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20 e Poucos Anos – CAP 92

Após o almoço as crianças espalharam-se pela casa e os adultos foram para a varanda. O sol brilhava de um jeito bonito apesar do frio que fazia e eles foram descansar um pouco enquanto observavam a paisagem.
Estavam todos os mais velhos ali, os quais agora se divertiam tentando ensinar francês para Samanta, que ria de seus próprios erros junto com os anfitriões. Inclusive ria mais do que normalmente faria ali na mansão, pois acabara tomando uma quantidade maior de vinho que o costumeiro para momentos não festivos.
Depois de ensinarem até mesmo alguns trava-línguas franceses a ela, eles começaram a se separar em grupos de conversas, indo a maioria dos homens Lafaiete conversar com o pai; a maioria das esposas para outro lado; Pierre e Josephine ficaram conversando com Samanta e mais distante, Jean finalmente conseguira afastar Susan da conversa que tinha como foco Sam e agora tentava entretê-la com algum assunto que claramente a garota não se interessava, pois não parava de olhar para onde Samanta estava.
A jovem ruiva analisava os movimentos de Josephine que pareciam uma sucessão de passos que tinham como meta tocar Sam de alguma forma. O marido da francesa estava mais distante com as pernas cruzadas e um sorriso estranho que Susan não soube discernir. Ele participava da conversa e parecia não se importar com os toques constantes da esposa em Samanta, a qual estava de costas para Susan e por isso esta não conseguia ver suas feições.
– Jean! Venha cá filho! – chamou o Senhor Juan do outro lado da varanda.
– Algum problema, papai? – perguntou o rapaz um pouco incomodado pela interrupção do pai.
– Sei que não quer perder nenhum segundo longe da belíssima Senhorita Dover, mas poderia vir aqui um instante? É uma dúvida particular que precisamos tirar.
Jean corou e pedindo licença a Susan foi até a roda de homens que claramente falava sobre algum assunto safado, pois estavam todos com o sorriso maroto nos lábios.
– Você também, Pierre! – gritou Adam.
– Com licença, Senhoritas. – disse Pierre e foi se juntar aos homens.
Ao ver que Joshephine havia ficado sozinha com Samanta, Victorine a chamou, pois achava que estava a lhe fazer um favor.
– Voltarei logo, Sam. – disse se apoiando no braço de Samanta para levantar.
Assim que Josephine se afastou, Susan se aproximou de Samanta e perguntou em voz baixa:
– O que você pensa que está fazendo?
– Do que é que você está falando?
– Você está encantando Josephine Lafaiete, Samanta?
– Eu?! – disse Sam um pouco mais alto do que gostaria, atraindo olhares de Jean e de Josephine. Então se endireitou e forçando um sorriso, disse baixo – Eu não estou “encantando” ninguém, Susan. Por um acaso tenho cara de bruxa agora?
– Não é o que parece. Eu vi vocês duas na fonte…
– Então se nos viu sabe que ela é quem foi atrás de mim.
– Não minta, Sam.
– Por que eu iria mentir, Senhorita Dover. Ou por um acaso a Senhorita acha que não tenho os dotes necessários para atrair uma jovem francesa casada? Se for isso, saiba que tenho um bom exemplo para dar…
– Não precisa! – interrompeu Susan quase tão alto quanto Sam anteriormente, porém, apenas Jean olhou desta vez, mas foi chamado de volta à conversa em que estava rapidamente.
Susan então fez o mesmo que Sam fizera momentos antes, endireitou-se e deu um leve sorriso, mas estava nitidamente irritada.
– Venha comigo um instante. – disse Samanta e levantou-se seguindo para uma escada que dava para o jardim que ficava à frente da casa, longe da vista de quem estivesse naquela varanda.
Susan levantou-se, arrumou as barras do vestido e seguiu Sam para o jardim. Elas pararam perto de algumas mesas e bancos de pedra e Samanta começou a falar:
– Eu não flertei com Josephine Lafaiete, Susan.
– Não foi o que pareceu. – disse a garota instantaneamente – Você parecia estar gostando da mão dela em seu terno. – Falou esta última palavra com sarcasmo.
Samanta olhou para baixo e sorriu, então se voltando para Susan disse:
– Não vou dizer que foi ruim, mas daí a aceitar a proposta dela existe uma distância considerável.
– Que proposta? – perguntou Susan se aproximando.
Samanta amaldiçoou-se por sua língua comprida e falou:
– Nada demais. O que importa é que eu não aceitei.
– Sam, você sabe que pode confiar em mim. Posso não ser a melhor das pessoas sempre, mas sei guardar um segredo. Ou você não confia mais?
– Não é isso…é que…
– Sam, se é pra sermos amigas novamente, acho que precisamos confiar uma na outra. – falou Susan com um olhar expressivo.
