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20 e poucos anos – Cap 61

Samanta respirou fundo, desdobrou e leu o bilhete que estava em suas mãos:

“Olá, meu caro!

Sabemos da sua grande quantidade de afazeres, mas gostaríamos de saber se você poderia nos dar sua ajuda mais uma vez. Pegamos muitas encomendas e uma mão jovem faria toda a diferença neste momento. Se puder vir nos ver esta tarde ficaríamos muito gratos. Pense bem, afinal temos biscoitos e chá!

Dos seus vizinhos,

Senhor e Senhora King”

Samanta riu. Sem pensar duas vezes ela trocaria as poucas moedas que ganhava no mercado pelos biscoitos e o chá dos King, não só por que eram deliciosos, mas também porque no final do dia não ficava cansada e suada feito um cavalo. Porém, ao reler o bilhete, percebeu que, pelo que parecia, os dois ainda não sabiam dos acontecimentos das últimas semanas.

Sam ficou pensativa, tudo que ela menos precisava agora era que os amáveis King ficassem com horror ao que ela havia feito e a proibissem de entrar na casa deles novamente.

Voltou a deitar e a se cobrir. A vontade que tinha era de sumir da face da terra e ser esquecida por todos. Isso com certeza faria tão bem para ela quanto para as pessoas que ela conhecera até aquele ponto da sua vida.

De repente até a morte lhe pareceu sedutora, mas então lembrou-se do que um velho marinheiro do porto falara uma vez para ela e outros moleques enquanto discutiam a respeito de um homem que havia se matado após ser deixado pela namorada.

– “A maior tolice do mundo é uma pessoa achar que a morte é o fim do tormento. Ela pode ser o fim da vida física, mas a dor não faz parte do que é físico, ela faz parte da alma. Uma vez morto você não leva nada desse mundo a não ser, adivinhem o que? A alma!.”

“Então aprendam, jovens marujos, ou vocês têm coragem e buscam resolver a causa da dor ou acabarão levando-a para o túmulo com vocês e uma vez mortos, ninguém irá ouvir suas palavras, ninguém irá ver a sinceridade das suas feições, logo vocês não vão conseguir resolver nada e a alma não vai ser leve o suficiente para ir embora daqui. Ela vai ficar pesada; planando sempre baixo; presa à terra, porque a alma não morre.” – a buzina de um navio soou do lado de fora ao mesmo tempo que um dos capitães entrava no galpão onde estavam todos, fazendo os jovens carregadores gritarem de susto.

– Contando histórias de fantasmas de novo, Belchior?

– Só conto verdades, Capitão. – disse o velho homem indo para fora do galpão.

– Não se preocupem, garotos, Belchior é brasileiro e esse povo descendente de índio adora falar dessas coisas. Se tudo que ele fala existe mesmo é só no Brasil, porque aqui eu nunca vi. Agora andem! Ajudem meus homens a carregarem o navio.

Samanta lembrava-se de Belchior com respeito. Suas historias sempre tinham uma moral forte. Mesmo as de fantasmas.

Assim que se lembrou disso, a ideia de falar com Susan sem que esta a percebesse lhe pareceu muito pior do que uma bofetada de raiva, por isso rapidamente Samanta varreu de sua mente a ideia de suicídio e percebeu que precisava ser corajosa para enfrentar aquela situação. Ela jogou as cobertas para o lado e decidiu que começaria naquela tarde.

***

– Boa tarde, Rachel!

– Boa tarde, James!

– Entregou meu bilhete ao rapaz…digo, à moça?

– Sim. Hoje ela parecia melhor. Acredito que será um bom dia para sair do quarto.

– Que bom! Madalena escreveu o bilhete de modo a parecer que não sabemos de nada. Acredito que exista uma chance dela ir nos ver, porque será como se nada tivesse acontecido já que teoricamente não sabemos.

– Muito inteligente. Espero mesmo que vocês consigam tirá-la de lá. Vou continuar meus afazeres. Boa sorte!

O Senhor King sorriu com uma leve reverência e seguiu seu caminho até a loja de tecidos.

***

Samanta acabara de contar os acontecimentos daqueles dias para os Senhores King e agora se encontrava dentro do abraço afável da Senhora Madalena, que dizia:

– Minha querida, fico feliz que tenha tido coragem para nos contar isto. E agora vou lhe dizer o mesmo que uma vez disse à Brian: Não tenho conhecimento suficiente para entender, mas menos que isso tenho poder para julgar.

“Daqueles que se dizem “sem anormalidades” e que saíram de minhas entranhas, nós não recebemos um pão amassado depois que se casaram e saíram de casa. Do contrário, bastou ajudar Rachel e Brian uma vez para que eles nos dessem abrigo gratuito quando ficamos sem nossa casa há alguns anos atrás.”

“Da mesmo forma, bastou que déssemos a você uma xícara de chá com biscoitos para que você viesse nos ajudar com nossas responsabilidades que estão a cada dia mais pesadas.”

“Em resumo, querida, se você e Brian são anormalidades neste mundo, Deus abençoe as anormalidades, pois sem vocês, eu e James já teríamos definhado na sarjeta há muito tempo sem casa, nem dinheiro.”

Samanta chorava e abraçava de volta a Senhora King com a boca sem palavras e o coração cheio de sentimentos. Ela realmente não esperava uma reação tão amável e carinhosa. Levantou os olhos do ombro da velha Senhora e avistou o Senhor King há alguns metros sorrindo e enxugando rapidamente uma lágrima que caia.

A tarde passou rápido e uma boa parte do trabalho fora feito. Afinal a encomenda não era muita, mas essa fora a forma que os dois haviam achado de tirar Sam do quarto.

Samanta estava feliz, pois aprendera uma técnica nova de costura. Porém, ao mesmo tempo, sentia-se nervosa, pois em suas mãos possuía uma carta, escrita por ela e revisada pelo Senhor King, que iria agora até as tendas dos ciganos e de lá para as mãos de Susan.

***

– Entregue, Maria! Não cabe a nós dois dar rumo à essa história. – disse Ramom entregando uma carta nas mãos de Maria por entre a grade.

– O que essa garota fez, foi errado! Enganou todo mundo e principalmente a Suzy. Isso é muita falta de caráter! Susan já chorou e agora que está começando a se recuperar chega esta carta. Isso não é justo com a pobrezinha!

“Sem falar que o que essa garota fez beira a um problema mental. Você não acha?”

– Não. Minha mãe já me explicou a respeito de coisas assim. Acontece. Não é aceitável em diversas culturas, mas acontece.

“Enfim, entregue a carta para Susan e deixe que ela decida o que fazer. Não tome uma decisão que não é sua.”

– Como se ela não fosse ficar curiosa pra saber o que tem aqui assim que eu entregar.

Ramom sorriu para Maria e tocando a mão dela se despediu. Maria guardou a carta nas vestes e quando a oportunidade surgiu a entregou a Susan que não acreditou na ousadia daquela garota insana. Ela rasgou o envelope em vários pedaços e em seguida falou para Maria:

– Se mamãe perguntar avise que, a pedido da Senhora Blumm, hoje iremos mais cedo para a aula de piano. – e entrou em seu quarto fechando a porta com violência, enquanto pensava nas coisas que jogaria na cara de Samanta assim que a visse.

sig_Gabi