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The Best Of Me – What have you done to our love?

Lauren Jauregui.

Miami, segunda-feira – 23h28 PM

O que por outrora era uma entrelaço de corpos borbulhantes de desejo e luxúria; uma vontade quase imoral de ter mais do outro, de ser mais do outro, agora não passava de uma trivialidade, de algo que fazíamos vez ou outra, porque nossos corpos precisavam dessa descarga elétrica extasiante, que só uma transa é capaz de proporcionar aos corpos.

O que antes eram gemidos despudorados, provocações verbais e não verbais, carregadas de muita sacanagem, agora, resumia-se à um silêncio mórbido, quebrado pelo ranger irritante que a cama reproduzia a cada ondulada feita por meu quadril, investindo veemente em estocadas brutas dentro de minha esposa, e também por nossas respirações.

Beijos sem gana, olhares sem foco; transa sem corpo.

Já sem fôlego, com os braços apoiados na cabeceira da cama, eu usava de toda minha criatividade, relembrando e criando mil e uma obscenidades que fizessem adiantar meu ápice, para assim, eu pudesse findar aquela noite de uma vez. Keana gemia baixo; suas mãos pequenas apertavam com força meus bíceps e suas pernas circulavam minha cintura, afim de intensificar aquela união física que, mesmo sem química, era necessária.

Quando nossos orgasmos chegaram e, por breves segundos mantivemos nossas consciências ausentes de nossos corpos, mergulhadas em torpor, tudo pareceu estar bem.

Tudo em seu devido lugar.

Ela ainda minha Keana; eu ainda sua Lauren.

Mas como o tempo voa depressa, quando o entorpecimento da explosão assentou, sem afeto verbal, muito menos carícias, num silêncio ainda mais nocivo que antes, Keana virou para o seu lado e eu virei para o meu. E assim, encerramos a noite e fomos dormir.

[…]

Terça-feira.

O dia mal tinha clareado quando, meio sonolenta, sentada em meu escritório, eu encarava o relógio carrilhão de mogno antigo, preso à parede em cima da lareira, esperando as horas avançassem magicamente e que, finalmente meu horário de trabalho chegasse. Nesse meio tempo, nenhuma ideia específica ousava rondar meus pensamentos.

Fotos de viagens se passavam em slides no descanso de tela de meu computador. Minha juventude retratada em tantos risos, agora resumiam-se à meras fotos. Não que eu estivesse reclamando, mas não existe no mundo alguém que não sinta falta de um passado incrível, que faça o presente descer amargando.

Só se tem saudade do que é bom.

Agora, em meus trinta e quatro anos, as fotos de viagens com amigos, fotos do meu casamento e da minha filha quando criança, traziam para mim, a sensação nostálgica e levemente azeda da comparação. Comparar o passado com o presente, sem dúvidas era o ato mais doloroso e mais repetido por mim nesses últimos meses. O futuro, que antes era aguardado com expectativa, mostrava-se previsível.

Eu tinha “tudo”.

Por que as aspas?

Bom, vou explicar: Na gramática, as aspas têm diversas funções, incluindo serem empregadas quando temos a intenção de exprimir ironia ou conferir destaque a uma palavra ou expressão empregada fora de seu contexto habitual. Portanto, o meu “tudo”, tornava-se não só irônico, quanto fora do contexto usual.

Eu tinha o emprego dos sonhos, que me fazia ganhar bem o suficiente para trocar de carro a hora que quisesse, para ter uma vida ponderadamente luxuosa; dinheiro para mim não era problema, era solução. Trabalhava com o que eu amava e, era sem sombra dúvidas, a juíza mais competente de toda a cidade. Minha casa era grande, espaçosa e confortável, até um pouco luxuosa. Tinha minhas duas melhores amigas, Ally e Vero; minha linda filha Lucy, e Keana, minha esposa.

Vida perfeita, não é?

Então, é aí que as aspas mostram seu efeito.

Ter tudo, nessa sentença, significava o sarcasmo da ausência de algo.

Eu teria tudo se não me faltasse uma única coisa: Amor.

[…]

– Lauren, hoje é seu dia de levar e buscar a Lucy na escola, faça o favor de não se atrasar. – Keana disse bruscamente, entrando na cozinha, apressada.

Há exatos 13 anos (completando hoje) eu era casada com Keana Issartel. Uma linda mulher de rosto fino, olhos castanho-claro partindo para o verde, cabelos também num castanho claro, quase loiros. As bênçãos dos deuses haviam lhe caído sobre a cabeça. Era inimaginável tal beleza em um ser tão pequeno quanto Keana. Sua baixa estatura lhe combinava perfeitamente. Parecia ser o toque final de sua beleza. A cereja no topo do bolo.

Ela foi a mulher na qual eu era apaixonada desde o colegial, a que esteve ao meu lado desde o começo de minha carreira, que acompanhou todos os meus fracassos até que eu chegasse no auge. Eu era louca por ela.

Nos primeiros anos tudo ocorreu bem, éramos muito felizes, mas parece que no meio da caminhada, seguimos por estradas diferentes e agora, estávamos vivendo em mundos opostos. Há anos nós não nos encontrávamos mais em nada. Antes nós tínhamos muito em comum, éramos tão próximas, tão amigas, conversávamos sobre tudo, o tempo todo, mas agora, as palavras que trocávamos eram poucas – e normalmente eram ríspidas.

– Não quero que ninguém me busque na escola, não tenho mais cinco anos de idade. – O resmungar de minha filha, mesmo que em voz baixíssima enquanto a mesma misturava seu chocolate na xícara, me fez por instantes temer as palavras que sairiam dos lábios de Keana.

Lucy era a que mais sofria no meio disso tudo, pois Keana – que sempre estressada –, acabava sempre descontando suas frustrações na menina. Creio que no meio disso tudo, eu – e às vezes a Veronica – éramos a salvação de Lucy naquela casa, sempre protegendo-a das constantes loucuras de sua mãe.

