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20 e Poucos Anos – CAP 96

SUSAN

Algumas horas depois que Samanta foi embora, o tempo esfriou e Susan não sabia dizer se estava frio como o costumeiro ou se aquilo era efeito da ausência do calor de Samanta.

Susan, que estava com roupas mais leves devido ao sol da manhã, apressou-se com suas compras, pois não queria pegar um resfriado justamente agora que havia conseguido novos pedidos, os quais felizmente ela teria um prazo maior para entregar.

– Este evento é com certeza um maravilhoso acontecimento para quem está começando. De que outra forma eu teria conseguido mais dois bons pedidos sem estar em um ateliê? – pensou ao lembrar-se das duas Senhoras que foram lhe procurar já no final do evento do dia anterior.

Susan chegou em sua casa já na hora do almoço. Assim que fechou a porta, ouviu uma voz familiar se aproximando. A mulher vinha saindo da cozinha e quando avistou Susan, falou:

– Susu! Até que enfim você chegou, minha princesinha. – falou a Senhora Debby.

– Mamãe! O que faz aqui?! – perguntou Susan surpresa e assustada. Até onde ela sabia sua mãe estava viajando com seu pai que participaria de um evento militar em Oxford, motivo pelo qual não puderam estar no evento francês com a filha.

– Vim para passar a semana com você como tenho feito, Susu. Parece até que está surpresa em me ver. – disse a mãe de Susan lhe dando um abraço.

– Não é isso, mamãe. Apenas não a esperava aqui tão cedo. Achei que o evento em Oxford seria ontem.

– E foi. Pegamos um trem à tarde e eu aproveitei para vir direto para cá. Sentia-me disposta no momento, mas agora que cheguei sinto-me bastante cansada.

“Estava dando algumas instruções a Madeleine, mas agora que chegou irei descansar. Que tal irmos até o England Tea mais tarde?”

– Combinado.

– Ótimo, agora vá ver o que Madeleine está fazendo porque ela estava muito avoada quando cheguei.

Susan assentiu e foi até a cozinha pensado na sorte que tivera, pois Samanta havia saído de lá naquela manhã. Se tivesse deixado para ir apenas a tarde, como Susan queria, teria topado com sua mãe ali.

Assim que entrou na cozinha, Susan encontrou Madeleine à beira da pia enxugando uma xícara com o olhar vago. À frente da empregada, uma panela começava a espumar e transbordar, mas ela nem dava conta.

– Madeleine, a panela! – disse Susan em francês com urgência fazendo a francesa se sobressaltar e correr para o fogão.

Depois que o problema foi resolvido, Susan resolveu perguntar:

– Você está se sentindo bem? Se quiser posso lhe dar a tarde de folga.

A empregada lhe lançou um olhar que continha uma ponta de raiva, mas Susan preferiu achar que fora impressão sua, afinal não havia motivos para isso, ela e a empregada tinham um relacionamento bastante cordial desde que a mesma começara a trabalhar para os Dover ali em Paris.

– Madeleine? Você gostaria de ter a tarde de folga? – insistiu Susan diante do silêncio da moça.

– Não, Senhorita Dover.- respondeu a empregada por fim – Mas se a Senhorita for receber mais alguma amiga, poderei me retirar a qualquer momento. – disse isso e pegou um saco de lixo perto da porta dos fundos, saindo por ali em seguida.

Susan por sua vez ficou parada onde estava. Fora impressão sua ou Madeleine insinuara alguma coisa sobre ela e Sam?

 

SAMANTA

– Minha nossa! Quanta coragem, minha querida! – disse a Senhora Rachel que acabara de se servir de uma xícara de chá e agora sentava-se em um espaço no sofá onde já estavam sentados o Senhor Brian e Sam. Os três e os King conversavam já havia um tempo sobre a história que Samanta contara momentos antes.

– Mas e agora? Como fará? – perguntou o Senhor Brian – Digo, sabemos que ela enganava a todos, mas querendo ou não ela tinha contatos na França e era responsável por clientes fixos. Como fará para manter esses clientes, ou melhor, conseguir novos?

– Acredito que este evento que Sam participou irá ajudar e muito nisso. – disse a Senhora King. – Além disso, existem clientes aqui mesmo na Inglaterra.

– Sem falar que a família para a qual fizemos os ternos é muito influente não é mesmo? Isso também deverá ajudar bastante. – complementou o Senhor King.

– É verdade, as pessoas tem o costume de imitar os mais ricos. – disse o Senhor Brian levantando-se e pegando a xícara da Senhora Rachel para levar para a cozinha. Logo voltou de lá e ficou ouvindo a conversa de pé.

