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20 e Poucos Anos – CAP 86

Samanta olhava pensativa através da janela do trem que a levava de volta à Inglaterra. Depois de passar por uma floresta de pinheiros agora observava certa mudança na vegetação que apresentava carvalhos ao longe e arbustos mais próximos que passavam como um borrão. Já havia entrado em território londrino.

Aos poucos, um a um os carvalhos iam ficando para trás, mas uma coisa não mudava: o céu. Este parecia nem se dar conta que a locomotiva e seus vagões serpenteavam abaixo dele. As nuvens moviam-se lentamente e a seu tempo, diferente dos campos que mudavam à medida que o trem avançava.

Curioso como o céu não muda. – pensou Sam e imediatamente lembrou-se da noite anterior quando Susan dissera o mesmo a seu respeito, mas o foco de sua lembrança mudou imediatamente para um outro momento: o beijo.

Os lábios de Susan tocaram os seus com uma delicadeza que contrastava com a força de suas mãos, as quais pareciam ter medo que ela evaporasse a qualquer momento. A ruiva uniu seu corpo ao de Samanta e em seguida imprimiu pressão ao beijo, o que levou Sam a pensar que Susan tinha medo de ser recusada. Porém, quando Sam retribuiu o beijo e as mãos que estavam em seu rosto enlaçaram seu pescoço, a morena percebeu que estava errada. Aquele era um beijo de saudade.

A ruiva entreabriu a boca e Samanta entendeu o que ela queria. Sua língua adentrou calmamente a boca de Susan enquanto suas mãos envolviam a cintura desta. O beijo foi demorado e Samanta lutou contra todos os seus impulsos para não passar daquilo.

Susan se aninhou em seus braços assim que seus lábios se separaram e dormiram daquele jeito. De manhã, quando Sam acordou, Susan já não estava mais na cama. Samanta queria conversar a respeito da noite anterior, mas não teve oportunidade, pois Jean ficou ao lado da jovem Dover durante todo o café da manhã e depois no carro quando voltaram para a cidade. Depois disso, Sam foi deixada na estação.

Susan a evitara o tempo inteiro, mas assim que Samanta desceu do carro e voltou-se para se despedir cordialmente, recebeu um olhar significativo da ruiva.

– No final de semana ela virá. – pensou sem perceber que estava ansiosa por aquilo.

***

Samanta fora direto da estação para o ateliê, pois não avisara ninguém que dormiria fora e sabia que eles deveriam estar preocupados.

Assim que chegou levou alguns sermões do Senhor e da Senhora King e cumprimentos alegres de um Kevin aliviado.

Depois que explicou tudo e contou como as coisas haviam caminhado, ela disse:

– Para que isso não aconteça mais irei hoje mesmo comprar o telefone e mandar instalar a linha aqui no ateliê.

– Tudo isso só com a metade do valor dos ternos? – perguntou Kevin boquiaberto.

– Exatamente. Que tal irmos juntos escolher?

– Acho que é uma boa ideia! – disse Kevin que dobrava alguns tecidos, mas parara ao ouvir a proposta de Sam e agora olhava cheio de expectativa para a resposta do Senhor King.

– O que me diz, Madalena? – perguntou o velho homem à esposa.

– Acredito que este é um marco para o ateliê e devemos ir todos juntos.

– Êba! – exclamou Kevin bagunçando a pilha de tecidos que havia arrumado.

– Então vamos! – disse o Senhor King levantando-se para pegar o chapéu e o terno – Pois quando voltarmos o Senhor Kevin terá muitas coisas para arrumar.

Samanta riu e falou:

– Vamos! Na volta aproveitamos para passar na padaria. Acredito que Antony esteja por lá.

– Ele ficará feliz! – falou Kevin indo atrás de sua boina.

Todos se aprontaram e ficaram do lado de fora esperando Kevin fechar as portas do estabelecimento. Enquanto aguardavam a Senhora King se aproximou de Sam arrumando o xale e então disse baixinho:

– Eu sempre quis ter um telefone. Obrigada por isso, minha querida. – e com um lindo sorriso foi para perto do marido.

***

A pensão era uma alegria só. Eles comemoravam a venda dos ternos que trouxeram tantos benefícios com um delicioso almoço feito pela Senhora Rachel que o preparara com a ajuda da esposa de Tom, Emily, a qual realizava alguns afazeres da pensão ao lado da doce Senhora como forma de pagamento do aluguel do quarto em que morava com o esposo e a filha, pois o rapaz ainda não havia conseguido um trabalho após retornar da guerra.

