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20 e Poucos Anos – Cap 84

– Ainda com medo de tempestades, Senhorita Dover? – perguntou Jean Lafaiete que se aproximava da jovem ruiva.
– Perdi esse medo há muito tempo. – falou Susan virando-se com o pensamento longe e lembrando-se de certa noite, em uma tenda, há três anos.
– Como fez para superar? Tenho medo de altura e talvez sua metodologia possa se aplicar a mim. – perguntou ele em tom descontraído.

Susan que estava com o olhar distante focou Jean e percebeu que o que acabara de lembrar não era algo que poderia ser falado para alguém. Nem ela mesma permitia-se lembrar dos detalhes daquela noite.

– Simplesmente aconteceu. – disse com um sorriso tranquilo.

Jean sorriu de volta e disse:

– Como sempre misteriosa.
– Não me lembro de ter escondido tantas coisas assim para ser considerada misteriosa.
– Ah! Mas você é! Às vezes, quando estamos conversando, você se perde em pensamentos que eu daria parte da minha herança só para saber que lembranças são essas que conseguem fazê-la desligar-se da realidade tão facilmente. Isso tem alguma coisa a ver com o tal de “Samuel”?

Susan corou ao lembrar-se do dia em que trocara o nome de Jean pelo nome masculino de Sam. Isso acontecera em seu primeiro ano em Paris. Fazia apenas três semanas que ela havia conhecido o rapaz e ao sorrir de uma piada usou o nome “daquele” que outrora a fazia rir fácil.

Percebendo que seus sentimentos estavam vindo à tona, tratou de mudar de assunto:

– Achei que tivesse voltado para cidade com seus pais.

O jovem Lafaiete sorriu e falou:

– Como eu disse: misteriosa! – e em seguida respondeu à Susan – O carro estava muito cheio, então eu e meu pai ficamos para uma segunda viagem, porém a chuva engrossou muito e acabamos ilhados na garagem. Só quando o carro voltou que conseguimos sair de lá, no entanto, decidimos dormir aqui, pois a estrada deve estar um caos. Como já viríamos para cá amanhã unimos o útil ao agradável.
– Entendo. Fez bem em esperar. A tempestade está muito forte e outros perigos existem além da estrada.
– Com toda certeza. O lado bom é que agora nós dois não nos atrasaremos para o nosso encontro, pois estamos os dois presos aqui.

Susan sorriu amarelo e concordou. Havia esquecido totalmente do encontro com Jean.

Não era a primeira vez que ele a convidava para uma saída mais formal que indicava suas intenções, mas era a primeira vez que ela aceitava, coisa que fizera apenas porque uma antiga ferida fora aberta e ela precisava tapá-la com urgência.

Os dois caminharam até o sofá para conversarem mais confortavelmente. Susan sentou-se primeiro e em seguida Jean sentou-se ao seu lado mais próximo do que a etiqueta ditava.

A governanta, que estava andando de um lado para outro resolvendo problemas dos últimos acontecimentos, caminhava apressada para o hall de entrada quando viu os dois jovens na sala. Então tratou de se aproximar e perguntar:

– Olá, Senhor! Senhorita! – disse com uma pequena reverência – Desejam alguma coisa?
– Não. Muito obrigada, Senhora.
– Eu também não, Senhorita Daves. Obrigado.
– Está bem. O jantar já está preparado, os informarei assim que o Senhor Lafaiete estiver pronto.
– Obrigado.
A governanta fez novamente a reverência e se retirou.
– Acho que cometi uma indelicadeza. – falou Susan sem jeito.
– Por quê?
– A tratei por “Senhora”. E pelo visto ela não é casada.
– Não é, mas não se preocupe, ela não se importa. Ao menos nunca a vi reclamar e acho que até prefere assim, as pessoas gostam de especular a respeito de mulheres solteiras.
“Há más línguas que dizem que ela é apaixonada pelo meu avô.”
– Mesmo?
– Sim.
– Segredos da família, Lafaiete. – disse Susan sorrindo e fazendo Jean sorrir. Nisso passos soaram vindos da ala dos empregados e os dois se voltaram para ver quem se aproximava.

SAMANTA

Samanta havia acabado seu banho e agora se vestia em um dos quartos dos empregados, pois não quisera caminhar até o quarto de hóspedes no primeiro andar para não sujar a casa mais do que já havia feito.
A governanta pegara suas roupas e levara para ela. Agora, Sam terminava de abotoar o colete. Assim que o fechou, sentiu um pouco de calor.

A chuva e o vento estavam fortes lá fora, mas o aquecedor da mansão estava a todo vapor. Sam chegou a se perguntar quanto de carvão deveriam gastar para manter aquela casa aquecida naquele nível.

