Search for content, post, videos

Amizade (in)comum

Hey, mores! Aqui é a Brenda Neves, atura de The Last Coffee, e nessa sexta-feira, estou iniciando um novo seguimento para o meu espaço aqui no grupoHPM. Toda sexta eu irei trazer diversos conteúdos literários (crônicas, poemas, textos) sobre temas diversos. Espero que gostem!

Let’s go!

———————-xxx———————-xxx———————-

Certa vez, encontrei-a perambulando pela cidade em plena tempestade. Vestia um sobretudo tão cinzento quanto o céu que se derramava e tinha as mãos escondidas nos bolsos laterais; em seus olhos castanho-escuro, nada além de dor eu enxergava. Ela pisava com firmeza e imponência, mas também, com tristeza. Ereta, de nariz empinado, tinha seu rosto lavado com a chuva e parecia não se importar com o banho que levava.

Tão distraída em ouvir o silêncio de seus passos ecoando pelas ruas vazias, sequer notou minha aproximação – que fora para lá de sorrateira. Caminhei ao seu lado por extensos minutos, até que, repentinamente, vi minar no canto de seus lábios um sorriso e sua voz rajou em trovoadas:

– O que pensa que está fazendo? – Indagou numa grossura típica de sua natureza, embora estivesse sorridente. A frieza a nevar em sua voz, ia em contradição a primavera de seus dentes. – Por que está aqui?

Era ela uma perfeita contradição em tempo real, cheia de amores e desapegos, manias e desesperos. Odiava o sol e seu calor, mas em todas as manhãs se sentava em sua varanda para contemplar o início de um novo dia. Rosnava quando armava chuva, mas sentava-se em meio a tempestade para deixar-se banhar pelo criador. Não gostava de flores, mas cultivava um lindo jardim. Tinha ódio mortal do amor, mas havia amava a todos sem medidas ou restrições. Era a mansidão em meio a sua própria tempestade. Impetuosa quanto os ventos uivantes, era serena.

“Que diabos de criatura estranha”, eles exclamavam ao ouvir aquelas palavras tão amarguradas, vindas na companhia de seu sorriso deslumbrante, que visto de rompante, roubava as atenções – e às vezes, corações. “Como pode ser tão hostil essa criatura de sorriso tão sutil? ”, eles perguntavam e se queixavam entre si, murmurando quase mudos, em meio ao bar todo escuro.

E ela prosseguia a dialogar usualmente, relatando com fúria e rancor, tudo aquilo que um dia o amor lhe causou. Qualquer estranho era seu ouvinte mais frequente, até mesmo o guardanapo lhe era refém. Quando as palavras não bastavam, escrevia com vigor e sempre repetia fielmente, que as folhas a entendiam melhor que toda aquela gente. No entanto, não se engane, não se ouvia dela qualquer infame. Era amarga, mesmo que tão doce. Proferia palavras ásperas e profundas, tão macias quanto algodão e carícias.

Curioso, sim, eu sim. Porém, esse era o seu dom.

Por não compreenderem a magnitude de ser abismo por dentro, eles nunca compreendiam sua forma de pensar e agir; era sempre tão calada, mesmo que falante; tão presente, mesmo distante. A beleza daquela criatura tão atípica, transfigurava-se feito uma linda e intensa poesia. Ela era nebulosa, cheia de palavras difíceis e entrelinhas. Tal beleza escrita, era desperdiçada por leitores preguiçosos, daqueles que só por lerem o prefácio, já se julgam conhecedores do enredo.

Imbecis!

Esse livro vivo e cheio de histórias em sua carne, vem sido descartado há muito tempo. Ainda não tiveram poetas humanos de corpo e alma com paciência suficiente para lê-la com atenção e zelo. Machado de Assis e Carlos Drummond teriam um trabalho e tanto para compreendê-la. Entretanto, no fim das contas eles ririam e diriam entre risos: Compadre, como diria Mario Quintana “Quando alguém pergunta a um autor o que ele quis dizer, é porque um dos dois é burro”.

