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20 e Poucos Anos – CAP 99

CAP 99

– Bom dia, Senhora King! – disse Samanta se aproximando da Senhora Rachel por trás para lhe dar um abraço.

– Mamãe para você, mocinha.

As duas riram de forma divertida.

– Que sorrisos lindos para se ver logo de manhã. – falou o Senhor Brian com uma expressão suave como há muito tempo não se via em seu rosto.

Algumas semanas depois do presente dos King, o Senhor Brian e a Senhora Rachel organizaram uma pequena celebração de casamento que era mais uma comemoração por finalmente terem o mesmo sobrenome e uma certidão de casamento (o 4º papel que receberam de presente dos idosos).

Chamaram apenas amigos próximos, pois não queriam fazer alarde a respeito do assunto. Na ocasião Susan – uma das poucas convidadas – disse a Samanta em particular:

– A guerra trouxe ao menos uma coisa positiva. Nunca pensei que ficaria feliz por uma bomba ter caído em um cartório. – as duas riram daquela constatação.

 

Voltando ao presente. Pouco tempo depois dos três mais novos Kings se encontrarem na cozinha, entraram pela porta que dava para o pátio o Senhor James, a Senhora Madalena e minutos depois Emily e Kevin. Os seis tomaram café juntos e assim que terminaram, Samanta partiu com os dois idosos Emily e Kevin para o chique bairro Londrino, o qual começariam a frequentar a partir daquele dia, pois ali agora se encontrava o ateliê.

Haviam demorado um pouco para se mudar, pois queriam antes de tudo fazer pequenas reformas necessárias para deixar o ambiente mais acolhedor.

Aquele era um dia de inauguração, porém não fariam grande movimento, afinal aquela era apenas uma mudança de endereço do já famoso ateliê The Kings em associação com Suzy Queen e não podiam chamar atenção para o fato daquela ser a primeira grande loja deles, mas todos sabiam o passo importante que estavam dando.

Quando chegaram à porta do estabelecimento, Antony já esperava por eles sentado à calçada. Estava vestindo um terno que tinha bordado no bolso duas coroas, sendo uma espetada com as pontas arredondas e a outra apenas com arcos que faziam uma ondulação antes de convergir no centro da coroa.  No meio das duas um “K”, um “&” e um “Q” eram visíveis. Era o mesmo emblema que estava no bolso do terno novo de Antony e do blazer de Emily, ou seja, eram seus uniformes, os quais Sam achou de grande importância, uma vez que estavam em um bairro de elite e deveriam transmitir boa organização e aparência. Sabendo dos problemas financeiros de cada um, Samanta achou pertinente a ideia dos uniformes – principalmente no caso de Antony com a irmã, a qual havia saído da casa da Senhora rabugenta e morava agora com Emily e Tom ajudando com a filha dos dois, mas sendo mantida financeiramente pelo irmão.

O “Q” do slogan denotava a concretização da sociedade entre os King e Susan que havia se firmado com a aquisição do estabelecimento.

Como Samanta havia se tornado a “cara” do ateliê junto à Susan devido ao grande evento em Paris, seu uniforme eram os mais chiques ternos que o The Kings & Queens podia fazer, pois assim que a grande revista que a fotografou com os Lafaiete chegou em mãos inglesas, ela viu certa necessidade em se fazer ver nas áreas nobres de Londres para não correr o risco de procurarem por ela e a encontrarem em um ateliê no subúrbio.

– “O ateliê está passando por uma gigantesca reforma. Acho que vamos acabar nos mudando.”. – dizia a uns.

– “Destroços de algumas bombas danificaram nosso estabelecimento, mas estamos trabalhando em um local menor. Sem perder a qualidade, claro”. – dizia a outros. E assim, conseguiu levar a situação durante aqueles meses enquanto procurava um local para se alocarem.

