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20 e Poucos Anos – CAP 85

A chuva continuava caindo em Paris e mesmo com as cortinas fechadas as luzes dos relâmpagos iluminavam o quarto. Os trovões soavam assustadoramente próximos, causando leves tremores nos cômodos.

Samanta estava acordada. Assim que deitou, depois de discutir com Susan, seus pensamentos voaram para três anos atrás, quando ela recebera um pedaço de papel com algumas poucas palavras que indicavam o fim de seu namoro.

Não fui merecedora nem de um término decente. – uma lágrima de ressentimento escorreu e ela enxugou no travesseiro.

Depois daquele dia Sam pensara em todos os motivos e chegara à conclusão que o problema não era sua condição social, pois Susan amava Samuel e se arriscava por ele. O problema era seu gênero. Ela claramente não aceitava quem Sam era e isso a fez se afastar sem ao menos se dignar a lhe falar pessoalmente.

Virou de barriga para cima e recapitulou sua vida amorosa: Carina a queria do jeito que ela era, mas não aceitava sua posição social e nem o que a sociedade achava daquilo. Susan, de acordo com o que dizia, não se importava com o que a sociedade pensava, mas claramente não aceitava quem Sam era. E tinha Sophie, que apesar de todos os seus defeitos fora sincera desde o início, mas o sentimento entre elas era de pura luxúria.

Ela passou as mãos nos cabelos enquanto olhava para o teto pensando sobre sua vida. Que caminho era aquele que ela estava trilhando? Ela não tinha ideia. Olhou para a mulher ao seu lado e se sentiu triste. Se Samanta fosse homem com certeza ainda estaria com Susan desde aquela época, pois não deixaria uma moça como ela escapar. A ruiva era o tipo de mulher que qualquer pessoa decente gostaria de ter ao seu lado. Era inteligente, amiga, humilde…e pensando sobre isso Sam percebeu que não poderia exigir que uma moça tão incrível como ela ficasse ao lado de uma pessoa que não tinha absolutamente nada a oferecer além de si própria.

Uma mulher como Susan merecia mais. Por mais que ela própria dissesse que não, ela merecia mais. Fechou os olhos e foi levada para poucos anos atrás que pareciam ter sido há uma eternidade: Sam esperava sentada na mureta da pensão a chegada de Susan. Uma voz doce soou em seus devaneios:

– Sam.

Um raio forte brilhou dentro do quarto e Sam escorregou as mãos dos cabelos para os ouvidos, pois sabia que um trovão alto estava por vir.

Sam. – soava a voz distante à medida que a imagem da moça se desfazia em seus pensamentos.

– Samanta!

A morena se assustou ao ouvir seu nome sendo falado ao seu lado.

 

SUSAN

A chuva continuava forte com raios iluminando o quarto, mas a jovem Dover não se incomodava.

Antigamente o mínimo trovão a fazia se assustar, mas depois de certa noite, todas as vezes que uma tempestade barulhenta e iluminada caia, seu pensamento ia para uma lembrança:

“A tenda estava escura. Não se conseguia ver um palmo à frente do nariz. Um trovão soara a pouco assustando Susan e fazendo-a se aproximar de Samanta. Ela então começara a se mover contra a mão da morena sentindo sensações deliciosas semelhantes às que sentira quando atacara seu travesseiro na noite anterior.

– Susan, você sabe o que está fazendo? – sussurrou Sam.

– Shhhhh! – disse colocando um dedo sobre a boca de Samanta; mantendo a outra mão na mão da morena para deixá-la firme, e voltando a fazer seus movimentos lentamente – Não fale nada! Não fale nada!

Samanta tirou a mão de Susan das suas e esta por um instante achou que estava sendo rechaçada, mas rapidamente essa ideia se esvaiu quando a mão ágil de Sam encontrou a barra de seu vestido e o levantou.

Ela ia gemer alto, mas encontrou o ombro de Sam e o mordeu. As mãos ávidas da morena começaram a massagear a região de prazer da ruiva por cima da calcinha já encharcada. Samanta acelerou seus movimentos e Susan teve um orgasmo rápido ali mesmo ao mesmo tempo em que mordia forte o ombro de Samanta.

Samanta ficou de frente para a ruiva e as duas ficaram a se olhar no escuro. Uma sequência de raios caiu e elas puderam ter o vislumbre das feições uma da outra: feições de desejo.

Susan não pensou muito, segurou Samanta pela nunca e a beijou.

Samanta a puxou para mais perto e colocou sua língua na boca de Su que não fez objeção como da primeira vez em que Samanta tentara aquilo.

A língua de Samanta começou a passear pela boca dela e quando Sam se afastou para recuperar o fôlego, Susan a puxou novamente e colocou a sua língua na boca de Samanta.”

Contraiu-se ao lembrar-se por completo daquela noite. Fazia um bom tempo que ela passava parte dos temporais se concentrando para não lembrar dos detalhes daquele dia.

Sentiu Sam mover-se atrás de si.

Com certeza saber que a morena ainda estava acordada não ajudava em nada sua situação.

