhei-a por cima de minha xícara.

– Sou obrigada a gostar. – Respondi rindo. – Meu trabalho é todo baseado em leitura. E, se leio algo errado, posso não só ferrar a vida de um inocente, como posso favorecer um bandido.

– Deve ser interessante ter tanto poder assim nas mãos. Ainda mais esse tipo de poder – Ela bebeu um pouco de seu café, e tornou a falar. – Eu gostaria de trabalhar nesse ramo apenas por essa questão de poder ser justa, de ter total liberdade para colocar o certo no lugar do certo e o errado no lugar merecido.

Sorri com vontade ouvindo aquele argumento tão militante.

– Eu tinha esse mesmo pensamento, Camila. – Falei, olhando-a.

– E deixou de ter? – Olhou-me meio de lado, interessada em me ouvir.

– Não… – respirei fundo. – Agora ele é ainda mais forte. Até mesmo destrutivo.

– Destrutivo? – Repetiu, apertando as pálpebras num olhar desconfiado.

Curiosamente eu sabia que sua reação seria essa. Essa é a reação que muitos jovens têm ao ouvir esse tipo de argumentação. Lido diariamente com estagiários que portam essa euforia militante de querer fazer o bem a todo custo, eles me olham com essa mesma expressão.

– Sim, Camila. – Afirmei um pouco amarga. – Fazer o bem nem sempre é tão fácil. Infelizmente, no manual da vida não veio explicando que ao se fazer a coisa certa, consequências negativas são postas em sua conta.

Seus olhos se apertaram ainda mais, como se buscasse entender o que eu queria dizer.

– “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”, já dizia o pensador Antonie. Uso bastante essa expressão em meus julgamentos, quando sou obrigada a pesar minha mão em um réu. Essa expressão se tornou um karma na minha vida, pelo mesmo motivo. Quando a balança pesa para um lado, alguém é condenado. Quando alguém é condenado, pessoas ficam insatisfeitas sem razão. Pessoas insatisfeitas erroneamente, são alimentadas de um ódio quase titânico, capaz de causar desgraças. Acabo sendo o alvo.

Fiz uma breve pausa, apenas para dar mais um gole no meu café.

– Eu sou um alvo forte para ataques de pessoas não satisfeitas com meus vereditos. Trabalhar na área criminal é mais difícil que pensam. O direito não é tão militante assim quanto pensam, muito menos tão fácil. Fazer o bem, para alguém com cargo como o meu, normalmente não é bom; é um mal que se faz necessário, porque, se eu não fizer, quem o fará? – Concluí, deixando pairar esse retórico questionamento.

Camila ponderou um pouco, analisando minhas frases ditas, mas logo manifestou-se.

– Se arrepende de ter feito essa escolha?

– Não. – Respondi convicta, sem ao menos precisar pensar. – Me arrependo de não ter pensado nisso antes, mas de seguir essa carreira, não. Apesar dos riscos, eu gosto muito do que faço e sei que faço com muita competência.

– É – Ela sorriu. –, isso é notório.

– Você pensa em fazer alguma faculdade, Camila?

Meu questionamento a fez esboçar uma expressão entristecida.

– Querer é uma coisa, poder é outra…

– E porque não poderia?

– Minhas notas no colégio estão péssimas pelo motivo que já te expliquei naquele dia no shopping, isso já complica minha entrada na universidade e, para ficar pior, mal temos condições de pagar meu colégio, quanto mais pagar a mensalidade da faculdade, que é uma fortuna.

– E qual curso desejaria fazer?

– O mesmo que você fez. Direito. Ou psicologia.

– Psicologia? – Ri. – Outra psicóloga na minha vida não, por favor.

– Quem é a primeira? – Ela fez uma careta confusa.

– A Vero. – Eu disse, já esperando sua reação de espanto, acompanhada por gargalhadas.

E veio.

– A Veronica? – Repetiu, incrédula, gargalhando. – Coitado dos pacientes!

Interrompendo nosso diálogo amistoso, meu celular gritou seu irritante toque de chamada, piscando sua tela em cima do balcão, fazendo com que eu desse um pulinho de susto. Camila riu sonoramente de minha reação. E, sem ao menos ver de quem era a chamada recebida, atendi.

– Alô?

– Já se separou dessa lambisgoia?

A voz da minha mãe saiu num volume absurdo, que zuniu em meu tímpano e me fez pensar que o celular estava no viva-voz, até conferir e constatar que não. Ao final, acabei rindo, balançando a cabeça, vendo Camila efetuar o mesmo ato.

Minha mãe tinha passado a odiar Keana, isso era um fato; então, toda vez que ela ligava, soltava essa mesma frase. Uma vez, ela ligou para a Veronica, pedindo que a mesma me convencesse a arrumar outra mulher. Minha amiga chegou aqui em casa, vermelha e sem ar de tanto rir, para me contar essa história. Era nítido que minha mãe estava brincando. E, como todos sabem, suas brincadeiras conseguem ser muito piores que as de Keana. A graça da situação se esconde aí, pois nesse dia, ela sabia que Keana estaria com Veronica.

– Mãe, já conversamos sobre isso. – Tentei repreende-la, ainda rindo.

– A esperança é a última a morrer, né?! – Ela retrucou, praticamente gritando. Sons de talheres e panelas no fundo. – Só liguei mesmo para dizer que estou fazendo seu prato favorito para o almoço: Lasanha à bolonhesa.