Estavam todos ansiosos para colocarem o primeiro pé no novo ateliê, o qual havia sido limpo e organizado por Emily, Kevin, Antony e Sam no dia anterior.

Samanta tirou a chave do bolso do terno e a entregou ao Senhor King para que fizesse as honras. O mesmo pegou a chave e passou as honras à sua esposa, que sorriu contente e destrancou a porta devagar, entrando em seguida junto com os outros.

No dia anterior os mais novos haviam ficado maravilhados assim que finalizaram a arrumação. Agora, aquele era o momento dos mais idosos.

A primeira coisa que olharam foram as paredes pintadas em cor amarelo pastel, movendo em seguida o olhar para cima, até o teto, onde pendia um luxuoso lustre. Depois, olharam as máquinas antigas brilhando de tão limpas. Sem falar em algumas que brilhavam por serem novas. Do outro lado do amplo espaço, viram alguns manequins de tamanhos diferentes, que seriam usados para dar acabamento em ternos e vestidos. Ao fundo, havia um balcão de madeira e atrás deste, na parede, várias prateleiras ainda vazias.

– Ali poderemos guardar as linhas e tesouras. – Falou a Senhora King apontando para as prateleiras atrás do balcão.

– Na verdade, estas coisas ficarão guardadas aqui. – disse Sam passando pelos dois, indo até a parte de trás do balcão, o qual continha várias pequenas gavetas no seu primeiro terço; prateleiras no seu segundo terço; deixando a terceira parte vazia para a pessoa que se sentasse em frente à caixa registradora. – Venham! Tem mais aqui. – disse ela seguindo para um lado do salão.

– Aqui será o provador masculino. Só tem a cortina por enquanto, mas depois iremos melhorar.

“Antes, aqui era apenas uma sala, mas dividimos ao meio e fizemos essa abertura para que fosse um provador e deixamos a porta original para ser a entrada do provador feminino.” – disse ela se dirigindo ao pequeno corredor que dava para os outros compartimentos. – “Podemos depois colocar um pequeno sofá dentro, quem sabe…” – disse isso e foi para o quarto em frente, no qual só tinha uma mesa com um telefone, duas cadeiras e uma cômoda. – “Este aqui é o escritório. Ainda não tem muita coisa, mas ao poucos vamos comprando.” – falou com uma animação que contagiava e seguiu para o próximo cômodo – “Este aqui é um dormitório. Acho que virá a calhar em algumas situações.” – falou abrindo a porta que dava para um quarto que continha duas beliches. Depois se moveu mais uma vez e disse – “Aqui é o banheiro e ali é uma lavanderia, talvez seja útil para nós, mas pensei também em dividir para fazer uma pequena cozinha. Podemos ver mais para frente.”

Então voltou-se para os King e disse:

“Bom, os provadores não são tão grandes, mas nosso trabalho ainda será principalmente a domicílio, não é mesmo? Acho que por enquanto está bom para o nosso novo começo.”

“O que acharam?” – perguntou ela ao ver o rosto misterioso do Senhor King.

– Como conseguiu pagar por todas essas coisas, minha filha? – perguntou ele finalmente mostrando preocupação.

– Com as nossas finanças pagamos a reforma, as novas máquinas e os móveis do escritório e quarto, que são de segunda mão.

“Os móveis do salão foram empréstimos cedidos pela Senhorita Queen, mas iremos pagar metade do valor total, uma vez que trabalharemos juntos. Já o lustre e os manequins, não teve jeito, ela insistiu que fossem presentes.” – disse a morena com um sorriso sem jeito que virou um sorriso calmo assim que viu o semblante do Senhor King se aliviar e sorrir de volta para ela com os olhos marejados.

Ele olhou para a Senhora King e viu que esta já chorava. Não se conteve também, chorou de emoção ao lado da esposa. Depois de tantos anos tentando, já haviam desistido de ver seus sonhos realizados. Achavam que a vida na pensão era o fim de suas jornadas, mas ali estavam os dois, juntos e concretizando mais um sonho de suas vidas. Sentiam que agora poderiam morrer felizes.