– Concordo com você, filha. – Dei uma piscadinha para ela; minha garotinha riu.

E eu realmente eu concordava. Nossa filha já tinha seus 15 anos, já estava na fase de sair com as amigas, de ter seus namoradinhos, precisava de liberdade, coisa que para Keana soava absurdo. E, conhecendo a vida de Keana, suas opiniões sobre a liberdade de Lucy soavam bastante hipócritas, já que, na idade de Lucy, Keana não era nenhuma santa, e eu posso afirmar isso sem ter o menor medo de ser injusta, pois nós já estávamos juntas.

– Você não tem que querer nada!

A garota enrijeceu o corpo, assustada com a tonalidade bruta de sua mãe.

– Ei! – Repreendi seu ato, elevando a voz, pousando a xícara com força sobre o pires. – Pega leve, mano.

Altiva, ela se voltou lentamente para mim; a frieza trovejante de seus olhos foi capaz de silenciar até o vizinho, que estava usando seu cortador de grama barulhento.

– E você… – me apontou o indicador – Pensasse em concordar com ela antes de entrar para esse mundo perigoso de ser juíza criminal. Agora você é obrigada a zelar pela segurança da sua filha.

A mulher pontuou a frase enfatizando o “obrigada” e o “sua”, numa grosseria apavorante. Ela sempre exagerava, achando que minha carreira seria como a desses juízes que passa na TV, que precisam se isolar do mundo por correr risco de vida. E, antes mesmo que eu pudesse tentar pelo menos me defender, ela tornou a falar.

– E outra, você veja bem como fala comigo, Lauren. Não sou seu “mano”. Não use esse linguajar comigo.

– Eu sinceramente não sei porque você ainda atura ela!

Minha filha se levantou bruscamente, derrubando algumas das coisas dispostas na mesa. Keana fechou os olhos com força, ouvindo aquela frase dita em voz raivosa por Lucy.

Era só o que me faltava!

– Vou te esperar no carro, mãe. – A baixinha jogou um beijo para mim. – Tchau, Keana.

Retirando-se em passos pesados, arrastando sua mochila, nossa filha deixou aquele “Tchau, Keana” se rebatendo pelas paredes da cozinha.

A frieza dos sentimentos de Lucy para com a mãe era outro vestígio de que as coisas não iam bem. Há um certo tempo elas não pareciam mais mãe e filha, e sim, duas gladiadoras, duelando a ferro e fogo por algo que nenhuma das duas tinha certeza do que era.

– Você está vendo o que essa garota está fazendo comigo, Lauren? – Keana vociferou ofendida, apontando para o vazio da presença de Lucy no corredor. – Ela me trata como se eu fosse um monstro!

Aquela conjectura feita por ela, seria hilária se a situação não fosse de calamidade. Em alguns momentos, eu desconfiava intensamente que minha esposa estava sofrendo de um gravíssimo transtorno de personalidade, talvez algum tipo agressivo de bipolaridade, pois em momentos, ela parecia ser a amorosa e simpática mulher que me apaixonei, mas em outros, ela parecia qualquer outra pessoa excêntrica e descontrolada, menos a minha Keana.

Em horas, ela estava sendo amável e carinhosa tanto comigo, quanto com a filha, mas de repente, num estalo, eu e Lucy parecíamos garrafas de água benta e ela um vampiro. Em lapsos nos repelia, para logo em seguida, nos amar de novo.

– Talvez porque você esteja sendo isso.

Minha réplica, ainda mais grosseira, havia deixado Keana petrificada. A morena não fazia questão de mover nem um dedo; seus olhos frios me encaravam.

Era a primeira vez que eu falava o que realmente pensava. Por anos eu fiz questão de tentar apaziguar as coisas, sempre engolindo meu orgulho/ego por ela, mas essa situação já estava chegando ao limite. Ela não tinha o menor direito de cortar as asas de Lucy dessa forma.

– O que você disse? – Rosnou ela, como se não tivesse escutado direito.

Calmamente me pus de pé, retirei meu terninho que estava preso na cadeira e o vesti. Tinha hora para chegar no tribunal e ainda tinha que levar minha filha ao colégio. Meu café estava pela metade na xícara, mas eu não ia deixar minha filha esperando dentro do carro, para ficar batendo boca com Keana.

– Isso mesmo que você ouviu, oras. – Me surpreendi com a calmaria solene que saiu minha voz, enquanto ia escolhendo uma maçã para levar para Lucy, já que a mesma não tinha terminado de tomar seu café da manhã. Keana permanecia me encarando, como se esperasse que eu falasse mais algo. E, se ela queria mais palavras para digerir, eu as daria. – Você vive estressadinha, descontando sua raiva na garota, e ainda quer que ela te trate a mil amores? Por favor, né. Não são nem 8 da manhã e você já brigou com ela. Tenha santa paciência!

– Eu não vou discutir com você! – Rebateu, sem muito a dizer. Impacientemente, ela arrumou a bolsa preta de couro, num dos ombros; aparentando não se importar com o assunto, nem com minhas palavras.

– Lógico! – Movi os ombros. – Você não tem argumentos.

Peguei minha pasta, que estava na cadeira ao lado.

– Bom, tenho que ir. Tenha um ótimo dia, Keana.

Estava tornando-se insustentável conviver de baixo do mesmo teto que minha esposa e aquilo não me incomodava só por ser nosso casamento indo por água a baixo, mas sim porque tínhamos uma filha que ficava no meio de toda essa guerra de foices. Minha única e maior preocupação era com a saúde mental de Lucy, pois viver no meio de tantas brigas certamente não estava a fazendo bem. E suas notas baixas só confirmavam isso.

Lucy não era uma aluna ruim, muito menos tinha algum transtorno para fixar conteúdo. Muito pelo contrário. Ela era uma menina inteligentíssima, desde criança. Mas conviver com tantas brigas, onde muitas delas iam até tarde da noite a impediam de dormir tranquilamente, o que como efeito, atrapalhavam seu rendimento no colégio.