De forma premeditada, meu estômago rugiu de fome – mesmo eu tendo acabado de comer –, recordando o aroma e o sabor daquele maravilhoso prato, no qual minha mãe fazia – e ainda faz – em todos os sábados.

Por segundos achei estranho ela estar fazendo almoço às nove e tantas da manhã, até que por fim relembrei a questão de fuso horário. Lá já deveria ser quase duas da tarde.

– Poxa, mãe…fiquei com fome agora. – Resmunguei.

Vi Camila gesticular algo que me fez entender que ela iria ao banheiro, assenti sem nada dizer e ela foi. Fiquei sozinha na cozinha, brincando de girar a xícara no pires, com o celular preso a orelha pelo ombro esquerdo.

– Peça sua mulherzinha para fazer. – A voz de minha mãe saiu puramente venenosa. – Ou até na cozinha ela é uma inútil?

Eu reclamava de minha sogra, mas entendia agora como Keana deveria se sentir com relação à minha mãe. No entanto, se não fosse Margot ter estragado o natal, nada disso teria acontecido.

– Ela está de viagem, mãe. – Eu disse, sem razão alguma. – Estou sozinha com Lucy, as amigas e Vero.

– AHHHHH! – Exclamou num grito eufórico; pude imagina-la dando pulinhos de alegria. Ela era apaixonada por Veronica. – Mande um grande beijo para minha afilhada e diga que estou com saudades.

– E de mim? – Fiz drama. – Não está com saudades?

– Não. – Minha mãe gargalhou. Ouvi-a deixar algo cair e murmurar alguns palavrões. – Mande um beijão para minha neta e diga que estarei a esperando nas férias, ok? Beijos!

Antes mesmo que eu pudesse dizer algo, ela desligou.

***

Um tempo significativo depois, estranhando a demora de Camila, resolvi subir e ir conferir se algo lhe havia acontecido. Chegando ao andar de cima, não a encontrei no quarto das meninas – que por sinal estavam todas em coma induzido; muito menos encontrei-a no quarto de Veronica.

Pondo-me parada no final do corredor, entre as duas últimas duas portas – do meu escritório e do banheiro social –, ouvi pancadas surdas acompanhadas de grunhidos, quebrando o silêncio interrogativo no qual eu me encontrava.

– Socorro! Estou presa! – Camila berrou abafado, dando três soquinhos na porta.

Virei-me em direção a porta do banheiro, que antes estava atrás de minhas costas, vendo-a sacolejar, na tentativa de ser destravada. Acho que Lucy não tinha avisado às meninas sobre essa porta estar com problemas na fechadura.

– SOCORRO! – Outro grito abafado e mais soquinhos.

Fui obrigada a rir da situação.

Ninguém a escutaria em situações normais, pois, todos os quartos tinham abafadores sonoros. Se não fosse minha desconfiança sobre seu desaparecimento ter me movido, ela ficaria ali até que alguém acordasse com vontade de ir ao banheiro.

Dei três batidinhas seguidas na porta.

– Camila?

– Ai! Graças à Deus! – Ouvi-a exclamar. – Lauren, estou presa.

Novamente ri.

– Eu sei. – Falei bem próximo ao madeiro da porta. – Chegue um pouco para trás que eu vou te tirar daí.

Aguardando seu “ok”, pus minha mão na maçaneta, girando-a como se faz para abrir e puxando-a para cima, posicionei meu ombro direito na porta, sem usar nenhuma força ainda. Apenas esperando a hora de agir.

– Pronto!

Ouvindo seu comando, depositei uma quantia de força em meu ombro, empurrando a porta de uma forma que fosse suficiente para abri-la e não para derrubá-la; e girando a maçaneta, puxando-a para cima, a porta se abriu num solavanco para frente, emitindo um som rasgado.

Com a porta já totalmente aberta, encontrei Camila escondida dentro do box de vidro, com apenas os olhos para fora, me observando.

– Está salva, donzela. – Falei de bom humor, furtando dela um riso baixinho.

Camila saiu aliviada de seu esconderijo, exibindo seu sorriso abobado, contido de sua língua presa entre os dentes.

– Acho que alguém deveria ter me avisado sobre essa porta. – Constatou ela, dando um tapinha falsamente vingativo na porta.

– Sou obrigada a concordar.

Ela parou de frente para mim, encarando-me com aqueles olhos tão iluminados, de braços cruzados, ainda sorrindo. Mais uma vez a baixa estatura de Camila tornou-se algo a causar em mim uma sensação esquisita. Em minhas estranhas agitadas, soprou um frio invernal, fora de época. Foi difícil respirar, pois a cada partícula de ar que entrava, o frio se intensificada.

Sem ao menos perceber, estava arrepiada por completo.

Conectadas por nossas retinas, sorrindo sem o menor motivo específico, fomos envolvidas por uma bolha. O cenário ainda era o banheiro, a situação ainda cômica, no entanto, tudo aquilo emudeceu ao nosso redor.

Ousando quebrar nossa junção de olhos, varri discretamente – ou não – seu corpo, decorando suas vestimentas daquela manhã.

Camila usava uma calça de moletom cinza com o desenho do Pernalonga nas laterais; a blusa branca que cobria seu busto era lisa de desenhos e exibia um pouco de sua barriga retilínea; estava de chinelos, cabelos soltos, linda.