Samanta os abraçou e disse:

– Está na hora de abrir o ateliê.

Desta vez a Senhora Madalena cedeu as honras ao Senhor King, que se aproximou da porta e girou a plaquinha onde se lia do lado de fora “FECHADO”, para “ABERTO”. Eles aplaudiram e em seguida dispersaram sua atenção pelo ambiente.

Segundos depois, ouviram pela primeira vez o pequeno sino tocar com o abrir da porta e ali estava Susan, em suas mãos uma caixa de donuts e uma garrafa de chá e em seu rosto um lindo sorriso que compartilhava da felicidade de todos.

***

No decorrer do dia, algumas pessoas entraram no ateliê, muitas eram mulheres que queriam confirmar se aquele era mesmo o famoso ateliê inglês que estava fazendo sucesso na França. Depois saiam com a promessa de voltar com seus maridos, irmãos, filhos, pais e etc.

De certo modo, todos acharam bom que não tivessem recebido pedidos, pois tinham muitos outros para fazer.

No final do dia, Emily, Kevin, Antony e os idosos King se prepararam para voltar para casa. Sam como sempre ficaria mais no ateliê e Susan ficaria com ela ali, pois queria adiantar o máximo possível seu trabalho. A jovem ruiva precisava voltar à Paris em breve, uma vez que seus pais não sabiam que ela estava na Inglaterra.

– Não acha que são perigosas essas suas vindas até aqui sem o conhecimento de seus pais? – perguntou Sam assim que terminou um terno. As duas estavam muito focadas e não haviam conversado muito depois da saída dos outros cinco, sendo aquele o primeiro diálogo delas em particular.

– Acho sim, mas agora que o ateliê está aqui, será mais fácil caso me vejam, pois não terei que explicar o que fazia em um bairro de periferia. Inclusive, queria falar com você a respeito desta questão. – falou Susan pousando a tesoura sobre a mesa que usava, respirando fundo em seguida, para dizer – Prometi à minha mãe que a traria ao ateliê na próxima vez que viesse à Inglaterra, o que claro, não será por esses dias, mas terá que ser em breve.

Samanta tirou os olhos do terno que limpava e se apoiou em sua mesa com um olhar preocupado e com nítida tristeza.

– Será melhor que eu não esteja aqui, então.

Susan abaixou o olhar tristonha, mas claramente concordava com Sam, então voltou a olhá-la e disse:

– Preciso que você saiba que não tenho vergon…

– Tudo bem! – disse Samanta rapidamente. – Tudo bem. – falou mais calma – Depois das coisas que eu disse naquela época para seus pais e na frente de todas aquelas pessoas, tenho sorte de não ter sido denunciada. Acho que será melhor que ela não saiba por enquanto.

            As duas últimas palavras saíram baixas e descrentes da boca de Samanta e ela voltou seu olhar para os próprios pés. Não tinha certeza se seria bom que algum dia a família de Susan soubesse que Sam trabalhava ali. Então, o peso de tudo que envolvia elas duas caiu sobre seus ombros. Depois de tanto tempo dormindo com tantas mulheres, pela primeira vez se via temerosa a respeito de sua condição.

Quando se imaginara com Carina há anos atrás não tinha noção das leis que envolviam aquele tipo de coisa, tudo o que sabia é que queria ser feliz. Quando envolveu Susan naquilo tudo, não tinha ideia do que estava fazendo. Agora, que tinha conhecimento das leis que condenavam o seu tipo de amor, ela se via atormentada pela sua consciência, a qual temia causar danos à jovem ruiva pela qual estava apaixonada.

