Search for content, post, videos

20 e Poucos Anos – CAP 94

Samanta chegara ao evento já tarde da noite. Passou algumas horas procurando alguns tecidos específicos para fazer uma gravata borboleta e um lenço da cor do arco-íris para usar naquela noite. Depois de costurá-los, passou um bom tempo tentando achar o local em que seria realizado o evento. Quando finalmente achou, procurou pelos organizadores para tentar se inscrever, coisa que não garantiram a ela, pois todos os papéis já estavam nas mãos do apresentador que começara naquele instante a chamar os estilistas.
Depois disso, ela foi encontrar-se com os Lafaiete para avisar-lhes que subiriam ao palco com ela.
– Boa noite! – falou ela em francês assim que se aproximou da mesa da família.
– Senhorita King! Que surpresa! – falou o Senhor Juan.
– Uma feliz surpresa! – disse o Senhor Oliver – Que bom que veio, Senhorita King, nossos caros colegas aqui já estavam começando a achar que não queríamos dizer o segredo de nossos ternos tão bem feitos e estávamos mentindo sobre o ateliê inglês. – disse o idoso a respeito de alguns amigos da família que estavam à mesa com eles. – Como podem ver, não estávamos mentindo, esta é a Senhorita Samanta King, alfaiate do ateliê The Kings.
Os presentes que a desconheciam olharam-na com a surpresa que Sam já estava acostumada. A maioria não achou nada interessante nas vestimentas masculinas da morena, mas vendo que ela caíra no gosto do Senhor Oliver, não ousaram demonstrar seu desagrado. Eles cumprimentaram-na e ela fez o mesmo cordialmente. Depois, informou que como havia chegado atrasada talvez não conseguisse ser chamada, mas era para todos ficarem preparados no caso de ser possível. Então olhou ao redor e percebeu que duas pessoas faltavam ali.
Para sua sorte – pois não queria ficar de mau humor – uma jornalista chegou com um fotógrafo e após se apresentar como sendo da revista Audace pediu para tirar fotos da família e do estilista responsável por vesti-los.
Prontamente o Senhor Oliver puxou Sam para perto e várias fotos começaram a ser tiradas. Em seguida, a jornalista começou a fazer várias perguntas à morena de modo que Sam não percebeu a aproximação de Susan até a Senhora Heloíse apresentá-la como a responsável por seu vestido e logo a jornalista pediu para tirar fotos de todos juntos e entrevistar Susan.
Sam ainda estava um pouco sensível devido aos pensamentos daquela manhã e por isso evitou a ruiva o máximo que pode durante as apresentações dos estilistas, porém, à medida que os nomes iam passando elas começaram a ficar tensas e trocaram alguns olhares preocupados. Foi então que o apresentador começou a anunciar o fim dos desfiles e todos à mesa se sobressaltaram, inclusive a jornalista que ficara por perto para registrar a apresentação dos Lafaiete.
Foi quando uma moça entrou correndo no palco e entregou rapidamente um papel ao apresentador que chamou o ateliê de Sam, mas apenas ela, o nome de Susan não fora citado.
A jovem ruiva ficou nitidamente atordoada. Jean estava ao lado segurando-lhe a mão e falando algumas palavras de consolo enquanto os outros se perguntavam o que havia acontecido. Alguns estavam realmente curiosos, mas outros estavam adorando. Tinham inveja de uma garota tão jovem em algo tão grande, mesmo que não fossem estilistas como ela.
Aqueles que foram chamados, não se demoraram a subir no palco. O Senhor Juan foi na frente com Wallis, Leroy e um relutante Jean, que não queria deixar Susan sozinha, logo em seguida foram a Senhora Heloíse e o Senhor Oliver e mais atrás Sam, que antes de ir, falou articulado de modo que Susan pudesse ler seus lábios, já que estavam um pouco distantes e a plateia aplaudia:
– Vou resolver. – e deu um sorriso calmo a ela.

 

SUSAN
A jovem Dover chegou ao local do evento antes deste começar juntamente com os Lafaiete. Ela estava muito nervosa e agradecera a agilidade da família em se arrumar para que pudessem sair cedo, pois não queria perder nenhum segundo daquele que seria o dia mais importante de sua carreira. Saudou várias pessoas, mas algumas delas, Susan percebeu, a olhavam diferente, como se ela fosse algum tipo de meretriz que fingia ser santa. Ao menos foi essa a impressão que teve, mas tinha uma ideia do porquê, afinal René espalhara muitas coisas ruins a seu respeito.