Ao repetir a conclusão final de suas características, definindo-a como “linda”, fui cortada por um alarde tamborilando em meu peito. Explicando de forma simples, foi uma espécie de tropeção dado pelo meu coração, que antes batia sereno e agora perdia o ritmo, em porradas apressadas.

Algo me ardeu o peito quando suspirei. Foi uma queimação agradável, como ser atingida por raios de sol em meio à uma nevasca, uma euforia contida, remetente a sentida quando o chega o trecho favorito de uma música; tal sensação que se espalhou por cada pedacinho de minha derme. E, quando havia me aquecido por inteiro, dissipou-se.

Novamente, sem ao menos sentir, estava arrepiada.

– O que significa essa tatuagem?

A voz dela veio de repente, junto de seu indicador pressionando em conjunto de sua unha pontiaguda, a parte interna do meu antebraço, onde desenhado em números romanos negros, estava expresso: XXVII

– Bom…. – Limpei a garganta, expulsando o tremor súbito que me subiu as cordas vocais, antes de continuar. – É meu número favorito. Ele me dá sorte.

Ela franziu o cenho, curiosa.

– Por que seu número favorito é o 27?

A ponta de seu dedo percorreu toda a estrutura da minha tatuagem, sentindo os altos-relevos dos números. Sua pele quente, tocando a frieza da minha, ocasionou um choque térmico nada discreto, arrepiando minha espinha de fora a fora.

– Não sei. – Eu disse, rindo. – Sempre gostei muito desse número. É a data de nascimento de Lucy, foi a data da minha formatura. Como eu disse, ele sempre me deu muita sorte. Já ganhei alguns brindes em bingos da terceira idade usando ele.

Camila gargalhou imediatamente. A acompanhei nesse ato.

Vê-la sorrindo ela bom. Ela ficava – ainda mais – linda assim.

– Você tem outras? – Perguntou ela, após suspirar, recuperando-se dos risos.

– Sim!

Levando as mãos até meus cabelos, uni todos os fios em um rabo de cabelo mal feito e me virei para exibir a Libélula azul-marinho desenhada em minha nuca. Flexionando um pouco os joelhos, me abaixei um pouco para facilitar sua visão.

– Uau! – Exclamou ela, deslumbrada. – É linda!

Quando não senti mais os toques delicados de seu indicador, fiquei novamente ereta, soltei meu cabelo e me virei em sua direção; ela estava sorrindo.

– O que significa?

Aquela pergunta me pegou totalmente de surpresa e me encheu de uma animação estranha. Há anos eu guardava aquele significado a sete chaves, pois ninguém me perguntara o que era – nem mesmo Keana. Só minha filha e Veronica sabiam.

– Quer mesmo saber? – Indaguei, um pouco desconfiada, tentando decifrar nas entrelinhas de suas feições algo que indicasse que aquela pergunta havia sido feita apenas por fazer. Nada encontrei.

– Claro! – Ela disse, abrindo um sorriso cintilante, demonstrando estar realmente interessada em saber. Seus olhos transbordavam curiosidade.

– É uma história meio longa. – Eu disse, coçando a nuca, um pouco tímida.

Tímida até demais para uma mulher velha como eu.

– Não tem problema. – Camila intensificou aquele sorriso. – Só vamos sair daqui, né.

Seu comentário final me fez rir ao notar que ainda estávamos no banheiro, paradas em frente a pia.

Dalí saímos, indo em direção ao meu escritório – que era na porta ao lado. Essa decisão havia vindo de rompante. Lá era um ótimo lugar para conversar, e como ela gostava de livros, eu tinha vários, ela poderia escolher algum se quisesse.

– Ganhei uma entrada para o cômodo proibido da casa? Que honra! – Ela disse brincando e rindo.

– Cômodo proibido? – Repeti, arqueando uma sobrancelha. – Aposto que essa nomeação foi dada por Lucy.

– E foi mesmo.

Camila.

Abrindo a porta do escritório, o lugar inteiramente escuro cheirava a eucalipto e whisky. Quando ela rapidamente alcançou o interruptor, várias luzes fracas se acenderam sobre as paredes laterais.

O cômodo era inteiramente decorado em cinza e preto.

De frente para nós, uma mesa de castanho malva, centralizada; duas pilhas de folhas bem posicionadas lado-a-lado, bem ao meio, ao lado de um porta-canetas preto; livros no canto esquerdo. Atrás da mesa, depois da cadeira de couro preto, uma estante repleta de livros tomava toda a extensão da parede.

À direita, certificados emoldurados, quadros com fotos certamente de família; a baixo um pequeno balcão de bebidas.

À esquerda, na parede da única e grande janela coberta por persianas negras, um sofá grande, cheio de almofadas redondas cor vinho, ao lado uma discreta mesa de madeira escura; em cima da mesa um abajur e alguns livros empilhados do maior para o menor. Seguindo a direção da janela, ainda na parede, suspensos por suportes em formato de Clave de Sol preto, um violão branco e uma guitarra da mesma cor. E, perto de uma porta – que possivelmente daria em uma sacada – coberta por outra cortina escura, um piano de cauda, de madeira marrom-envelhecida, em diagonal.