– Susan. – disse olhando ainda para o chão – você não acha que ficar ao meu lado é perigoso? Não digo no trabalho, porque aqui temos outras pessoas conosco, mas digo de outra forma…mesmo como amigas…querendo ou não nos tratamos um pouco diferente, as pessoas percebem e isso é perigoso demais. Seu pai…ele..você não acha que nós…

Susan havia se aproximado sem que Samanta percebesse e antes que ela terminasse a frase teve o rosto levantado para que os lábios da jovem ruiva fossem colados aos seus com ternura. Em seguida, ela abraçou a morena pelo meio das costas e disse:

– Não pense nisso.

– Temos que pensar, Su. – disse Sam baixinho tocando o rosto da moça – Para sua segurança eu acho que nós deveríamos…

– Por favor, Sam, não diga mais isso. – a voz de Susan foi trêmula ao fazer seu pedido. Aquela não era a primeira vez que Samanta tentava terminar o que as duas tinham com a aquela mesma conversa – Eu vou dar um jeito nisso. Apenas dê-me um pouco mais de tempo.

– Não importa quanto tempo eu lhe dê, Su. Seus pais nunca vão nos aceitar e se fosse apenas isso estaríamos numa situação mais simples, porém não é só isso.

Susan soltou Samanta abruptamente. Pôs as mãos na cintura e deu uma olhada ao redor, então voltou-se para a morena:

– Samanta, diga-me a verdade. Você está apaixonada por outra pessoa?

– Outra pessoa?! Do que está falando?!

– Por que essa insistência em se afastar de mim?

– Por conta de todas as coisas que eu já lhe disse, Su, o que piora ainda mais por ser seu pai um militar.

– Você tem se importado demais com isso nessas últimas semanas. Fale-me a verdade, Samanta! Você tem visto alguém? Você tem visto Sophie?

– Sophie?! Há meses que eu não falo com ela. De onde você tirou isso?

– Eu simplesmente não consigo entender, você passou anos sem temer nada disso. Andava com Sophie para cima e para baixo…

– Em Paris…- interrompeu Sam.

– Aqui também! – disse Susan mais alto do que esperava – Pode não ter sido com tanto frequência, mas vocês andavam juntas aqui. Por que esse medo agora?

Samanta ficou pensativa. Antes realmente ela não pensava muito nessas coisas, afinal a francesa tinha respaldo e ela não se preocupava muito com esta ou consigo, mas agora as coisas eram diferentes.

– Sophie é casada, você é solteira! Entenda…

– Então seria mais fácil se eu fosse casada? – falou Susan com uma ponta de sarcasmo na voz .

“Se você quer se livrar de mim Samanta, seja direta. É mais digno.”. – disse ela se direcionando para sua mesa para arrumar suas coisas.”

– Susan, não é nada disso. Será que você pode me escutar por um instante? – A ruiva parou o que fazia e focou seu olhar irritado e marejado em Samanta, a morena falou – Podemos ir para a prisão pelo o resto de nossas vidas se descobrirem que temos algum tipo de relação amorosa. Enquanto eu apenas me visto de homem não há nada que possam alegar, mas se souberem do nosso romance…

– Quer saber? Quanto a isso você não precisa mais se preocupar também. – disse ela pegando suas coisas já arrumadas e indo em direção ao quartinho dos fundos.

– Susan…- chamou Samanta a segurando pelo braço.

– Estou apenas facilitando as coisas. – disse ela com um olhar raivoso para a morena.

– Não faça as coisas desse jeito.

– De qualquer outro jeito é impossível para mim, Sam. – falou ela baixo, em um misto de raiva e tristeza. – Susan puxou seu braço devagar e acrescentou sem olhar Samanta nos olhos – Amanhã sairemos cedo para a comemoração do aniversário do Senhor Oliver. Ele nos convidou há semanas atrás e eu prometi que iríamos. Por isso terá que me aturar até amanhã. –  Sam resmungou, mas Susan continuou – Depois disso, serão apenas negócios e você poderá pensar mais livremente em quem quiser.

