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20 e Poucos Anos – CAP 93

Samanta havia acabado de acordar. Tivera um sonho turbulento que não conseguia lembrar bem, só sabia que envolvia Susan, Sophie e outra mulher a qual não conseguiu ver o rosto. Ela sentou na cama e passando as mãos nos cabelos lembrou-se de muitas coisas. A primeira delas foi a conversa com Susan no dia anterior. Naquela hora, ela estava irritada e com a cabeça um pouco alta por conta do vinho e acabara demonstrando mais irritação que o normal por ver Jean grudado na ruiva a tarde inteira. Acabou dizendo coisas que não diria à garota normalmente.
Seu coração apertou quando lembrou-se de Susan perguntando quem fora sua primeira namorada. Ela por um acaso não sabia? Ou simplesmente não se contava como tal? Sentimentos de rejeição começaram a lhe rondar a cabeça, mas rapidamente foram empurrados para o lado pelo sentimento da raiva e pela sensação de ter sido traída, pois se lembrou de Sophie.
Desde sempre Samanta sabia que a francesa não andava pelas regras e não respeitava muita gente, mas nunca passou pela sua cabeça que a francesa chegaria ao ponto de ser mais baixa que isso com ela, a pessoa com a qual ela tinha negócios financeiros e íntimos.
Por mais que seus sentimentos pela francesa fossem em maioria carnais, Sam já havia pensado uma vez que se Sophie quisesse viver um relacionamento, a morena com certeza se arriscaria, pois de todas aquelas com as quais Samanta já havia tido algo – e isso incluía Carina e Susan – Sophie fora a única que se arriscara de verdade, pois não só se encontravam em lugares variados, como ainda se falavam fora das quatro paredes de um quarto. Nem mesmo Lourdes se arriscava tanto.
A morena e Sophie tinham certa sintonia tanto na cama quanto nos negócios e a francesa ainda ajudava Samanta e seus amigos a terem clientes bons para elevar o nome do ateliê. Ao menos era isso que Samanta pensava até antes do dia anterior.
Chorou.
Pelo visto ela não era boa o suficiente para ninguém e por mais que Susan agora começasse a se aproximar, Sam tinha certeza que quando ela chegasse aos seus vinte e poucos anos, seria questão de tempo até ceder às investidas do jovem Lafaiete, o qual era um partido inegavelmente à prova de defeitos: jovem, bonito, rico e claramente apaixonado por Susan.
O choro de Samanta se acentuou, ela colocou as mãos espalmadas sobre o rosto e tentou controlar os soluços barulhentos que insistiam em sair. O sofrimento que fazia doer sua alma a impelia a gritar, mas ela não o fez, afinal, o que as pessoas iriam pensar se ouvissem alguém gritando como uma louca? Ela segurou aquela dor dentro de si, mas as lágrimas não paravam de cair como dois córregos caudalosos, ela trincou os dentes enquanto seus soluços faziam seu corpo balançar e ali chegou a uma conclusão:
– Dentro da sociedade as pessoas são más com as outras e consigo mesmas. Elas com certeza se incomodariam com meus gritos e eu prefiro explodir de dor a incomodá-las.
Ao pensar isso se sentiu mais sozinha e foi mais longe em seu sofrimento, lembrou-se de seus pais, os quais não tinham nomes e nem faces para de fato serem lembrados, mas haviam deixado algo para Sam, a certeza de que não era bem-vinda naquele mundo. Lembrou-se das mulheres frias do orfanato, lembrou-se de Carina, Susan e ao se lembrar de Sophie seu choro acentuou-se ainda mais, não fora só traída, fora enganada e usada como mula de carga e ainda arrastara outros com ela para uma esperança vazia.
Sam levantou seus olhos encharcados de lágrimas para a janela que de repente lhe pareceu tão convidativa.
Ela estava no segundo andar.
Aproximou-se da janela e olhou para baixo. Talvez se fosse de cabeça…abriu a janela, não tinha ninguém na rua ainda, o céu estava escuro, mas já não tão denso como era no meio da noite, estava amanhecendo.
Samanta se inclinou na janela, agora era só levantar as pernas para depois soltar as mãos e pronto. Ela ensaiou o movimento de modo até certeza que iria até o destino na posição certa, pois do contrário o “tiro” não seria certeiro, pois a altura não era muita. Ela fechou os olhos e agradeceu a Deus pelas pessoas boas que apareceram em sua vida. Despediu-se deles, que estavam tão longe, com um sussurro embargado.
– Adeus.
