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20 e Poucos Anos – CAP 74

CAP 74

 

CARINA

Carina havia acabado de colocar a pequena Beatrice para dormir. Admirou-a por alguns instantes e saiu devagar do quarto que antes fora de hóspedes e agora era de sua filha de dois anos.

Ela fechou a porta devagar, andou pelo longo corredor da mansão e desceu a primeira leva de escadas que dava para o antigo salão de festas da casa dos Smith que agora se transformara no mais novo restaurante italiano da cidade: Italian Gourmet, nome este que gerou uma grande confusão, pois o Senhor Lorenzo queria manter o nome do restaurante antigo, no entanto, depois de explicações enfáticas da Senhora Smith ao dizer que “ingleses gostavam de comida importadas, porém com nomes em inglês ou no máximo em francês”, ele desistiu, principalmente porque nem mesmo sua família ficara ao seu lado.

Durante meses a fio, o Senhor Lorenzo amaldiçoou o polpudo seguro que recebera após a destruição do restaurante causada por uma bomba que caíra na vizinhança. Vários conhecidos morreram e os Santello se viram com sorte por estarem em uma visita à casa dos Smith, pois os destroços atingiram massivamente os quartos e grande parte da área do restaurante, de onde ainda se pôde salvar algumas coisas.

Outras casas também sofreram danos como a dos Dover e a dos Stuart, mas uma reforma resolveria o problema. Não tiveram a mesma sorte, porém, as casas que foram diretamente atingidas.

Por conta disso, a ideia de montar o restaurante em outro lugar surgiu e o Senhor Lorenzo se queixava sempre quando estava a sós com a mulher e a filha sobre ter aceitado a ideia de montá-lo em outro bairro ao invés de refazê-lo ali mesmo

– Meu querido – disse a Senhora Antonella – Esta é uma oportunidade sem igual. Morar em uma mansão será um sonho.

– Sonho de quem, Antonella? Essa mansão não é nossa casa. O nosso lar é este que construímos com nossas próprias mãos.

– Pai, pense um pouco. Esta é uma oportunidade que teremos de dar um passo à frente. Todos os profissionais têm um ápice, um momento em que avançam na carreira, eis aqui a nossa oportunidade. – disse Carina que vira naquela bomba uma benção, pois ter que visitar os pais naquele bairro a fazia ter mais vergonha a cada dia.

Já a Senhora Antonella via ali uma oportunidade de ter uma vida de rainha, pois com o dinheiro que os Smith tinham, poderiam contratar vários empregados e ela apenas comandaria a cozinha quando quisesse.

Depois da insistência das duas e da pressão de Lilian e Edward, Lorenzo cedeu todo o dinheiro que possuía para comprar artigos de luxo que hoje faziam parte do Italian Gourmet. No começo eles sofreram certa aversão por conta da participação da Itália ao lado de Hitler na guerra, mas aos poucos foram conquistando espaço no paladar da alta sociedade.

A cada dia que passava os temores de Lorenzo se tornavam mais concretos e ele era cada vez menos dono do restaurante e cada vez mais o “italiano da adega”.

Já a Senhora Antonella passou a trabalhar dobrado, pois com os investimentos inteiramente para comprar os caros utensílios do restaurante e somado ao pós guerra, que havia enfraquecido os Smith financeiramente e “todos da alta sociedade” (como costumava dizer a Senhora Lilian), eles não possuíam dinheiro suficiente para contratar mais do que uma cozinheira, que era a antiga empregada da conceituada família.

Apesar da promessa de que logo iriam começar a lucrar o suficiente para que nenhum deles precisasse mais levantar um dedo, a Senhora Antonella às vezes sentia falta do La Bella Donna, pois lá não havia ninguém lhe dando ordens como Lilian por vezes fazia quanto à arrumação dos pratos e à quantidade de comida.

Carina chegou ao salão, saudou alguns conhecidos, deu boas vindas a outros, acenou para o pai e depois foi até a cozinha de onde saiu rapidamente, pois a casa estava cheia e um dos garçons faltara. Logo, a ajudante da Senhora Antonella alternava entre garçonete e cozinheira.

Mesmo precisando muito, a Senhora Antonella nunca chamava Carina para ajuda-la. Afinal, ela era uma Smith agora e tinha que ter as mãos finas e cheiro de flores, não de gordura.