Nunca pensei que um cômodo pudesse dizer tanto sobre alguém, mas, vendo aquela decoração, os traços musicais e títulos de livros que meus olhos conseguiram captar, concluí que bastava alguém passar algumas horas ali, entre folhas e melodias, que decifraria não só sua personalidade, como boa parte de seus gostos.

– Vai ficar parada aí?

A voz de Lauren me cortou de repente, amistosa e sorridente, fazendo-me perceber que ainda estava no meio do escritório, feito uma pamonha. Rapidamente me acomodei sobre a cadeira em frente sua mesa, vendo-a desfolhar sua agenda.

– Como eu disse, é uma história meio longa… – ela começou; falando sem me direcionar o olhar, procurando algo por entre as folhas que lia. – Eu vou tentar resumir da melhor forma possível, ok?

Seus olhos perturbadoramente verdes me olharam. Foi inevitável o tremor que me domou.

– Ok. – Respondi, surpreendendo-me com meu próprio tom de voz calmo.

– Então – automaticamente ela sorriu; pousando a agenda aberta sobre a mesa. –, desde criança eu sempre fui muito afeiçoada à essas criaturinhas delicadas. Sempre que via uma libélula ficava igual uma doente mental correndo atrás delas, imaginando estar voando ao lado das mesmas. – Nós duas rimos disso. – E, numa aula de Biologia, acho que na oitava série, um professor começou a divagar sobre esse inseto, falando que no Vietnã, a libélula é considerada o símbolo da transformação e o processo constante de mudança da vida.

Lauren fez uma pausa, aparentemente para reler a anotação feita em sua agenda. Em seguida, me olhou temerosa, ponderando se deveria ou não continuar. Vendo isso, acabei rindo e gesticulei com a mão, pedindo que prosseguisse. Ela o fez.

– Não sei se você já chegou a ver uma libélula, mas elas são excelentes voadoras, disparam como a luz e mudam de direção com muita rapidez. – Lauren cortou nosso contato visual, falando enquanto girava seu relógio de pulso como passatempo. – Por isso, os vietnamitas a consideravam como uma mensageira, que transita entre ar e água, transpassando as influências de ambos os elementos por onde passa. Renovação, forças positivas e o poder da vida são as principais representações deste inseto.

Uma página de sua agenda foi virada.

– Nisso, vem a lenda dizendo que as libélulas só vivem um dia, mas não é verdade. E, se ela viveu um dia só, foi na sua fase adulta. A libélula vive a grande parte de sua vida como uma criança, imatura. Voar é apenas uma fração da sua vida e dura apenas alguns meses. Ao alçar voo, ela já é adulta e o faz intensamente. Ela não tem tempo para perder e nos lembra do poder do viver o momento e viver a vida ao máximo. Ela nos lembra que é vivendo o agora que você está em plena consciência de quem é, onde está, o que faz, o que quer e o que não quer.

Lauren fechou sua agenda, tornando a me olhar.

– Um grande filósofo que agora me foge da memória o nome, resumiu essas criaturinhas como “A vida é um sopro”, por elas passarem tanto tempo na infância e pouco na vida adulta. – Riu de suas próprias palavras. – E enfim, foi por esse imenso significado quase mitológico que me encantei por elas e decidi tatuar uma em minha nuca, simbolizando essa espiritualidade que elas têm.

Ao concluir, ela aguardou silenciosamente qualquer comentário ou reação vinda de minha parte, mas eu estava encantada demais para falar qualquer coisa. Tudo bem que era uma história simples, mas dita com tanta emoção por Lauren, enfatizada pelo brilho intenso de suas esmeraldas verdes, tornou-se algo fascinante de se ouvir. Tanto é que me custou muito voltar “a vida”, após aquilo. Meu cérebro ainda processava cada palavrinha dita por ela, afim de grava-las na pasta das coisas mais bonitas já ouvidas por mim.

Não sei por quanto tempo fiquei encarando-a feito uma idiota, alheia ao mundo, organizando suas palavras em minha cabeça. Só sei que, antes mesmo que eu pudesse dizer algo, sua voz surgiu novamente em tom brincalhão.

– Acho que você não entendeu nada, não é?!

Num estalo, voltei à órbita, soltando um riso.

– Claro que entendi. – Falei finalmente; vendo-a relaxar um pouco os ombros. – Esse significado sem dúvidas foi o mais bonito e interessante dado à uma tatuagem que já ouvi.

[…]

– Vero, me conta de novo para o que exatamente você queria minha ajuda mesmo?

Deixei aquela pergunta sair, enquanto observava Veronica retirando as garrafas de cerveja de embalagem e colocando na prateleira da geladeira. Ela havia praticamente me arrastado do escritório de Lauren há alguns minutos atrás, alegando precisar de mim, e até agora, não havia me dito no que.

Após colocar a última garrafa, perfeitamente posicionada no topo de um triângulo de garrafas, ela se virou para mim, portando um sorriso sacana.

– Se eu te deixasse lá por mais alguns minutos, você ia se apaixonar por ela.

Tossi algumas vezes.

– Quê?

Veronica gargalhou.

– Adoro te sacanear! – Ela disse, achando graça. – Mas sério, é porque a Lauren fala muito, se eu não te tirasse de lá agora, você nunca iria sair.

“Eu não me importaria com isso”, quis dizer, mas guardei para mim.

