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20 e Poucos Anos – CAP 101

O vento frio entrava pela janela do sedan que era dirigido por Juan Lafaiete. Ao lado dele Samanta ia segurando o pano com gelo sobre a mão dolorida, enquanto olhava para fora os borrões escuros que passavam. Até que chegaram à área urbana e a paisagem se tornou mais iluminada.

Susan estava no banco de trás com os vidros fechados. Ela alternava sua atenção entre Samanta no banco da frente e a paisagem do lado de fora, porém, quando olhava pela janela sua mente voava para os acontecimentos daquela noite. E dentre todas as coisas o que mais a preocupava era a perda de clientes do ateliê. Afinal de contas, Sam estava cada vez mais conhecida em Paris e ela temia que a repercussão do que ela fizera tomasse proporções negativas nos negócios e tudo por sua causa.

As ruas estavam silenciosas, era tarde da noite, eles poderiam contar nos dedos de uma mão a quantidade de pessoas que viram no caminho até a casa de Susan.

O Senhor Juan estacionou o carro em frente à residência e falou pela primeira vez desde que entraram no carro:

– Vou retirar as bagagens de vocês do porta-malas. – disse isso e saiu do carro.

As duas saíram logo em seguida e Susan foi para a porta de sua casa enquanto procurava as chaves na pequena bolsa que carregava. Abriu a porta e ajudou o Senhor Juan a colocar as malas na sala.

Antes de ir, o homem falou:

– Sinto-me envergonhado pela atitude do meu filho, Senhorita Dover. Não foi essa a criação que dei para ele. Peço sinceras desculpas em nome da minha família por isso.

– Não se preocupe Senhor Juan, tenho certeza que sua educação foi a melhor. Não duvido de seu caráter.

– Já de meu filho…

Susan olhou para o homem nitidamente envergonhado, com certo pesar. Aquela era uma situação delicada e por mais que Jean tivesse sido nada menos que um calhorda, Susan não queria dizer palavras duras para o pai do rapaz, o qual era bastante diferente.

– Jean fez as escolhas erradas essa noite e tirou conclusões precipitadas que vão lhe custar algumas coisas. – disse Susan – Acredito que isso só fará dele uma pessoa ruim se ele persistir com essas atitudes.

– Espero que o erro de meu filho não custe a sua amizade para conosco. Sua presença e a de seus pais são agradáveis e vocês serão sempre bem vindos em nossa casa. No entanto, se for da vontade de sua família cortar as relações, compreenderemos.

“Um pai de uma moça acaba sendo mais protetor e com razão.”

Susan nada disse. Realmente seu pai era super protetor e poderia mesmo tomar uma decisão como aquela. Nisso o homem se voltou para Samanta:

– Senhorita King…- ele respirou fundo – O que a Senhorita fez foi compreensível, mas não quer dizer que concorde com a sua conduta. Trazê-la até aqui e trata-la cordialmente foi algo que fiz como pedido de desculpas até porque em seu lugar não permitiria que uma dama fosse desrespeitada, porém, Jean ainda é meu filho e eu não posso manter contato amistoso com alguém que lhe causou dano físico e moral.

“O garoto não somente apanhou em sua própria casa como ainda por cima apanhou de uma mulher.”

“Perdoe-me, mas, vestida de homem ou não, ser machucado por uma moça fere o orgulho de um homem. Espero que a Senhorita entenda…”.

– Entendo perfeitamente, Senhor Juan. Tenho consciência do que fiz e gostaria de pedir desculpas à sua família pelo transtorno. Espero que algum dia possamos conversar sobre esse ocorrido de forma calma para que eu possa fazê-lo.

“Sinto pelo dano que causei ao seu filho, porém preciso dizer que para toda atitude existem consequências. Para as palavras de seu filho foram os machucados em seu rosto. Para minha atitude foram este machucado e a perda da amizade de sua família.”

“Peço minhas sinceras desculpas por tudo, mas é com sinceridade que digo que não me arrependo do que fiz nas circunstâncias como as coisas aconteceram.”

O homem olhava para Samanta enquanto ela falava. Assim que ela terminou, ele apenas acenou positivamente e falou:

– Bom, está tarde! Uma boa noite, Senhoritas!

– Boa noite! – disseram as duas.

Ele deu um leve sorriso e saiu em direção ao carro, mas antes de entrar falou da porta do sedan.

– Sabe, Senhorita King, – Sam que já se virara para entrar voltou o olhar para fora e ele continuou – confesso que esperei bajulação de sua parte; explicações exageradas; promessas chorosas…

Juan ficou pensativo por algum tempo até que finalizou:

– Admiro quem é fiel a si mesmo. Nos vemos, Senhorita King. – e com um sorriso tão leve, que se percebia mais em seus olhos do que em seus lábios, ele partiu.

Samanta olhou o carro se afastar, mas logo foi despertada por Susan que queria fechar a porta.