– Susan, não diga tolices…

– Boa noite, Samanta! – e caminhou rápido, pois não queria que Sam percebesse que chorava.

 

SUSAN

Susan estava deitada de barriga para cima em um dos beliches do ateliê. Algumas lágrimas escorriam ao lembrar-se dos seus dois últimos dias.

Um dia antes de ir para a Inglaterra, fora a uma festa, pois sabia a importância de se manter sempre em evidência. Acabou encontrando por lá René Fourrié que, com sua língua ferina, a fizera passar vergonha na frente de clientes importantes.

Ela estava mal, mas a ideia de que veria Sam no dia seguinte a acalmou. Seria o primeiro dia do ateliê no novo espaço e de todas as coisas, o que ela mais ansiava era poder ficar a sós com Samanta no pequeno dormitório.

Susan chegou e quis mais do que tudo abraçar a morena, mas não o fez, esperou um momento oportuno. Quando finalmente conseguiu, Samanta foi rápida no abraço e no beijo. Pois o fizeram no provador e a morena temeu que algum cliente entrasse e as visse.

No decorrer do dia, Susan fora duas vezes até o quarto com beliches e esperou que Sam a seguisse para que pudesse lhe roubar mais alguns beijos, porém a moça não aparecera e para fechar com chave de ouro, no fim da noite, ela voltou com um assunto que vinha tirando o sono da ruiva: o afastamento delas.

Susan já havia se acostumado a ver Sam semanalmente, se acostumado às conversas, aos carinhos e há tempos pensava em como faria para tê-la mais perto por mais tempo. Queria namorar a morena como antigamente. Ter certeza que seria somente sua. Imaginava que a relutância de Sam ao namoro fosse devido às leis inglesas, porém na França era diferente e era nisso que Susan vinha pensando há um bom tempo, entretanto, agora, com Sam trazendo o assunto à tona mais uma vez, ela se perguntava se aquele era mesmo o real motivo do desejo de afastamento da morena.

            – “Sophie é casada, você é solteira. Entenda…”- lembrou-se de uma frase de Sam que martelou em sua cabeça e trouxe consigo um pensamento: “Carina agora é casada”.

Balançou a cabeça de um lado para outro tentando esquecer tudo. Virou-se para o lado e tentou dormir.

 

***

 

O jardim dos Lafaiete não perdia sua magnitude nem mesmo com o cair das folhas.

Dependendo do estado de espírito da pessoa, aquela paisagem poderia trazer muitas sensações. Para Sam a sensação era de melancolia.

Depois que discutira com Susan um dia antes, ela resolveu dar um pouco de espaço para a ruiva se acalmar. Mas com a quantidade de coisas que tinha para fazer acabou perdendo a noção do tempo e quando deu por si já amanhecia.

Ela queria ter ido até o quarto para conversar melhor com Susan, pois no salão a porta de vidro a deixava receosa, porém quando amanheceu a ruiva não deu margem para conversas.

Samanta demorou a perceber, mas agora, naquela longa viagem silenciosa que fizera ao lado de Susan, ela pensara em muitas coisas e uma delas é que estava com medo. Por si mesma menos do que por Susan. Se fosse presa, Samanta saberia se virar, Susan não.

Tantas preocupações somadas ao trabalho a fizeram não falar com a jovem como deveria e sem perceber havia se afastado, dando espaço para a moça pensar o que havia exteriorizado no dia anterior.

Sam ainda queria esclarecer as coisas, mas durante a viagem entendera o que Susan quis dizer quando falou: “De qualquer outro jeito é impossível para mim, Sam…”. Se a morena fosse pedir desculpas, deixaria claro que não amava ninguém que não fosse a jovem Dover e dessa forma, tornaria mais difícil     a separação que vinha propondo, da qual já estava se arrependendo a cada minuto de silêncio e ausência de sorriso ao lado de Susan.

