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20 e Poucos Anos – CAP 100

A música tocava animada no salão de festas dos Lafaiete, porém na sala de estar da mansão ela tocava distante, o que não era um problema para as únicas pessoas que estavam ali.

Susan! – disse Samanta surpresa ao ver os olhos cheios de lágrimas da ruiva, a qual segurava a mão que doía depois do tapa que dera em Jean e tinha o rosto contorcido por uma dor que não era física. A morena quis imediatamente se explicar, mas ao ver o estado da moça, perguntou – O que aconteceu?!

Susan ficou estática por alguns segundos, ainda digerindo a cena que acabara de ver. Os olhos transbordando a todo instante.

– Susan, o que houve? – Sam se aproximou diminuindo o tom de voz – Ele fez alguma coisa?

Ao ouvir sua última pergunta, Susan desabou em choro. Estava abalada por ter sido tão desrespeitada e agora estava perdida, sem chão, pois seu porto seguro não era seu. Ela estava sozinha.

Samanta olhou para a sobrinha da governanta, que imediatamente falou:

– Irei pegar um pouco de água com açúcar. – e saiu às pressas.

Assim que ela se afastou, Samanta se aproximou da moça à sua frente e com a mão em seu ombro disse:

– Myrella é uma conhecida. Ela e eu nunca tivemos nada. Nunca.

“Bom…eu confesso que…eu quis ter algo com ela esta noite, mas…não consegui. ” – disse Sam falando pausadamente – “Tentei, mas não fui capaz. O abraço que você viu foi apenas…gratidão.” – falou Sam e sorriu levemente de canto.

“Susan, – disse ela envolvendo a ruiva pelos ombros, a qual aos poucos parava de chorar – eu sei o que eu propus, entretanto, não importa quantas vezes eu proponha, Su, isso não vai mudar o que eu sinto. Você não sai da minha cabeça e do meu coração.”

Ao ouvir essas palavras o corpo de Susan relaxou, ela se aconchegou no peito de Samanta e aos poucos deslizou os braços pelo meio das costas da morena sentindo que agora tinha seu porto seguro de volta. Suas mãos apertaram a parte de trás do terno de Sam e ela se aninhou no abraço da morena. Nesse momento Myrella chegou, mas mal teve tempo de se anunciar, pois uma voz se fez ouvir do outro lado da sala:

– Tudo que eu mais queria era que você fosse ao menos um pouquinho assim comigo, Susan. – disse Jean atravessando a sala com olhar sobre as duas.

A ruiva sentiu o corpo de Samanta ficar tenso e se separou dela devagar. O rapaz continuou:

– Já tentei de tudo. Fui amigo, romântico e hoje fui até mesmo mais atrevido – os olhos de Samanta se estreitaram à menção desta palavra – mas você não me dá uma única chance. Como isso é possível? Olhe de quem sou herdeiro!

– Dinheiro não é tudo, Jean. – disse Samanta friamente.

– Estou falando com Susan e é “Senhor Lafaiete” para você! – disse ele parando perto das duas e direcionando-se à Susan – Desculpe-me, eu estou um pouco alterado por conta da bebida. Venha comigo, por favor. Vamos começar novamente, prometo ficar na distância que você escolher. Eu…

– Nenhuma distância será suficiente enquanto eu lembrar de suas palavras e sua atitude.

– Não diga isso! Venha vamos conversar e eu explicarei… – disse tentando pegar o braço de Susan.

– Ela disse não. – falou Samanta colocando seu braço em frente à ruiva.

– Susan? – disse ele ignorando Samanta, mas sem tentar tocá-la novamente.

– Você me desrespeitou. Eu me sinto tão…- falou a ruiva olhando para ele, sentindo sua tristeza começar a mudar para irritação.

– Eu vou pedir as devidas desculpas se você puder, por gentileza, vir comigo novamente, Suzy.

– Senhorita Dover para você, Senhor Lafaiete! – disse ela empinando o queixo – Nunca mais ficarei a sós com você novamente.

– Está fazendo tempestade em copo d’água.

– Mesmo? Pelo que exatamente? Por você ter me beijado a força ou por ter insinuado que sou uma prostituta?