– Mas e como você está, minha querida. Sabemos que você e Sophie eram próximas. – falou a Senhora Rachel segurando com carinho a mão de Samanta.

– Fiquei muito triste no começo, mas agora vejo que foi melhor assim. – disse Sam com um sorriso triste, mas com um brilho no olhar que foi percebido pelas Senhoras ali presentes. As duas já vinham conversando sobre Sam e Susan desde que esta viera de Paris e comentavam sobre suas esperanças quanto às duas.

 

– Essa moça é realmente boa de coração. Mesmo depois de viajar para tão longe, claramente ainda está apaixonada por Samanta. – falou a Senhora King na ocasião em que não pudera ir ao ateliê por conta da dor no pulso.

– Sim – concordou a Senhora Rachel que lavava pratos na pia – e continua humilde, o que é mais importante. Samanta merece alguém que lhe ame de verdade, o que não é o caso dessa francesa.

– Não acho que a Senhora François seja má, o que acho errado nisso tudo é um relacionamento com ela sendo casada.

– Você é muito bondosa e gentil, Madalena, isso prejudica seus julgamentos a respeito das pessoas. Mas não posso reclamar, afinal foi essa sua bondade e gentileza que a fizeram aceitar a mim, Brian e Samanta como somos.

– Ah, Rachel! A vida é tão cheia de voltas e surpresas. Quando se chega nessa idade se percebe que não existem regras para ser feliz. Eu e James achávamos que nossa boa educação seria suficiente para gerar os melhores seres humanos e aqui estamos nós, sendo ajudados por pessoas que nunca ajudamos em nada.

– A aceitação de vocês é tudo para nós, Madalena. – falou a Senhora Rachel olhando com carinho para idosa que estava sentada em uma cadeira à mesa da cozinha.

 

– Confesso que não esperava isso dela. – disse a Senhora King depois de pensar um pouco a respeito da história de Samanta.

– Não espero maldades desse nível de ninguém, mas saber que ela foi capaz de fazer isto não me chocou. Há tempos que venho pensando a respeito dessa moça. – falou o Senhor King, o qual sempre desconfiara de Sophie – Mas o importante é que agora estamos livres. Temos que olhar para frente.

– Sim. Façam isso! E lembrem-se que estamos aqui para ajudá-los no que precisarem. – disse o Senhor Brian e em seguida olhou para a porta.

– Ei, Sam! – falou um dos moleques de rua que Samanta conhecia. – Bilhete para você. – disse sem entrar. – Boa noite! – falou ele tirando a boina educadamente para os que estavam na sala.

Sam foi até a porta e abriu o bilhete. De onde estava, ouviu a voz da Senhora King:

– Quer comer alguns biscoitos com leite, querido? – o garoto balançou a cabeça afirmativamente e logo foi chamado a segui-la para a cozinha.

Nesse curto intervalo de tempo, Sam leu o que estava escrito:

 

Encontre-me à meia noite na área em reforma da pensão.”

 

Eram as únicas palavras no papel. Ela olhou para trás onde todos estavam e mesmo sem dizer nada percebeu que eles sabiam, assim como ela, quem era o emissor do bilhete não assinado.

 

***

Eram 23h50 quando um vulto encapuzado adentrou o portão da pensão. Sam fumava um cigarro no corredor do primeiro andar e avistou quando a sombra se direcionou para a área não terminada do local. Ela amassou o toco do cigarro no parapeito que dava para o pátio e com um peteleco o jogou sacada abaixo na direção de algumas plantas, em seguida se direcionou para as escadas.

A área em reforma estava escura e apenas onde o corredor fazia uma curva havia uma leve iluminação por conta da luz de um poste que adentrava o local.

Assim que Sam fez a curva se deparou com a pessoa encapuzada de costas para ela.

– Aqui estou. – disse sem se aproximar mais.

– Lembro-me quando nos encontramos neste mesmo local…foi um momento bom…agora porém…

Samanta ficou em silêncio e a mulher virou-se abaixando o capuz. Ela estava embaixo da luz que vinha de fora.

– Samanta…- disse ela com o rosto misterioso – nunca pensei que você fosse me trair assim.

– Você me ensinou muitas coisas, Sophie. Essa foi uma delas.

– Ninguém sabia mais a meu respeito do que você, Samanta.

– Mas eu não sabia tudo, não é mesmo?

– Do que está falando? – disse ela demonstrando um pouco de raiva e se aproximando.