Raios mornos tocaram seu rosto e ela sentiu a necessidade de ver o sol antes de ir. Abriu os olhos e viu o céu se iluminando aos poucos, nisso um brilho forte e colorido lhe chamou a atenção dentro do quarto, ela virou para ver o que era e se deparou com os raios do sol batendo nas abotoaduras que os King haviam lhe emprestado, sendo refletidos pelos diamantes direto para visor do relógio que dali projetava raios multicoloridos nas paredes do local. Ela se aproximou e colocou a mão na direção dos raios e viu as diversas cores pintarem sua pele. Ficou pensativa.
Sempre que chovia e logo depois vinha o sol, um lindo arco-íris nascia no céu e o sonho de Samanta quando criança era poder pegá-lo. Agora, ali estava ela, com um arco-íris totalmente dentro de sua mão. Ela retirou a mesma e as cores voltaram a pintar o quarto. Enquanto olhava as paredes, Sam pensou em todos os sonhos que tivera até ali e uma certeza nasceu: precisava realizá-los como acabara de realizar aquele de tantos anos atrás. Olhou as roupas que usara no dia anterior em um cabide e delas para a rua ensolarada de Paris que começava a se agitar. Aproximou-se da janela e a fechou, depois enxugou os últimos vestígios de lágrimas, foi até o pequeno lavabo do quartinho em que estava e começou a se arrumar.

***

– Alô! Kevin? Sou eu. Passe para o Senhor King, por favor.
“Como assim quem é? Sou eu! Samanta….é, fica mesmo um pouco diferente. Vá chamá-lo, ande! Esta ligação é cara.” – Kevin chamou pelo Senhor King sem soltar o telefone e não muito tempo depois, Sam ouviu a voz do idoso:
– Alô!
-Alô! Bom dia, Senhor King!
– Samanta! Estávamos todos preocupados com você. Você disse que voltaria no mesmo dia, mas não voltou e não deu notícias. Aconteceu alguma coisa? Tem dinheiro para voltar?
– Tenho sim Senhor. Não se preocupe com isso, deu tudo certo e já recebi o pagamento. Aconteceram algumas coisas, mas eu contarei assim que voltar.
– E quando irá voltar?
– Pretendo fazê-lo hoje, mas se não o fizer, avisarei desta vez. Sinto muito por não tê-lo feito antes.
– Está certo. Tome cuidado –disse ele baixando o tom de voz – para não topar com Sophie François.
– Eu a encontrei, mas ela não me viu…ainda…
O idoso ficou em silêncio.
– Senhor King?
– Seja lá o que estiver pretendendo tome cuidado, minha querida. Não se arrisque demais, algumas pessoas não têm escrúpulos e essa mulher parece ser desse tipo.
Samanta se surpreendeu com o quão observador era o Senhor King, parecia até que já sabia o que havia acontecido.
– Não se preocupe, eu terei. Preciso desligar agora, quando eu chegar contarei todas as novidades. Até logo!
– Até logo! Se precisar de força é só olhar para as abotoaduras e para o relógio e lembrar que estamos sempre com você.
Sam sorriu. Sabia bem o quanto aquilo era verdade.
Despediu-se e desligou. Após pagar a Senhora que lhe permitiu usar o telefone, ela respirou fundo e caminhou até uma loja de tecidos ali perto.

***

SOPHIE

– Sophie François! Que maravilha que tenha podido vir! – falou René Fourrié se aproximando da francesa e encostando suas faces nas dela – E digníssimo Senhor François como está, Senhor? – perguntou o homem com um sorriso forçado, mas o marido de Sophie nem lhe deu atenção e apenas falou para a esposa enquanto pegava um charuto para acender.
– Vou falar com os Lafaiete, Sophie. – disse e olhou na direção dos homens que conversavam – Cuidado com suas companhias. – e saiu.
– Sempre um cavalheiro. – disse René agora transformando seu sorriso em cara de nojo. – Não sei como aguenta esse homem.
– Não sei por que você insiste em falar com ele, sabe que ele não gosta de homens afeminados. Você se põe nessa situação por que quer.
René deu de ombros e logo saudou Claude que chegou muito bem vestido acompanhado de duas Senhoras idosas, para as quais ele havia desenhado os vestidos feitos pela Senhora King.
Despois de conversarem os cinco por algum tempo, as mulheres se separaram do grupo e Claude, René e Sophie começaram a falar mal das roupas das mulheres que passavam e safadezas sobre os homens.
O salão de eventos estava repleto de pessoas bem vestidas e estilistas famosos, mas as estrelas da noite seriam Coco Chanel, Christian Dior e Pierre Balmain, os quais apresentariam suas roupas em um desfile que se realizaria na passarela montada no grande salão.