Não é saudável para nenhum adolescente viver de baixo de um teto que está prestes a desabar.

Eu me via de mãos atadas, pois tinha medo de pedir o divórcio e isso acabar piorando as coisas para minha filha, mas por outro lado, temia sustentar isso por mais tempo e acabar prejudicando-a ainda mais em sua vida estudantil e social.

Quando eu já estava alcançando a porta da sala, a mão de Keana segurou firme em meu braço esquerdo, fazendo-me voltar rapidamente em sua direção. Seus olhos estavam vermelhos combinando com seu nariz. Ela sempre ficava nesse tom de cor quando prendia o choro.

– Desculpa… – Adiantou-se em falar, enquanto deslizava seus dedos pelos botões de minha blusa social. – Sei que não ando sendo a melhor das mães, muito menos uma esposa exemplar, mas prometo que vou melhorar… – Seus dedos se uniram na gola, puxando meu corpo para perto do seu, unindo nossos lábios em um selinho rápido, no qual fiz questão de retribuir friamente.

– Que bom que presenciei um beijo, já estava pensando que tinham se matado, até voltei para conferir. – Nossa filha surgiu atrás de mim falando, contente em ver suas mães juntas.

Uni todas as forças para exibir um sorriso – mesmo que falso – para Keana.

Odiava ter que fingir, odiava iludir minha filha, mas naquele momento, era o melhor a se fazer. Era o menos correto e o mais plausível.

Lucy ficava tão radiante quando via essas raras demonstrações de afeto entre sua mãe e eu, seus olhos brilhavam de uma forma que me fazia sangrar, por saber que no fundo ela se entristecia por tão incomuns essas situações serem.

Keana desvencilhou-se de mim e puxou nossa filha para seus braços, enchendo seus cabelos de beijos. A baixinha era só risos.

Eu deveria estar feliz com aquilo, mas essa mesma cena se repetia praticamente em toda a semana, e nada mudava.

[…]

– Objeção! – Protestou encolerizado, o advogado de defesa, que era um velho asqueroso de rosto equino, dentes amarelos e totalmente calvo. Sua cabeça me remetia a um ovo muito bem lustrado.

O advogado de acusação, um juvenil rapaz alto e robusto, parou imediatamente seu monólogo em prol à condenação e me fitou, esperando minha réplica. Em seus olhos eu via o tédio expresso.

Suspirei pesadamente, já sentindo indícios de uma dor de cabeça.

Minhas palavras na sala de júri eram sempre aguardadas com suprema inquietação. Cada olhar meu, cada expressão, até mesmo cada respiração, era motivo de calafrios. Meu malhete de madeira escura, era visto pela grande maioria dos réus como a guilhotina. E eu, sentada naquela confortável cadeira de couro – remetente a um trono –, era a carrasca que decidiria cortar ou não as cabeças apresentadas a mim.

– Negado. – Pontuei secamente, mantendo a postura severa.

Estava meio óbvio que minha resposta seria essa. Tanto que o advogado de acusação não expressou nenhum tipo de preocupação em seu olhar, apenas parou de falar e esperou pacientemente que minha voz se projetasse firme e sonora.

Em contrapartida, o advogado de defesa avermelhou-se furiosíssimo.

Coitado! Eu pensei. Se ele soubesse que eu dormia e acordava todos os dias ao lado de uma mulher que fazia essa mesma cara para mim, ele nem tentaria me comover ou assustar com suas expressões de ódio.

Essa era a quinta audiência que eu estava realizando; ainda eram 11 horas da manhã, e eu já estava à beira de um colapso. Minha cabeça latejava. Eu parecia ter tomado um porre. Mas era só estresse. Pelo menos, aquela era minha última audiência. Eu teria o resto do dia vago, onde certamente buscaria Lucy na escola e a levaria para passear.

Quando vi que o advogado de acusação ia novamente abrir a boca para falar, o interrompi dizendo:

– Acho que não preciso ouvir mais nada da defesa, nem da acusação. Já tenho o veredito.

Desde o encetamento daquele julgamento, eu já tinha o veredito na ponta da língua, apenas estava deixando os advogados falarem por bons modos. O processo entregue em minhas mãos dias antes era bem claro e objetivo: O réu matou sim e não foi a primeira vez. Sendo dessa forma, como poderia eu, deixá-lo livre?

– E qual seria, meritíssima? – Indagou, formalmente, o advogado de acusação.

O silêncio carregado de angústia formado ali, fez com que o ato de me inclinar para unir minhas mãos na bancada fosse para todos ali presentes, um gesto digno de toda atenção. Familiares atentos até no mover de meus dedos polegares, que giravam um contornando o outro. Os dois advogados também admiravam meu silêncio, um mais preocupado que o outro. É claro.

Fiz menção em abrir a boca, arrancando lufadas de ar de todos.

Confesso que estava sendo muito divertido para mim toda a situação, embora ela se repetisse diariamente.

– O réu é culpado, sem sombra de dúvidas. – Eu disse enfim, como se fosse óbvio, ignorando o olhar reprovativo do advogado de defesa. – Com base nas evidências e nas provas muito concretas, condeno o mesmo à pena máxima, sem direito à fiança, muito menos a redução de pena por bom comportamento. Fim da história.

Bati o martelo e me pus de pé.

Advogados de acusação comemoraram vitoriosos, já o de defesa…

– A justiça é cega! – Esbravejou ele a plenos pulmões. – Isso foi comprado!

Respirei fundo; meu olhar rodou por toda a sala, até encontrar o que procurava: Um guarda. E, numa calmaria exacerbada, gesticulei para que o guarda viesse em minha direção. Quando ele já estava parado em minha frente, ordenei em voz altiva:

– Prenda esse sujeito por desacato e só solte quando eu mandar.