Passar parte da manhã conversando com Lauren havia sido incrível. Ela era muito diferente do que eu pensava. Completamente oposta ao que transpassava com sua postura imponente e seu olhar austero. Era inteligentíssima, muito engraçada e tinha ótimo gosto musical e literário.

Compartilhávamos a mesma paixão por uma banda norueguesa de rock alternativo dos anos 80, chamada A-ha, e também por outra, dessa vez de pop, britânica, chamada Simply Red. Na literatura, compartilhávamos o mesmo afeto por suspense e poesias melancólicas. Assim como eu, seus autores favoritos eram Charles Bukowski e Edgar Allan Poe.

Lauren também era apaixonada por música, tinha algumas composições escritas e posso afirmar que ela tinha talento nato para isso. Quando tocou uma de suas composições no piano, mesmo sem letra, apenas melodia, consegui sentir perfeitamente a intensidade da música. Foi como se ela tivesse nascido para isso.

***

Quase uma hora depois, as meninas já estavam todas de pé, de café da manhã tomado, se arrumando para irem para a piscina. Desde a hora que Vero me tirou quase na base de pontapés do escritório de Lauren, eu não a via, mas imaginava que ela ainda estava lá, lendo o meu livro que havia pedido para ler.

Cansada de ficar sentada, esperando aquelas pamonhas descerem, tomei a liberdade para abrir a porta que dava para a varanda e me encostei no batente, para esperar as meninas.

À minha frente, a varanda da casa de Lucy se fazia enorme, toda em gramado verdinho. Por cima do gramado, um caminho feito por tiras retangulares de madeira escura, nos levava até a enorme piscina, cercada por um deck, todo em madeira também escura; alguns macarrões vermelhos de mergulho boiavam de um lado para o outro. Na lateral esquerda da piscina, cobertas por um grande ombrelone branco, três espreguiçadeiras de madeira também branca estavam alinhadas lado a lado.

Ao lado direito à porta de saída da cozinha, numa cobertura de telhas de barro – o que dava certo charme –, tinha churrasqueira de tijolinhos e uma cozinha simples, porém, muito charmosa.

A manhã daquele sábado era de bastante calor, estava sol e o céu bem azul; e a visão que eu tinha a minha frente, combinava perfeitamente com aquele dia.

– Camila, cadê você? Eu vim aqui só pra te ver!

Veronica surgiu, sabe se lá de onde, cantando (berrando) e batendo palminhas, enquanto dava pulinhos animados em minha direção. Os risos escandalosos de Dinah iam aumentando gradativamente conforme ela, Lucy e Normani se aproximavam de onde eu estava.

– BOM DIAAAAA! – Lucy gritou, animada, apertando minhas bochechas. – LINDA!

Fiquei rígida, com olhos arregalados, estranhando todo aquele afeto e animação vindo dela.

– Quem é você e o que fez com a Lucy? – Perguntei em tom divertido, olhando-a.

– Você é muito chata! – Lucy resmungou, tentando não rir e fracassando nisso.

– Isso que dá ficar conversando com a Lauren. – Vero abraçou Lucy por trás, sem temer a morte. – Ficou com o espírito ranzinza dela.

– O QUEEE? – Normani apareceu ao lado das duas, encostando o cotovelo no ombro direito de Lucy. – Como assim, viada?

– Isso ela não conta para gente! – Dinah fez o mesmo no ombro esquerdo.

As quatro ficaram cara-a-cara comigo, com olhos cheios de expectativa. Coisa que eu não entendi e fiz questão de deixar claro, esboçando a melhor cara de interrogação possível.

O que tinha demais no fato de eu ter conversado com Lauren?

– O que conversaram? Como conversaram? Aonde conversaram? Porque conversaram? – Lucy despegou aquele tanto de perguntas.

– Calma. – Eu disse, erguendo as mãos. E comecei enumerando os fatos nos dedos. – Conversamos sobre livros, música, sobre faculdade… – Respirei fundo, me preparando para não rir da piada que faria, tentando parecer o mais serena possível no semblante. – E também fizemos sexo selvagem. Uma loucura!

Todos os oito olhos que me encararam se esbugalharam a ponto de quase saltarem de suas órbitas. O queixo de Lucy faltou pouco despencar do maxilar e cair no chão. Nem Veronica, que era toda espertinha, sacou que era brincadeira. Essa ideia tinha vindo de repente, enquanto conversava com Lauren. Era essa minha vingança para todas as piadinhas que elas fizeram comigo.

– Tô bege. – Normani ofegou, pondo a mão no peito, choque.

– Isso é uma piada, né? Diz que é brincadeira. – Lucy praticamente implorou, pálida.

– Não. – Fui seca, permanecendo neutra.

– Camila…

Lucy foi perdendo ainda mais a cor, nessa hora eu não aguentei, acabei gargalhando.

– É brincadeira! – Falei em meio a risos. – Essa foi minha vingança pelas piadinhas de ontem.

– Sua puta! – Lucy deu um tapa em meu ombro. Rindo de alívio. – Que susto, desgraçada!

– Aí… – resmunguei, esfregando a região atingida por seu tapa. – Mãozinha pesada.

***

– Mila, não vai entrar? – Lucy perguntou, segurando-se na borda da piscina para me olhar.

– Agora não – respondi, esticando minhas pernas na espreguiçadeira. – Talvez depois.