Ia vestir o terno, mas preferiu não fazê-lo, pois iria acabar suando e não ficaria agradável visualmente se resolvesse tirar o terno depois. Pensou em tirar o colete, mas não estava em uma casa qualquer para andar tão à vontade. Então, colocou o terno no braço e começou a dobrar as mangas da camisa até o cotovelo enquanto saia do quarto.

Ela passou pela cozinha e, pela porta dos fundos, viu a chuva que parecia cair mais forte que antes.

Como será que estão as estradas com esse temporal? O trem sairá daqui a duas horas.

Continuou caminhando e foi até a sala de onde ouviu risos. Ela adentrou a área do cômodo terminando de dobrar a manga de sua camisa e levantou a cabeça sorrindo para saudar os que estavam ali, porém precisou se esforçar para sustentar o sorriso quando avistou Jean Lafaiete e Susan Dover sentados um ao lado do outro e sozinhos.

O rapaz ficou sério de imediato e o sorriso de Susan morreu aos poucos.

Samanta respirou fundo e forçou seu melhor tom ao cumprimentá-los, em seguida sentou-se no sofá em frente ao que eles estavam.

Os dois responderam seu cumprimento e depois voltaram para uma conversa avulsa que Jean tentava fazer ser engraçada e Susan tentava rir.

SUSAN

Samanta entrou na sala dobrando a manga da camisa com o terno pendurado no braço, ela levantou a cabeça com um lindo sorriso e Susan estagnou. Aquela parecia com uma cena de um sonho que a ruiva poderia facilmente ter.

A morena se aproximou com uma bela postura e deu um boa noite que soou como música aos ouvidos de Susan.
O que afinal estava acontecendo ali? Susan se sentia como que sob o efeito de algum tipo de magia. Há tempos achara já ter controle daqueles sentimentos. Estava errada.

Jean começou a falar algumas coisas às quais a jovem Dover não conseguia dar atenção. Ela evitou olhar para Sam, mas aquele esforço exigia muito de sua mente, logo não conseguia pensar em nada para dar continuidade aos assuntos que Jean iniciava.

Pouco mais de um minuto depois da chegada de Samanta a governanta veio avisá-los que o jantar já estava na mesa e que os Senhores Lafaiete já os aguardavam.

Os três agradeceram aos céus mentalmente e foram mais do que depressa até a sala de jantar.

***

Comiam enquanto o Senhor Oliver falava do braço forte que Samanta demonstrara ao ajudar no parto da égua, mas logo foi interrompido pela Senhora Heloíse que ainda estava indignada com a atitude do marido com a visitante e foi apoiada pelo neto que fez questão de deixar claro seu pensamento a respeito dos trabalhos próprios para mulheres e próprios para homens. Tudo em inglês.

– Todos nós temos duas mãos e um cérebro, Senhor Lafaiete. Por que não podemos exercer os mesmos serviços? – perguntou Sam educadamente.
– Alguns trabalhos são mais pesados Senhorita King e, portanto, são próprios para os homens.
– Mas alguns não são. Como a profissão de alfaiate, por exemplo.
– Não acho correto que uma moça “tire medidas” – falou Jean em tom desagradável – de um homem. Ainda mais se for solteira. Isso não é nada interessante para a fama de uma mulher de respeito.
– Existem várias moças que fazem roupas masculinas, meu neto. Apesar dos alfaiates serem mais específicos. – disse a Senhora Heloíse e em seguida levou um pedaço de carne à boca.
– Mas nada é como um bom terno feito de homens para homens, vovó.
– Quer dizer então que você acha que eu não seria capaz de costurar um bom terno, Jean? – falou Susan pela primeira vez desde que a conversa iniciara.

O jovem assustou-se diante daquela pergunta, não esperava que Susan fosse se pronunciar, já que ela fazia roupas femininas.

– B-bom, você costura vestidos. Isso não se aplica a você.

Susan limpou a boca com o guardanapo que estava ao lado do prato após tomar um pequeno gole de vinho, e disse colocando-o de volta em cima da mesa:

– Não foi exatamente isso que eu perguntei. Você acha que não sou capaz de fazer um bom terno?

Samanta agora apenas observava do outro lado da imensa mesa de jantar dos Lafaiete a pequena discussão que se iniciava entre o casal. Não iria mentir, estava adorando. Cortou um pedaço de carne, pôs na boca e ficou observando os dois.

– Não tenho dúvidas de que você faria belos ternos, Susan, mas um homem é diferente.
– Por quê? – perguntou ela pousando seu garfo e faca na beira do prato e voltando-se para Jean.