O homem alto e forte, logo se manifestou, efetuando minha ordem, envolvendo as mãos do advogado com as algemas.

– Isso é: se eu lembrar de soltar… – acrescentei em voz baixa, falando comigo mesma.

– Foi uma ótima decisão, meritíssima. – Comentou gentilmente o escrivão; um senhor atarracado, de cabelos grisalhos, muito gentil.

– Obrigada.

Me retirei da sala de júri e fui direto para o meu escritório, onde na porta fui abordada por Alessia, minha secretária, falando sem ao menos respirar; me deixando zonza com tanta informação.

– Senhora, sua esposa ligou duas vezes, exigindo falar contigo, expliquei que estava em audiência e rudemente ela pediu para que você retornasse assim que encerrasse.

“Rudemente”, se repetia em minha mente, dando-me imensa vontade de rir. Keana e seu jeito bastante peculiar de ser grosseira com todos.

– Irei retorna-la. – Eu disse. – Mais alguma coisa?

– Não, senhora.

– Ok. – Massageei minha nuca. – Por favor, traga-me um analgésico e água com gás.

– Sim, senhora.

Entrei finalmente em minha sala, e praticamente me joguei no sofá que tinha perto da estante de livros. Meu corpo inteiro estalou ao ser esticado no estofado macio. Relaxei por alguns segundos, aproveitando a paz e o silêncio de minha sala, para enfim tirar o celular do bolso e discar o número de Keana.

– Lauren, não se esqueça de buscar a Lucy na escola daqui há uma hora. – Keana falou de uma só vez, após atender no segundo toque.

Mas gente, essas mulheres adoram falar rápido!

– Já sei, disso. – Respondi murmurando.

Até minha própria voz saindo por meus lábios fazia minha cabeça latejar.

– Está se sentindo bem? Sua voz está estranha. – Agora, o tom adotado por minha esposa era gentil e preocupado; coisa rara de se ouvir.

– Apenas muito estressada e com dor de cabeça… – Falei baixo, massageando minhas têmporas.

– Tome um remédio para sua dor de cabeça, que do seu estresse eu cuido quando chegar em casa. – Rindo ao final, minha esposa roubou um leve sorriso de mim também.

Keana e suas mudanças bruscas de humor…

Desliguei o telefone, mantenho meus olhos fechados; não estava com sono, só estava psicologicamente exausta de tanto estresse.

***

No relógio prateado em meu pulso, marcavam 12h15, quando eu estacionei meu Porshe Caynee preto, em frente ao colégio de minha filha. O sinal ainda não havia tocado, os portões ainda estavam fechados. Finalmente sem atrasos!

Desci do carro e me encostei na lataria para aguarda-la; enquanto isso, eu verificava alguns e-mails no meu celular. A caixa de e-mail lotada, só me fazia pensar no quanto estava precisando de férias.

Estava distraída lendo o e-mail de um colega de trabalho, quando senti meu celular vibrar em minhas mãos e vi subir o nome de minha esposa pela tela. Era uma mensagem dela.

[Keana] – Amor, vermelho ou preto?

[Lauren] – Depende, para o que?

[Keana] – Apenas escolha a cor, Lauren.

[Lauren] – Branco?

[Keana] – Hahaha engraçadinha, depois não reclame se não gostar.

[Lauren] – Do que está falando?

[Keana] – Não se atrase para chegar em casa, vou estar te esperando. Beijos! :*

– Só espero que esse sorriso seja pela mamãe e não por uma outra mulher.

Lucy sempre com suas piadinhas, chegou de repente, me causando maior susto.

– De onde você saiu, menina! – Assustada, escondi meu celular atrás de meu corpo. – Que susto!

– Ué, eu saí da escola, não está vendo?!

A menina riu, colocando as mãos na cintura. Claramente havia puxado Keana nisso.

– Mãe, essa é a Dinah. – Minha filha apontou para uma morena alta e loira, que estava ao seu lado esquerdo. – E essa é a Camila. – Apontou para uma baixinha de cabelos castanhos, olhar ingênuo e sorriso aberto, que estava ao seu lado direito.

– É um prazer, meninas! – Sorri gentilmente para as belas senhoritas que acompanhavam minha filha.

– Elas moram lá perto de casa, você poderia levar elas também, mãe? – Minha filha perguntou baixinho.

– Eu estava pensando em te levar para dar uma volta no shopping, se elas quiserem, podem ir também. O almoço fica por minha conta. – Sugeri.

– É claro que a gente topa! – A morena alta, Diana, eu acho, disse animada. – Comida de graça ninguém é doido de negar. – Sua voz saiu alta e aguda, extremamente eufórica.

Acabei rindo.

– Dinah. – Minha filha a repreendeu, entre dentes; outro traço de Keana.

– O que?! – A morena virou-se para minha filha, inocentemente. – Só estava sendo sincera.

Minha filha revirou os olhos, e voltou-se para a menina de sua altura, chamada Camila, para perguntar.

– Vamos, Mila?

– Não sei… – A menina hesitou, intimidada, esfregando os braços, um pouco corada. – Não acho uma boa ideia…

– Ah, vamos, Mila! Larga de ser chata! – A maior, e mais eufórica, advertiu rindo.

– Isso, Mila, larga de ser chata. – Intercedi, entrando na brincadeira.

– Viu, até minha mãe concorda! – Brincou Lucy.

– Ok.. – Camila ergueu as mãos em rendição, sorrindo levemente. – Vocês venceram. Eu vou!

– Aeeee! – Lucy e Dinah berraram juntas, fazendo uma dancinha engraçada, comemorando.

Abri a porta de trás para que as duas meninas entrassem, Lucy contornou o carro, sentando no banco do carona, e eu entrei no meu lado.

– Já sabem o que vão comer? – Perguntei, dando a partida, arrancando rua a fora.

– Eu quero pizza! – Dinah afirmou.