– Pelos dois…- respondeu o rapaz que iria ainda dizer que não havia usado a palavra prostituta e iria explicar que o beijo fora apenas um impulso de sua paixão, que Susan tinha que entender, porém não finalizou a frase, pois cambaleou dois passos depois de ser atingido no queixo pela mão de Samanta.

Myrella derrubou o copo com água no chão e emitiu um grito de susto. Já Susan apenas pôs as duas mãos sobre a boca.

–  Você enlouqueceu, sua….?- a mão fechada de Samanta atingiu o rosto do rapaz novamente, dessa vez no olho, e ele deu mais um passo atrás gemendo de dor com a cabeça abaixada e as duas mãos sobre a área atingida.

Quando levantou a cabeça, transtornado, viu Samanta caminhando em sua direção, então disse dando passos atrás em tom desesperado:

– Esta é a minha casa, sua sapatão desgraç… – Porém mais uma vez não terminou, pois a dor lancinante em seu nariz apagou qualquer vestígio de valentia que ainda lhe restava, a qual não passava de prepotência.

Ele caiu no chão e se encolheu gemendo de dor.

Samanta se aproximou dele e disse de pé.

– Nada nesta casa é conquista sua. Não fale como se você fosse grande coisa. – nesse momento os Lafaiete e alguns convidados já vinham pelo hall de entrada seguidos pelas mulheres que seguravam as crianças por não saberem se o barulho que ouviram representava algum perigo para eles. Sam continuou – Achar-se melhor que os outros por ser herdeiro de coisas que não conquistou seria o cúmulo da ignorância se já não fosse do ridículo.

– O que está acontecendo aqui? – perguntou o Senhor Juan olhando do filho estatelado no chão para Samanta em pé ao lado dele, a qual se afastou sem diminuir a pose. Assim que o homem entendeu o que havia acontecido, perguntou olhando para Sam – O que você fez? – e se abaixou ao lado do rapaz que gemia de dor com a mão no nariz.

– Meu filho! – disse Bernadette correndo para acudir o rapaz.

– Menina! – disse o Senhor Juan se direcionando à Myrella –  Diga à Senhorita Daves para trazer curativos até aqui. Ande!

– Curativos?! Olhe para ele Juan, iremos para o hospital agora.

Neste meio tempo, Samanta já estava ao lado de Susan e disse para a moça:

– Acho que será melhor irmos embora hoje mesmo. – apesar de ter falado baixo, Sam fora escutada pelo Senhor Juan que falou:

– Você não irá a lugar algum!

– Calma, Juan! Mantenha a calma!- disse o Senhor Oliver se aproximando.

– Como manter a calma, papai? Uma de suas convidadas espancou meu filho! Seu neto!

– Acho que será melhor irmos por hoje, Senhor Lafaiete, até que os ânimos se acalmem para que possamos conversar melhor. – disse Susan se direcionando ao Senhor Oliver.

– Ninguém sairá até entendermos o que aconteceu. – falou o idoso em tom sério.

– Não há nada para entender, Senhor Oliver – disse Bernadette – seu neto foi espancado dentro de sua própria casa. Eu exijo que a polícia…

– Ninguém chamará a polícia tampouco! – bradou o Senhor Oliver – Quero conversar com Jean e Samanta a sós. No meu escritório.

– Senhor – iniciou Susan – acredito que minha presença também será necessária…

– Jean e Samanta apenas. – disse ele interrompendo Susan sem olhar para ela. A moça apenas assentiu e se afastou. Nunca vira o simpático idoso tão sério quanto naquele momento.

– Jean não está em condições…- iniciou Bernadette que agora ajudava a governanta a qual acabara de chegar.

– Mas irá!- falou mais uma vez em tom imperioso o homem- Irei aguardar os dois em meu escritório. – disse isso e saiu sem olhar para o rosto de qualquer um.

Nesse meio tempo os convidados foram redirecionados para o salão pelos outros Lafaiete.

Minutos depois, quando Jean já estava de curativos feitos, ele e Sam entraram no escritório do Senhor Oliver.

Passou-se um bom tempo até que eles saíram. Jean foi envolvido pela mãe e levado para longe dali enquanto Samanta foi direcionada pelo pai do rapaz até a sala. Não disse uma única palavra, apenas a olhava com ar de raiva e julgamento.

