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20 e Poucos Anos – CAP 97

Seis meses se passaram desde o evento em Paris.

E durante todo esse tempo o ateliê passou a funcionar na área da pensão que estava em reforma. Os pedidos eram feitos apenas a domicílio o que evitava a visita dos clientes ricos ao bairro de periferia.

Susan agora era a responsável por conquistar clientes franceses para o ateliê, o que conseguia muito facilmente uma vez que tanto ela quanto o “The Kings” haviam vestido a família mais rica de Paris.

Assim que se formou em seus estudos, a jovem adotou o nome “Suzy Queen”, pois ficara conhecida pelo segundo nome após o evento e dessa forma era mais fácil lembrarem dela.

Susan alternava sua estadia entre a Inglaterra e a França, porém na maioria das vezes tinha que ir às escondidas para as terras inglesas, pois sua mãe começara a lhe pressionar para conhecer o tão famoso ateliê inglês do qual ela nunca ouvira falar e isso estava tirando o sono da jovem ruiva.

Diante dessa situação e vendo que a quantidade de pedidos só aumentava, Susan e Samanta começaram a pesquisar estabelecimentos para alugar, pois estavam ganhando bem melhor, tão bem, que já haviam empregado definitivamente Antony, Emily e cogitavam uma terceira pessoa, a qual seria paga exclusivamente por Susan, pois a moça não achava justo não ter o mínimo de participação nas contas do ateliê e mesmo assim utilizar o local e às vezes a mão de obra.

Colocaram alguns anúncios em jornais, porém de todas as pessoas que apareceram, duas não agradaram os King e uma teve problemas com Samanta, logo, se viram na mesma situação inicial (sem funcionário extra), pois Susan não fez objeção, até que a Senhora King teve a ideia de fazer um curso de costura aos domingos, o que os ajudaria tanto a contratar mão de obra qualificada, quanto somaria às finanças, já que cobrariam um preço mesmo que singelo. Para isso, precisavam de um espaço maior para novas máquinas, pois possuíam apenas quatro. No final, tudo convergia para a necessidade de um local mais amplo.

 

Sam havia acordado cedo aquela manhã para finalizar algumas peças com o Senhor King, pois este já começava a sentir dores no pulso como a esposa e, para que não piorasse, Samanta preferiu ajudá-lo naquele dia, mesmo já tendo avisado que iria pesquisar casas para alugar.

Assim que Kevin e Antony chegaram, Sam passou o serviço para eles e se preparou para sair. Quando passava perto do telefone, este tocou e ela atendeu:

– Ateliê The Kings, bom dia!

            – Gostaria de marcar uma visita a domicílio, por favor. – falou uma voz baixa

Samanta sorriu e disse:

– Visitas a domicílio em outro país são mais caras, Senhorita.

– Oh, mas não seria em outro país.

– Não?

– Estou na Inglaterra, Senhorita atendente, mas mesmo que estivesse em outro país, pagaria qualquer preço para ter esta visita. Com uma condição é claro.

E qual seria?

A voz se tornou mais baixa e abafada.

– Ser atendida por uma alfaiate do ateliê de vocês, acho que você deve conhecer: Sam King.

­­Samanta sorriu.

– Claro que sim. Posso entrar em contato com ela se quiser, Senhorita.

Que bom! Assim que contatá-la, diga que a estarei esperando no café de sempre.

– Suas palavras são uma ordem, Senhorita. Tenha um bom dia!

– Bonjour, ma chéri! Até já!

E o telefone foi desligado.

Samanta se excitara em vários sentidos. Ver Susan de forma tão inesperada com certeza a animara,contudo o que mais mexera com ela fora a forma com que a mesma falara ao telefone. Havia algumas semanas que a moça vinha agindo de um modo mais ousado o que estava mexendo com o juízo de Samanta, porém ela decidira esperar antes de ter algo profundo com a jovem Dover novamente. Havia pensado a respeito e percebera que todos os seus “relacionamentos” haviam se iniciado por atração e atribuiu principalmente a isso o fracasso de cada um deles. Por esse motivo, tomou a decisão de esperar, inclusive para pedir a moça em namoro outra vez. Além disso, apesar das duas se encontrarem e terem momentos bons e românticos, não ousavam tocar no assunto “compromisso” uma vez que sabiam o problema que aquilo geraria entre elas. Não podiam se distanciar naquele momento tão crucial para a carreira das duas, por isso deixaram o assunto em suspenso.

Samanta se despediu de todos com um sorriso e saiu rumo a seu encontro inesperado.

As duas haviam conversado a respeito da pesquisa de locais que pudessem alugar, mas não haviam acertado nada, pois a vinda de Susan dependia muito da movimentação de seus pais, entretanto, ao que parecia, tudo ocorrera bem.