O jovem olhou para o avô em busca de auxílio, porém este apenas arqueou as sobrancelhas e colocou uma garfada de carne com saladas na boca dando a entender que não iria entrar naquela discussão.

– Ora, porque….porque…- Jean olhou para o prato a frente, depois para a parede da grande sala de jantar ao longe até que finalmente disse – Porque um homem faz roupas de homens melhor que uma mulher, Susan. Assim como uma mulher faz roupas de mulheres melhor que um homem.
– Os melhores estilistas da moda feminina são homens. – disse Sam colocando em seguida um garfo com saladas na boca enquanto olhava para Jean com um leve sorriso de xeque.
– Exatamente. – disse Susan apontando para Sam e voltando-se para Jean.
– Bom, isso é diferente.
– Por quê? – dessa vez foi a Senhora Heloíse quem perguntou ao neto.
– Ora, vovó! Esses homens são…afeminados. – falou a última palavra como se ela fosse algo proibido de se dizer.
– Então, de acordo com a sua lógica, basta uma mulher ser masculina para fazer bons ternos? – perguntou Sam que já havia acabado seu jantar e olhava para Jean de cabeça erguida.

Percebendo onde Samanta queria chegar, Jean falou olhando para a morena:

– Se ela também se presta a fazer as mesmas…“coisas” que esses homens fazem, é possível que sim. Aliás, belo terno. Você costura muito bem. – disse o rapaz e levou o garfo à boca com um sorriso sarcástico no rosto.

Todos presentes entenderam a respeito do que o Jean falava.

Muitos dos estilistas tinham “fama” de serem homossexuais, mas por serem talentosos, poucos falavam a respeito desse assunto, contudo, era certo que a sociedade não aceitava as relações que eles tinham.

Ao falar aquelas coisas, claramente Jean estava dizendo que Sam era gay, o que era verdade, porém, por mais claro que aquilo fosse, Samanta preferia não falar a respeito, assim como os famosos estilistas não o faziam, pois não sabia até onde o Senhor Oliver aceitaria algo assim.

Ela se endireitou na cadeira com cara de poucos amigos, mas nada disse. E nada podia dizer, pois tinha medo de perder o cliente que já recebera uma surpresa aquele dia. Não achou prudente lhe dar mais uma.

Susan que também sentira o impacto das palavras de Jean havia acabado de se recuperar e se preparava para dizer que as coisas não funcionavam daquele jeito, porém mal abrira a boca e o Senhor Oliver falou em seu deficiente inglês:

– Acredito que esta conversa exige um pouco mais de álcool do que temos aqui. Por isso, creio que seja melhor terminarmos nosso jantar tranquilamente. E, meu neto, sua avó e sua mãe merecem tanto respeito quanto eu e seu pai que somos homens.
– Eu não estou falando de respeito, vovô…
– Mas eu estou! Aprenda a respeitar! E agora coma seu jantar, pois esta conversa está encerrada!

E desse modo o assunto morreu e não falaram sobre mais nada até o término do jantar.

Assim que todos terminaram, os Senhores Lafaiete, ao verem que a chuva continuava no mesmo ritmo, convidaram Samanta e Susan para passarem a noite com eles.

Samanta relutou um pouco, mas logo percebeu que realmente não teria como chegar a tempo à estação e que nem ao menos conseguiria uma condução para isso, pois não obrigaria os Lafaiete a arriscarem seu automóvel por ela.

As duas aceitaram e depois de Susan ligar para sua casa avisando sua empregada que passaria a noite fora, foram guiadas até o quarto pela Senhora Heloíse.

– Temos sete quartos de hóspedes, porém cinco deles já estão com as bagagens dos meus filhos e de suas famílias que virão amanhã. – falou a mulher enquanto subia as escadas até o primeiro andar – Um deles está interditado. Mofo. Por isso só nos restou um por hora. Jean e meu neto irão dormir no que já estava destinado para eles, logo, vocês poderão dividir este aqui tranquilamente.

Ela terminou de falar no mesmo instante em que parou em frente ao quarto em que as duas ficariam, então abriu a porta e ligou a luz do mesmo exibindo uma beliche sem colchões e uma cama de casal, além dos outros móveis.

– Tivemos alguns problemas com este quarto também, mas já cuidamos disso. Conseguimos salvar a cama de casal, mas os colchões do beliche tiveram que ser jogados fora.

“Esse é o resultado da falta de uso.” – falou ela com um sorriso um pouco envergonhado, pois achava mesmo é que aquele era o resultado da falta de limpeza, mas não iria dizer aquilo. Continuou:

“O lado positivo é que ele está bem limpo, e vocês sendo conhecidas poderão dividir a cama sem muitos problemas.”