A grande porta de madeira estava aberta para receber os convidados que chegavam em grupos nos dois novos carros adquiridos pelos Lafaiete.

Um grupo havia acabado de chegar e estavam à porta entregando seus casacos para a Governanta e uma das empregadas.

Assim que o carro em que Susan e Samanta estavam parou, elas desceram e se direcionaram até a porta. Um rapaz se adiantou para checar os nomes das duas em uma lista, depois disso a governanta se aproximou dando bom dia em inglês, pois decorara os nomes das únicas convidadas inglesas da festa, pegando em seguida o casaco de Susan. Atrás dela veio uma jovem baixa e robusta. Ela também deu bom dia às duas e pegou o casaco de Samanta com um leve sorriso.

Samanta retribuiu o sorriso preocupada. O rosto da moça era familiar e ela teve medo de ser alguma das moças com a quais já tivera algo rápido. Não queria piorar ainda mais as coisas entre ela e Susan, por isso, assim que entregou seu casaco, entrou rapidamente, mas percebeu nas feições endurecidas da ruiva que esta havia percebido algo.

O Senhor Oliver veio receber suas convidadas e depois disso a festa foi acontecendo devagar, isso porque no momento em que sentaram-se à mesa, as duas foram separadas. Samanta por Josephine e Pierre, o qual intercalava sua atenção com outros convidados por dois motivos: um por querer deixar a esposa à sós com Samanta, pois os dois acreditavam que Josephine tinha mais chances de seduzir Sam ao ménage sozinha e o segundo porque não podia deixar a esposa sozinha falando com a morena, uma vez que poderiam comentar àquele respeito, principalmente Victorine, a qual inclusive poderia interferir.

Já Susan foi imediatamente abordada por Jean, o qual esperou os momentos importantes da festa acabarem para lhe chamar em particular, afastando a moça da festa.

Estava perto do anoitecer, mas o jardim estava bem iluminado.

Eles sentaram-se à um banco e Susan disse:

– Acho que não deveríamos nos afastar da vista de todos. As pessoas falam.

– É, elas falam…- disse Jean que havia excedido um pouco na bebida, o que não o incapacitava, apenas o deixava mais corajoso. – Mas tenho certeza que você não se importa com isso, afinal, é sócia de uma…

– Samanta é minha sócia e amiga. Tome cuidado com suas palavras. – falou Susan subitamente.

– Tudo bem! Calma! Não a chamei aqui para falar dela.

– E o que quer?

Jean ficou pensativo. Queria usar alguns floreios antes de entrar no assunto que desejava abordar com Susan, mas o álcool o estava impedindo de pensar claramente e ele desistiu de uma introdução, partindo para o assunto principal.

– Você sabe o quanto me importo com você e o quanto considero sua companhia desde que nos conhecemos, não sabe Susan?

– Sim. – disse Susan em meio a um suspiro. Já tinha uma ideia sobre o que aquele assunto se tratava e já se sentia fatigada antes mesmo dele começar, mas Jean nem percebeu, ele continuou.

– Então sabe que isso se deve ao fato de que estou apaixonado por você. Perdidamente apaixonado.

– Jean…

– Não! Por favor! Escute-me! – disse ele se aproximando. – Susan, eu tenho pretensões grandes com relação a você. Não sou um homem de palavras vazias e nem de desejos passageiros. Eu amo você e quero você perto de mim como esposa…

Susan se sobressaltou ao ouvir aquela palavra vinda do rapaz. Eles nem namorados eram ainda. Pensar em casamento naquela situação nem chegava a ser precipitado, pois não havia nada que principiasse o mesmo, no entanto, sua surpresa não parou aí, pois Jean continuou falando.

– …não faltaria nada para você. Eu te daria uma mansão com tudo que você precisasse dentro. Inclusive um ateliê se é o que você quer fazer, mas claro que nem trabalhar você precisaria, algo que inclusive eu apreciaria. Acho mesmo que obrigar as mulheres a trabalhar fora de casa engrossando suas delicadas mãos, foi um erro e é um desperdício…

– E o que, na sua opinião, não seria desperdício para as mãos de uma mulher?