– Eu também. – Minha filha falou, ajeitando sua mochila em seu colo para prender o cinto de segurança.

Notando que Camila não tinha dito nada, olhei-a pelo espelho retrovisor e perguntei:

– E você, mocinha? Não vai comer nada?

De imediato, a garota ficou vermelha feito um tomate maduro; tal gesto que roubou gargalhadas de suas amigas. Vi Dinah balbuciar algo parecido com “disfarça” para a menina, Lucy meneou negativamente com a cabeça, rindo baixinho.

– Eu…acho que…pizza também. – Respondeu ela, baixinho, mordendo seu lábio inferior.

– E você, mãe? – Minha filha perguntou, encostando sua cabeça em meu ombro.

– Acho que vou acompanhar vocês na pizza.

As meninas começaram a conversar descontraidamente – menos Camila, que permanecia muda, apenas curtindo a música que tocava no rádio. Dinah gargalhava alto, enquanto minha filha imitava a voz fanha do professor de química, que havia dado uma bronca nelas.

Essa descontração só acontecia quando Lucy estava comigo, pois Keana levava a educação de nossa filha muito à sério, à ponto de perder a cabeça e esbravejar, se soubesse que Lucy estava conversando na sala de aula. Comigo já era mais simples, pois eu entendia minha filha, compreendia que ela estava na idade de se divertir, de levar as coisas na brincadeira; assim como era quando Keana e eu éramos adolescentes.

O percurso até o shopping foi curto, porém divertido e animado. Quando chegamos, as meninas desceram do carro em meio a gargalhadas da piada que Dinah havia feito – eu era a que mais ria.

– Mãe, será que elas podem dormir lá em casa no final de semana? – Minha filha ficou de braço dado comigo, enquanto caminhávamos rumo à entrada do shopping.

– Olha, vou conversar com sua mãe hoje, prometo que farei de tudo para que ela deixe.

Beijei os cabelos de Lucy.

– Por isso você é minha favorita! – Comemorou minha baixinha.

Num súbito, o celular de Lucy fez um barulho assustadoramente agudo, parecido com o de um sino, que fez até a mesma se assustar.

– Preciso mudar esse toque de notificação.

– Precisa mesmo. – Acrescentou Dinah.

Minha filha tirou o celular do bolso e leu o que mais parecia ser uma mensagem de texto muito importante.

– Acabo de saber que vou dormir na casa da vovó hoje. – Ela disse, aderindo à estranheza, e olhou para mim como quem diz “o que diabos está acontecendo?”.

– Quem disse isso? – Falei em voz aguda.

Entramos pelas portas do shopping, sendo tomadas pela onda fria do ar-condicionado.

– A Keana acabou de me mandar mensagem falando que era para eu ir direto para a casa da vovó ou seja, que era para você me levar para lá. – Explicou ela, confusa. – Por que isso?

Num estalo, eu entendi o porquê.

– Deve ser porque hoje é nosso aniversário de casamento. – Falei normalmente, como se não fosse nada.

Há anos não comemorávamos mais isso, nem tínhamos motivo, tal fato que me deixou extremamente confusa com o ato de Keana em despachar nossa filha para a casa de meus sogros.

– E você fala isso nessa calma? – A voz de minha filha saiu esganiçada de tão incrédula.

– Ué? – Dei os ombros. – Tenho motivos para euforia?

Se minha filha soubesse a quantas andavam as coisas entre sua mãe e eu, retirava essa pergunta e fingia nunca termos tocado nesse assunto. Mas, como não sabia, respirei fundo, tentando dissipar os pensamentos negativos.

– Você comprou presente para ela? – Indagou a menina.

– Não. – Dei os ombros novamente. – Eu deveria?

Minha filha revirou os olhos impaciente.

– Pois faça o favor de comprar, e também faça o favor de me dar um irmãozinho, porque a Keana anda muito azeda. Só uma criança para adoçar aquele coração amargo.

– Irmão? – Virei-me para ela, pasma. – Com assim, Lucy?

– Sim, ué… – Olhou-me normalmente, como se fosse o assunto mais comum do mundo. Como se fossemos uma família muito feliz para aumentar assim, de repente. – Um irmãozinho, lindo e gordinho.

Apenas meneei com a cabeça, ignorando totalmente aquele assunto.

Claro que eu gostaria de ter mais filhos, porém as condições que estavam meu casamento com Keana me fazia abstrair a ideia. Jamais colocaria uma criança no meio do estresse constante de minha esposa, Lucy já sofria demais com isso, não queria outra vítima.

As meninas escolheram a mesa onde se sentariam na praça de alimentação, e após todas decidirem o sabor de suas pizzas, fui até o quiosque pedir.

– Pediremos que um de nossos funcionários vá entregar os pedidos em sua mesa, senhorita, pois pode demorar um pouco. – Explicou, educadamente, a funcionária que estava no caixa.

– Ok. – Sorri. – Mas a minha cerveja eu levarei agora.

Assentindo ao meu pedido, ela me entregou a long neck e um copo de plástico com o logo da pizzaria. Agradeci e voltei para onde estavam as meninas.

– Meninas, o pedido vai demorar um pouco, se vocês quiserem dar uma volta, fiquem à vontade, mandarei mensagem para Lucy quando a pizza chegar. – Falei ao me sentar.

– Mãe, me dá seu cartão, vou ir comprar um presente para Keana porque sei que se eu não fizer isso, você vai esquecer de fazer ou não vai fazer de propósito. – Lucy argumentou, séria; ela tinha toda razão.

Tirei da minha carteira o cartão de crédito e entreguei em sua mão, ela já sabia a senha de cor, então nem precisei falar.

– Compre algo para você também. – Acrescentei em voz alta, quando ela já estava se afastando, acompanhada de Dinah.

Foi quando fui colocar minha cerveja no copo, que notei não estar sozinha ali. Olhando para o meu lado esquerdo, Camila estava atenta ao seu caderno, provavelmente fazendo o dever de casa.