– Talvez? – Lucy arqueou a sobrancelha.

– Sim. – Fingi não me importar com sua cara de insatisfação.

– Por que “talvez”? – Dinah se uniu a Lucy.

Olhei para as duas, rezando para que elas entendessem pelo olhar, que eu não ficava nem um pouco confortável em ficar de biquíni, por motivos que elas mesmo já estavam cansadas de saber. E Normani, que estava sentada ao meu lado, pareceu entender, soltando o ar, impaciente.

– Mila, já conversamos sobre isso. – Ela soltou aquilo, tentando ser sutil.

Realmente já tínhamos, mas isso não mudava os fatos.

– Eu sei, mas não gosto.

– Camila, por favor, né. – Lucy revirou os olhos. – Um sol desses e você de moletom?

Eu já deveria ter previsto que isso aconteceria. Ainda mais quando Lucy comentou que passaríamos o sábado na piscina. Mas, por algum tipo de demência minha, não juntei o fato de que piscina e biquíni caminham juntos.

A verdade, é que eu tinha um sério problema com meu corpo. Achava ele feio, desproporcional, estranho, defeituoso, etc. E ficar de biquíni era mortificante demais para mim. Ter pessoas vendo meu corpo, me julgando, era terrível só de imaginar, mesmo estando rodeada por minhas melhores amigas.

– Mila, somos suas amigas, relaxa. – Dinah advertiu.

– Eu sei…

– O que está acontecendo aqui? – Vero apareceu perguntando. – Que carinhas estranhas.

Era só o que me faltava, pensei.

– Nada. – Falei, sem vida.

– Camila está de frescura, com vergonha de colocar um biquíni. – Dinah disse.

Bufei em reprovação, cruzando os braços e a olhando com a famosa cara de: Odeio você!

Dinah, nem se abalou, apenas piscou o olho, jogando um beijinho para mim. Debochada.

Não vi a expressão feita por Veronica, mas pude ouvi-la rir.

– Camila, vamos ali comigo? – Vero pediu, estendendo-me sua mão.

Olhei-a finalmente; sobrancelha arqueada em desconfiança.

– Ir aonde?

– Ali. – Falou em voz aguda, como se “ali” fosse um lugar óbvio.

Depois de olhar para as meninas e confirmar que elas estavam ainda mais alheias que eu diante as intenções subliminares de Veronica. Fiquei ainda mais desconfiada.

– Ali aonde?

– Camila para de encher a porra do meu saco com perguntas e vem comigo. – Vero quase berrou aquelas palavras ríspidas.

– Gente… – Segurei a mão de Vero, que ainda me era oferecida, e me levantei, a contragosto. – Pedindo assim, tão delicadamente, nem tem como recus…

Não tive tempo nem para completar a frase, quanto mais para me defender. Quando vi, já estava afundando na piscina, batendo as pernas na água, tentando voltar para a superfície. Ouvi os risos abafados. Engoli alguns – muitos – litros de água.

Quando de volta a superfície, puxei o ar sonoramente, desesperada.

– Que merda você estava pensando, Veronica? – Eu certamente estava gritando, mas não tinha muita certeza, pois meu ouvido estava zunindo, cheio de água. – Você é louca?!

Todas as meninas ficaram assustadas com minha irritação. Todas menos Vero, claro.

– Agora você vai ter que por um biquíni, afinal, sua roupa está toda molhada.

Deixando aquela frase no ar, ela deu as costas, gargalhando vitoriosa.

Essa garota é realmente uma personificação “boa” do diabo.

***

Tcharãããã! – Vero exclamou, empurrando-me porta a fora.

– QUE ISSO, GATA! TE QUERO! – Dinah berrou da piscina, batendo palmas.

– Depois fala que não é gostosa. – Lucy resmungou, bem-humorada. – Queria eu ter essa bunda toda.

Após ser jogada na piscina e quase morrer afogada por não saber nadar, fui obrigada a me trocar. E, quando subi, encontrei apenas um biquíni preto estendido na cama de Lucy, porque minhas coisas mesmo, Veronica tinha feito o favor de esconder.

– Eu sempre falei que a Mila era gostosa. – Disse Normani. – Ela que não me ouve.

Mais vermelha que eu nessa hora, só um tomate mesmo.

– É, sou obrigada a concordar com Normani… – Vero olhou-me dos pés à cabeça, maliciosamente, exibindo seu tão famoso sorriso cafajeste.

– Vero! – Lucy grunhiu, irritada.

Acabei rindo daquilo.

De repente, um flash e o som de obturador de câmera.

– Já até tirei foto para guardar de recordação. – Vero comentou, divertida, ainda olhando para a tela do celular branco em suas mãos.

– Você me paga. – Rosnei para ela, que estava com um sorriso de orelha a orelha no rosto.

– Ai, larga de ser chata! – Me deu um empurrãozinho para o lado. – Vou te jogar na piscina de novo, hein.

– Só passando por cima do meu cadáver. – Lauren surgiu pela porta da cozinha, de braços cruzados. Ela encostou-me no batente; um quase sorriso desenhava-se no canto de seus lábios.

– Você? Aqui em baixo? Estou em choque. – Vero parecia realmente em choque, seus olhos bem abertos mostravam isso.

– Isso é um milagre! – Lucy exclamou alto. – Vai chover, meu Deus!