O dia estava fresco e por conta disso Samanta usava um terno leve, cinza claro, por cima de uma blusa azul clarinha; uma gravata com estampa de flores tropicais e um lenço no bolso do terno de mesma estampa da gravata. Dera-se ao luxo de comprar um novo sapato da cor marrom.

Havia pensando em um chapéu novo, mas se apaixonara pelos sapatos.

Por mais que o ateliê estivesse ganhando bem, Sam não aumentara seu salário, pois o seu interesse era aumentar o ateliê antes de tudo e para isso alguns sacrifícios ainda precisavam ser feitos.

Enquanto caminhava tranquilamente pela rua, saudando alguns moleques e algumas moças, olhou para uma lata de lixo e focou em um jornal velho jogado por lá que tinha como manchete a poderosa bomba que os EUA haviam jogado sobre o Japão há quatro meses.

Os jornais e televisões não falavam de outra coisa, e não era para menos, a bomba havia dizimado mais de 100 mil pessoas em uma cidade chamada Hiroshima e como se não fosse suficiente, uma segunda bomba fora lançada sobre outra cidade matando 70 mil pessoas. Corpos foram desintegrados e meses depois do horror, ainda haviam sequelas terríveis nos sobreviventes.

Os Estados Unidos alegaram ter usado a força bruta para acabar com a guerra de forma definitiva, o que fez pensadores de todo o mundo questionarem aquela prática. Samanta pensava sobre aquilo toda vez que via algo relacionado à morte daquelas pessoas e naquele momento pensou olhando a imagem do jornal que mostrava a fumaça da explosão:

Parece uma rosa. Nunca pensei que um dia fosse ver uma flor tão estúpida e inválida*.

Continuou sua caminhada até o bonde e dali seus pensamentos voltaram para a sua realidade.

***

Susan tomava café e comia um pãozinho calmamente. Estava em uma das três mesas privadas que o proprietário matinha para reuniões de negócios de clientes ou para uso de pessoas que não queriam ou não podiam ser vistas juntas, como era o caso dela e de Sam.

O café era situado em um dos bairros nobres de Londres e Susan o conhecera quando era apenas uma padaria, pois Samanta gostava dos pães doces dali e sempre falava do local.

A jovem ouviu alguns passos no pequeno corredor que dava para as mesas privadas e logo Sam apareceu; deu-lhe um selinho demorado nos lábios, sentou-se de frente para ela e ia abrindo a boca quando Susan falou:

– Você está linda!

– Gentileza a sua, não sou nada diante da sua beleza. – disse ela com um sorriso enquanto desabotoava o terno.

– Bom dia, Senhoritas! – disse uma moça se aproximando da mesa das duas. – O que vai querer, Sam? – perguntou olhando de forma expressiva para Samanta, que falou evitando olhar para a moça.

– O de sempre, Polly, obrigada.

A garota assentiu e deu as costas para ir embora, mas Susan a chamou:

– Polly?

– Sim? – disse a moça um pouco menos polida.

– Você poderia pedir ao Harry para atender esta mesa novamente? Gostaria de perguntar algo a ele. Obrigada! – disse Susan sem esperar a resposta da moça e, voltando-se para Sam, falou pegando em sua mão – Tenho uma ótima notícia!

Samanta sorriu sem nada dizer, apenas ficou olhando assustada para Susan.

– O que foi? – perguntou a ruiva. – Esta assustada porque mandei sua “conhecida” embora?

– Não. Estou surpresa por você ter tido coragem de mandá-la embora.

– Sinceramente, estou cansada de sempre chegar aqui e tê-la rondando você como um cachorro pidão, mas quer saber? Isso é culpa sua. – falou Susan beliscando a mão de Sam que a puxou rapidamente devido a dor, mas sorriu sem falar nada, o que deu margem para a jovem Dover dizer – E você sabe que é verdade, por isso não diz nada.

– Eu não digo nada porque realmente não sei o que dizer. Só estive com Polly uma única vez e depois disso ela simplesmente me ignorou. Não sei o porquê disso agora.

– Ora, é muito simples. Ela gostou do que fizeram, mas você não andava tão bem vestida, agora que isso mudou e tem um negócio em ascensão, ela está arrependida e por isso fica tentando demonstrar o que quer com o olhar.

– Penso diferente. Acho que ela pensou que eu não valia nada e assim que me viu com uma mulher tão interessante como você, se arrependeu de não ter me conhecido melhor.

– “Não ter conhecido melhor” é modo de dizer, não é mesmo? Afinal até onde você me contou vocês se conheceram muito bem. Conheceram uma a outra em uma noite mais do que eu e você em anos.

– Apenas porque você quer assim. – disse Samanta com um sorriso cínico e um olhar intenso que fez Susan sentir uma pontada em uma região peculiar.