– Ué, por que não foi com as meninas? – Contestei seu ato, em voz sutil.

A menina ficou – para variar – vermelha feito um tomate, e me fitou rapidamente, antes de desviar o olhar.

– Preciso fazer o dever de casa. – Foi tudo que ela disse, para logo depois voltar-se ao seu caderno.

Bebi um gole de minha cerveja.

– E por que não faz em casa? Está perdendo a chance de se divertir com suas amigas.

Pousando a caneta sobre a folha de seu caderno, parecendo vir em câmera lenta, como em cenas de filme, seu olhar veio lentamente de encontro ao meu. Quase que fatalmente, fui atingida pelo clarão cintilante de sua íris amendoada.

Ela tinha olhos penetrantes, que involuntariamente, faziam com que a permanência daquele olhar castanho, que ia tão fundo em meu verde, causasse em mim um misto de paralisia e….encantamento. Olhando-me por baixo de seus cílios negros, com os lábios entreabertos das palavras que ainda ia soltar, Camila pareceu ter dons hipnóticos escondidos dentro daqueles olhos.

Talvez fosse a coloração bastante incomum de castanho-escuro, que parecia duas gotas de chocolate, vívidas e brilhantes, me transpassando sem pedir licença, como o brilho do sol entra pela minha janela todas as manhãs. Ou talvez, fosse a ingenuidade de menina sonhadora expressa naquele olhar direcionado a mim, num gesto mudo e bastante incomum de me relembrar que tinha coração ao senti-lo pulsar repentinamente apressado em meu peito. Poderia também ser sua beleza de menina, seus traços juvenis tão delicados, quase quebráveis, sensíveis ao toque. Mas, seja lá o que tenha sido e que tenha causado em mim aquele choque esquisito, nada ou nenhum pensamento, foi capaz de quebrar aquela conexão criada entre nossos olhos.

– Não terei tempo, tenho que trabalhar. – Finalmente ela disse. Sua voz flutuou ondulando, até achegar macia em meus ouvidos.

– Trabalhar? – Estreitei meus olhos para olha-la, enquanto processava as informações.

– Sim. – Ela fechou o caderno. – Meu pai faleceu recentemente, ele tinha muitas amantes, então, restou pouco dinheiro para minha mãe sustentar a mim e a minha irmã mais nova, então, eu tenho que trabalhar para ajudá-la.

Alarmante foi a serenidade empregada às suas palavras; seu semblante meigo permanecia ali, embora que em sua relutância, soava como se por dentro, todas aquelas letras doessem de forma aguda antes de sair por seus lábios.

– Quantos anos você tem?

– 17 – Ela disse simplesmente. E antes de qualquer comentário meu, ela se adiantou em dizer – Sim, sou mais velha que Lucy, mas estudo algumas matérias com ela, pois fiquei de recuperação.

Meu coração pareceu ter sido despedaçado nessa hora. Temia que o mesmo acontecesse com minha filha, mesmo com Keana ganhando muito bem sendo corretora de imóveis. Claro que eu não tinha amantes, mas o medo ainda era o mesmo. Uma garota tão jovem quanto Camila, não deveria passar por esse calvário de ter que estudar, e trabalhar para sustentar sua família.

– Você trabalha com o que? – Perguntei, afastando todos os meus pensamentos para me concentrar unicamente na de olhos tão chamativos.

– Sou garçonete de uma cafeteria.

– Trabalha quantas horas por dia?

– Trabalho das duas da tarde às oito da noite.

A menina agora não me olhava mais nos olhos, fitava o chão como se fosse uma obra de arte interessantíssima, e esfregava os braços como se estivesse com frio. E talvez realmente estivesse.

– Está com frio?

Ela balançou a cabeça confirmando, e no mesmo ato, tirei meu terninho, cobrindo seus ombros com o mesmo.

– Ficou enorme, mas vai te esquentar. – Comentei rindo, o que a fez rir também.

***

– Mãe, aonde está seu terno? – Lucy perguntou repentinamente, abaixando o volume do rádio.

Já estava escurecendo e nós rumávamos para a casa da mãe de Keana, onde deixaria minha filha.

Havia sido uma tarde muito agradável, minha filha era só risos.

Depois que levamos Dinah e Camila para casa, fomos passear pela cidade, fizemos compras, tomamos sorvete. Um dia bem proveitoso, coisa que há um certo tempo eu não conseguia ter, pois trabalhava muito.

– Céus! – Coloquei minha mão na testa, lembrando-me que deixei com Camila. – Ficou com aquela sua amiga bonitinha. Ela estava com frio, aí eu a emprestei.

– Que amiga bonitinha?

– A única bonitinha, oras.

– Camila?

– Sim.

– Está chamando a Dinah de feia?

Um riso escapuliu de mim.

– Não, só não achei ela tão bonitinha quanto A bonitinha.

– Enfim! Amanhã eu pego com ela. – Lucy tornou a aumentar o volume do rádio. – Só acho que a mamãe não vai gostar muito disso.

– Com a sua mãe eu me entendo. – Argumentei, girando o volante para a esquerda. – Gostei das suas amigas.

– Elas são legais demais, né?! – Lucy se animou, porém, murchou no mesmo ato. – Só fico com pena da Mila, ela sofre tanto, mãe… – Adotando um tom triste, minha filha abaixou a cabeça; tinha que ser minha filha mesmo. – Queria poder ajudá-la.

– Talvez possa. – Parei o carro em frente à casa de minha sogra. – Mas não agora, depois conversamos sobre isso. – Puxei o freio de mão. – Vá, sua avó está te esperando.

– Não vai entrar? – Minha filha riu. Ela sabia que nem se me pagassem um milhão de reais, eu entraria.