As duas mulheres faziam os pratos de todos para não dar confusão em volta da mesa. Antony, que já recebera o seu, comia feliz a lado de Kevin, enquanto Tom alternava colheradas com sua filhinha, Alice. Do outro lado da mesa os Senhores King conversavam com o Senhor Brian. E perto da porta, ainda esperando ser servida, Samanta observava tudo isso enquanto se lembrava de Donny, que adorava uma boa comemoração. Perguntava-se como ele deveria estar no Brasil quando um garotinho cigano adentrou a cozinha e correu até ela entregando-lhe um bilhete. Ela agradeceu e abriu o papel no qual estava escrito:

 

“Precisamos conversar. Estou na área em construção.

Ass: S.”

 

Samanta ficou nervosa. Aquela com certeza era a letra de Sophie. O que será que ela desejava conversar de tão importante que a fez sair de casa naquele horário arriscando-se ser vista dentro da pensão? Será que ela havia descoberto sobre sua viagem?

Sam levantou a cabeça do papel e se deparou com o garotinho ainda lá, o qual olhava cobiçoso para a mesa sortida.

– Emi, você poderia…-iniciou Sam para Emily, mas a Senhora Rachel já vinha de lá com um prato de comida para o garoto. Ela sorriu para a Senhora Rachel e saiu para o pátio em direção ao corredor de seu antigo quarto.

Aquela área, onde quartos mais simples ficavam, estava sendo modificada para fazer quartos maiores, pois eram muitas as famílias sem casa e por isso, imóveis mais completos eram uma melhor opção naquele momento, porém os gastos haviam excedido às expectativas e os donos da pensão haviam parado a reforma por enquanto.

Sam dobrou o corredor que antes acabava naquela curva e se deparou com Sophie, no final do novo corredor que estava coberto apenas por vigas de madeira. A mulher usava um chapéu, o qual possuía um pequeno véu que cobria seu rosto, e um sobretudo de tecido leve.

– Bastante discreto. – disse Samanta sorrindo enquanto se aproximava.

– Não seja cínica! Diga-me onde passou o dia de ontem?

– O que? A Senhora François veio até esta humilde pensão apenas para saber o meu paradeiro do dia anterior? Estou incrédula.

– Não me faça de tola, Samanta. – disse a francesa jogando o véu de seu chapéu para trás, expondo um rosto bem maquiado e atrativo. – Sei que você saiu de manhã cedo e voltou apenas hoje.

– Seu capanga agora fica de vigília 24h na frente da pensão?

– Não, mas até a hora que ele se retirou você não havia chegado e agora vejo que acertei em dizer que você passou o dia fora.

– Então Gonçalo é mesmo seu informante, han?

– Não se faça de surpresa! Você sempre soube. De qualquer forma, isso agora não vem ao caso. Quero saber por onde você andou!

– Você fica sexy demais quando fica brava. – falou Samanta se aproximando de Sophie que estava perto da parede.

– Não me venha com tentativas fajutas de desviar minha atenção. Você passou o dia com a Lourdes, não foi?

– E se foi?

– Já lhe disse que não gosto que fique com aquela mulher.

– O que eu faço em meus dias de semana são apenas da minha conta, Senhora François, ou já se esqueceu do nosso trato?

Se aproximando de Sam, Sophie disse:

– Você pertence a mim, Samanta! E quero você disponível quando eu estiver.

“Meu marido viajou ontem e ao invés de eu passar a noite com você passei sozinha. Isso é inaceitável!”

– Não pertenço a ninguém, Sophie. A casada aqui é você.

– Se possível fosse eu casaria com você e te acorrentaria em minha cama. – disse isso e puxou Samanta pela gravata para um beijo.

– Casaria é? – perguntou a morena antes de ter seus lábios envolvidos pelos de Sophie.

– Sim. – disse Sophie e a beijou novamente. Então, a olhou de cima a baixo e falou – Você está arrumada demais. Para onde vai?

– Você também está bastante arrumada e eu não estou questionando onde estava. O que é isso agora?

– Eu estava na casa dos Blumm e fiquei sabendo que você havia retornado. Vim porque senti sua falta, sua ingrata, algo que pelo visto não é recíproco.

– Aprendi a viver apenas com meus finais de semana, Senhora.

