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20 e Poucos Anos – CAP 103

Samanta entrou atenta ao salão do restaurante, pois dependendo de quem encontrasse ali, ela ficaria por mais ou menos tempo.

Não avistou ninguém além do Senhor Lorenzo sentado atrás do balcão. Ao que parecia naquele horário o restaurante não era muito frequentado.

Quando ela chegou mais perto pôde ver que ele olhava fixamente para a televisão enquanto cantava juntamente com Frank Sinatra o trecho final de Old Man River:

– “Estou cansado de viver mas tenho medo de morrer…e o velho homem do rio, ele apenas continua rodando…” (I’m tired of livin’, but I’m feared of dyin’ And Ol’ Man River, he just keeps rollin’ along)

https://www.youtube.com/watch?v=xTnw_MmVptQ

Samanta se aproximou com um leve sorriso para saudar o homem, mas aos poucos o sorriso foi morrendo ao perceber o quanto o Senhor Lorenzo parecia ainda mais abatido ao cantar aquele trecho da música.

Ela percebeu que ele não havia notado sua aproximação, então respirou fundo e depois bateu no balcão falando:

– O melhor champanhe da casa, para sua melhor freguesa. – disse ela com um sorriso.

– Oh! Samanta! Que bela surpresa! – disse ele e se levantou lentamente emitindo um pequeno gemido de dor enquanto segurava os joelhos. De repente, o homem lhe pareceu tão velho, que Sam assustou-se com o tempo. Quando conheceu o Senhor Lorenzo, ela tinha apenas 14 anos. Quase sete anos haviam se passado desde então, mas ao ver o homem contornar o balcão em sua direção e de braços abertos, sentia que para ele o tempo havia passado mais depressa.

– Quanto tempo não a vejo por aqui, Sam. – ele a abraçou e a pegando pelos ombros olhou-a de cima a baixo. – Está cada dia mais elegante! Venha, sente-se! Vou pegar o champanhe que tanto gosta.

Ele caminhou fazendo alguns baixos resmungos devido a dores nos joelhos e depois de pegar a garrafa da bebida e duas taças, sentou-se ao lado de Sam em uma mesa e continuou:

– Achei que deixaria de usar tais roupas depois que todos soubessem de você.

Ela sorriu e falou:

– Acostumei-me. Gosto dessas roupas.

O italiano balançou a cabeça de um lado para o outro, mas depois deu de ombros dizendo:

– É…você está ficando rica, ninguém vai mesmo ligar para o que usa se tiver dinheiro no bolso. – e serviu champanhe em duas taças para eles, assim como costumava fazer com seus amigos na época do La Bella Donna

– O Senhor bebendo champanhe, Senhor Santello?

– Tenho bebido de tudo um pouco ultimamente, minha querida, meu afazer neste lugar é tão tedioso que só me resta isso. Ao menos é grátis e eu ainda tenho boas sugestões para dar aos fregueses.

– Que é grátis não se discute, afinal é o seu restaurante. – disse ela pegando a taça e dando um pequeno gole. Estava diminuindo com a bebedeira e por isso tomaria bem devagar para acompanhar o Senhor Lorenzo.

O italiano deu-lhe um olhar significativo. Pegou sua taça e deu uma golada na bebida. Então olhou para fora e disse:

– Meu restaurante se chamava La Bella Donna e foi destruído há dois anos. Há tempos não sou dono de mais nada, Sam. Aqui não passo do “italiano do bar”. – voltou-se para Sam com um sorriso triste e deu mais uma golada em sua bebida enchendo novamente sua taça em seguida.

Sam o observou, calada. Tomou mais um pequeno gole de sua taça enquanto lembra-se de como há alguns anos atrás os olhos do Senhor Lorenzo pareciam tão mais vivos apesar do cansaço do dia a dia.

– Mas fale-me de você! – disse ele trazendo Sam de volta. – Como estão as coisas? Soube através de Antonella que você está com um ateliê no bairro vizinho.

– Sim, finalmente conseguimos alcançar um novo tipo de fregueses que nos possibilitou crescer.

– Os franceses?

– A maioria franceses. Ela que lhe contou isso também?

– Ouvi algumas conversas. Seu ateliê é muito comentado por aqui.