Minha sogra me odiava com todas as suas forças, só porque a mesma presenciou uma das muitas brigas entre Keana e eu. Desde de então, a velha fala que é tudo culpa minha, que Keana fez uma péssima escolha em se casar comigo, e etc.

– Nem morta! – Gargalhei. – Vá e diga a ela que não mandei lembranças.

Lucy saiu rindo do carro e bateu a porta. A segui com o olhar até que entrasse e após isso, era hora de ir para casa.

***

– Cheguei! – Exclamei alto, ao abrir a porta de casa.

Tudo estava apagado e estranhamente silencioso. Keana odiava silencio, escuridão ainda mais; sempre que estava em casa, a TV da sala tinha que estar ligada e as luzes do primeiro andar todas acesas.

– Keana? – Chamei-a em voz alta; fechando a porta com o pé.

– No quarto! – Sua voz saiu abafada por ela estar no segundo andar.

Deixei minha pasta em cima do sofá, pegando dentro da mesma, o presente que Lucy havia comprado para a mãe – cujo qual eu não fazia ideia do que seria –, mas pela caixinha de camurça azul-marinho, e pelo nome da loja, certamente seria alguma joia.

Antes de subir, me servi de um copo de whisky com algumas pedras de gelo, e finalmente encarei a escada, subindo lentamente os degraus. Chegando ao corredor, que me levaria até o meu quarto, fui esbofeteada pelo perfume de minha esposa, forte e doce; a única luz acesa, vinha da frestinha debaixo da porta do meu quarto, que era o último do corredor.

Alcançando a maçaneta e girando-a, o resto da porta foi aberta por ela; quando me dei conta, Keana já tinha avançado em meus lábios, beijando-me com gana, enquanto segurava com força a gola de minha blusa social.

Retribuí aquele beijo à altura, sentia falta de seus lábios junto aos meus.

Avançando um passo largo a frente, deixei o copo de whisky e o presente em cima da cômoda, e assim, agarrei minha esposa pela cintura, trazendo-a para o meu colo; suas pernas circularam minha cintura, nossos lábios não ousaram se separar. Apesar de estranhar toda aquela sua mudança brusca, estava gostando de tê-la assim, em meus braços, me desejando, como era antes.

– Aonde está seu terno? – Perguntou ela, ofegante, ainda com os lábios bem próximos aos meus.

Raros eram seus ciúmes, mas quando aconteciam

– Emprestei para uma amiga de Lucy que estava com frio. – Expliquei em voz arrastada, enquanto distribuía beijos em seu pescoço macio e perfumado. Minha esposa certamente faria mais perguntas, se eu não estivesse provocando-a em seu ponto mais fraco.

– Sua filha quer um irmãozinho… – Keana gemeu aquela frase.

Então as duas tinham conversado sobre isso? Seria esse um plano tramado por elas?

Era realmente estranho Keana está faminta por mim, muito mais estranho Lucy botando pilha para que eu comprasse algum presente para a mãe. Elas estavam se odiando e isso era um fato, mas esse assunto teria trago a elas uma trégua?

Fui bruscamente trazida de volta a realidade com as unhas de Keana arranhando minha nuca.

– Ela me falou isso… – Rocei meus lábios nos dela. – O que acha da ideia?

Suas mãos habilidosas começaram a agir desabotoando minha blusa.

– Acho que podemos tentar… – Seus olhos perderam toda a inocência, que já não tinha.

Desci meus olhos pelo corpo de minha esposa, notando a lingerie rendada na cor branca, que havia combinado perfeitamente com sua pele. Eu tinha feito uma ótima escolha, apesar de não imaginar que era disso que ela estava falando.

– Se eu soubesse que ficaria babando desse jeito por mim, teria comprado mais lingeries brancas… – Sua voz saiu tentadoramente sensual, fazendo subir por minha espinha um arrepio gelado e fazendo meu pau, já duro, latejar dentro de minha calça.

– Seu amiguinho parece animado hoje. – Ela mordeu os lábios, rebolando em meu colo, esfregando-se em meu pau.

– Culpa sua.

[…]

O dia mal havia amanhecido e eu já estava acordada, sentada em meu escritório, lendo o primeiro processo que julgaria nessa manhã. Keana ainda dormia tranquilamente em nosso quarto, e tudo parecia ir muito bem.

Só parecia.

– Você comprou presente para ela? – Indagou a menina.

– Não. – Dei os ombros novamente.

Minha filha revirou os olhos, impaciente.

– Pois faça o favor de comprar, e também faça o favor de me dar um irmãozinho, porque a mamãe anda muito azeda, só uma criança para adoçar aquele coração amargo.

– Irmão? – Virei-me para ela, pasma.

– Sim! – Olhou-me. – Um irmãozinho, lindo e gordinho.

Trazendo o foco de volta a minha visão, voltando à realidade, a ideia de ter outro filho agora me parecia extremamente assustadora. Apesar de ter concordado com isso enquanto estava com Keana em meus braços, eu não sentia a menor segurança de que isso era o certo a se fazer.

Quando tivemos Lucy, nós éramos ainda muito novas. Keana tinha 18 anos e eu 20. Nem éramos casadas ainda, fomos nos casar quando Lucy já tinha dois anos. Minha mãe nos ajudou para que pudéssemos terminar nossas faculdades e tudo foi muito tranquilo, mas agora, que já tínhamos a vida estabilizada, tudo parecia muito desproporcional. Nosso casamento não ia bem há alguns anos, vivíamos brigando, Keana trabalha muito, eu ainda mais, e a meu ver, essa seria a pior hora para ter um filho.

Peguei meu celular em cima de minha agenda, procurei nos contatos o número da única pessoa que seria capaz de me ajudar e apertei para enviar uma mensagem.

[Lauren] – Acordada?

Poucos segundos depois, a mensagem foi visualizada.

[Vero] – Acordei agora com sua mensagem, né ¬¬ o que houve?

[Lauren] – Lucy quer um irmão, Keana quer outro filho.