– Engraçadinhas. – Lauren revirou seus lindos olhos. – Vim ver se as coisas estavam sob controle e já estou subindo.

– Você não vai ficar? – Fui pega de surpresa por minha voz saindo pelos meus lábios, sem que eu ao menos soubesse que tinha pensado naquela pergunta.

Lauren desviou seu olhar, que estava fixo em fitar Vero, para olhar para mim.

– Estou meio velha para isso, vou atrapalhar a diversão de vocês. – Ela falou, sem graça.

Vero bufou.

– Para de babaquice, Lauren! – Dinah soltou, fazendo todas olharem para ela. E vendo isso, temendo levar um esporro, tampou os lábios, ciente de que tinha feito merda. – Ops…

Lauren acabou rindo, massageando suas têmporas.

– Se não falasse alguma besteira, não seria Dinah. – Ouvi Normani murmurar.

– Acha que eu devo ficar?

A voz de Lauren enrouqueceu ainda mais ao fazer aquela pergunta. Olhei-a de imediato, ao ser tomada pela súbita surpresa daquele questionamento. Até Veronica a encarou.

– Se eu acho?

– É.

– É claro. Por que não? – Respirei aliviada por não ter gaguejado.

– Ok. Vou me trocar e já desço.

Antes de qualquer réplica, Lauren já havia sumido, deixando apenas seu perfume amadeirado flutuando entre eu e Veronica.

Após isso, Veronica entrou e trouxe uma cerveja para cada uma, até para mim – mesmo depois de eu ter falado que não bebia. E, dando-me por derrotada, concedi mais uma vitória para ela, bebendo aquele troço que por sinal era até bom.

– Até o final desse final de semana, já transformei Camila numa cópia minha. – Vero disse, antes de mergulhar; deixando sua cerveja na borda.

– Deus que me livre! – Fiz o sinal da cruz, rindo. – Prefiro a morte. – Bebi mais um gole da bebida levemente amarga.

– Para que você está adorando. – Vero emergiu já falando, sacodindo seus cabelos molhados.

Sentei-me na beira da piscina, mergulhando minhas pernas na água fria.

Eu realmente estava me divertindo. Apesar das piadinhas ridículas, eu estava me sentindo bem em estar daquela forma. Por mais que parecesse bobo, aquele era um avanço muito grande dado por mim e as meninas sabiam muito bem disso.

Deixando minha garrafa ao lado da de Vero, mergulhei, rapidamente emergindo novamente. Só queria me refrescar, afinal o sol estava tinindo.

– Que volume, hein!

A piadinha de péssimo gosto ficaria implícita se Dinah não estivesse olhando fixamente para um ponto específico em Lauren, que acabara de chegar, vestindo uma regata preta e uma sunga branca, que demarcava bastante certa região. Um ponto bem chamativo, diga-se de passagem.

– Oh, meu Deus! – Lucy disse, espantada que sua amiga tivesse dito aquilo. – Dinah!

Lucy estava vermelha de vergonha, enquanto Dinah permanecia normal, não entendendo o motivo para uma reação tão exagerada da amiga.

Todas nós rimos da falta de noção de Dinah.

– O dia que Dinah for discreta em algo, juro que mudo de nome. – Disse Normani, que estava sentada na espreguiçadeira do meio, esfregando um pouco de protetor solar em seu braço esquerdo.

– É grande mesmo, fiquei apavorada quando vi. – O comentário dessa vez, veio na voz de Veronica, e causou a mesma reação de surpresa em todos nós.

– Como assim você viu? – Perguntamos sussurrando uníssono.

– Me recuso a ouvir isso! – Lucy afundou na água.

– Foi numa situação muito deprimente… – Vero sorriu amarelo.

Desviando meu olhar das duas depravadas ao meu lado, vi Lauren se aproximando lentamente, segurando uma garrafa de cerveja numa mão e na outra o meu livro. E, mesmo estando dentro da água gelada, senti uma onda forte de calor percorrer todo meu corpo.

Quando usando roupas juntas, já ficava perceptível que ela tinha traços tentadores, e agora, vendo-a apenas de regata apertada e sunga, era impossível desprender os olhos de suas coxas malhadas e sua cintura bem definida.

Vendo que eu estava olhando em sua direção, ela sorriu para mim, dando uma piscadela travessa, sem malícia alguma. No mesmo instante, Dinah virou-se para mim, exibindo um sorriso anunciavam suas próximas piadinhas sobre meu suposto “crush” na Lauren.

– Que saúde ela tem. – Sussurrou Dinah, pervertida – Deve fazer um estrago.

Tampei meus ouvidos, na ideia torta de não escutar aquilo, mesmo depois da frase já ter invadido meus tímpanos e estar se rebatendo em minhas paredes cranianas, obrigando-me a pensar sobre, e no fim, concordar.

– Eu até shipparia se não fosse adultério. – Vero soltou aquilo em voz alta.

Corei violentamente.

Lucy emergiu em outro extremo da piscina, na borda mais próxima à escada, olhou-nos e afundou novamente.

– Já acabaram com as piadinhas sobre minha mãe? – Ela surgiu entre Dinah e eu; seus olhos estavam vermelhos.

– Por enquanto. – Dinah soltou aquilo, exibindo um sorriso infernal, e mergulhou.

Saídas triunfais eram sua marca.