A morena não soube bem o que pensar. Sentia-se triste porque sabia que havia perdido seus potenciais fregueses, mas ao mesmo tempo se sentia esperançosa. Conquistara algo e tinha consciência disso, só não sabia ainda que esse algo era a confiança dos Lafaiete, os quais por enquanto se manteriam distantes em respeito ao membro de sua família que fora lesado, mas em breve retornariam e se tornariam mais do que apenas bons fregueses, pois reconheceriam amizade na família King. No entanto, por hora, apenas aquela sensação de esperança era de conhecimento de Samanta, sensação esta que aos poucos foi se apagando assim que a morena percebeu que estava sozinha na casa de Susan mais uma vez.

A ruiva havia acabado de pegar a sua mala e estava se abaixando para pegar a mala de Sam.

– Eu ajudo você… – disse Samanta, mas teve a mão boa que tentara pegar a mala empurrada.

– Você está com a mão machucada. Não se preocupe eu consigo levar as duas. – Assim que a ruiva levantou as duas bagagens do chão um vulto enrolado em uma manta despontou da cozinha e falou em francês.

– Senhorita Dover? Pensei que chegaria apenas amanhã. – disse ela bocejando e com olhar semicerrado.

Samanta não ouviu a resposta de Susan, ela apenas ouviu as malas caindo em um baque seco no chão e um borrão cor de ferrugem passando por ela indo de encontro à francesa que só tivera tempo de dar um passo atrás antes de receber um tapa em sua face.

– Susan!! O que…?! – iniciou Samanta e se interrompeu ao ver o tapa que a ruiva desferira na face de sua empregada.

– O que pensa que está fazendo?! – perguntou a moça que abandonara a feição cordial de antes e parecia prestes a pular no pescoço de Susan.

– Quando ninguém mais confiava em você para ser empregada eu lhe dei este emprego, mesmo não fazendo questão de uma. Você é uma vaca ingrata, Madeleine!

– Prefiro ser uma vaca a ser uma meretriz que se deita com todo tipo de gente enquanto engana um rapaz de coração bom.

– O que você disse?! – perguntou Susan avançando na direção de Madeleine.

– Você não merece Jean! Ele merece alguém à altura dele!

– Com certeza merece…-disse Susan segurando os cabelos de Madeleine e lutando para levantar seu rosto pois queria estapeá-la novamente – …alguém como você. Aquele imbecil merece mesmo uma estúpida…vocês dois se  merecem. Ele, um arrogante que se acha melhor socialmente e intelectualmente que qualquer mulher e você, uma mulher que acha que isso é certo; uma mulher que se desvaloriza e ainda se acha no direito de julgar outra mulher por não abaixar a cabeça e se humilhar para um tipo como ele, assim como você faz, coisa essa que EU nunca fiz e NUNCA irei fazer. – o estalo do tapa soou novamente e nesse momento Sam já havia se aproximado e tentava com uma mão apenas separar as duas moças, pois àquela altura Madeleine já tentava segurar os cabelos de Susan e antes que a coisas ficassem realmente feias, ela precisava afastá-las ou do contrário não conseguiria fazê-lo depois.

– E para sua informação – continuou Susan que agora era afastada aos poucos por Samanta – eu nunca enganei Jean, sempre deixei claro meu desinteresse, não é minha culpa se ele continuava atrás de mim ao invés de aceitar você que se rastejava aos pés dele antes mesmo de eu o conhecer.

Ao ouvir aquelas palavras, a empregada se aproximou de Susan pronta para brigar e Samanta se viu no meio de um tornado de mulheres que tentavam a todo custo segurar o cabelo uma da outra.

– Você tinha fama de fofoqueira e eu lhe dei uma oportunidade. Nunca acreditei no que falavam sobre você, mas deveria! Quero você fora da minha casa! Amanhã cedo não quero ter que ver sua cara aqui!

– Não se preocupe! Eu irei e de bom grado. Não ficarei aqui para ouvir suas noites de amor com essa…ahhh!iniciou a falar Madeleine, mas não finalizou, pois um jarro voou em sua direção. Rapidamente ela se virou para voltar ao seu quarto, com uma das mãos na face que ainda ardia do tapa que recebera.

Samanta que já estava melhor em seu francês devido a aulas particulares com Susan, havia entendido boa parte do ocorrido e por isso não questionou nada. Apenas levou a jovem ruiva pelo corredor da casa.

A moça estava transtornada. Assim que entrou em seu quarto foi para janela e pôs as duas mãos na testa.

Samanta apenas sentou-se na cama da moça e segurou o pulso. Na confusão acabara usando sua mão machucada e agora esta latejava terrivelmente.

Susan andava de um lado para o outro, hora com as mãos na cintura, hora passando as mãos no rosto. Ia da janela até a penteadeira. Olhava-se no espelho e depois saia de lá olhando para o teto ou para chão, até que finalmente olhou para Samanta, sentada na beirada da cama. Susan parou. Samanta sorriu docemente de onde estava. Susan sorriu de volta e aproximou-se devagar. Ela ficou em pé ao lado de Samanta e a abraçou, tendo a cintura envolvida pela mão boa da morena.

Susan pensou em várias coisas enquanto passavaa mão nos cabelos de Samanta até que se separaram e olharam-se novamente por poucos segundo, pois, sem aviso, a jovem ruiva sentou-se no colo da morena e começou a beijá-la calorosamente.