– Eu ouvi sua conversa com Claude no café em Paris, Sophie. Vamos encurtar a parte em que você arranja explicações fajutas para se defender. Não foi ninguém que me disse. EU ouvi.

“Pelo visto acho que Claude sabia mais a seu respeito do que eu, porque eu não estava ciente que o estabelecimento em que trabalhamos e pagamos um polpudo aluguel era seu e nem que o objetivo de vocês era nos manter seus escravos para sempre.”

O avanço de Sophie parou instantaneamente. Mesmo com a pouca luz, Samanta podia jurar que o rosto da francesa estava mais branco que o normal. Ela ficou em silêncio e Samanta continuou.

– Eu deveria ter desconfiado desde o início. Aquela raiva toda quando eu perguntava dos preços. As dificuldades para ceder um pouco na quantia recebida. Você nos usou muito bem não é mesmo, Sophie? A mim mais do que qualquer outro.

– Ora, não se faça de Santa. Quanto a isso você não tem o que reclamar, me usou tanto quanto eu usei você.

– É…você tem razão…usei sim. No final das contas mesmo todo esse roubo foi bom por algum motivo.

“Estamos quites agora, Senhora François. Volte para sua casa e vamos esquecer uma à outra.”

A francesa deu apenas um paço largo e espalmou sua mão na face de Samanta. Ela se preparou para dar outra bofetada, mas Sam segurou a mão da mulher, que quase lhe escapa devido à pouca claridade.

– Você enlouqueceu? – perguntou Samanta empurrando-a em seguida.

– Você está feliz em se ver livre de mim, não é mesmo Samanta King? – disse as últimas palavras com sarcasmo – Agora finalmente poderá correr atrás da criança Dover.

– Você ouviu tudo o que eu disse? Isso não é sobre Susan, é sobre sua falta de lealdade…

– Tem certeza disso, Samanta? Acho que eu poderia contar nos dedos o tempo que iria decorrer até você me deixar por causa dessazinha.

– Já que este é um momento de revelações, então sim, acredito que mais cedo ou mais tarde eu chegaria à conclusão que esse nosso relacionamento ou seja lá o que nosso envolvimento era, não seria saudável e deveria acabar.

Sophie sorriu e aos poucos seu sorriso se transformou em uma gargalhada sem graça. Samanta teve medo de que alguém pudesse ouvir, mas depois pensou que quem mais deveria se importar com isso, era a que mais fazia o barulho, por isso logo tirou isso da cabeça.

– Você acha mesmo que com ela será diferente?  – Sophie se aproximou e segurando Samanta pela cintura, falou próxima de sua boca fazendo a morena virar o rosto de um lado para o outro – Com ela será igual, mon chéri. Ela irá se casar e irá deixá-la para os becos escuros e ausências do marido. A diferença entre nós é que eu te satisfaço como ninguém, sou a vadia que dá tudo para você, faço tudo com você, deixo outros para ficar apenas com você.

“Como você pôde fazer isso comigo, Sam?” – falou a francesa passando os lábios pelo pescoço da morena.

– Pare, Sophie! Isso não tem a ver com luxúria ou sentimentos, tem a ver com valores, os quais lhe faltam em excesso. – falou tentando empurrar a francesa que se firmou e aproximando-se do seu ouvido sussurrou de forma voluptuosa:

– Nenhuma mulher com valores aceitaria ficar com você, Samanta. Aberrações do seu tipo só servem para as noites escuras de prazer, como esta. – e lhe beijou o lóbulo da orelha.

Samanta envolveu a cintura de Sophie com força e a empurrou contra uma parede próxima, colando seu corpo ao dela. Aproximou-se do ouvido da francesa e disse:

– No entanto, eu fodi você neste mesmo corredor certo dia pela manhã, Senhora François.

– Mas como você disse, eu não tenho valores, mon amour. Por isso me deixar é o maior erro da sua vida. Ainda está em tempo de pedir perdão. – disse a francesa deslizando a mão para os botões da calça de Sam – Se fizer bem feito, posso esquecer algumas coisas e diminuir, aluguel por alguns meses… – falou escorregando sua mão para dentro da calça de Samanta.

– Sophie…-falou Sam com um sussurro sensual – …se você acha que irei voltar para as suas mãos, é mais ingênua do que eu. – e se afastando abruptamente falou enquanto fechava a calça – Amanhã iremos tirar todos os equipamentos do seu estabelecimento, Senhora François. Tenha uma boa noite. E dando as costas, se afastou sem olhar para trás.