Samanta pensou por alguns instantes, presa no olhar de Susan até que disse, passando a mão na nuca:
– Está certo, está certo! Escute, vou lhe contar, mas você não pode dar um mínimo sinal de que sabe de alguma coisa.
– Farei isso! Não se preocupe!
– Bom, você sabe o que significa ménage à trois.
– Oh, céus! – disse Susan colocando as duas mãos sobre a boca. Aparentemente a garota sabia o que significavam as palavras. – Você, ela e…?
– Pierre, sim.
– Oh, céus! O que você disse?
– Como disse antes, eu não aceitei. Eles são fregueses em potencial, misturar as coisas seria um risco que não estou disposta a correr.
– É só isso que impede você?
– Bom…tem também o fato de que não gosto de homens.
– Quer dizer então que você faria com duas mulheres?
– Er…- um sorriso sem jeito surgiu no rosto de Samanta.
– Você já fez?! Oh céus! Você já fez!
– Fale baixo que alguém pode nos escutar. E sim, já fiz. Muitas eram casadas, mas com o tempo comecei a exigir apenas mulheres solteiras. Sophie é a única exceção e continuará sendo. Estar envolvida em um único casamento é mais que o suficiente para mim.
– Você fez mais de uma vez?! – disse Susan que não tirara as duas mãos de perto da boca um instante.
– Sim. Mas há alguns meses eu parei. Percebi que a atenção na cama não é algo que eu goste de dividir. Mas antes disso já vinha evitando as casadas. Aprendi a respeitar o relacionamento dos outros, porém Sophie e o marido tem um casamento…diferente. Enfim, é isso. Está satisfeita? Há algo mais que queira saber?
Susan ficou pensativa mirando o rosto carrancudo de Sam que olhava ao redor, então respondeu:
– Sim.
– O que é?
– Você gostou?
Samanta olhou para Susan tentando saber se aquela era uma pergunta a qual a ruiva realmente gostaria de saber a resposta. Até que resolveu dizer:
– Sim. Eu gostei.
– Como é que isso funciona, Samanta? Você namora todas elas sem que saibam uma da outra? Ou vocês simplesmente se encontram todas juntas e…
– Eu não namorei e nem namoro nenhuma delas, Susan. Namorada de verdade eu só tive uma.
– Quem? – perguntou Susan curiosa.
– Aí está você! – disse Jean, em francês, vindo pelo mesmo caminho que as duas usaram para chegar ali. – Achei que tivesse se perdido. Vamos dar uma volta pelo jardim? – perguntou ele a Susan ignorando completamente a presença de Samanta.
– Pode ser daqui a pouco? Estamos tratando de alguns assuntos urgentes e…
– Senhorita King! – chamou a governanta que havia chegado ali por outro caminho. – O motorista já chegou e está a sua disposição.
Sam olhou para o relógio e Susan perguntou:
– Não ficará para o evento?
– Não. Infelizmente preciso ir. Terminamos nossa conversa em outra oportunidade. Foi um prazer revê-la, Su. – disse se aproximando da garota e encostando suas bochechas nas dela demoradamente. Depois fez um leve aceno com a cabeça para Jean, dando um sorriso que poderia ser interpretado como cínico, para então seguir a governanta.

***

Assim que chegou à área urbana de Paris, Samanta pedira para o motorista deixá-la em uma padaria, pois queria comprar alguns chocolates que levaria de lembranças para todos, apesar deste ter sido um pedido de Kevin e Antony.
Ela adentrou o local e pediu por uma caixa grande de chocolates, porém estas haviam acabado.
– Do outro lado da rua tem um café que vende estes chocolates, Senhor. – disse um homem muito idoso que estava sentado atrás de uma caixa registradora e claramente via e ouvia mal, pois usava óculos com lentes fundas e falava muito alto e demorara para entender Sam – É por isso que demoramos a fazer pedidos para cá. Onde já se viu? Um café vendendo artigos de padaria? Cada um deveria se contentar com o ramo no qual trabalha…- continuou ele falando mesmo depois de Sam agradecer pela informação. Ela saiu e se dirigiu até o local.
Samanta entrou e falou em francês com o balconista que era um rapaz muito novo. Ele olhou as prateleiras, mas não achou nenhuma caixa ali, então disse:
– Posso ir ver lá dentro se o Senhor…a Senhorita não estiver com pressa. – disse ele meio sem jeito, pois não sabia como tratar Sam.
– Faça isso, por favor. Aguardarei. E é Senhorita. – disse ela com um sorriso que foi retribuído pelo rapaz e sentou-se em um dos bancos que ficava perto do balcão.