Carina voltou para o salão e logo viu a Senhora Smith bebendo vinho e rindo com a Senhora Folmann. Ela pensou em ir falar com as duas, mas preferiu ir descansar. No dia seguinte teria que cuidar da agitada Beatrice, pois por conta dos gastos com o restaurante, Edward ainda não podia contratar uma babá e, além disso, existia uma chance delas falarem a respeito de um assunto que a incomodaria muito e por isso rapidamente se afastou.

Carina subiu as escadas e quando dobrou para seguir a segunda leva de degraus um pensamento lhe passou pela cabeça: ela continuava morando dentro de um restaurante, só mudara o bairro.

– Mas este não é qualquer bairro e isso faz diferença. – repetia para si sempre que tinha aquele pensamento. Virou o rosto para o salão antes de ele sumir de vista e viu de relance alguém usando uma boina. Ela se voltou para ver, mas era apenas o filho de um dos clientes, mesmo assim acabou lembrando do assunto que não queria ter que discutir com a Senhora Folmann e a Senhora Smith: a viagem de Sophie com sua “crioula” de estimação.

Samanta…- falou com nostalgia e em seguida bloqueou os sentimentos. Carina estava vivendo seu sonho e Samanta não cabia nele. Ainda mais depois de mostrar o tipo baixo que podia se tornar ao começar um relacionamento daqueles com Sophie, coisa que a italiana tinha quase certeza ser apenas para chamar sua atenção, afinal, não era aquele tipo de relacionamento que Sam almejava, pois do contrário poderia ter proposto continuar com Carina mesmo depois do casamento, mas ela não propôs.

Carina foi para o quarto e, aproveitando que Edward estava em uma viagem de negócios, se jogou na larga cama. Estava exausta. Beatrice era uma criança muito ativa e isso exigia muito dela.

Ainda deitada virou para o lado e viu um chapéu de Edward no cabide o que a fez lembrar-se da primeira vez que vira Sam após seu casamento. Samanta comprara uma garrafa de vinho no La Bella Donna, conversara um pouco com o Senhor Lorenzo e saíra. Carina sabia bem para onde ela iria em seguida.

Sam estava diferente, tinha uma malicia no olhar que a italiana desconhecia.

Sentiu raiva.

– Se você acha que Sophie vai te dar o relacionamento exclusivo que você deseja, você continua ingênua a respeito da vida, Samanta. – e levantou-se para ir tomar seu banho quente de banheira.

 

SAMANTA

– O que?! – perguntou Sam sobressaltada enquanto desamarrava a segunda mão de Sophie da cama.

– Perguntei se Carina foi sua primeira vez.

– Por que essa pergunta agora? E de onde você tirou isso? – falou e deitou ao lado de Sophie.

– Primeiro, lembrei que a primeira mulher com a qual fiquei me amarrou na cama deste jeito e por isso fiquei curiosa quanto quem foi a sua primeira. Segundo, Carina nos falou a respeito de uma mulher com a qual dormira certa vez e tudo me leva a crer que essa mulher é você.

“Há tempos era para eu ter perguntado, mas sempre tínhamos coisas melhor para fazer.”

“Enfim, diga-me. Foi ela?”

– Não sei do que está falando, “monamu”. Carina Santello era prometida a Edward praticamente desde seu nascimento.

– Argh! Se é para destruir o francês nem abra a boca, mon chéri. E quanto a casamento, eu e você bem sabemos que isto não é impedimento para ninguém.

– Sim, porém ela era protegida pelos pais como um baú de joias. Sem falar que ela mesma se guardava para este casamento.

– Como sabe disso? Tentou algo com ela?

– Sei o que todos sabem, meu bem.

– Mas o que todos sabem nunca é tudo. – disse olhando para Sam como quem procura pela verdade.

– Sophie, Carina Santello, ou melhor, Carina Smith está muito bem casada e a esse momento deve está na cama com o marido enquanto você pensa nela ao invés de voltar sua cabeça para sua cama, que é onde eu estou.

– Hum…está bem então. Vou colocar minha cabeça bem aqui. – e posicionou seus lábios entre as pernas de Sam, enquanto sorria por ter obtido sua resposta.

 

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