Sophie deu um tapa em Samanta com a mão que não segurava a gravata e disse:

– Aprenda a não viver sem mim! – e novamente puxou a gravata de Sam trazendo-a para mais um beijo feroz correspondido à altura pela morena, que tirou o sobretudo da francesa jogando-o no chão e encostou Sophie na parede de cimento, começando em seguida a levantar seu vestido.

– Aqui não! Está claro e movimentado lá fora, alguém pode ouvir!

– Deixe que ouçam e venham ver o quão safada é a esposa do Senhor François.

– Respeite-me sua…

Sam interrompeu a frase de Sophie ao pegar um braço da mulher e virá-la de costas. Ela segurou os dois pulsos da francesa contra a parede enquanto voltava a levantar o vestido da mesma. Então disse:

– Você não se arriscou vindo até aqui para ter de mim respeito. Eu sei o que você quer de mim agora – e puxando a calcinha da francesa de uma só vez, o que acabou rasgando a peça, aproximou-se do ouvido dela e sussurrou roucamente – A Senhora não passa de uma vadia, madame François!

Então penetrou de uma só vez com seu polegar o sexo já encharcado de Sophie, que gemeu alto, o que fez Sam colocar sua mão sobre a boca da mulher imediatamente.

– Parece que seu medo de alguém aparecer se dissipou não é mesmo, Senhora? – falou Samanta roucamente ao ouvido da francesa, a qual se excitou ainda mais e se empinou para Sam, que tirava e colocava o dedo dentro da mulher com força, ao mesmo tempo que seus outros dedos se esfregavam no ponto de prazer dela.

O orgasmo veio e a francesa mordeu a mão de Samanta soltando um gemido abafado, mas audível. A inglesa colocou sua coxa entre as pernas de Sophie e pressionou com ela sua mão que ainda penetrava a mulher, fazendo-a imediatamente morder o braço de Samanta para abafar um gemido bem mais alto.

Assim que achou ser suficiente, Samanta tirou seu dedo de dentro do sexo de Sophie bem devagar. Então, ela deu um passo atrás e tirou do bolso do terno um lenço para enxugar os dedos. Enquanto fazia isso, falou:

– Desculpe pela sua roupa íntima, Senhora. Mas talvez assim a Senhora aprenda a não usar uma quando for me encontrar da próxima vez. – e deu um sorriso cínico sem parar de fazer o que estava fazendo.

– Ora sua… – Sophie tentou dar um tapa novamente em Sam, mas a morena segurou a mão que vinha em sua direção e puxou a francesa para um beijo rápido, soltando-a em seguida. – Você tem sorte de ser boa no que faz, do contrário já teria aprendido a me respeitar. – disse a francesa endireitando suas vestimentas – E por falar em “sorte”, consegui algumas encomendas de vestidos e outras peças para um evento que terá en France em duas semanas. – Sophie abriu a bolsa, que ficara até aquele momento em cima de alguns baldes que estavam por ali, e tirou um papel no qual estavam escritas várias medidas e outros dois com esboços de vestidos. – Aqui estão as medidas e os modelos.

– Irei conversar com a Senhora King a respeito. Ela ainda não terminou o pedido anterior, não sei se conseguirá…

– Samanta, entenda, os pedidos que consigo têm que ser feitos, porque são eles que mantém aquele lugar de pé.

– Mas de nada adianta termos pedidos que não conseguiremos finalizar, Sophie. Duas semanas? É pouco tempo. Sem falar que ela tem ainda outros pedidos além dos seus.

– Pois então que ela chame alguém para ajudar. Coisa que já deveria ter feito há muito tempo.

– Mas o dinheiro…

– Não! – disse Sophie levantando a mão à frente da boca de Samanta –  Recuso-me a entrar nesse assunto mais uma vez. Eu já disse tudo que tinha para dizer a respeito disso.

“Se o dinheiro é pouco, o melhor jeito de mudar a situação é produzindo mais, logo, dispensar trabalho não vai resolver nada. Dê um jeito nisso!”

Falou a francesa para em seguida pegar seu sobretudo do chão, sacudi-lo e coloca-lo sobre os ombros.

– Vá! Eu irei logo depois. Se tiver alguém no caminho distraia para que eu possa sair.

Samanta assentiu e voltou até a cozinha onde seu prato de comida já esperava por ela. Sam sentou-se perto da porta e de lá viu Sophie caminhando a passos apertados para fora. Então olhou para a Senhora King que conversava tranquilamente com Emily e pensou em como faria para resolver aquele problema.

 

 

 

 

 

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