– Bom, – disse Jean com um sorriso malicioso que Susan não conhecia – o corpo de seu marido é claro.

Susan ficou sem reação diante daquela resposta tão sincera, piscou algumas vezes como quem está com dificuldade de acreditar no que acabava de ouvir.

Percebendo que se excedera, rapidamente Jean falou:

– Desculpe-me. Bebi um pouco mais que o costumeiro esta noite e acabei falando coisas demais. Prometo falar tudo ao seu tempo e ir devagar, apenas dê-me uma chance de mostrar a você que posso fazê-la feliz.

– Jean, sempre deixei claro que somos apenas amigos…

– Sim, sim. – disse ele pegando as mãos de Susan – O que peço a você é uma chance de mostrar que seremos melhores ainda como marido e mulher. Vou dar tudo que você quiser…

Susan revirou os olhos e disse:

– Tenho meu emprego, uma carreira que pretendo…- de repente a jovem não conseguiu mais falar, os lábios de Jean haviam sido pressionados contra os dela, a língua dele forçou passagem e ao sentir o gosto dele misturado com whisky ela fechou os olhos com força, o empurrando pelos braços com dificuldade, até que imprimiu mais força, o empurrando para longe e levantando-se.

– O que pensa que está fazendo? – disse ela nervosa, sentindo vontade de chorar.

– Eu tenho intenções sérias com você, Susan. Quero casar…

– Jean eu não tenho interesse em namorar, quanto mais casar! – disse ela alterando seu tom de voz para um quase grito.

– Isso é com qualquer um? Ou só comigo?

“Nem precisa responder, sei que não é com qualquer um, porque existem pessoas que têm de você coisas que eu não consigo nem imaginar de tanto que você me nega.”

– Do que está falando?! – perguntou ela sentindo-se nervosa e ofendida.

– O que eles prometem?

Susan ficou parada, sem reação. Do que Jean estava falando?

Como que percebendo a dúvida de Susan, Jean falou:

– A sua empregada, Madaleine, e eu já namoramos. Ela ainda gosta de mim, sabe? Eu poderia me aproveitar dela, mas não faço isso. Sou um rapaz direito. Mesmo assim ela tenta me agradar e às vezes me traz informações bem úteis.

Susan continuou olhando para o rosto de Jean que parecia ter se tornado uma pessoa que ela desconhecia por completo.

– O que ela te prometeu? – perguntou ele com um olhar que continha raiva e luxúria. – Posso prometer o dobro. Quantos ateliês você quiser. – disse ele olhando Susan de cima a baixo o que fez com que ela colocasse toda sua força em um tapa na face de Jean e saísse de lá às pressas.

Susan subiu as escadas da entrada da mansão com os olhos cheios de lágrimas. Havia sido desrespeitada, humilhada e abusada…sim, não houvera nada além de um beijo, mas Jean forçara aquela situação e ainda insinuara coisas a respeito de seu caráter.

Ela precisava de alguém. Ela precisava de Samanta e a encontrou nos braços de outra mulher.

 

SAMANTA

A festa estava animada. As pessoas ao redor conversavam sobre tudo, mas Samanta não participava muito, pois Josephine volta e meia chamava sua atenção para algum tipo de assunto ambíguo e sedutor.

Seria divertido em outras épocas, mas naquele momento Samanta só pensava em seu arrependimento por ter proposto se afastar de Susan. A presença dela a deixava tão aquecida que assim que ela sumiu com Jean o coração de Samanta esfriou instantaneamente. Ela só queria ir embora.

Os minutos foram passando e Sam foi ficando impaciente. Onde estavam aqueles dois?