Sophie conhecia muitas pessoas ali, pois era sócia do neo-estilista Claude Marc, o qual não tinha peças muito originais, porém possuía muita qualidade na sua costura, o que valia o preço cobrado. Este iria se lançar definitivamente no evento e havia até mesmo chamado algumas pessoas para prestigiá-lo.
Os grandes desfiles foram anunciados e todos se voltaram para a passarela para ver os modelos que vestiam peças dos grandes estilistas. Cada um dos desfiles durou vinte minutos e depois disso todos beberam e comeram finos petiscos enquanto aguardavam o segundo momento do evento em suas mesas. A apresentação dos estilistas seria apenas uma exposição de seus trabalhos, os quais poderiam ser feitos de qualquer forma, mas é claro que os mesmos preferiam levar suas obras prontas, de preferência vestindo pessoas famosas ou de influência. Dizia-se que era a apresentação de novos estilistas, mas também os já lançados aproveitavam o evento para se manterem sempre em evidência, porém acima de tudo aquele acontecimento era para os que não eram conhecidos começarem a se tornar.
Desde o começo do evento os estilistas poderiam falar com o apresentador responsável pela apresentação dos mesmos deixando dados e coisas que gostariam que fossem faladas durante a breve “exposição” de seus modelos.
Assim que chegou, Claude colocou seu nome e o de Sophie na lista junto com as descrições de seu ateliê. No entanto, assim que o marido da francesa confirmou sua ida ao evento, Sophie preferiu não envolver-se, preferia que o marido achasse que sua ajuda a Claude era mínima e que por isso não recebia grande parte no dinheiro do amigo, pois do contrário seria possível que François quisesse saber as quantias que ela recebia para lhe dar menos dinheiro, ou pior, quisesse administrar os valores.
Apesar da vontade que tinha de receber também mérito pelo ateliê de Claude, ela se conteve em saber que todos ali já sabiam que ela era sócia do amigo. Todos, menos o marido, que realmente achava que sua participação era mínima.
Um a um os novos estilistas foram apresentados, levando os convidados que vestiam suas obras até o palanque para demonstrar concretamente o que haviam feito. Muitos dos convidados inclusive iam para aproveitar aqueles pequenos momentos de fama e demonstrar seu poder aquisitivo.
Os aplausos soaram para cada um dos artistas que subiam no palanque e no momento de Claude, Sophie levantou-se da mesa e aplaudiu de pé energicamente, enquanto o apresentador recitava as palavras que foram escritas por Claude e em seguida dava sua própria opinião sobre as peças. Tudo dentro de alguns minutos.
Claude entrou de braços dados com as duas senhoras que haviam falado com ele mais cedo e que estavam sorrindo, elas caminharam junto com ele até o fim da passarela e no final dela deram voltinhas acanhadas para depois segurar nos braços do homem e voltarem por onde vieram.
Sophie gritava de sua mesa palavras de elogio em francês, enquanto batia palmas. Já seu marido permanecia alheio àquela situação toda, pois buscava formas de se aproximar dos Lafaiete que naquele momento tiravam fotos para uma revista renomada.
Outros estilistas foram subindo ao palanque, mas agora Sophie não prestava atenção, pois aguardava o amigo que veio ao seu encontro felicíssimo.
– Esta feito, Fifi! Agora são os louros. Depois de hoje irão chover pedidos, pois as irmãs Chermont são as mulheres mais ricas dentro deste recinto depois de Heloíse Lafaiete, no entanto, René já fez questão de manchar a imagem daquela garotinha por nós de tal modo que Heloíse terá vergonha de dizer que foi vestida por essa inglesinha.
– Por falar nela, você fez o que eu pedi?
– Claro que sim, querida. – disse Claude tirando do terno um papel no qual estavam as descrições da obra de Susan Dover.
– Esconda isso! Não quero ninguém desconfiando de nós.
– Não irão. Não temos nenhum tipo de ligação com a garota e eu mesmo disse para René ficar sempre à vista para não ser culpado.
– Ótimo!
Distante deles as apresentações continuavam e eles se voltaram para lá. Minutos depois o apresentador começou a fazer suas despedidas.
– E este foi mais um evento de moda de Paris, Senhoras e Senhores. As apresentações terminaram por aqui, mas a festa contin…-nesse momento uma moça entrou pelo palanque correndo e entregou um papel na mão do apresentador que parou sua fala para visualizar a recém chegada informação – Oh! Esperem! Ainda temos mais um ateliê para ser apresentado.