Um raio extremamente forte fez sua luz atravessar as cortinas do quarto e um trovão alto soou em seguida.

Apesar do frio lá fora, o corpo de Susan estava em chamas como poucas vezes ela permitira que ele ficasse em dias de tempestade como aquela.

Quando isso acontecia ela usava um travesseiro para se aliviar, porém, naquela noite, Samanta estava ali, na mesma cama que ela.

– Sam. – ela chamou, mas não obteve resposta.

– Samanta!

Percebeu o corpo atrás de si mover-se de forma repentina.

– Acordei você?

– N-não. Eu já estava acordada. – falou Samanta enxugando rapidamente as lágrimas.

Susan sorriu ao ouvir Sam gaguejar. Ela adorava aquele jeito nervoso que demonstrava respeito e/ou vergonha, então falou virando-se:

– Você não mudou nada.

– Por que diz isso?

– Porque é o que eu acho.

– Se você soubesse o que andei fazendo esses três anos, não diria essas coisas.

Ao ouvir essas palavras, Susan lembrou-se da mulher que estava com Sam no Teatro do Louvre. Sabia que ela era casada, mas também sabia que sua reputação era duvidosa. Ouvira de algumas amigas de sua mãe que o marido desta viajava muito e que constantemente ela era vista conversando com rapazes, mas não se tinha nenhuma prova ou testemunha de que ela traía o marido.

– O que você andou fazendo tem a ver com Sophie François?

Samanta virou-se para olhar Susan nos olhos.

A resposta ficou clara no silêncio de Sam e a ruiva apenas disse voltando seu olhar para a janela atrás de Samanta.

– As vi no Teatro do Louvre na exposição. Vocês estão juntas? – perguntou calmamente e em seguida voltou seus olhos para os de Sam.

Samanta que até então estava surpresa com todas aquelas perguntas se recompôs. Por um instante sentiu-se como se tivesse traído Susan, mas logo se lembrou de que ela fora parar nos braços de Sophie justamente por ter sido deixada pela ruiva. Então sentiu-se à vontade para responder.

– Não. Apenas nos encontramos aos finais de semana. O que tenho com ela é tão intenso quanto o que tenho com outras. O que nos deixa em contato por mais tempo são os negócios. – falou sinceramente.

– “Outras”?

– Não sou mais a mesma, Senhorita Dover. – disse isso e olhou para o teto.

Susan fez o mesmo por alguns segundos enquanto pensava, depois se voltou para Sam e perguntou:

– Foi por minha causa?

Samanta olhou de esguelha para Susan e respondeu enquanto se virava de costas para ela.

– Não vem ao caso agora. Acho melhor irmos dormir. Boa noite!

A jovem Dover ficou observando Samanta com tristeza. Sabia muito bem o que tinha feito e como deveria ter sido doloroso para a morena a forma como as coisas terminaram, mas ela precisou fazer. A sociedade e a religião eram impiedosas quanto aquele tipo de coisa. Fora isso, tinha seus pais, os quais ela amava muito e não queria vê-los decepcionados com sua única filha.

Na época, Susan chegou até a pensar que deixando Samanta talvez ela se “endireitasse” e arrumasse algum moço que mudasse seus sentimentos, mas após três longos anos Sam não mudara e os sentimentos de Susan por ela também não.

– Desculpe! – falou Susan com uma voz trêmula não calculada.

Sam abriu os olhos, mas não se moveu. Então, Susan continuou:

– Eu era muito jovem, tomei uma decisão de cabeça quente e depois que esfriei não tive como voltar atrás…

– Por quê? – perguntou Sam virando-se.

– Por que o que? – voltou a perguntar uma Susan confusa.

– Por que não teve como voltar atrás? O que impediu você de voltar assim que percebeu que tinha tomado a decisão errada?

Susan ficou calada. Sentiu-se acuada em seu lado da cama. Sua resposta seria justamente as coisas que ela costumava dizer não se importar: sociedade, religião e a opinião de seus pais.

– Não sabe a resposta? Pois eu vou dá-la a você – disse Sam sentando-se na cama sendo seguida por Susan. – Você não voltou atrás porque não aguentaria ter os outros apontando para você e rindo da sua cara por você ter tido uma paixonite por uma mulher, pobre e preta. Mas vou dar uma notícia a você, Senhorita Dover – cuspiu as últimas palavras com raiva – EU SOU essa mulher, pobre e preta e as pessoas apontam e riem da minha cara todos os dias, mas minha história quem conta sou eu e nela faço questão de excluir esse tipo de gente que não acrescenta nada. – nesse momento, lágrimas escorriam pelas faces de Susan – Não são um bando de idiotas quaisquer que vão mexer com as minhas estruturas. Apenas aqueles que estão aqui dentro – falou e espalmou a mão sobre o lado esquerdo do peito – tem força suficiente para me abalar, então saiba, que nem o pior escárnio que já levei na cara se compara ao que você fez comigo.

Um soluço de choro fez Susan tremer e ela levou as mãos à boca sem tirar os olhos cheios de lágrimas de cima de Samanta, a qual ofegava e nitidamente segurava um choro de uma ferida nunca curada.