Inventou uma necessidade de ir ao banheiro e foi procurá-la. O primeiro lugar que foi, foram os jardins. Assim que chegou lá, a primeira coisa que viu foram os dois que procurava de um jeito que não esperava, mas temia que pudesse acontecer futuramente só não imaginou que seria num futuro tão próximo.

Jean beijava Susan com gana, enquanto esta acariciava os braços do rapaz.

Samanta não esperou mais nenhum segundo, saiu dali o mais rápido que pôde, sem destino. Quando deu por si estava na varanda dos fundos. Aproximou-se do batente e o esmurrou com todas as suas forças.

Ela sabia que ao afastar Susan de si estaria aproximando a moça de qualquer outro alguém, mas nunca pensou que esse alguém fosse o intragável Jean, o qual Susan dizia não aguentar mais.

– Ela está livre para tentar afinal. – disse isso apertando a madeira que rodeava a varando com toda sua força.

– Olá! – ouviu uma voz atrás de si.

Ela se virou e deu de cara com a moça que pegara seu casaco mais cedo.

– Como vai Senhorita King? – perguntou a moça dando um sorriso tímido – Fiquei um bom tempo me perguntando qual seria o seu nome.

Samanta nada disse. Estava com raiva ainda, mas apesar disso estava curiosa para saber de onde conhecia a moça, o que lhe deu feições fáceis de decifrar.

– Não se lembra de mim, não é mesmo? Chamo-me Myrella mas você me conheceu apenas como Senhorita Daves…da loja de chocolates em Brighton.

Samanta balançou a cabeça assim que se lembrou de onde conhecia a garota:

– Claro! – disse a morena – Desculpe não lembrar logo. É que você está diferente. Está mais…

– Gorda. – disse a moça desviando o olhar envergonhada. – Comi um pouco mais do que devia nos últimos meses.

Samanta ia dizer que a moça estava mais bonita, no entanto, para não soar falsa, disse apenas:

– Ser gorda não a faz feia, Senhorita. Gordura e beleza não são antônimos.- sorriu ao ver a moça corar. Ela era tão delicada e meiga que Sam em outras épocas com certeza a teria paquerado. Então, lembrou-se de sua situação.

Susan seguiu em frente. Se ela conseguiu também consigo. – pensou a morena que começou a puxar assunto com a jovem Senhorita Daves, descobrindo dentre outras coisas que a governanta dali era irmã de seu pai e que a moça esteva interessada em Sam.

As duas estavam próximas. Myrella olhava para as mãos, desejando uma atitude de Samanta para beijá-la. Sam sabia que a moça deixaria que ela se aproximasse mais. Estava com vontade de sentir os volumosos seios dela contra os seus, porém, a lembrança de Susan com Jean doeu em seu peito e como um vento apaga uma vela, essa lembrança apagou todo seu desejo.

– Myrella, eu sinto muito. – disse a morena – Em outras épocas eu teria beijado seus lábios até você desejar mais de mim, porém, hoje, existe essa moça que toma conta dos meus pensamentos e coração. Eu não consigo mais fazer tais coisas, mesmo quando deveria.

“Eu sinto muito por ter envolvido você até aqui.”

Myrella que ouvia Samanta com atenção sorriu e disse:

– Agradeço sua honestidade. Pouco nos conhecemos, mas seu respeito por mim foi nítido. Não se preocupe, gostei de ter sido envolvida e espero de coração que consiga em breve envolver quem ama.

Samanta sorriu carinhosamente para a moça e em seguida a abraçou com carinho. Quando ela abriu os olhos viu Susan parada, olhando para ela e Myrella.

 

N.A.: Mais uma vez deixo vocês pela metade do capítulo. Minha ideia foi maior que o meu tempo, mas ao menos pude escrever um pouco mais do que no capítulo da semana retrasada [e passada hihi]e poderei dar a certeza de que terão a conclusão desse drama semana que vem. Abraços, meninas! ;D