Samanta e Susan riram sem jeito e a Senhora Heloíse finalizou:

– Irei mandar Katherine trazer algumas roupas para vocês dormirem e lençóis limpos. Fiquem à vontade. – e se retirou.

Assim que a porta fechou as duas se olharam involuntariamente e sorriram com timidez desviando o olhar ao mesmo tempo.

Samanta rapidamente foi até a janela e Susan foi até a cômoda fingindo ter visto algo interessante por lá.

O quarto, diferente do andar de baixo, estava frio. Pelo visto o aquecedor não pegava bem ali, o que explicava o problema com o mofo.

A morena desdobrou a manga da camisa e ia pegar o terno, quando viu Susan esfregando os braços do outro lado do quarto. Então, Samanta pegou a peça de roupa e caminhou até jovem depositando-a delicadamente sobre os ombros dela.

A ruiva deu um leve salto de susto, mas ao perceber o que havia acontecido, apenas sorriu e disse enquanto puxava a peça ao seu redor:

– Obrigada.
– Por nada. – respondeu Sam e sustentou o olhar de Susan, a qual estava da sua altura devido aos saltos e Sam pode ver com clareza os olhos verdes que a atraíram de forma tão singela no jardim de um casarão abandonado há alguns anos.

Batidas soaram e as duas se assustaram. Samanta se afastou e Susan foi até a porta para abri-la.

– Vim ver se estava tudo bem. – disse Jean à porta, o que fez Sam revirar os olhos e ir até janela novamente.
– Está sim, sua avó, já nos acomodou. Só estamos esperando algumas roupas e lençóis.

Jean olhou para o terno nos ombros de Susan e depois para onde Sam estava. Então falou mais baixo:

– Se quiser pode dormir no meu quarto…digo, eu e meu pai podemos dormir em outro lugar e você pode ficar com o quarto.
– Não há necessidade, Jean. Ficarei bem.
– Tem certeza? – disse ele olhando novamente para Sam que permanecia de costas perto da janela.
– Sim. Samanta é uma velha conhecida. Não tem com que se preocupar.

Nesse momento a governanta chegou trazendo as roupas de cama e de dormir para as moças e enxotou educadamente Jean dali. Ela arrumou a cama e em seguida se despediu das duas e fechou a porta.
Sam se aproximou das roupas e mexendo nelas falou:

– Seu namorado é realmente uma figura.
– Jean não é meu namorado. – Susan falou mais que depressa.
– Não?! Pensei que fossem. Estão sempre juntos.
– Esta é a primeira vez que nos vê, como pode afirmar algo assim?

Sam ficou a ponto de dizer que vira os dois no Teatro do Louvre, mas preferiu não falar.

– Bom, estavam juntos quando chegaram. Ele se despediu de você com um beijo, confirmou um encontro, depois estavam juntos no sofá e agora…
– Em primeiro lugar, o beijo foi no rosto. Em segundo, era apenas um jantar. E em terceiro, estávamos apenas conversando.
– Hum…então só não queriam que ninguém ouvisse? Porque estavam bem perto…

Susan corou e falou:

– Que saber? Isso não é da sua conta!

Samanta olhou para Susan surpresa até que disse:

– Tem razão. – ela pegou uma das camisolas e virou-se de costas. Em seguida desabotoou o colete e o jogou sobre a cama, depois começou a desabotoar a camisa enquanto tirava os sapatos com os próprios pés. – Seria da conta do Samuel, mas da minha nunca foi. Não é mesmo?

Susan ficou paralisada. Não pensou que Sam iria querer retomar aquele assunto algum dia. A verdade é que ela nunca imaginou que Sam voltasse a olhar em seus olhos depois do que fizera.

Lembrou-se do passado; de Samuel; do casarão; de Samanta; da tenda. Queria abraçar Samanta, seu amor nunca tinha acabado. Lembrou-se dos meses que passara chorando todas as noites. Da saudade que sentiu e ainda sentia das visitas até a pensão. Dos abraços…dos beijos…

– Samanta, eu…
– Não se preocupe. Agora que vejo quem é seu namorado consigo entender você melhor. – falou Samanta tirando a blusa e em seguida desabotoando a calça, o que fez Susan virar instantaneamente com o coração saltando no peito.
– Eu já disse que ele não é meu namorado.
– Ah! Quer saber? Isso não é da minha conta! – falou Sam e depois de vestir a camisola, deitou-se de costas para Susan no seu lado da cama.
– Acho que é por isso que dizem que tapar a ferida é pior. – pensou Susan enquanto trocava de roupas segurando as lágrimas.

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