Quando finalmente o evento começou, ela e os Lafaiete já estavam acomodados em sua mesa, porém ela pouco conversou com todos, pois logo Jean a puxou para um lado e começaram a falar sobre diversos assuntos sem incluir mais ninguém.
Assim que os grandes desfiles acabaram, Susan finalmente conseguiu engatar uma conversa com Margot, Victorine e outra moça amiga da família. Jean não parecia muito satisfeito, mas Susan procurou não dar muita atenção para o mau humor do rapaz, afinal estava dando atenção a ele desde o início do evento, e ela queria interagir com as outras pessoas.
Quando as apresentações começaram, Jean falou ao ouvido de Susan:
– Preciso falar com você um instante.
– Pode falar.
– Em particular.
– Não pode ser daqui a pouco? – perguntou Susan beirando a impaciência – Gostaria de ver as apresentações, sem falar que meu nome pode sair a qualquer momento.
– Todas estas roupas são imitações de coisas que você já viu e os nomes são chamados em ordem alfabética, não se preocupe, o que tenho para falar será rápido e de onde estaremos conseguiremos ouvir.
A contragosto Susan levantou-se e seguiu o rapaz até um jardim de inverno que só tinha dois moços fumando e conversando. Então Jean começou:
– Sei que esse é um momento especial para você Susan e por isso tenho muito interesse em torná-lo mais especial.
Susan se esforçou para permanecer atenta e aguardou Jean continuar.
– Bom, acho que é de seu conhecimento que sua companhia me agrada muito.
– A sua companhia também é muito agradável, Jean.
– Mas agrada você?
– Como assim?
– Você diz que minha companhia é agradável, coisa que pode ser para qualquer um. O que eu gostaria de saber é se minha companhia é muito agradável para você.
Susan entendeu o que ele quis dizer, mas não queria mentir para o rapaz, a companhia dele estava começando a aborrecê-la, pois ela sentia que ele era o tipo de garoto que fora mimado demais na infância e que seria o tipo de homem exigente e controlador com a esposa, por isso apenas disse:
– Desculpe, você me deixou um pouco confusa.
Jean sorriu. Expressar-se para mulheres era complicado, pois em sua mente, raramente uma delas era inteligente para entender suas palavras e ele acreditava que Susan não era uma das mais espertas, o que demonstrava o quanto ele gostava dela, pois não se importava com isso. O que Jean não sabia é que parte das moças com as quais ele falara apenas não achavam que valia a pena iniciar uma discussão com ele e outra parte (maioria) não queria contrariar um partido tão rico.
O jovem Lafaiete olhou para os lados e percebendo que os dois rapazes haviam saído de lá, aproximou-se e disse:
– Vou ser mais claro. – e tomando a cintura e o rosto de Susan ele a beijou.
Susan incialmente ficou sem reação. Depois tentou empurrá-lo, mas ele a segurava tão forte, que ela não conseguiu entender como ele achava que aquilo poderia ser romântico.
Quando a ruiva sentiu a língua molhada do rapaz tocando seus lábios trincados, ela pôs força em seus braços e o empurrou, fazendo o rapaz despertar assustado.
Os rostos dos dois eram o oposto um do outro. Susan, sem jeito, limpava ao redor dos lábios com feições que tinham um pouco de surpresa, e muito de raiva e nojo. Já Jean estava com feições surpresas por conta do empurrão, mas claramente inebriado de tesão.
Ao ver as feições de Susan o rapaz só pode concluir que ela nunca havia beijado ninguém antes e sorriu da ingenuidade da moça à sua frente. Pensou feliz que seria ele a deixá-la com o coração fervilhando de desejo, em breve. Para não parecer rude, falou o que tinha aprendido nas conversas com os grupos de homens:
– Desculpe-me pelo meu atrevimento, Susan, prometo-lhe me esforçar para não fazer mais isso.
Susan nada disse, apenas deu as costas para o rapaz e voltou para o salão.
Diga que não fará novamente, mas faça meu rapaz. O decoro das mulheres é falso e ela vai esperar que você faça mais do que ela espera, mesmo que você prometa não fazer. – Lembrou-se Jean de um dos amigos dos tios enquanto caminhava logo atrás de Susan com um ar de satisfação por ter finalmente demarcado seu território na mulher linda que Susan Dover estava se tornando.
Depois de um beijo apaixonado, acredito que ela não quererá mais ninguém. – pensou estufando o peito e crendo que parecera um rapaz experiente mesmo tendo sido Susan seu primeiro beijo.