Há tempos, nos poucos encontros românticos que tiveram, Samanta vinha sendo mais difícil de controlar, mas Susan não sabia se era isso mesmo ou se era ela que vinha tendo dificuldades em manter a sanidade para conter a morena. O fato é que Susan queria chegar à idade de 18 anos antes de entregar-se por completo à Samanta. Já teria saído da escola e se sentiria menos infantil.

Desde que completara essa idade no mês anterior, a jovem não conseguia pensar em outra coisa, mas não tinha coragem de falar nada para Sam, pois ainda era tímida quanto àquele assunto e a jovem morena não tinha conhecimento da regra que Susan havia imposto a si mesma. Por isso, estava ansiosa pelo próximo encontro romântico das duas.

– De qualquer forma – continuou Samanta – a intimidade que eu tive com ela foi apenas física Susan, o que não me transmitiu nem um terço da intimidade que tenho com você no pouco que fazemos.

“Pouco”? Será que Sam sentia falta de fazer mais com outras mulheres? E o que exatamente seria esse “mais”?

O que elas duas faziam já era tão maravilhoso que imaginar que poderia melhorar fez Susan cruzar as pernas para acalmar uma região em especial, nesse ato, seu pé bateu em um objeto que estava ao seu lado no sofá e ela despertou de seus pensamentos.

– Oh! Ia esquecendo – disse ela pegando o objeto que estava dentro de um saco de papel, o qual tirou expondo uma caixa preta com um laço azul marinho prendendo a tampa. – Feliz Aniversário atrasado!

– Uau! Que surpresa! Você já havia me enviado uma carta…

– Uma carta não é bem um presente. Abra!

Sam estava realmente surpresa e desfez o laço do presente com um lindo sorriso no rosto o qual se intensificou quando ela tirou de dentro da caixa um lindo chapéu cinza.

– Uau..nossa…UAU! – disse e colocou o objeto em sua cabeça. – Combina com minha roupa de hoje.

– Sim. Você já pode usá-lo se quiser.

– Já está em seu devido lugar! Nossa, Su! Obrigada! Ele é lindo! Como estou? – disse fazendo uma pose, segurando a aba com apenas o polegar e o indicador.

– Maravilhosa! – disse Susan de forma honesta e abobalhada.

Samanta sorriu e se aproximou da ruiva para lhe beijar os lábios em agradecimento.

Aquele era apenas para ser um selinho apaixonado, mas a língua de Sam acabou adentrando a boca de Susan e o beijo foi ficando quente até que a ruiva o parou:

– Aqui não. – sussurrou.

– Certo. – respondeu Sam também sussurrando.

Elas ainda estavam a centímetros uma da outra quando Polly adentrou a área da mesa delas com o pedido de Sam nas mãos.

– Harry estava ocupado. – foi a única coisa que a moça disse antes de sair sem olhar para qualquer uma das duas.

Samanta ficou preocupada, mas ao ver o rosto satisfeito de Susan ficou intrigada. A jovem Dover percebeu o olhar de Sam e falou enquanto colocava açúcar no café da morena.

– Pelo menos agora acredito que ela vá diminuir os assédios.

– Não teme que ela fale a respeito de nós para alguém?

– Se ela fizer isso vou espalhar o boato de que ela já dormiu com uma mulher. O que não será bem um boato e para o caso dela será pior, afinal vocês começaram os beijos em uma mesa de bar. Ela nem deve lembrar quem estava presente no momento. Não ousará abrir a boca.

“E no final das contas, já falam de mim, Sam. Contanto que isso não chegue aos ouvidos dos meus pais antes da hora, por mim tudo bem.” – falou ela entregando para Samanta o café já adoçado com um sorriso firme, o que deixou a morena pensativa.

“Antes da hora?”. Elas já haviam falado a respeito de contar aos pais de Susan que as duas trabalhavam juntas, mas nunca haviam falado sobre contar do romance delas, porém aquela última frase dera a Samanta certa esperança.

– Bom, enquanto você toma seu café, vou lhe contar a boa notícia e em seguida lhe fazer um convite.

– Sou toda ouvidos.

 

 

* A Rosa de Hiroshima – Vinícios de Moraes

Imagem: http://www.machomoda.com.br/2015/11/gravatas-estampadas-pra-inspirar.html

 

NOTA DA AUTORA: Olá, meninas! Estamos entrando numa nova fase da história. Espero que tenham gostado da caminhada até aqui e que gostem do que estar por vir.

Na minha mente estamos agora nas preliminares da reta final, porém às vezes tenho novas ideias ou minha linda beta reader me dá alguma nova ideia e eu acabo incluindo coisas não esperadas que dão uma prolongada, logo não tenho nenhum previsão exata quanto ao fim, mas é fato que agora começamos uma nova era e que as coisas irão acontecer mais rápido.

Té o próximo capítulo!