Ela olhava distraidamente para fora, analisando o movimento da rua, quando ouviu uma voz familiar falando em inglês:
– …ele fez questão de vir a este evento. Disse que quer aparecer nas colunas sociais e como estamos falando de Coco Channel, Christian Dior e outros grandes nomes é óbvio que este acontecimento estará em capas de jornais e revistas. Esse tolo! Ninguém quererá tirar fotos de um velho barrigudo.
– Cuidado com as palavras, mon chéri. – disse uma voz masculina – Ele gosta de vir até aqui antes de ir para o bar.
– François não sabe inglês, Claude. É um velho burro e tarado que inclusive vem aqui antes de ir ao bar ver se consegue alguma mocinha para lhe “pagar uma”…se é que você me entende…antes de se embebedar com whisky barato. Até para beber ele é pão duro. Se não fosse o ateliê, eu estaria presa na Inglaterra para sempre. Quem diria que aquela espelunca me ajudaria tanto.
– Bendita a hora que você achou aqueles velhos, mas acho que eles não irão durar muito. A velha inclusive já está adoentada, não é mesmo? Teremos que achar outros logo para fazer o serviço.
– Não se preocupe. Eles já estão começando a ensinar alguns tolos iguais a eles e Samanta já é uma ótima alfaiate.
– É, mas ela não vai querer se submeter ao que os velhos são submetidos, ela vai querer uma parte justa.
– Ela não sabe, mon cher.
-Não?! E você a traz em diversos eventos aqui! Não tem medo que ela descubra?
– Samanta come na minha mão, Claude. Ela é tão grata a mim que nem cogita a possibilidade de eu estar superfaturando com o ateliê.
Quando Sam ouviu estas palavras, suas mãos apertaram a maleta que estava em seu colo instantaneamente, ela levantou-se para ficar atrás de uma coluna e então olhou na direção em que as vozes vinham, porém não conseguiu vê-los, estavam em uma mesa de sofás que possuía divisórias e ela só conseguia ver as mãos dos dois, pois estavam perto da parede.
Ela teve vontade de sair dali imediatamente, mas se segurou e continuou atenta à conversa.
– Não sei, Fifi. Quando eu me lançar neste evento teremos muitos pedidos e o ateliê irá ganhar mais dinheiro, logo eles podem querer começar a andar com as próprias pernas. Quem fará minhas obras? Não é fácil achar mulas talentosas.
– Não se preocupe. Assim que a produção aumentar eles precisarão de mais pessoas. Fora isso, posso alegar aumento de preços ou ainda aumentar o aluguel.
– Oh! Verdade! Havia esquecido que você é a dona do local onde funciona o ateliê. Essa é sua carta na manga, Fifi.
– Sim, só preciso contatar alguém novo para fingir ser o dono do local. O velho que usei da primeira vez morreu mês passado. Ataque cardíaco.
– Arrume alguém que cobre pouco e que seja burro. Não quero ter que dar mais do meu dinheiro para você.
– Ha, ha! Não se preocupe, querido. Sei escolher minhas mulas muito bem.
– A melhor de todas é essa crioula em? Diga-me, ela faz bem feito, não faz? Nunca vi você negando uma festinha em minha casa antes.
– Ela me satisfaz muito bem, mas não estou negando apenas por isso. Acho que estou ficando velha para essas festinhas.
– Humm…sei. Você está é caída por essa Samanta.
– Querido, posso ter qualquer um aos meus pés, você acha que eu iria mesmo prender toda minha atenção a uma crioula pobre? Ela convém, simples assim.
– Convir é ser gentil, Fifi. Você a usa em todos os sentidos.
– Mas ela jamais poderá dizer que saiu perdendo. Afinal ela também…
– Senhorita! – chamou o balconista que havia voltado. Sam deu um salto e se desencostou da coluna. – Desculpe-me Senhorita, não foi minha intenção assustá-la…
-N-não se preocupe. – disse ela arrumando o terno.
– Aqui está. Achei estas duas. Qual vai querer? Esta aqui possui bombons de nozes, de avelã, de…
– Quero esta, por favor. – disse rapidamente tirando o dinheiro de seu bolso com pressa.
– Hã…certo. – falou o rapaz sem jeito, pois nem dera todos os detalhes dos sabores – Quer embrulhar para presente?
– Não é necessário, levarei na mão. – disse ela pegando a caixa e colocando o dinheiro em cima do balcão, se direcionando para a porta em seguida. – Obrigada!
– Seu troco, Senhorita! – falou o rapaz ao ver a quantia sobre o balcão.
– Pode ficar com ele. Tenha um bom dia! – disse Samanta que já se encontrava do lado de fora.
Dentro do café, Claude viu um rapaz muito elegante saindo com uma caixa de bombons na mão e lembrou-se de um jovem que fizera o mesmo com ele certa vez, o que o fez iniciar essa história para Sophie.
Samanta atravessou a rua com a cabeça a mil. Caminhou sem rumo por um tempo enquanto pensava no que faria a seguir.

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