Enquanto caminhava até a mesa, Susan pensava no que acabara de acontecer e agora ficara apenas com raiva. Jean agira de um jeito que nunca se atrevera antes e Susan não conseguia entender o que o motivara, mas essas seriam coisas nas quais ela iria pensar depois. Aquele era um momento importante demais para ser estragado e como que para dar ainda mais certeza a ela, avistou ao lado da mesa dos Lafaiete, Samanta, o que fez a jovem ruiva sorrir sem perceber.
Sam estava com a mesma roupa do dia anterior, mas com alguns detalhes diferentes. Pelo visto havia mudado de opinião em cima da hora, coisa que ela precisava perguntar à morena assim que tivesse chance, afinal, Sophie François estava presente e até onde ela sabia a francesa não tinha conhecimento que os Lafaiete eram clientes do ateliê.
Ela se aproximou e logo foi apresentada a algumas pessoas novas ali e chamada para tirar algumas fotos. Depois disso, respondeu a algumas perguntas da jornalista e aguardou junto com os outros seus nomes serem chamados.
O tempo foi passando e Susan foi ficando preocupada. Ela percebeu essa mesma preocupação em Samanta. Teve vontade de sentar ao lado da morena, pois apesar do ar firme dela, algo em Sam parecia fragilizado e Susan queria estar perto para lhe passar segurança.
Quando o apresentador começou a anunciar o fim dos pequenos desfiles, Susan se viu atordoada.
– O que aconteceu? Onde está meu nome?
Sua preocupação foi tamanha que nem percebeu Jean ao seu lado dando-lhe apoio ou as pessoas à mesa que cochichavam com sorrisos maliciosos.
Foi quando mirou Sam que já ia caminhar para subir ao palco, mas se deteve e lhe falou:
– Vou resolver.
E deu-lhe um sorriso que a fez ter certeza que tudo ficaria bem.
Sorriu.
No final, Samanta foi quem acabara lhe passando segurança.
***
Naquela mesma noite, Samanta fora até o porto para voltar à Inglaterra, mas descobrira que o navio só sairia pela manhã. Os Lafaiete convidaram-na para passar a noite em sua mansão, mas Susan ofereceu sua casa que ficava mais próxima do porto e facilitaria para Sam chegar no horário. O Senhor Lafaiete concordou e Susan ficou feliz, não só por que sairia de perto de Jean, mas principalmente porque teria um tempo para finalmente conversar com Samanta.
– Como assim, ela não sabia de nada?!
– Simplesmente não contei a Sophie François que iria.
– Cuidado! Madeleine não sabe inglês, mas entenderia o nome de Sophie, ela é conhecida aqui.
Disse Susan passando uma xícara com café para Samanta, que estava sentada na sala de jantar da casa da ruiva.
Samanta assentiu e continuou:
– Fui de surpresa! Nem eu esperava ir.
– Mas ela não sabia sobre os Lafaiete, pensei que você iria contar a ela pessoalmente.
– Eu iria, mas aconteceu algo inesperado.
– Se quiser contar, estou aqui Sam, mas se preferir não falar eu vou entender.
– Não tenho problemas em contar para você. – falou a morena olhando para sua xícara – É só que, isso me entristece e envergonha um pouco, mas enfim, vou contar-lhe. – molhou a garganta com o líquido quente e iniciou – Aconteceu que quando estava de partida passei em um café para comprar chocolates para o pessoal do ateliê e foi então que…- e Samanta contou todos os detalhes do que ouvira para Susan, a qual ficou atenta a ponto de deixar seu café e o bolo de lado.
– E foi isso. – disse Samanta finalizando sua história.
– Eu sabia que aquela mulher não era flor que se cheirasse, mas chegar a esse ponto é malévolo, como ela pode fazer isso com vocês?
– Isso é o que mais me entristece. Ela usou a todos nós. Se fosse apenas comigo…
– Não pense assim Sam, você também não merecia o que aconteceu.
– Acho que fiquei cega pela luxúria. Comigo deveriam ter acontecido coisas piores. Até porque já estou acostumada a ser usada pelas mulheres que se aproximaram de mim.
Susan levantou-se e envolvendo a cabeça de Sam contra seu peito disse:
– Você é uma pessoa maravilhosa e merece somente o que há de melhor nesse mundo, Samanta King. E acredite, você já tem o que há de melhor.
– E o que seria? – perguntou Sam sem mover-se de onde estava.
– Amor. Você é amada, Sam. De maneiras que nem sabe. – disse a jovem Dover e fechou os olhos enquanto abraçava a morena mais apertado.
Ao ouvir aquelas palavras, Samanta virou-se na cadeira e abraçou Susan enquanto chorava, sentindo que a cada lágrima um peso saia de suas costas.