– Eu sinto muito, Samanta. Se você soubesse…- disse Susan com a voz embargada.

– Eu sei. – falou Sam com raiva e voltou a se deitar de costas para Susan.

– Não, não sabe. – disse a jovem Dover e num impulso foi parar às costas de Samanta, colocando seu braço por debaixo do braço da morena, envolvendo o ombro dela e trazendo-o com força para si.

Ela chorou com a testa colada nas costas de Samanta por um tempo impreciso até que se acalmou e, posicionando sua boca próxima à orelha de Sam, disse:

– Nunca te esqueci.

 

SAMANTA

A respiração de Sam descompassou ao ouvir as palavras de Susan. A moça voltou a encostar o rosto em suas costas e aproximou o corpo ainda segurando firme seu ombro contra ela.

Samanta não se mexeu, mas involuntariamente tudo nela se movia de algum modo: o coração batia forte, a respiração fazia seu peito aumentar mais que o normal. Ela sentia que todas as suas células estavam alteradas, pois seu corpo estava quente e ondas de arrepio nasciam dos pontos em que o corpo de Susan encostava-se ao dela indo convergir em uma região peculiar, a qual sentia todas essas reações ao mesmo tempo. Mas mesmo assim ela permaneceu firme até o momento em que os soluços de Susan quebraram o silêncio do quarto.

– Sinto tanto, Sam…eu queria tanto ser corajosa como você, mas eu não sou. Nem para mim mesma.

A pose rígida de Samanta se desfez e ela virou-se para envolver Susan em um abraço e disse:

– As minhas opções eram ser feliz ou não. Coragem foi algo que surgiu no momento em que eu fiz a escolha que precisava dela.

Susan estava aninhada no peito de Sam e ouvia suas palavras e as batidas altas do coração da mesma. Era reconfortante.

Elas se separaram e ficaram uma de frente para outra encarando apenas as silhuetas de suas faces por conta do quarto escuro.

Samanta não conseguia ver a expressão de Susan, mas percebeu que o rosto dela começou a se mover em sua direção. Afastou-se um pouco e instantaneamente a aproximação parou. Ela não se sentia preparada para aquilo. Já havia dormido com tantas mulheres sem nenhum tipo de preliminar, no entanto, com Susan tinha medo, pois uma esperança podia nascer ali e Samanta poderia sofrer novamente.

Susan voltou a deitar sua cabeça sobre o travesseiro e ainda de frente para Sam, perguntou:

– Sei que deve estar muito magoada e eu não esperaria diferente. Mas eu poderia fazer um último pedido?

– Sim.

O quarto estava escuro, mas mesmo assim Susan desviou o olhar para baixo quando disse:

– Um último beijo.

Sam não falou nada e Susan continuou:

– Eu sei que não sou merecedora de nada que venha de você depois do que fiz, mas ao menos minha escolha me deu coragem de te pedir isso.

Samanta não se moveu e nem nada disse, então Susan se pronunciou mais uma vez.

– Compreendo. Desculpe. Eu apenas…

A morena repentinamente pegou as duas faces de Susan com as mãos, interrompendo a frase da moça e falou:

– A decisão que você tomou não requer coragem, ela é regada a medo.

– Você está enganada – falou Susan em um quase sussurro – foi preciso muita coragem para deixar você para trás.

– E é necessário muito medo para não voltar após se arrepender. – falou Sam em voz baixa e calmamente.

Susan nada falou. Samanta estava certa, sua decisão havia sido baseada em medo de ser descoberta, da reação de seus pais, de…Deus. Sim, ela temia o julgamento de Deus. Não havia percebido que se importava com todas aquelas coisas até se ver enfrentando todas elas. Mas agora, ali, com seu rosto entre as mãos de Samanta, questionava tudo aquilo.

Seu sentimento parecia tão puro e dera a ela uma visão tão limpa, a qual não via condição social, cor da pele ou gênero. Ela estava diante de um sentimento que via apenas o que Sam era, sem roupas caras, sem posição social, sem permissões religiosas ou familiares, sem ensinamentos escolares. Ela via o interior de Samanta, ela via sua alma. Susan era apaixonada pela alma de Samanta e aquilo não havia nada no mundo que pudesse julgar, pois almas eram feitas por Deus, o detentor da pureza, logo, algo capaz de manchá-las não deveria ser ao mesmo tempo capaz de trazer os melhores sentimentos à tona.

– Coragem, Susan! – disse Samanta afrouxando as mãos que seguravam o rosto da ruiva, a qual percebeu que Sam ia se afastar.

A voz da morena começou a ressoar na cabeça da jovem Dover.

            – Coragem, Susan!

            – Coragem!

            – Coragem!

            Um raio caiu e sua luz deu a Susan um vislumbre do semblante calmo e triste de Samanta.

            – Coragem…

A voz se dissipou ao mesmo tempo em que um sentimento cresceu com força dentro dela. E colocando as mãos nas faces de Samanta selou seus lábios aos da morena.

 

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