Samanta sorriu enquanto pensava em quem poderia estar falando do ateliê por ali, mas não teve tempo de perguntar, pois o Senhor Lorenzo voltou a falar:

– E como estão os King?

– Estão todos bem. Estamos programando uma viagem à França em breve, mas ainda não é nada certo.

– Muito bom! Gaste seu dinheiro com você e faça o que você deseja fazer, pois os urubus estão sempre à espreita para levar o que você tem. Se tem um conselho que posso dar é: não acumule por tempo demais. – e bebeu do champanhe.

Sam percebeu a amargura na voz do homem, mas decidiu mudar de assunto:

– Semana que vem será aniversário da Senhora Rachel, estamos programando uma festa.

– Antonella cozinha em festas. Se for do interesse de vocês…

– Acredito que já temos cozinheiras o suficiente, mas os Senhores poderão ir como meus convidados.

As feições do italiano se iluminaram e ele disse:

– Claro que iremos! Antonella anda muito atarefada, pois está aproveitando o pouco movimento do restaurante para cozinhar em eventos. Os lucros estão baixos.

“A Itália ter participado desta guerra fez nossa clientela diminuir.” .

“Carina por outro lado não sai desta prisão, mas irei mobilizá-las.”

Sam não convidara Carina por motivos óbvios e ficou receosa, mas sua preocupação não durou, pois sabia que ela não sairia de seu pódio para ir a um bairro de periferia, por isso logo disse:

– Esperarei os três lá! – e levantando a taça brindou com o Senhor Lorenzo antes de tomar o último gole de seu champanhe.

 

***

Samanta estava parada em frente aos escombros do antigo restaurante italiano do bairro em que morara há 7 anos.

A área dos quartos estava inteira, mas parecia correr sérios riscos de ruir a qualquer momento.

Haviam faixas ao redor do terreno para evitar que curiosos se aproximassem das estruturas frágeis.

– Matando a saudade, Sam? – falou um homem que saia de casa com o chapéu na mão.

– Olá, Senhor Stuart! Quanto tempo!

– Sim, parece que faz uma eternidade. – disse ele olhando nostálgico para os escombros. Depois voltou-se para Sam e perguntou – O que veio fazer aqui? Acredito que ainda seja perigoso para você…- e olhou para a casa dos Dover.

Sam sabia que os pais de Susan estavam em Paris visitando a filha, mas não podia dizer nada, ao invés disso falou apenas:

– Senti que hoje era seguro. – sorriu. – Tem visto os Santello? – perguntou despretensiosamente, apenas para mudar de assunto, mas percebeu que a pergunta não fora bem recebida.

– Os Santello agora fazem parte da família Smith. Já tem amigos o suficiente. – disse ele e pôs o chapéu em sua cabeça. – Bom ver você, Sam. Até a próxima!

Ele virou-se para ir, mas rapidamente Samanta o chamou:

– Senhor Stuart!

– Sim.

– Terá uma festa de aniversário da minha mãe adotiva na pensão em que moro. Adoraria apresentar minha nova família para antigos amigos. Desde que morava aqui sempre o considerei como tal por ser amigo de pessoas que eram como uma família para mim…

– Claro que éramos amigos! Cansei de ver você com a jovem Dover, mas guardei seus segredos, sabia? Sempre achei você um rapaz direito…ou melhor…quer dizer…-ele coçou a parte da frente da cabeça folgando um pouco o chapéu enquanto tentava se explicar, mas Sam o cortou.

– Posso contar com sua presença e de sua esposa?

– Claro! – disse ele rapidamente agradecendo pela mudança de assunto. – Estaremos lá! – e dando um leve aceno para Sam ele continuou seu caminho.

Samanta sorriu satisfeita. Deu uma última olhada para os escombros e partiu com uma ideia em mente.

 

Nota da autora: Alou! Estou aqui! Ainda não definitivamente como gostaria, mas aqui ^^. Aproveitei alguns dias livres pra fazer esse capítulo e adiantar o próximo. Ia fazer mais, porém vieram familiares pra cá e babou tudo. Escrevi pouco e como sempre relembro minha lentidão para escrever e minha mania de reler 10x+. Por isso peço o seu carinho comigo e com a história nesse momento e obrigada por estar aqui. 😉