Apesar de todo seu aprendizado religioso havia gostado de cara da moça de pele morena e vestimentas masculinas. Porém agora se arrependia de ter inclusive brigado com seu filho por causa daquela mulher grotesca e ingrata. Fora abraçada pela sua família e tivera a ousadia de encostar a mão em um membro da família. Seu filho.

Ficaram os dois ali em silêncio com Sam massageando a mão. Fazia tempo que não entrava em uma briga e sua mão estava desacostumada àquela dor.

Myrella passou para pegar gelo na cozinha para Jean e ao ver Sam segurando a mão trouxe na volta um pouco para Samanta colocar em sua mão.

– Este gelo é para meu filho, Senhorita! Faça o favor de levar a ele!

– Tem bastante aqui, Senhor. – disse Myrella cabisbaixa diante da voz alta do Senhor Juan.

– Gelo nunca é o bastante. Leve para ele. – disse enfaticamente, o que deixou clara sua intenção na ordem. Para ele, Sam não merecia nada mais que viesse da família Lafaiete naquele momento.

– Não é assim que somos meu irmão. – disse Adam se aproximando de Juan.

– Com pessoas bem vidas não somos assim. – disse ele ao irmão mais novo, o qual olhou para Sam como quem pede desculpas, pois assim como o pai não julgava precipitadamente, porém não disse mais nada, apenas ficou ao lado de Juan.

Assim que Susan saiu, buscou por Myrella. O Senhor Oliver queria também falar com ela.

A jovem ruiva seguiu para o sofá onde Sam estava, sentando ao lado da morena e pegando sua mão que começava a ganhar um tom arroxeado.

– Precisa de gelo.

– Assim que resolvermos cuidarei. – falou e deu um leve sorriso para Susan, enquanto aproveitava o toque de sua mão na dela.

Ficaram ali em silêncio.

Depois que a empregada saiu do escritório, o idoso veio logo atrás para chamar o filho mais velho para conversarem. Eles entraram e minutos depois Adam disse para as duas:

– Vou voltar para a festa. Pedirei para lhe trazerem um pouco de gelo, Senhorita King. – disse ele com cordialidade, mas sem a simpatia que lhe era característica.

– Obrigada, Senhor Lafaiete!

– Ainda sou Adam até segunda ordem. – disse ele com um sorriso triste e se retirou.

Assim que ele desapareceu no hall de entrada, Susan tocou a mão boa de Sam e falou:

– O que está acontecendo é culpa minha. Sinto muito por isso.

– Claro que não! Se tem um culpado aqui, esse alguém é Jean. Como ele teve coragem de tratar você da forma que tratou?

– Acho que a culpa é minha. Por mais que eu sempre deixasse claro que não queria nada a mais com ele, mantive nossa amizade e por tratá-lo bem acredito que acabei o confundindo…

– Susan – disse Samanta segurando as duas mãos da jovem ruiva – nunca esqueça o que irei lhe dizer agora: Se uma pessoa força situações com você ou faz especulações sobre seu caráter por algumas poucas coisas que viu ou ouviu de você ou de outros, essa pessoa é expressamente culpada por quaisquer atitudes que toma em cima das próprias conclusões e mais que isso, essa pessoa é injusta e imatura. Não se culpe pelas atitudes que Jean tomou. A única que foi lesada aqui foi você.

Nesse momento ouviram o ranger da porta do escritório do Senhor Oliver e de lá saiu o Senhor Juan cabisbaixo, o qual passou por elas em direção à cozinha sem falar nada, mais atrás veio o patriarca da família e indo até as duas moças falou:

– Gostaria de pedir minhas mais sinceras desculpas a vocês, Senhoritas. Tenho muitas palavras para dizer, porém vou atender o desejo de vocês para esta noite e disponibilizarei um carro para leva-las para casa. É o mínimo que posso fazer depois do que aconteceu.

– Não se preocupe, Senhor Oliver. Só de saber que o Senhor compreende minhas motivações fico mais tranquila. Apesar do que disse anteriormente, não quero incomodar. Já é tarde, seus motoristas já devem estar dormindo.

– Não se preocupe com isso, Senhorita King. – disse o Senhor Juan adentrando a sala – Eu mesmo irei leva-las. Faço questão. – e se aproximou da morena entregando um pano com gelo.