[Vero] – Puta merda! E o que você quer?

[Lauren] – No momento? Ficar broxa. kk

[Vero] – hahahaha morta! Me encontra na cafeteria que tem na esquina da sua casa. Vou me vestir e te encontro lá.

[Lauren] – Ok.

Me levantei, coloquei meu celular no bolso traseiro da calça e rumei para o meu quarto. Em passos sorrateiros fui até o closet, peguei um casaco de moletom e o vesti. Voltaria em casa depois de conversar com minha amiga, para me vestir melhor e ir trabalhar.

– Aonde você vai assim de fininho a essa hora da manhã? – Keana murmurou em voz sonolenta, quando eu já estava alcançando a porta.

Enrijeci o corpo, congelando, com a mão na maçaneta.

– Vou encontrar Veronica na cafeteria, ela está com problemas. – Menti, mas quem liga?

– Volte cedo, você tem que buscar nossa filha na casa da minha mãe para levá-la à escola.

***

– Mais café? – Ofereceu gentilmente a garçonete.

– Sim, claro. – Respondi meio desconexa, olhando fixamente o nada.

Enquanto a moça me servia, reparei em seu rosto, encontrando nela feições bastante familiares, embora nunca a tivesse visto antes. Era uma moça de meia idade, certamente próxima à idade de minha mãe. Parecia exausta e respirava profundamente.

Fiquei tão distraída olhando-a, quanto ela ficou ao me servir, deixando que a xícara transbordasse e entornasse café sobre a mesa e em mim.

– Merda! – Resmunguei, sentindo líquido queimar minhas coxas, e me levantei apressadamente, no intuito de fugir do resto de café que pingava da mesa.

– Céus! Me perdoe! – A mulher desesperou-se, tirando seu avental para me secar. – Por favor, me perdoe!

– Ei, calma.

Segurei sua mão, que insistia em me secar com seu avental. A moça olhou em meus olhos. Suas feições familiares, estavam visivelmente cansadas, olheiras fundas e escuram dominavam seus olhos.

– Não precisa se desculpar, senhorita, acidentes acontecem.

Ainda hesitante, a moça relaxou um pouco seus ombros; seu rosto foi sendo tomado por uma coloração avermelhada, bastante similar à de alguém que eu conhecia, só não me lembrava quem.

– Você vai falar isso com meu gerente? – Indagou, temerosa e cabisbaixa.

– Claro que não! – Respondi como se fosse absurdo. – Por que eu faria isso?

– Eu entornei café na senhora…

– Já disse, acidentes acontecem. – Sorri gentilmente para a moça.

– Ok, senhora. Vou ir buscar um pano para limpar sua mesa e uma xícara limpa.

Antes de qualquer réplica minha, a moça retirou-se.

– Bom dia, Morticiaaaa! – Veronica surgiu atrás de mim, sacudindo-me pelos ombros.

– Animada à essa hora da manhã? Isso sim é assustador.

– Assustador é o estado dessa mesa. – Comentou ela, notando que a mesa estava inteiramente suja de café.

– Entornei sem querer. – Menti, mas não valia a pena culpar a garçonete, ela parecia tão cansada.

No mesmo instante, a tal garçonete apareceu com um pano e duas xícaras. Secou a mesa e outra garçonete apareceu para nos servir.

– Mas então, Laur… – Vero começou. – O que pretende fazer?

– Se eu soubesse… – Suspirei.

Eu mal sabia o que estava fazendo com a minha vida, muito menos saberia o que fazer com essa situação.

– Posso te fazer uma pergunta? – Veronica ficou séria e apática, o que me fez temer o que viria de sua pergunta.

Emiti um som nasal, confirmando.

– Você ainda ama a Keana?

Fiquei sem saber o que responder, pois eu não tinha muita certeza do que sentia por minha esposa. Como disse, há anos as coisas não iam muito bem, e com tantas brigas, o sentimento foi se desgastando.

– Não sei… – Respondi finalmente, após muito pensar e nada decidir.

– Então não ama. Quando se ama alguém não acontece uma pausa reflexiva na oração, a resposta vem no ato. Primeiro em expressões faciais como um sorriso apaixonado, depois verbais, em palavras derretidas e poéticas.

Respirei fundo, segundo a vontade de rosnar.

Odiava suas análises clínicas.

Veronica se ajeitou na cadeira, plumando a coluna.

– Acho que você se habituou a ser casada, se habituou com as loucuras da Keana e tem medo de pedir o divórcio e magoar a Lucy. Isso tudo, faz com que você acabe não percebendo que já não ama mais ela.

– Odeio quando você me analisa como se eu fosse uma paciente sua. – Resmunguei.

Para esclarecer uns fatos, gostaria de dizer que Veronica era uma jovem de 22 anos, cursando o último período da faculdade de psicologia.

– Estou mentindo, Lauren? – Ela fitou-me com maior seriedade; seus olhos castanho-escuro me fuzilaram. – Se isso tudo que eu disse não faz sentido, fale isso olhando nos meus olhos.

Engoli minha falta de respostas a seco. Ela tinha razão.

– Foi o que pensei.

Apoiando meus cotovelos sobre a mesa, mergulhei meu rosto em minhas mãos.

– Não sei o que faço. – Minha voz saiu abafada.

– Fica assim não, Laur, pode piorar. – Vero deu dois tapinhas em meu ombro, e riu.

– Você vai ser uma péssima psicóloga. – Ergui meu rosto para dizer aquilo e rir.

– Mas seria uma ótima nora. – Gabou-se, arqueando uma sobrancelha.

Veronica sempre com essa ideia de que iria em algum momento, namorar minha filha.

– Fique longe da minha filha. – Praticamente rosnei aquela frase. Ainda rindo, ela ergueu as mãos em rendição.

Nossa conversa tomou outros rumos, logo estávamos rindo, enquanto ela me contava sobre seu último semestre na faculdade estar sendo um calvário.

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