Point Of View: Lauren.

– Devo me preocupar com a quantia de álcool que a vossa excelência está ingerindo? – Vero sentou-se na espreguiçadeira ao meu lado, deixando a pergunta flutuar extrovertida.

– Ainda estou na terceira cerveja. – Me defendi sem a menor razão, olhando-a de lado, por cima de meus óculos escuros e sorrindo levemente. – E pretendo parar por aqui.

Veronica analisou minhas palavras, manifestando sua clássica – e cômica – expressão de desconfiança e ceticismo, mas nada disse; apenas tirou – não se de onde – um protetor solar, e começou a pingar pequenas gotas brancas em suas pernas, para logo depois esfrega-las até que diluíssem.

As meninas se divertiam na piscina, a música estava alta e o dia bastante agradável, apesar de quente.

Com o livro de Camila em uma mão e minha cerveja na outra, voltei a descansar minha coluna na espreguiçadeira, tornando a focar na leitura desse “suspense” adolescente, que estava se saindo bastante intrigante, capaz de me despertar a necessidade de ler os outros da coleção.

– A Camila é bonita, não é?!

Vero soltou aquilo de supetão, em um tom indecifrável, não me deixando distinguir se aquilo havia sido uma constatação ou uma provocação de sua parte, obrigando-me a grosso modo, a olhar para ela e analisar sua linguagem corporal, afim de encontrar alguma pegadinha implícita ou algum tipo de malícia. Como resultado, encontrei-a imparcial, sem esboçar nada; apenas focada em espalhar o protetor solar em seu braço esquerdo.

O silêncio permaneceu entre nós, quebrado apenas pelos risos das meninas e pela música alta que ritmava a batida um tanto frenética de um DJ eletrônico desconhecido por mim.

– Não acha? – Vero tornou a se pronunciar. – Eu acho.

Através das lentes escuras de meus óculos, olhei-a, muito desconfiada.

– Hm? – Fingi estar distraída. – Acha o que?

– A Camila bonita. – Falou naturalmente, olhando para suas unhas bem-feitas.

– Ah sim.

– Você concorda?

Após sua interpelação, consecutivamente meus olhos se direcionaram a Camila, encontrando-a sentada na borda da piscina – de frente para onde estávamos; acompanhada por Dinah, sentada ao seu lado. Normani e Lucy estavam lado a lado dentro da água. As quatro conversavam e gesticulavam de forma animada, e riam.

Camila estava envolta por apenas um biquíni preto, muito simples, que combinara perfeitamente com sua pele morena. Sentada, sua postura perfeitamente aprumada deixava exibir sua cintura fina, de curvas sinuosas. Descendo mais o olhar, cheguei em suas coxas grossas e bem desenhadas; suas pernas mergulhadas na água estavam a balançar.

Fui cortada por um calor alheio ao do sol, fervendo meu sangre por dentro das veias.

A queimação no peito, sentida por mim mais cedo, voltou com força, enquanto meus olhos varriam o corpo muito bem traçado daquela menina. Cada medida em pele morena, levemente bronzeada, cada risco de em curvas, cada volume, só intensificavam a sensação de combustão.

Essa menina, de atípico olhar castanho, era uma brilhante ideia do criador. Esse homem Deus, havia guardado todo seu talento para a criação de Camila, riscando-a como nunca havia riscado, delineando-a com mãos de artista, traçando-a como um plano infalível.

A perfeição daquela obra de arte, resumia-se em detalhes marcantes: Olhos de coloração exótica, capazes de transpassar almas, mesmo de relance. Beleza juvenil estonteante, digna de suspiros. Corpo de uma além deusa, destronando Afrodite. Completando com sua inteligência e gentileza, doçura de sua juventude, a timidez que avermelhava suas bochechas. Camila era sim uma obra completa.

– Lauren?

Ouvi a voz aguda de Veronica bem ao fundo.

– Alô-ô?

Dedos apareceram estalando na frente de meus olhos cobertos pelos óculos.

– Ah…oi? – Aturdida, minha frase saiu meio lenta.

– Vai pescar, amiga? – Vero soltou aquela pergunta, sem mais nem menos, segurando o riso que insistia em rasgar seus lábios.

– Não. – Respondi, sem entender nada. Ainda mais alheia. – Por que?

Muito calmamente, deixou de comer seu sorvete – que magicamente havia aparecido em suas mãos – e usando a colher de sobremesa em sua mão, apontou para minha sunga. Instintivamente olhei para baixo, deparando-me com um volume incomum apontado para cima.

– E essa vara levantada aí?

Bruscamente – e quase caindo –, me virei na espreguiçadeira, deitando de bruços para esconder aquela inconveniente ereção que sequer havia sentido acontecer. Veronica gargalhava alto da minha cara.

– Nem adianta tentar esconder. – Ela falou, entre uma risada e outra. – Quem viu, viu.

Meu rosto ferveu de vergonha. Eu certamente estava mais vermelha que um tomate.

– Porque não me avisou isso, merda? – Rosnei entredentes. Furiosa comigo mesma.

Olhando-me numa inocência quase digna de canonização, fiquei desacreditada de que as frases ditas a seguir poderiam ser pronunciadas com tanta ingenuidade.

– Ué, eu podia jurar que era sua vara de pesca.

Veronica merecia um Oscar por tão boa atuação.