Sophie que já cantava vitória por Susan Dover não ter sido chamada agora se via atenta, será que ela iria ser apresentada agora? Porém o apresentador falara ateliê e Susan apresentava-se apenas como uma estilista.
O apresentador olhou para o papel e sorrindo falou:
– E este é um ateliê inglês que pelo visto conquistou o coração de Paris – disse ele colocando mais entonação na penúltima palavra, o que deixou claro que havia uma interpretação por trás dela. E ele continuou. – Apresento-lhes o último ateliê da noite que traz ao palco os convidados mais renomados desta noite.
Sophie e Claude naquele momento representavam a audiência do salão que parara o que estava fazendo para ouvir aquela apresentação de última hora e para saber que ateliê especial era aquele e que convidados honrados seriam chamados.
– Senhoras e Senhores, é com muito respeito que chamo ao palco os Senhores Lafaiete e o ateliê The Kings…
Todos aplaudiram energicamente.
Os Lafaiete eram conhecidos em toda a França por sua fortuna e generosidade. Contribuíam com altas quantias para eventos beneficentes e além disso eram muito amigos do apresentador, o qual trabalhara quando jovem para eles na mansão.
Sophie e Claude aplaudiam sem forças, alguma coisa no nome daquele ateliê os deixara nervosos.
– Como você disse que se chama o ateliê dos perrapados? – perguntou Claude sem tirar os olhos do palanque.
– Já disse a você que eles não têm um nome. – disse ela da mesma forma.
Nisso subiram ao palco Juan acompanhado de seus filhos Leroy, Wallis e Jean, o qual vinha com uma expressão um tanto quanto carrancuda, e em seguida o Senhor Oliver de braços dados com a esposa.
E o apresentador continuou:
– O ateliê The Kings tem como representante aqui esta noite a alfaite: Samanta King!
Foi então que Sam subiu as escadas com um sorriso firme no rosto. Ela usava a mesma roupa do dia anterior com a diferença que agora tinha no pescoço uma gravata borboleta colorida com pequenos cristais que a faziam brilhar bastante, a qual combinava com o lenço de seda também colorido e que possuía um brilho a mais, colocado em sua lapela.
Assim que a luz tocou em Samanta tudo nela brilhou, os sapatos lustrosos, os cabelos bem arrumados e ela própria tinha um brilho especial e diferente aquela noite.
Sophie e Claude olhavam aquilo boquiabertos, enquanto todos não paravam de aplaudir e cochichar sobre aquela figura diferente e bem apresentada que acabara de chegar, os dois apenas abaixaram as mãos lentamente enquanto olhavam de forma fixa e abobalhada para o palco. O misto de sensações neles era gigante, pois queriam sentir raiva e deveriam sentir medo, mas a admiração pela figura de Sam sobre aquele palco naquele momento somada à surpresa de sua audácia os tirou deles mesmos.
Assim que Sam subiu ao palanque falou rapidamente ao ouvido do apresentador que assentiu, e depois continuou dando sua opinião, uma vez que Sam não tivera tempo de colocar mais do que os dados básicos do ateliê. Ele finalizou e olhando para os presentes falou:
– O ateliê é especializado em roupas masculinas, Senhoras e Senhores, mas trabalhou em parceria com uma estilista também inglesa que recebe o mérito deste belíssimo vestido usado pela Senhora Heloíse Lafaiete, a qual chamo ao palco, por favor.
Sophie, que achava que aquilo não poderia piorar, finalmente achou a raiva que estava dentro dela, porém sabia que não podia demonstrar e a prendeu. Ela segurou firme a taça em que bebia champanhe enquanto fuzilava Susan com os olhos.
O apresentador deu todos os detalhes que pôde observar e que sabia a respeito de Susan, pois também não havia descrições escritas para ela, mas ele ouvira falar um pouco a seu respeito, mal infelizmente, mas usou apenas o que era necessário, afinal estava ali no palco pessoas que o ajudaram muito e ele não poderia diminuir qualquer um que estivesse ligado a eles.
Sam ofereceu o braço a Susan e juntas puxaram o grupo formado pela família mais importante da França. Por fim o apresentador falou:
– Belíssimas roupas para uma belíssima família. E este é o último ateliê da noite, Senhoras e Senhores, uma salva de palma para The Kings…- então o apresentador percebeu que não lembrava o nome de Susan e rapidamente emendou- …and The Queen. The Kings and The Queen, Senhoras e Senhores.
Há alguns metros dali a taça que Sophie segurava quebrou-se e ela se levantou da mesa em uma raiva cega sem nem perceber que sua mão sangrava.