Para desvendar a mística por trás de sua frieza, era preciso ter muito cuidado e amor; era necessário andar em passos de felino, tomando muito cuidado para não fazer qualquer barulho. Ela não poderia perceber; ela sequer poderia sentir as páginas sendo viradas, senão, ficava irava e se afastava feito um animal arredio; ia sumindo lentamente até ser completamente esquecida.

Pobre daquele que deixa de amar a rosa, somente por ela ter espinhos.

– Estou andando ao seu lado, não percebes?! – Rebatei abusando da petulância que com ela aprendi a ter. E, sua reação foi inesperada, sendo alta e muito sonora, sua voz veio em gargalhada.

– Onde é que aprendeu a ser assim, hein? – Tornou a questionar-me, com a voz mansa dos risos.

E a chuva caia sem dó sobre nós, que já estávamos inteiramente encharcados, caminhando lado a lado pela calçada de cimento, cheia de buracos e poças. Trovoadas rosnavam em meio as nossas respirações; raios cortavam o céu, fazendo brilhar a tarde enegrecida nos tons de noite sombria. Linda era a valsa de nossos silêncios; a harmonia de nossas respirações combinava perfeitamente.

Confortante era sua presença.

Andamos por bastante tempo em meio a chuva, que parecia não cansar de se derramar. Já de noite e cansados, sentamos à beira de uma calçada; nossos olhos miravam o semáforo congelado no vermelho há muitos minutos. Talvez o tempo tivesse parado. Talvez apenas uma falha elétrica.

Ouvi-a suspirar tão profundamente quanto deve ser um primeiro suspiro de recém-nascido. Parecia exausta, mas seu semblante ainda era de puríssima calmaria. Aqueles olhos vermelhos se fecharam por instantes, quando outra vez ela suspirou, preparando-se para verbalizar sua frase.

– Por que ainda está aqui?

Gostava de como sua voz se projetava em meio aos ruídos da chuva. Era como ouvir um trovão, como ouvir a voz de Deus. Mas ao mesmo tempo, era como ser abraçada por um anjo amoroso. Gostava também de observar o movimento de suas sobrancelhas ao proferir as palavras. Aquele conjunto de pelos transpassava com perfeição o duelo que ocorria dentro dela. Estava furiosa comigo, mas queria ser branda.

– Porque gosto de você… – Respondi com toda inocência, olhando-a nos olhos.

– Como me encontrou? – Ela encarava-me extremamente curiosa com meu feito.

– Não sei…acho que foi pelo cheiro. – Comecei a falar, mantendo o nível da conversa em seriedade. – Você precisa parar de sair assim, sempre enfática, fico muito preocupado contigo…

Sorriu sem a menor vontade, meneando negativamente com a cabeça.

– E você não deveria estar na chuva… – Queixou-se de forma branda. – Vai ficar doente.

– E você vai cuidar de mim… – Argumentei. – Como sempre faz. Porque somos amigos.

– Amigos… – Divagou, passando a visionar suas botas molhadas. – É verdade, somos amigos.

– Sim! – Animei-me por instinto. – Vamos para casa?

Ela nada respondeu. Apenas sorriu e se levantou, rumando na direção oposta à que viemos. Segui ao seu lado, acompanhando seus passos lentos, observando nossa discrepância em altura, cor e raça.

Éramos muito iguais, mesmo que muito diferentes.

Nos amávamos intensamente, mesmo que às vezes morrendo de ódio um do outro. Brigávamos muito, muitas vezes por minha petulância – mas ela sempre me perdoava. E, no meio de todas as nossas diferenças, nos entendíamos como ninguém. Eu a conhecia pelos seus tons de voz e cor dos olhos, podendo rapidamente distinguir a tristeza da alegria com rápidas frases ou trocas de olhares; sabia exatamente quando deveria me aproximar e quando deveria ficar longe. E ela sabia de todos meus defeitos e qualidades – e conhecia meu relógio biológico melhor do que a mim mesmo. Éramos uma dupla e tanto.

Ela humana, eu, um cachorro.